CAPÍTULO 5 – A PREDIÇÃO DE LUNA

Com um aceno da varinha fechou todas as malas jogadas na cama de uma só vez. Deu uma última olhada em todo o quarto apertado e suspirou.

Ele não conseguia entender a situação. Nem se quer lhe parecia menos perturbador ou tentador tentar entende-la. Aquilo era tão típico e vívido, tão assustadoramente familiar. Ele estava acostumado á pessoas que se prendiam a ele, jurando amor e o que mais fosse, estava acostumado a se desculpar e lamentar-se na maioria das vezes pela falta de carinho para com os mesmos. Era exatamente como se ninguém, nenhum perfil fosse bom o suficiente, e quando era, aquela típica e fria experiência o engolfava por completo. Quando se interessava em fim por alguém a reciprocidade era cruelmente inexistente.

A primeira pessoa que finalmente parecera ter conseguido despertar um pouco do sentimento adormecido em seu peito, desde o rompimento com Cho, o rejeitara da forma mais clara e absoluta possível. Talvez não tão absoluta como parecia.

O namoro com Cho fora tão conturbado. Ele a havia amado, com toda a certeza. Fora a primeira garota que o interessara verdadeiramente e o havia recebido de braços abertos, disposta a faze-lo feliz em épocas tão cruciais. Era apenas um garoto quando todo aquele sentimento havia aflorado e o mundo parecia estar aos seus pés. Tudo era tão fácil e engraçado, como se o fato de ser um dos garotos mais populares da escola fosse o bastante para considerar-se feliz.

Ela o abandonara assim como todos que um dia ele pudera dizer estar apaixonado o fizeram. Não eram muitos, mas todos certamente o fizeram. Abandonaram-no quando ele finalmente era capaz de dizer ou compreender que sentia-se bem não estando sozinho (mesmo que sempre estivera rodeado por dezenas de amigos e soubesse da existência de mais outras dezenas de admiradores).

Estando acostumado a aceitar tantos amores não correspondidos por sua parte, estar acostumado a não ser correspondido pelos poucos que pudera dizer-se apaixonado era um fato, e agora, com Harry, não parecia ser muito diferente.

A surpresa de Harry com o beijo era clara, mas não óbvia pelo fato de ser um beijo, óbvia pelo simples fato de sua audácia. Sabia que bem no fundo o rapaz ansiava por uma iniciativa como aquela. Não podia existir real repulsa ou qualquer sentimento negativo em relação ao comportamento do garoto com a aproximação do outro. Ele sabia disso, tinha total certeza. Via em seus olhos a mesma luz que vira em tantos olhos que o ofuscavam, que o desejavam. Então por que? Por que agir de forma tão estúpida quando a verdade é tão gritante que sufoca e entorpece?

Cedrico não sabia dizer se algum dia poderia estar tão próximo de Harry como esteve naquelas semanas, e cada centímetro do minúsculo quarto bagunçado valia agora como qualquer tipo de lembrança daquelas férias.

Mandou as malas para os aposentos de baixo com mais um aceno da varinha, fazendo-as levitar e passar por entre a porta entreaberta.

A Toca estava silenciosa e tinha um leve ar de abandono. Os enfeites natalinos, antes alegres em todos os cantos, agora jaziam largados por todos os lados, como se um recente pequeno furacão os tivesse desnorteado.

As malas aterrissaram no longo tapete esfiapado da sala de estar assim que Cedrico apareceu no alto das escadas. Os Diggory já estavam todos ali reunidos, próximos à lareira da sala, aos abraços e beijos com os Weasley.

- Não, Molly! De jeito nenhum! Eu insisto! Converse com Arthur e marque um final de semana em nossa casa de veraneio! – dizia Amos - Será maravilhoso! Passamos ótimos dias aqui e queremos retribuir o convite, não é mesmo Ced?

Cedrico chegara ao centro da sala, o rosto pálido e as olheiras visíveis sob a luz fraca de inverno que entrava pela janela.

- Claro, Senhora Weasley! Ficaríamos realmente lisonjeados! – disse.

O clima de risos, suspiros e abraços pareceu afetado. Olhares embaraçados fizeram-se notar quando Cedrico alcançou os pais próximos à porta e ao longo tapete esfiapado.

A Sra. Weasley sorriu seu sorriso mais maternal e desvencilhou-se do marido.

- Está tudo bem, querido? As malas estão todas prontas? – disse aproximando-se para abraça-lo e verificando as malas que jaziam no tapete.

Era claro para todos ali que algo delicado havia acontecido. As bruscas mudanças de comportamento de Harry e Cedrico no almoço de natal foram tomadas como alguma briga boba entre amigos e as desconcertantes perguntas, devido às caras emburradas de ambos os garotos quando interrogados, foram até o momento poupadas.

Harry, Rony, Gina e Hermione haviam regressado aquele mesmo dia mais cedo á Hogwarts, e a situação agora parecia bem menos embaraçosa. Cedrico não os vira, nem se quer os ouvira partindo, embora estivesse acordado em seu quarto desde muito cedo. Despedira-se apenas Fred e Jorge que também decidiram voltar aos negócios um dia depois do almoço, assim como Gui e Carlinhos. Apenas os anfitriões da casa faziam-se presentes.

