Capítulo 4: Sujeira com a Marinha! Uma maré de confusões!
Dois dias se passaram desde então. Os marujos estavam todos animadíssimos com o início da aventura, até mesmo Ressaca se divertia correndo para lá e para cá, e mais tarde Harry os chamara para distribuir as funções.
– Tá certo, galera. Vamos botar um pouco de ordem por aqui e vamos acertar quem vai fazer o quê – disse Harry aos companheiros em silêncio. – Como todos sabem, eu sou o capitão, claro. Hermione, como você diz ser especialista em mapas e livros, pode ser a navegadora. Rony, você será nosso atirador...
– Eu prefiro o termo "mestre de artilharia", se não se importar – disse Rony tomando um gole do seu cantil.
– Tá, que seja. Você fica encarregado dos canhões e das armas de fogo, junto com Dino, Terêncio, Justino e Ernesto para te ajudar. Cho, você fica no timão. Cedrico, você é o cozinheiro. Simas, você, Antônio, Ana e Angelina cuidarão de enfunar as velas e vigiar no cesto de gávea, e vão revezando de acordo com o horário, aí é com vocês. Cólin e Denis são os grumetes, marinheiros de primeira viagem que ajudam nos afazeres. Fred, Jorge e Lino ficam na função de marceneiros, caso o navio sofra algum dano. Neville, você é nosso médico de bordo. Lilá, Parvati e Padma podem ser as enfermeiras. Luna, Alícia, Cátia e Miguel integram a equipe de faxina. E... Dobby, o que você sabe fazer, mesmo?
– Ah, Dobby se orgulha de cozinhar muito bem, meu senhor! – disse Dobby alegremente fazendo uma reverência.
– Então está certo! Você ajuda o Cedrico a cuidar da bóia – disse Harry entregando a Dobby uma touca cor de ameixa, um pano laranja e duas meias díspares, uma vermelha com bolinhas amarelas e outra verde com listras azuis. O elfo guinchou de felicidade ao botar a touca na cabeça, calçar as meias e amarrar o pano à cintura, como uma faixa.
– E eu, vou fazer o quê? – perguntou o rapaz chamado Zacarias Smith. Ele era um rapaz magro de cabelos louros, com um nariz arrebitado e ar impertinente.
– Ah, é... – disse Harry reparando nele pela primeira vez. – Bom, não sei ao certo o que fazer com você... O que acha de fazer parte da equipe de faxina?
– Eu?! É ruim, hein! Recuso-me a pegar num esfregão! – exclamou Smith cruzando os braços.
– Aí, tu não acha que tá saindo muito exigente não? – indagou Rony olhando para Smith com ar irritado. – O Harry é o capitão por aqui, então eu acho é bom tu ficar pianinho e baixar a cabeça quando o meu amigo aqui falar contigo, certo?
– A conversa não chegou no chiqueiro, seu porco imundo e fedido! – disse Smith com descaso. Ressaca rosnou ameaçadoramente para Smith, mostrando os dentes.
– Muito obrigado pela parte que me toca – disse Rony levantando o braço cheirando a axila. – Mas ainda assim você vai fazer o que o capitão mandar, ouviu?!
– Cala a boca! Já disse que não vou limpar navio nenhum! – disse Smith alterando a voz.
– Quem deixou esse cara entrar aqui?! – disse Rony começando a se enfezar. Ressaca desatou a latir furiosamente para Smith.
– Baixa a tua bola quando falar com o capitão, seu cão sarnento! – disse Cedrico puxando a espada.
– Quer que a gente ensine ele a ser educado como se deve, Harry? – disse Dino estalando as juntas.
– Podem vir! Façam uma fila, em abro um buraco em cada um de vocês! E aí, quem é o primeiro?! – vociferou Smith puxando a pistola. Toda a tripulação preparou-se para voar em cima dele, mas Harry os deteve.
– Não será preciso, pessoal. Deixem que eu me acerto com ele – disse Harry.
– Já disse que não vou ser faxineiro! Só me contento com o posto de imediato, e tenho dito! – disse Smith virando as costas e empinando o nariz. Todos no convés dispararam exclamações indignadas.
– Ah, tá! Mas é ruim, hein?! – exclamou Rony com uma voz fina indignada, pondo as mãos nos quadris e encarando as costas de Smith. – Harry, se esse sujeito for feito imediato, eu vou organizar um suicídio coletivo nesse convés!
– Eu também! – disse Dino.
– Harry, se você se atrever, eu hoje mesmo já tô planejando o motim! – disse Cho. Todos os marujos berraram sua concordância.
– Tá, tá, já entendi! Deixem comigo! – disse Harry desesperado. Ele voltou-se para Smith – Smith, o que me diz de ser o carcereiro?
Smith parou um pouco e pensou. Por fim disse.
– Tá, que seja! Pelo menos não vou ter que limpar nada e vou ter autoridade de bater em quem eu quiser.
– Harry, tem certeza de que é uma boa idéia? – indagou Neville ao ouvido de Harry.
– Sem problemas, se ele abusar, eu vou saber – disse Harry.
– Tá certo, mas ainda nos falta um cargo a escolher... – disse o médico de bordo.
Era verdade. Todos estavam muito ansiosos. Imediato era um cargo muito importante em um navio, além de disputadíssimo. Ser imediato representava não somente poder absoluto sobre os tripulantes, mas também a estima e inquestionável confiança que o capitão depositava na pessoa escolhida para o cargo. Muitos estavam esperançosos, no entanto a escolha de Harry saiu no mínimo alarmante.
– O imediato será Draco Malfoy.
Todos se mostraram ainda mais indignados. Draco já era um nojo, e agora tinha autoridade para isso?! Há uns poucos dias atrás, o louro nada mais era do que um escravo em uma mina de prata, e agora fora transformado em imediato?! Aquele navio estava para conhecer um verdadeiro inferno. Enquanto todos estavam pasmos ou mesmo furiosos, Draco pulava de alegria aos eufóricos brados de "Tô feito!". Ignorando os protestos de Rony e do resto da tripulação, Harry foi para sua cabine e trancou-se lá.
Três dias depois, enquanto Draco punha em prática sua nova política de limpeza absoluta – não demorou nadinha para o poder subir-lhe á cabeça –, Harry, Rony e Neville escondiam-se na cozinha enquanto Dobby preparava a comida, pois não estavam nem um pouco dispostos a trabalhar.
– Uma vez me disseram que é impossível comer dez biscoitos de uma só vez sem beber nada – disse Harry pondo sobre a mesa uma caixa cheia de biscoitos salgados de marinheiro. – Querem por essa teoria a prova? Aposto cinco peças de oito! O Dobby pode ser o juiz.