- Não quero que nada que tenha acontecido aqui o empeça de voltar! – continuou Molly - estamos entendidos?

- Claro Sra. Weasley – ele respondeu com um sorriso fraco – pelo contrário, me faria bem mais uns dias aqui.

- Então fique! Fique mais um pouco, querido!

- Não posso Sra. Weasley. Tenho compromissos com o trabalho. O Sr. Lovegood foi bem claro quando disse que precisaria de mim na redação com o termino das férias e eu realmente...

- Xenophilius anda te dando muito trabalho, rapaz? – interveio o Sr. Weasley.

- Oh não, Arthur! – ele sorriu balançando a cabeça em forma de protesto - Trabalhar no Pasquim foi talvez a melhor coisa que me poderia ter acontecido! O senhor conhece as histórias peculiares dos Lovegood!

- Conheço, por assim dizer! Conheço bem as maluquices daquele velho besta! – disse rindo.

- Ele anda tão empolgado com aquela revistinha – bradou Amos – se ao menos o pagassem direito.

Após promessas de mais um reencontro em breve e mais abraços e sorrisos, os Diggory logo despediram-se do filho e juntamente com as malas rumaram para a lareira da sala, onde sem ruído algum e com um clarão esmeralda desapareceram um após o outro. Cedrico desaparatou logo em seguida, as malas magicamente enviadas ao seu destino.


Aparatou na estreita rua de chão batido coberto de neve escura e espessa. O sol já não era tão fraco embora ainda fossem as primeiras horas da manhã de um típico dia de inverno. A rua era cercada por lojas e casas, todas construídas a partir de um mesmo padrão, fazendo o local parecer uma grande vila de construções estreitas que ladeavam-se uma logo após a outra.

Cerrando os olhos de leve com a repentina claridade, viu a Zonko's de portas fechadas e o Três Vassouras com suas mesinhas postas na parte de fora, Madame Rosmerta já de pé trabalhando no interior do pub. Ele se perguntaria, se não trabalhasse no próprio local, se o prédio de dois andares, a redação do Pasquim , construído logo ao lado do minúsculo correio, estaria abandonado devido a sua aparência pitoresca.

Seguiu calado e devagar achando estranho estar ali novamente. A vida pós Hogwarts parecia agora finalmente encontrar um eixo. Trabalhava em algo de seu interesse e que apreciava, saíra da barra das vestes dos pais e não era mais o garoto paparicado, estrela da Lufa lufa que sempre fora. Vivia por si e para si. Agora tinha em fim as responsabilidades que tanto ansiara conseguir, e com elas a gloriosa independência que tanto almejava e precisava.

Passou pelo letreiro arcaico e empoeirado onde a cabeça de um javali decapitado fora pintada e cruzou a porta próxima. A claridade do aposento era quase nula, mas ele acostumara-se com o ambiente nos quase cinco meses que residia ali. Subiu as escadas no fundo do bar, logo atrás do balcão, onde um amontoado de copos empoeirados empilhava-se precariamente.

- Aberforth? - chamou

Seguiu o pequeno e estreito corredor escuro espantado com a ausência do homem atrás do balcão. Não havia som algum vindo de lugar algum, mas aquilo não era tão peculiar assim.

- Aberforth? - chamou novamente.

O homem veio da última porta, a pele quase tão clara quanto os cabelos, tão longos que atingiam a cintura, assim como a barba. Era alto e magro e seus olhos azuis claríssimos, tão azuis e tão claros que revoltavam-se violentamente com a expressão carrancuda rotineira em seu rosto.

- Não o esperava tão cedo de volta, rapaz.

Sua voz era calma e acolhedora, o que tornava difícil à primeira vista acreditar que pertencia à mesma pessoa cujas expressões faciais eram tão duras.

- Meu prazo com o Sr. Lovegood vai até hoje, estou de volta na data certa – comentou Cedrico.

- Não digo a data, digo o horário, rapaz! Carrapicho na Toca dos Weasley, foi?

- Quase isso – respondeu sorrindo.

Aberforth fechou a única porta do lado esquerdo do corredor e tirando um pequeno molho de chaves do bolso aproximou-se de Cedrico.

- A srta. Lovegood esteve aqui esses dias, deixou um embrulho em algum lugar aí dentro - disse. Separou uma grande chave de bronze e passou-a ao rapaz.

Cedrico voltou no corredor e abriu a segunda porta à direita. As malas, como intencionadas, já estavam sobre o carpete aos pés de uma pequena escrivaninha a um canto.

- Obrigado, Ab. Está tudo bem? Alguma novidade?

- Minerva e essas crianças infernais – ele disse devolvendo o molho ao bolso – imagine que agora os delinqüentes mais velhos têm permissão dos pais e da escola para visitarem o bar! Um completo absurdo!

Cedrico sorriu vendo o velho virar as costas e descer as escadas que davam para o fundo do balcão.