– Tô nessa! – disse Rony. Neville também concordou.
Alguns minutos depois, a competição estava acirrada. Hermione chegava.
– Harry, o porto mais próximo é Orange. O que acha de... – A garota vinha adentrando a cozinha, mas parou de chofre ao ver os rapazes com as bocas a ponto de explodirem, tão cheias estavam, e Dobby assistindo a disputa atentamente. – MAS O QUE ESTÃO FAZENDO?!
– Hurm... Unxendu a boca – disse Harry com muita dificuldade.
– Ér, é uma apoxta – disse Neville lutando para enfiar mais um biscoito na boca estufada. – Qué si runtar a nóiche?
– Éa, aiuda a textchar a mia theoria! – disse Harry com os olhos revirando nas órbitas com o esforço para engolir tudo de uma vez. Naquele mesmo instante, Rony engasgou, começou a tossir e cuspiu uma massa amarela e pegajosa. Dobby fez um gesto que determinava o fim da disputa. – Num faiei, cara? É impuxível! Cada um mi devi xincu pexas di oitcho, aê!
– Eca! Isso é errado em vários sentidos...! – exclamou Hermione cobrindo os olhos com nojo.
– Tá, e aí? O que você dizia? – indagou Harry normalmente quando finalmente cuspiu toda a massa de biscoito que tinha acumulada na boca e passando o dedo pelos cantos das gengivas para retirar onde ficara acumulado.
– Eu dizia que o porto mais próximo é Orange, e fica a sete dias de onde estamos. O que acha de pararmos por lá um pouco? Acho que é um bom lugar para começarmos a espalhar nossa fama... – disse Hermione.
– Excelente idéia, Hermione – disse Harry juntando-se a Rony e Neville, pegando uma garrafa de hidromel envelhecido em carvalho que Dobby lhe oferecia e virando-a na boca para tirar o seco da garganta. – Vamos para minha cabine, lá podemos discutir isso melhor...
– Vocês vêm? – indagou a garota aos outros dois.
– Eu é que não apareço lá em cima agora, com aquele diabo louro a solta! – disse Rony. – Harry, como pôde! Aquele cara tá louco com a autoridade que tem!
– Ah, sei lá! Todos já tinham função menos o Draco, e a única disponível era a de imediato, então... – justificou Harry, e subiu junto com Hermione.
Uns minutinhos depois, enquanto Rony e Neville jogavam uma partida de pôquer, a porta da cozinha escancarou-se e apareceram Dino, Simas, Cedrico, Ernesto, Justino e Draco.
– Lá está ele! – Draco apontou Rony. – Peguem-no!
Os outros cinco pularam em cima de Rony, que começou a berrar e a se contorcer.
– OI! ME LARGA! SAI PRA LÁ COM ESSA MÃO BOBA! QUE É ISSO? O QUE VÃO FAZER COMIGO?! – ele berrava furioso.
– Vamos te dar um belíssimo banho anti-sarna, só isso! – disse Draco pegando uma espécie de lista em seu bolso. – HOMENS, PARA O CONVÉS!
– NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOO! BANHO NÃO! ME SOLTEM, SEUS DESGRAÇADOS! EU LIMPO O CONVÉS COM A LÍNGUA, MAS BANHO NÃÃÃÃÃOOOO! – Rony berrava e se debatia desesperado enquanto era carregado para o convés por Cedrico, Justino Simas, Dino e Ernesto.
– Por mais tentador que seja, Ronald – disse Draco que vinha caminhando atrás deles. – E acredite, é muito tentador, você precisa tomar um banho, já deve tá juntando fungo e cogumelo nesse teu sovaco. E PÁRA DE BERRAR, SEU IMUNDO!
– NUM SOU IMUNDO, PORRA! TOMEI BANHO NUM FAZ NEM SETE MESES! – berrou Rony em resposta.
Toda a tripulação tirava os chapéus em respeito ao pobre Rony, que era carregado a muito custo até um barril de água, onde o aguardavam Smith, Cho e Lilá com escova, esponja, sabão e perfume. Apenas os cinco rapazes não eram o bastante para conter Rony, que berrava e esperneava a plenos pulmões. Logo apareceu Ressaca no meio da confusão para defender o dono. Imediatamente Draco e Smith agarraram o cachorro e o colocaram sobre o barril.
– Decida-se, Rony! Ou você toma seu banho, ou esse sarnento toma no seu lugar! – disse Draco.
– NÃO FAÇA ISSO, SEU FACÍNORA! DEIXA O RESSACA FORA DISSO, ELE É SÓ UM POBRE CÃO DE RUA! CÃES DE RUA NÃO TOMAM BANHO, E EU TAMBÉM NÃO! – esperneava Rony chorando desesperado.
– Não adianta argumentar, Weasley! Ou vai você, ou vai o cachorro! – disse Smith.
– BUÁÁÁÁÁ... É CHANTAGEM! ISSO NÃO SE FAAAAAAZ! – chorava Rony sendo carregado até o barril.
Na cabine do capitão, Harry e Hermione calculavam a longitude e a latitude da ilha de Orange, medindo a distância com compasso e discutindo o plano para a primeira pilhagem que o Gryffindor viria a fazer, quando de repente, Neville adentrou a sala amparando um Rony com cara de choro e fungando muito, trajando roupas novas, com os cabelos amarrados em um rabo-de-cavalo e atado com um laçinho amarelo, rosto barbeado, com um perfume de sândalo extremamente enjoativo emanando de si e impregnando toda a sala.
– BUÁÁÁÁÁ! Olha só o que fizeram comigo! – chorava Rony.
– Caralho, é você Rony?! – indagou Harry pasmo, abrindo a janela para arejar a cabine e puxou uma cadeira para o amigo sentar-se.
– Olha só pra mim! Olha isso! Eu tô parecendo mais fresco que aqueles janotas franceses! Á força me puseram esses lacinhos e esses sapatinhos! Jogaram até meu maior orgulho, minhas belíssimas roupas no mar! E o pior, amigos, eu estou cheirando a almofadinha! Lá se foi o meu cheiro marcante de homem! Como vou atrair mulheres assim?! – dizia o ruivo enquanto Neville dava-lhe tapinhas no ombro.
– Rony, com aquele cheiro você só atraía urubus, e olhe lá! – disse Draco adentrando a cabine e fechando a porta.
– Você tem inveja, Malfoy! Você é um corno! E EU VOU É TE CATAR, FIO DUMA ÉGUA! – disse Rony levantando-se da cadeira com violência, mas foi detido e obrigado a sentar-se de novo por Harry, Neville e Hermione. – E é tudo culpa sua, Harry! Culpa sua por ter dado autoridade pra esse filho duma má mãe!
– Draco, deixa o Rony ser feliz, vai... Se ele gosta de ser sujo, quem somos nós para alterar isso – disse Harry voltando sua atenção para os mapas. Rony berrou feliz, tirando o casaco, soltando os cabelos, tirando os sapatos com salto, desabotoando a camisa, pegando seu cantil, bebendo-o com violência e deixando cair algumas gotas na camisa. Draco apenas suspirou, conformado.
– E lá se foi minha vendetta... – disse o louro decepcionado.
– Que é isso? Que história de vendetta é essa? – indagou Harry sem entender.
– Ah, a que eu jurei contra esse maldito por todas as vezes que ele me chamou de corno – explicou Draco apontando Rony.
– Mas é o que você é! Vai querer me castigar por dizer a verdade agora?! – lascou Rony sem piedade.
– VAI QUERER OUTRO BANHO, INFELIZ?! – berrou Draco.
– Só tenta! – rebateu Rony em tom de desafio, com suas orelhas já se avermelhando. Draco voltou-se para Harry.
– Capitão, pedindo permissão para afogar esse excomungado!
– Permissão negada – disse Harry. Rony estirou a língua para o imediato. – Até segunda ordem. E você Rony, vê se pára de provocar o Draco e vá caçar o que fazer. A última coisa que quero ver nesse navio agora é uma briga, senão eu vou assinar uma petição pro Draco poder te dar banho.
– Tá, tá bom! Eu vou é pegar mais cerveja amanteigada, se me dão licença... – disse Rony encaminhando-se até a porta.
– Não vai querer fazer isso, Weasley – disse Draco sem olhar para Rony, pois brincava com uma pena de escrever entre os dedos.
– Ah, eu acho que vou sim – disse Rony virando a cabeça e encarando o imediato.
– Você é quem sabe... – disse Draco ainda concentrado na pena.
– Por que eu não iria querer? – perguntou o mestre da artilharia, curioso.
– Porque mandei trancarem todos os barris de bebida, e daqui pra frente você só bebe com o meu OK, OK? – disse Draco mostrando uma chave pendurada ao pescoço por um cordão e rindo alegremente.
– Agora sim, vocês vão poder me afogar! – rosnou o ruivo puxando seu lenço verde do bolso e o prendendo em forma de bandana novamente, e em seguida pulando em cima de Draco. Ambos começaram a se estapear, derrubando a mesa de Harry, causando uma baderna enorme na cabine e levando o jovem capitão á loucura. Hermione e Neville tentavam detê-los, mas os dois se envolveram em um redemoinho de chutes e socos que nada poderia deter naquele instante.
Quando cansaram do corpo-a-corpo, ambos se afastaram para puxar as espadas. Rony e Draco roçaram as espadas e começaram a girar no mesmo lugar, a fúria estampada em seus rostos. De repente começaram a se golpear furiosamente com as espadas. Harry, Neville e Hermione tentavam detê-los, mas eles saíram para o convés e começaram a lutar ferozmente, observados pela pasma tripulação. Hermione tentava chamá-los de volta á razão, pois Harry e Neville haviam desistido, mas o ruivo e o louro estavam demasiado entretidos em seu duelo. E foram tentando acertar-se um ao outro até chegarem ao centro do convés, onde a tripulação formara um círculo para assistir a briga. Ressaca corria ao redor dos dois duelistas, latindo enraivecido para o agressor de seu dono.
– Meu Deus, as apostas! Façam as apostas! Dou três peças de oito no Draco! – berrou a voz de Smith no meio da multidão.
– Eu dou seis no Rony! – gritou a voz de Lilá em algum lugar.
– Eu também aposto tudo que eu tenho no meu irmãozinho! – berrou Fred, que resolveu aderir ao grupo de apostas.
– A banca não tá aceitando vale-sopa não, viu? – berrou Smith em resposta.
Draco e Rony pareciam obstinados a se esburacarem. As espadas de ambos cortavam o ar, e os sons dos encontros violentos dos metais só eram abafados pela gritaria no convés. Rony não perdoava, continuava a brandir sua espada, e Draco se esquivava e também retribuía com hostilidade, chocando sua espada contra a de Rony. Hermione estava desesperada. Harry, se cansando daquilo, sacou a pistola e deu vários tiros para cima, para chamar a atenção para si.
– JÁ CHEGA! – ele bradou, furioso. – EU NÃO VOU MAIS ATURAR ISSO! RONY E DRACO, GUARDEM AS ESPADAS! O RESTO DA TRIPULAÇÃO, PAREM DE FICAR APOSTANDO E TRATEM DE VOLTAR AOS SEUS AFAZERES, JÁÁÁÁÁÁ!
E dizendo essas palavras, Harry voltou para sua cabine pisando forte e batendo a porta com violência. Todos no convés assustaram-se com a fúria do capitão e voltaram para suas ocupações. Draco e Rony guardaram as espadas e seguiram em direções opostas.
Enquanto isso, no Basilisk...
A embarcação encontrava-se em meio a uma tempestade infindável. Os marujos corriam carregando coisas por toda parte no convés encharcado. As ondas eram fortíssimas, e balançavam o navio para todos os lados, derrubando alguns tripulantes. E fazendo coro aos trovões ensurdecedores, uma música alta e melancólica vinha da cabine do capitão, onde este dedilhava as teclas de seu órgão. As notas agudas ecoavam dentro dos grossos e compridos canos de prata, estremecendo as estruturas do navio. Era uma melodia triste, e ao mesmo tempo friamente animada, que chegava a ressoar nas profundezas da alma. De sua cabine, um pouco mais acima, Gina ouvia a melodia deitada sobre sua cama, com o corpo muito dolorido. Já não agüentava os abusos do capitão. Porém não era isso que a perturbava. Ela não conseguia parar de pensar no que Voldemort dissera. Que retiraria um pedaço de sua alma perturbada e a implantaria nela. Esse pensamento a apavorava. Antes que percebesse, uma lágrima triste escorria por entre seu rosto. Ela sonhara tanto em entregar seu corpo e alma única e somente a Harry, por quem ela teria feito qualquer coisa... e agora não tinha nem certeza se ele continuava vivo. Gina agarrou o travesseiro e começou a soluçar com o rosto escondido nele. Quanto mais poderia agüentar?
Voltando a Voldemort, ele continuava a tocar seu órgão alegremente, quando ouviu um canto baixo vindo de sua janela aberta. Ele parou de tocar e virou-se para ver de onde veio o barulho, e deparou-se com um magnífico pássaro cor de fogo com as penas encharcadas de chuva que o encarava empoleirado no peitoril da janela.
– Epa! Acho que já vi esse bicho em algum lugar... – disse o capitão ainda encarando a ave, que se sacudia toda espalhando pingos de água por toda parte. – Ah, é você! O pássaro daquele velho maldito!