- Não estou reclamando de mais clientela, de jeito nenhum! Mas essas crianças me tiram do sério! Rosmerta sim é o lugar deles, não aqui! – ele resmungava para si mesmo apoiando-se no parapeito de madeira.

Os resmungos não cessaram quando Cedrico cruzou a porta e encostou-a. O pequeno quarto abafado pareceu traze-lo de volta a realidade, como se o fato de estar de volta em "casa" o fizesse reviver os dias não tão distantes que foram as férias com Harry e os demais.

Jogou-se na cama. O teto que o encarava parecia desapontado, como se a expectativa de vê-lo retornar fosse grande e fitá-lo agora, tão amargurado e preocupado, fosse desconcertante.

Say it's true
There's nothing like me and you
I'm not alone
Tell me you feel it too

O outro poderia dizer que não, mas ele sabia ser verdade. Ele não estava sozinho, não mesmo. Onde é que Harry estivesse, ele tinha certeza, estaria se martirizando por corresponde-lo. Estaria desejando a morte por estar pensando em um garoto. Tudo tão típico de alguém sensível e inocente. E talvez fosse, de certa forma, bem feito. Queria poder senti-lo enrolado em um cobertor soluçando, atraindo a atenção de todos jogado em uma cama no dormitório masculino em qualquer uma daquelas muitas torres onde se localizaria a sala comunal da grifinória.

Mas ele não pode negar. Daria qualquer coisa para estar próximo à ele.

And I would run away
I would run away, yeah yeah
I would run away
I would run away with you

As lágrimas insistiram em cair e ele não pode impedi-las de manchar todo o rosto. Não vieram ruídos, muito menos os soluços, era um choro calado. Às vezes pensava e se dava conta de que tudo acabaria bem, que Harry finalmente desligaria-se dos problemas que o atormentavam e o permitiria tentar acompanha-lo. Ele não sabia como ou o porque, sabia apenas que a vontade de cuidar do outro era tão grande e quente que o fazia martirizar-se por não cumpri-la prontamente.

Mas a culpa afinal não era dele. Ele tentara, se aproximara, o beijara. Deus! Como lutou para não se precipitar antes de ter certeza. Cada detalhe o enchera de esperança, de alegria, e quando finalmente percebeu e certificou-se dos desejos de Harry, ele agiu. Harry também.

Aquilo ele não poderia dizer que esperava. Mas era tão compreensível, tão adequado. A negligencia de Harry só o fazia quere-lo mais, fazia-o desmanchar em pedaços e desejar correr e ampara-lo, dizer-lhe que tudo ficaria bem, dizer-lhe que a solidão o abandonaria agora que ele chegara.

Because I, have fallen in love with you
No, never, I'm never gonna stop
Falling in love with you

O brilho do pequeno embrulho posto cuidadosamente entre uma pilha de livros e uma gasta maquina de escrever sobre a pequena cômoda logo a frente da cama captou sua atenção. Fechou os olhos com força como se para espantar as lágrimas e aquelas idéias que insistiam em surra-lo sem nenhuma piedade.

O azul bebê vivido do embrulho o fez lembrar-se das palavras de Abeforth, Luna o havia deixado algo enquanto estivera fora. De um salto levantou-se da cama, ainda secando as lágrimas que pendiam dos cílios e dispararam por todo o rosto.

Era um embrulho médio e decorado com fitas amarelas. Sem mesmo pensar no que estava fazendo, como se somente seu corpo estivesse presente ali, desatou as fitas que formavam um pomposo laço. O papel azul bebe logo foi encontrou o chão, revelando um pequeno livro muito grosso e de couro marrom.

Cedrico folheou-o e constatou estar em branco. Era um caderno, uma espécie de diário. As páginas eram amareladas e pareciam envelhecidas, mas Cedrico logo percebeu que não se tratava de um objeto antigo e sim objeto estilizado de modo a parecer um.

Uma nova chave para uma nova porta,

mas a antiga chave não há de ser deixada de lado,

muito menos a antiga porta.

Feliz natal, Digdig!

Luna.

Havia um cartão em meio ao papel azul bebê espalhado na cama. A caligrafia desleixada porém atraente de Luna o fez sorrir, mesmo não entendo uma única palavra da mensagem de natal.

A vida enfim desenrolava-se cheia de surpresas. Ele nunca se quer imaginara-se mantendo uma conversa cordial com Luna, viver uma experiência de verdadeira amizade seria algo completamente bizarro e inexplicável há uns meses, mas nesses quase cinco meses que estivera hospedado em Hogsmead trabalhando em um estágio na redação do Pasquim com o Sr. Lovegood, Luna costumava ser o motivo maior de seus momentos de descontração.

Jogou-se na cama novamente, desejando já ser segunda feira para sentir-se útil e ocupado com o trabalho. Folheou o diário passando os dedos pelas grossas páginas amareladas, prometendo a si mesmo que quando recebesse algum galeão de Xenophilius presentearia Luna com a enciclopédia dos Narguilés Mestiços que ela tanto desejava.

N.A.: Hey! Peço desculpas pela demora a todos que tentam acompanhar a fic, o tempo livre é curto... Os trechos são da música Runaway do The Corrs .