– Ráááááááh! Viado! Você é um viado! Rááááác! – berrou a ave, como um papagaio.
– Cabra, tu me respeite! – exclamou Voldemort irritando-se. – Onde esteve esse tempo todo?!
– Pergunta pra tua mãe que ela sabe! – retrucou a ave.
– LIMPE ESSE BICO ANTES DE FALAR DA MINHA SANTA MÃEZINHA, AVE DOS QUINTOS! – berrou Voldemort.
– Bah, pra mim santa ela não era, não! – rebateu o pássaro. – Avisa que ela esqueceu a calcinha lá no meu poleiro, viu?
– RABICHO! – trovejou o capitão, e o cozinheiro apareceu á porta. – VÁ ESQUENTANDO O FORNO E ME TRAGA GUARDANAPOS! QUERO BANDEJA DE PRATA PARA SERVIR ESSE PÁSSARO, E AO MOLHO MADEIRA!
Quando a fênix meramente voou até a escrivaninha, empinou a cauda e pôs-se a soltar uma espécie de pasta branca muito malcheirosa sobre sua coleção de mapas, Voldemort perdeu as estribeiras e começou a correr atrás da ave.
– AGORA EU TE MATO! – berrou ele carregando a pistola e correndo atrás da ave, que levantou vôo e começou a correr pelo quarto. Rabicho tentava acalmar o mestre, correndo atrás.
Enquanto isso, Snape, Greyback, Macnair e Lúcio conversavam alegremente bebendo e sentados próximos ao timão, onde a cobertura não permitia que a chuva os banhasse, quando ouviram um estardalhaço acompanhado de tiros vindo do convés.
– Eu sabia... Quieto do jeito que ele estava, só podia ser confusão! – suspirou Lúcio tristemente.
Do piso superior, Snape deu ordens para que os marujos já ficassem de prontidão, pois já tinha visto a ave se aproximando, mas era tarde demais, Voldemort já perseguia a ave acima dos mastros de pistola e faca nas mãos, berrando enlouquecido e correndo sobre as vergas de madeira que seguravam as velas. A fênix não se intimidava, continuava a voar e disparar insultos e ofensas a uma velocidade incrível. A tripulação já se desesperava, correndo abaixo do capitão e berrando para que ele parasse ou poderia cair, pois os cabos estavam lisos com a água da chuva, mas ele não ouvia.
– Senhorita! – chamava uma das amas de Gina, abrindo a porta e adentrando a cabine.
– O que é? Não vê que não quero visitas?! – disse a garota atropelando um soluço.
– Mas isso vai alegrá-la, senhorita! Venha ver o senhor capitão correr atrás da ave, é muito engraçado, senhorita! – dizia a elfa doméstica, rindo.
Gina ficou curiosa, e levantando-se, foi até a porta da cabine e deparou-se com a tripulação apontando para cima e chamando o enfurecido capitão, que continuava sua perseguição acima do convés em meio ao temporal.
– Sr. Snape, o que sucede? – indagou ela a Snape, que estava mais próximo.
– Sei lá! O capitão começou a perseguir aquela ave de novo, é sempre assim quando ela aparece! – respondeu Snape desesperado. – SENHOR, DESÇA DAÍ!
Voldemort tentou pular para uma das vergas de suporte, mas como a água deixara a superfície do cabo extremamente lisa, se atrapalhou e acabou aterrissando sobre a superfície dura da madeira de pernas abertas e soltou um grito agudo e fino, provocando exclamações e alguns risos da tripulação que observava a cena do convés. Gina imediatamente começou a gargalhar.
– Ha-ha! O viado se fodeu! Rááááác! – ria a Fênix.
– CALA A BOCA, EXCOMUNGADO! – berrava Voldemort com a voz tremida, escorregando pela lateral do cabo, pendurado de cabeça para baixo pelas pernas enlaçadas sobre a madeira ao mesmo tempo que apertava os genitais com força. – AH, SE EU TE PEGO!
Voldemort tremia muito, tentou se levantar e escorregou de novo, agarrando-se ao cabo de barriga para cima.
– EU VOU TE MATAR! EU VOU TE MATAR, VISSE, FÉLA DA P... – Voldemort não chegou a terminar a frase, pois a ave pousou sobre sua cabeça, empinou a cauda e tornou a jorrar um jato de excremento branco direto em sua boca aberta. Agora toda a tripulação não conseguia deixar de se rachar de rir com a cena. Gina se dobrava para frente abraçando as costelas, apoiada aos umbrais da porta. Recomeçara a chorar, mas desta vez de tanto rir do desventurado capitão.
– Sabia que isso a alegraria, senhorita! – disse a ama satisfeita ao ver Gina se divertindo a valer pela primeira vez desde que pisara naquele navio.
– Isso á muito hilário! – dizia a moça com dificuldade de se manter em pé, tamanho era o acesso de riso.
Voldemort cuspiu tudo e se levantou de um salto, voltando à sua perseguição.
– Vamos acabar logo com isso antes que ele se machuque de verdade! – dizia Macnair observando o capitão.
– Deixa comigo! – disse Lúcio puxando a pistola e atirando em cheio a ave, que consumiu-se em chamas e caiu no convés, reduzido a um filhote pelado e feio. Era um péssimo momento, pois o capitão havia se lançado em direção da ave, mas quando ela se queimou e caiu no convés, o capitão começou a cair em direção á água. Juntos, todos comemoravam a fascinante vitória de Lúcio sobre o bicho. Haviam esquecido completamente do capitão, que não sabia nadar e debatia-se desesperado. Apenas Greyback lembrou-se do chefe e correu para estibordo.
– O QUE ESTÁ ESPERANDO, SEU LOBO SARNETO IDIOTA?! JOGA UMA CORDA QUE EU TÔ ME AFOGANDO!
– Ô capitão... Se o senhor morrer abandonado aí, posso ficar com seu cargo e ser o novo capitão? – perguntou Greyback imerso em seus pensamentos.
– LÓGICO (GLUB!) QUE NÃO! ME TIRA DAQUIIIII! RÁPIDO (GLUB! GLUB!)!
Alguns minutos depois, Snape lembra do pobre capitão e se desespera.
– SANTO DEUS! O CAPITÃO! – E corre para estibordo seguido pelo resto da tripulação desesperada. – LÚCIO! FENRIR! AJUDEM-NO!
– Eu não! – disse Greyback.
– Nem eu! Esse casaco é novo, se eu me jogar no mar, ele vai encolher! – disse Lúcio.
Como ninguém se candidatou, Snape resolveu fazer o de sempre, chutar alguém. O felizardo da vez foi Greyback, e até que foi bondade para ele, já que não via água havia semanas. Mesmo sabendo que ali não era seu habitat, Greyback nadou até Voldemort e começou a tentar afogá-lo, ao som dos gritos desesperados dos piratas. Gina continuava a rir histericamente de tamanha palhaçada.
De volta ao Gryffindor, já haviam se passado quatro dias desde a briga de Draco e Rony. A tripulação começava a se preocupar com Harry, que não saíra de sua cabine nenhuma vez nesses quatro dias. Como conseqüência, Draco ficara ainda mais mandão. De fato, lembravam de ter visto Harry sair só uma vez, quando passou o dia sentado na proa do navio, encarando o mar de cara feia. Neville e Hermione pretendiam conversar com Harry, mas assim que se aproximaram de suas costas uns cinco centímetros, uma gaivota sobrevoou a cabeça de Harry e... bom, fez o que toda ave faz quando sobrevoa uma cabeça. Harry, ao sentir o míssil o atingir em cheio no alvo, deu um rugido de fúria, sacou a pistola e descarregou sua raiva na forma de incontáveis balas na pobre ave, que caiu morta no convés que Luna limpava. O médico e a navegadora recuaram na hora, assustados. Por fim, decidiram deixar o capitão quieto. Depois desse incidente, nunca mais viram Harry sair da cabine. Logo começaram a se questionar se Draco não tinha nada a ver com isso, pois se havia alguém que parecia não lamentar nadinha a ausência do capitão (afora Smith) era ele, que não parava de dar ordens aos marujos. Na cozinha, se reuniam Rony, Hermione, Neville, Cedrico, Cho, Simas, Dobby e Ernesto para discutir a questão, com Ressaca como espectador.
– Eu não agüento mais! – dizia Cedrico. – Francamente, o Draco tá impossível!
– É! – concordou Ernesto. – Enquanto o Harry permanece enclausurado naquela cabine, esse imediato enviado do capeta fica fazendo-nos de palhaços!
– Ainda não acredito que o Harry deu carta-branca pra aquele maldito me dar banho se eu não me comportar... MAS O PIOR É PRECISAR DO CONSENTIMENTO DELE PRA BEBER MINHA CERVEJA AMANTEIGADA! EU NÃO VOU MAIS ATURAR ISSO! ESSA HISTÓRIA JÁ TÁ VIRANDO CRUELDADE COM O COITADO DO RONY, QUE É POBRE, MAS É LIMPINHO! – vociferou Rony furioso.
– Bom... "limpinho" não é bem o termo... – disse Cedrico, recebendo um olhar chamejante do ruivo.
– Temos que dar um jeito nessa situação! – disse Cho. – Vamos para a cabine dele, ver o que ele tanto faz!
– Boa idéia, Cho! – disse Neville. – Então vamos, mas sem chamar a atenção do Draco.
O grupo de intrépidos piratas seguiu rumo até a cabine de Harry, tomando cuidado para evitar o imediato. Rony escancara a porta com um chute, e o que os oito vêem? Harry, sentado em sua escrivaninha, brincando com dois barquinhos de papel.
– Atirar canhões, homens! CABUM! CABUM! – o capitão imitava os tiros dos canhões alegremente. O grupo observava a cena com inúmeras gotas nas cabeças.
– Eu... eu vou sair desse navio (ù.u')...
– Me espera, que eu vou contigo, Cedrico (O.O')!
Enquanto isso, sem que percebessem, um navio aproximava-se do Gryffindor.
– NÃÃÃÃÃÃÃOOOOO! PAREM COM ISSO, SEUS MALVADOS! INESCRUPULOSOS! SÓRDIDOS! DEMÔNIOS BAIXOS! – berrava Harry desesperado, tentando impedir Rony e Hermione de pisotearem seus barquinhos.
– Grr... VOCÊ É UM IDIOTA! – berrava Hermione enfurecida, pulando sobre o barquinho de papel e o amassando todo.
– POTTER, SEU MALDITO! O QUE ACHA DE PARAR DE BRINCAR E IR VER O QUE SEU ESCRAVO FORRADO ESTÁ FAZENDO NO SEU NAVIO?! – berrava Cho com a boca cheia de cuspe.
– ME DÁ ESSA PORRA AQUI! – berrava Rony tentando arrancar das mãos de Harry um barquinho de papel, que de tanto puxarem acabou rasgando ao meio.
– BUUÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁHHHHHHHHH!!! – chorava Harry.
Sério e valente capitão... No convés, Draco mandava os marujos continuarem com sua faxina exagerada. A única alma viva que se divertia durante essa limpeza compulsiva era Luna, mas ela nunca foi exatamente o que poderíamos chamar de a pessoa mais normal do mundo...
– SENHOR, DOIS NAVIOS APROXIMAM-SE A NOROESTE! – berrou Angelina do alto da gávea. Draco correu até a proa e observou o navio com a luneta, tomando um belo cagaço. Quando recuperou a voz, berrou para que todos ouvissem:
– É A MARINHAAAAAAAA!!!
O caos foi geral. Todos ficaram assustados e desnorteados ao ouvirem essa declaração. Até mesmo Rony e Hermione pararam de pisotear os barquinhos de Harry para correr até a proa, seguidos pelo capitão e todo o resto.
– Sujou... – disse Harry arregalando os olhos para a bandeira britânica que vinha aproximando-se cada vez mais. Um dos navios, de cor verde e prata, com inúmeras cobras estampadas nas velas, ele reconheceu como sendo o Slytherin. Ao perceber que toda a tripulação estava em choque esperando seus comandos, ordenou: – Firmes, homens! Vamos esperar e ver no que vai dar...
– Harry, você enlouqueceu?! – indagou Cedrico. – Eles são da Marinha, estamos com o Jolly Roger hasteado, eles vão é nos prender, caso você não saiba!
– Calado, cozinheiro! Apenas faça! – disse Harry alteando a voz e descendo para o convés.
Os marujos, ainda perplexos, abaixaram as âncoras e recolheram as velas, conforme o capitão mandara. Muitos dos piratas, já temendo o pior, não concordaram com o capitão e esconderam punhais e pistolas dentro das roupas para receber os soldados no convés. Os navios da Marinha ancoraram um de cada lado do Gryffindor, e em seguida uma ponte foi estabelecida para que os oficiais passassem para o convés do Gryffindor. Assim que um dos homens abordou o convés, Hermione o reconheceu imediatamente.
– Ai, caralho...! – disse ela aterrorizada, correndo a se esconder atrás de Rony e Draco. O oficial, um rapaz não muito mais velho que Harry, corpulento, trajando uma bela farda da Marinha com rendas, um elegante chapéu sobre uma peruca de cachos brancos e sapatos com salto. Ele, acompanhado de meia dúzia de soldados, olhou o convés do Gryffindor de cima a baixo, depois foi se dirigir a Harry.
– Capitão Harry Potter, eu presumo? – indagou ele.
– Eu mesmo – confirmou Harry impassível.
– Sou o Comodoro McLaggen – apresentou-se o oficial. – Tenho aqui um mandado de prisão para você, que o acusa de roubo de um navio da Marinha, libertação não-autorizada de escravos...
– Ah, mas tu é muito chato mesmo, né não?! – exclama Rony adiantando-se. – Pensei ter me livrado de você vindo pro mar, mas nem aqui você pára de me torrar o saco, mas que merda...
– Você de novo?! – exclama McLaggen lançando a mão ao cinto, onde repousava sua espada, ao avistar o ruivo. – Mas que oportunidade fortuita, essa! Eu andava mesmo procurando você, Weasley... Srta. Granger?!
Quando Rony se moveu, Hermione ficara á mostra. McLaggen a vira imediatamente.
– Hehe... Olá, Comodoro – disse Hermione.
– O que a senhorita faz em companhia de tal gente... E que roupas são essas?! – indaga o oficial.
– Não creio que seja de sua conta o que eu visto e com quem eu viajo, Comodoro – disse Hermione começando a adquirir maus modos.
– Bom, creio que seja de minha conta, sim – disse McLaggen –, uma vez que a senhorita seja minha noiva...
– Não me lembro de ter concordado com esse noivado! – exasperou-se Hermione. – Eu o avisei que não queria me casar com você!
– E com razão! – disse Rony. – Olha só pra esse cara!
– Ah, por acaso deseja roubar minha noiva de mim, é seu imundo? – indagou o Comodoro com desdém.
– É o quê?! – indagou Hermione começando a corar.
– Nem que a vaca louca tossisse – disse Rony –, mas se fosse este o caso, antes ficar com um imundo como eu que com um viado como você!
– Como disse?! Além de sujo é rude?! – disse McLaggen.
– Eu disse que você é um viado! Viado não, viadinho! – retrucou Rony, e a tripulação começou a incentivar, tanto pirata quanto Marinha.
– É isso aí, Rony! Ensina pra ele! – disseram Fred e Jorge em coro.
– Defenda-se, senhor Comodoro! Vamos! – berrou um dos marinheiros.
– Confesso que nunca, nem nos lixos da rua, encontrei alguém tão mal-educado como você, Weasley! Por que acha que sou viado, afinal? – perguntou o Comodoro.
– Deixa eu ver... Você usa essa peruquinha cacheada e essas roupinhas de mulher, isso já dá um ótimo motivo pra eu te chamar de viado! – disse Rony.
– HAHA! Minhas roupas são símbolo de autoridade e poder inquestionáveis, Weasley, coisa que você jamais virá a ter! – disse McLaggen. – Bem melhores que esses seus trapos, acho que pano de chão é um elogio para isso.
– Acho melhor apartar a briga, Harry – disse Hermione. – Você não vai querer ver o McLaggen irritado.
– Ouvi dizer que o Comodoro Córmaco McLaggen é o soldado mais frio e cruel da Marinha inteira – disse Cedrico. – Eu tinha razão, não devíamos ter ancorado!
– E esses sapatinhos com salto?! Tem inveja das mulheres, é seu viado? – continuava Rony incentivado pelos companheiros.
– Agora você já está me ofendendo, e a bela criação de sua Majestade, o Rei da França! – vociferou McLaggen começando a se irritar.
– Oh! A bichona ficou ofendida, o que farei?! – indagou Rony com voz de falsete, pondo as mãos nos quadris e rebolando um pouco. Quando McLaggen se preparava para puxar a espada, uma voz áspera chamou toda a atenção.
Adentrou o navio um alto-oficial que inspirava respeito e imponência. Assim como McLaggen, estava fardado e com muitos distintivos e insígnias ao peito, e sua aparência era a de um leão velho. Havia fios grisalhos em sua juba alourada e nas sobrancelhas espessas; tinha olhos amarelados e argutos por trás de óculos de arame e uma certa graça em sua magreza, embora mancasse um pouco ao andar, apoiado sobre uma bengala. Ele vinha acompanhado de mais três pessoas; uma mulher baixa e gorda que se assemelhava a um sapo, com um feio laço sobre os cabelos curtos; um homem corpulento que vinha girando seu chapéu nas mãos, parecendo um tanto apreensivo; e um jovem que parecia ser o escriba. Este era alto, magro, tinha cabelos ruivos e usava óculos com aros de tartaruga, carregando consigo um rolo de pergaminho e uma pena de escrever. Harry o reconheceu como sendo Percy Weasley, o irmão mais velho de Rony, Fred, Jorge e Gina. Pelo que o jovem capitão sabia, Percy era um desgarrado da família, que decidiu afastar-se dos pais e dos irmãos para seguir uma promissora carreira como assistente do Almirante da Marinha. Rony, Fred e Jorge, é claro, também o viram, mas não deram sinal de reconhecimento, apenas retribuíram o olhar ressentido de Percy com severidade. O alto-oficial veio em direção ao grupo.
– Que bagunça é esta? – indagou ele com uma voz áspera e severa.
– N-não é nada, Almirante Scrimgeour... – disse McLaggen parecendo envergonhado.
– Scrimgeour?! Rufo Scrimgeour?! – sussurrou Draco, pasmo. – O Almirante da Marinha, em pessoa?!
– Esse cara é uma lenda! – sussurrou Neville em resposta. – Mas o que ele faz aqui?!
– Onde eu encontro Harry Potter? – perguntou Scrimgeour em voz alta. Harry adiantou-se.
– Sou eu, senhor – disse Harry.
– Ah, é claro que é você – disse Scrimgeour adquirindo um tom amigável na voz. – Muito prazer, sou o Almirante Rufo Scrimgeour.
Ele estendeu a mão para cumprimentar Harry. Este, por educação, retribuiu o cumprimento e apertou a mão do Almirante.
– Estes são meus assistentes: Dolores Umbridge, minha subsecretária sênior – ele apresentou a mulher semelhante a um sapo. Ela deu um sorrisinho medonho á guisa de cumprimento. – Meu assessor Cornélio Fudge – agora ele apontou o homem gorducho, que acenou timidamente. – E meu escriba, Percy Weasley.
Harry olhou para todos os três, e de volta a Scrimgeour.
– Bem, sr. Potter – continuou o Almirante. – Eu vim para lhe oferecer um cargo na Marinha... Sim, é verdade que você fez parte da tripulação de Você-Sabe-Quem, mas eu estou disposto a dar-lhe uma chance, o que acha?
– Eu... Na Marinha? – indagou Harry baixinho.
– Naturalmente, meu jovem, naturalmente – disse Scrimgeour sorrindo. – Eu terei prazer em empregar seus amigos também, se eles quiserem. O fato é que eu sei que você quer ir atrás dele e...
– O senhor sabe? – indagou Harry, surpreso.
– Claro que sei, eu tenho minhas fontes – disse Scrimgeour. – Então, pensei em oferecer uma parceria... Junte-se a nós, podemos nos ajudar, compartilhar nossos conhecimentos e...
– Compartilhar conhecimentos – disse Harry. – Já entendi... O senhor não quer uma parceria, o senhor só quer meu conhecimento a respeito de Voldemort.
Todos estremeceram ao ouvir a pronúncia desse nome. Scrimgeour mudou sua expressão de amigável para irritado, mas logo a corrigiu.
– Meu caro rapaz – disse ele. – Eu não esperava que você entendesse... Mas Você-Sabe-Quem tem sido um problema enorme para o mundo inteiro! Deveria sentir-se orgulhoso por estar ajudando a eliminá-lo, já que você também deseja isso...
– Tem toda razão, eu quero mesmo vê-lo morto – disse Harry educadamente. – Mas não quero a ajuda da Marinha para isso. Tenho toda a ajuda que preciso aqui comigo.
– Ah, claro! – disse Scrimgeour com sarcasmo. – Um moleque derrotará o pirata mais terrível de todos os mares com a ajuda de mais alguns poucos aprendizes de piratas!
Os soldados riram desse comentário, incluindo nessa conta McLaggen e Percy.
– Essa foi boa, senhor Almirante! – disse Percy, gargalhando.
– Se me permitem a intromissão – disse Rony adiantando-se. – Eu não sou moleque, todos aqui já temos 17 anos ou mais, e não vamos aceitar esse tipo de comentário nem que venha de um cão da Marinha!
– É ISSO AÍ! – disseram a tripulação do Gryffindor em protesto.
– Silêncio, Ronald! – disse Percy, mostrando-se irritado. – Tenha respeito! Sabe com quem está falando?
– Com o teu chefe, um tolete de bosta que merece tanto respeito meu quanto você! – retrucou Rony caminhando até o irmão, suas orelhas começando a ficar vermelhas, sempre um sinal de perigo. – Você é quem deve ficar quieto Percy, não eu! Você, que se afastou da nossa família para ser um cãozinho do Almirante da Marinha! Devia ter vergonha de largar a família por isso!
– QUEM DEVIA TER VERGONHA ERA VOCÊ! E VOCÊS DOIS, TAMBÉM! – berrou Percy apontando Fred e Jorge. – SÓ PORQUE EU FUI O ÚNICO NA FAMÍLIA TODA QUE ACEITOU UMA CHANCE DE ME REDIMIR COM O MUNDO, EU SOU A VERGONHA?! VEJAM O PAPAI, O GUI E O CARLINHOS! TODOS PIRATAS! E AGORA VOCÊS, TAMBÉM! QUE LÁSTIMA! NÃO ME SURPREENDERIA SE A GINA TAMBÉM NÃO RESOLVESSE SEGUIR O CAMINHO DE VOCÊS!
– POIS FIQUE VOCÊ SABENDO DE DUAS COISAS: PRIMEIRA, SINTO ORGULHO DE INTEGRAR UMA FAMÍLIA DE PIRATAS E PODER NAVEGAR SOB UM JOLLY ROGER! E SEGUNDO, SAIBA QUE GINA FOI RAPTADA! – enfureceu-se Rony falando mais alto que o irmão, com o rosto muito vermelho, disparando jatos de cuspe e com uma veia enorme que latejava em seu pescoço. – MAS É LÓGICO QUE VOCÊ NÃO SABIA DISSO! VOCÊ NÃO SE IMPORTA COM A NOSSA FAMÍLIA, VOCÊ NÃO ESCREVE, NÃO APARECE, O QUE NOS ACONTECE DEIXOU DE TE INTERESSAR! VOCÊ ME ENOJA!
– Gina foi raptada?! – exasperou-se Percy, parecendo pela primeira vez surpreso. – Por quem?!
– Por Voldemort – disse Harry. – Eu sei, pois ainda tripulava o Basilisk na época, mas fui jogado à prancha por me envolver com ela, e sabe Deus onde ela está agora... E é por isso que eu quero acertar as contas com Voldemort sozinho quando chegar a hora. Espero que me perdoe, sr. Almirante.
– Ah, sim, eu entendo – disse Scrimgeour. – Nada tão belo quanto o amor de jovens...
– Eu sou um homem que valoriza a liberdade, senhor – Harry continuou. – Não poderia descansar feliz vestindo uma farda, vivendo entre quatro paredes e seguindo ordens... Eu sou do mar.
– Bom, ironicamente, mar e liberdade serão as coisas que menos verá agora que me fez essa desfeita, sr. Potter – disse Scrimgeour virando as costas e voltando ao seu navio seguido por Percy, Umbridge e Fudge. – Prendam-nos!
Os soldados imediatamente puxaram as espadas. Harry deu a ordem, e toda a tripulação preparou-se para mais uma batalha.
Rony pulou direto em McLaggen. Lutava bem, porém um pouco mais desanimado do que o normal.
– Rony, PEGA! – Draco berrou atirando um cantil cheio para Rony, que o agarrou contente, bebeu, e imediatamente começou a lutar com êxtase.
– Draco, você deixou o Rony beber?! – perguntou Hermione pasma.
– Pois é! Pra vocês verem que eu não sou tão tirano assim! – disse Draco em resposta, enfrentando dois oficiais.
Depois de algum tempo, a batalha já estava crítica. Rony e McLaggen continuavam a cruzar espadas, enquanto trocavam elogios pra lá de lisonjeiros:
– VIADO!
– BÊBADO!
– VIADO!
– IMUNDO!
– VIADO!
– CÃO VADIO!
– VIADO!
– GROSSEIRO!
– VIADO!
– ESCÓRIA!
– VIADO!
– SARNENTO!
– VIAAAAADOOOO!
Ressaca, vendo o dono em apuros, avançou em direção a McLaggen e abocanhou-lhe as nádegas. O Comodoro soltou um sonoro e agudo grito. Harry, enquanto retalhava vários oficiais, foi tomado de inspiração. Acabara de bolar uma estratégia um tanto louca para fazer a Marinha recuar. Saiu correndo desembestado em direção ao Slytherin, ancorado ao lado (o navio de Scrimgeour já se distanciara) e o abordou, lutou contra os oficiais que lá estavam e rumou para o timão em seguida. Sozinho, tratou de levantar a âncora e dirigir o navio para longe do Gryffindor, mas não antes que McLaggen percebesse.
– HOMENS! VOLTEM AO SLYTHERIN! JÁÁÁÁÁ! – berrou o Comodoro, e imediatamente todos os soldados pararam de brigar e correram para estibordo, pulando para dentro do Slytherin, que já estava quase ficando fora de alcance, mas quando foram agarrar Harry, ele correu ligeirinho para o bombordo e pulou para fora do navio, caindo na água e nadando de volta ao Gryffindor, onde lhe jogavam uma corda.
– Inverter o curso! – trovejava McLaggen enfurecido. – Voltem para o Gryffindor, vamos pegá-los!
– Não dá, senhor! Ele inutilizou a corrente do timão! – respondeu, aflito, um dos soldados, que tentava forçar o timão para a direita e para a esquerda, mas o timão sequer se movia. Com o timão quebrado, o Slytherin agora estava a mercê do vento, e navegaria sem rumo por um bom tempo, pelo menos até encontrarem uma ilha no trajeto.
– Ele é bom... ele é muito bom – disse McLaggen observando Harry ser puxado de volta ao seu navio. O Gryffindor já ficara fora de alcance. Assim que subiu a bordo, Harry ordenou imediatamente que enfunassem as velas e levantassem as âncoras. Alguns marinheiros tentaram pular de volta ao Gryffindor, mas acabaram caindo na água. McLaggen imediatamente avistou Rony na popa do navio, chamando por ele.
– AÊ, MCLAGGEN! PRA VOCÊ, SEU VIADO! – Rony berrava, arriando as calças na popa do navio e sacudindo sua bunda branca para McLaggen. O oficial, furioso, sacou a pistola e atirou em uma das bandas das nádegas de Rony, que começou a berrar de dor, mas foi socorrido por Parvati e Padma.
– ISSO NÃO VAI FICAR ASSIM, POTTER! A PARTIR DE HOJE, VOCÊ SERÁ UM HOMEM PROCURADO! MARQUE MINHAS PALAVRAS! – berrou McLaggen alto e claro para que Harry ouvisse.
– Considere marcadas, Comodoro – disse Harry, sorrindo. – Considere marcadas.
– Harry, você é louco! – disse Draco ofegando e enxugando o suor da testa. – Louco de pedra!
– Claro, claro, tenho total confiança em você e em seu julgamento, mestre Malfoy – dizia Harry caminhando pelo convés. – Neville, o que está esperando? Vá logo tratar do ferimento do Rony. Hermione, forneça a Cho as coordenadas para a ilha Orange. Senhoras e senhores, que todos saibam que a partir deste momento, somos piratas oficialmente procurados!
– OOOOOOOOOOHHHHHHHHH! – berrou toda a tripulação em resposta. Todos estavam alegres com a notícia de que agora seriam cabeças caçadas pela Marinha. Mal entravam para o mar, e agora para os arquivos criminais da Marinha, e mais tarde, se Deus quisesse, para a História também.
– Mas Harry! – disse Luna. – Se vamos ser piratas caçados, acho que precisamos de um nome para sermos conhecidos, não?
– Claro! Bem lembrado, Luna! – disse Harry. – Vocês, é claro, já ouviram falar em Dumbledore, não?
Toda a tripulação concordou. Seria impossível não conhecerem Dumbledore, o rei de todos os piratas, feiticeiro conhecido como guia e protetor dos piratas, e temido pelos grandes representantes da Marinha. Era o marinheiro mais poderoso e sábio de todos os mares, e único humano conhecido pelo mundo que fora capaz de lutar em pé de igualdade com Voldemort. Pelo que se dizia, até mesmo Voldemort aprendera a temer este incrível pirata. Algumas pessoas, tais como Rony e Neville, sabiam que Harry era um admirador assíduo de Dumbledore, logo já faziam uma ligeira idéia do nome que Harry daria à tripulação.
– Então, que todos saibam: De hoje em diante, seremos chamados de... – declarou Harry á tripulação. – Armada de Dumbledore!
Os marujos aplaudiram e deram urros de alegria. Luna, Cedrico e Hermione baixaram a bandeira pirata do mastro central, e com pincéis e uma lata de tinta vermelha, pintaram de cada lado da caveira um grande A e um D, e com tinta preta, desenharam um raio na testa da caveira, em seguida, tornaram a hastear a bandeira. Agora, as pessoas tinham mais um nome a temer e respeitar, fosse Marinha, fosse Comensal, fosse indiferente... E era a recém-formado Armada de Dumbledore!
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Comentários do autor: Uff! Finalmente, o capítulo 5... não ando tendo tempo d colocar novos capítulos ultimamente, e passei um tempão pra bolar essa parte. Segundo me disseram, esse foi um dos capítulos mais engraçados até agora XD... bom, eu sou suspeito pra falar, mas o q vcs acharam?
Aliás, estive considerando algumas idéias para outras fics a respeito de Harry Potter tbm. Entre elas:
1) Harry e toda a corja ficam fuçando no viratempo da Hermione e acabam quebrando a bagaça. Daí, eles são lançados por dimensões alternativas em diferentes períodos de tempo, desde a idade média até cenários mais futurísticos. A idéia é fazer paródias com diversos filmes, onde cada personagem vive no papel de protagonistas de outros filmes, por exemplo, Sirius como Jack Sparrow em Piratas do Caribe, Draco e Gina como Jack e Rose em Titanic, Harry e Dumbledore como Frodo e Gandalf em O Senhor dos Anéis, e por aí vai XD... daí eles têm que chegar até o final desses filmes pra poder viajar por outras dimensões até voltarem para casa.
2) Esse já tá em andamento faz um tempinho. É uma paródia a um filme chamado O Auto da Compadecida, não sei se alguém conhece. Nessa fic, os protagonistas são os Marotos, que vivem as mesmas situações hilárias de João Grilo (Tiago) e Chicó (Sirius). Começa com Harry, Rony e Hermione passando um filme sobre a Paixão de Cristo, daí mela tudo e o Harry consegue enrolar o povão. Lupin, vendo a ação de Harry, acaba lembrando do Tiago e resolve contar essa história pros três... Acabei perdendo um pouco o entusiasmo com essa fic pq achei q ficaria meio estranho uma história misturando religião e bruxaria, pq o filme trata um pouco de religião. Quanto ao filme, é muito bom, um dos melhores já produzidos pelo cinema brasileiro, a gente ri do início ao fim. Quem já assistiu sabe, quem não assistiu, recomendo.
O q acham das idéias? Caso aprovem, talvez eu comece a postar as histórias por aqui, é só uma questão de eu ter tempo disponível ...
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