Luthier – A Melody to Dream.
(Uma Melodia para Sonhar)
By Dama 9
Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas Juliana é uma criação minha, como um presente especial para uma grande Ficwriter, a Kaliope, autora da fic Galácticas na Grécia.
♥
Capitulo 11: Close Your Eyes
Apenas feche seus olhos
E você estará comigo
Olhe apenas para seu coração e é onde estarei
Se você apenas fechar seus olhos
Até você viajar assim
Você não estará longe de mim
Se você fechar seus olhos
Eu sei que ainda te verei de novo
Mas me prometa que não vai esquecer
Porque enquanto você se lembrar
Parte de nós estará junto
Então mesmo que esteja dormindo
Procure por mim em seus sonhos
Continue acreditando no que dividimos
E mesmo que eu não esteja ai para te dizer
Eu vou, eu vou te amar, amar para sempre.
(Westlife).
♥
.I.
O formão deslizava com suavidade pelo abeto, já fazia quase um mês desde que recebera a inusitada visita de Hekátes, em qualquer outro momento haveria colocado-a para fora a chutes se não a coisas piores e ignorado tudo aquilo que estava acontecendo, mas há muito tempo não era a mesma Juliana de sempre; ela pensou dando um baixo suspiro.
Sobre uma bancada improvisada na sacada, espalhou uma dúzia de gabaritos procurando o que melhor iria se enquadrar para aquela obra. A ultima. Alias, havia dito a si mesma que aquele seria o ultimo, precisava começar uma nova vida e encerrar a ultima de uma maneira que lhe trouxesse pelo menos lembranças boas.
Um novo suspiro saiu de seus lábios, ainda se lembrava das palavras de Hekátes.
♥
-Então, quanto tempo você leva para se instalar... Aqui? –a jovem de melenas royal perguntou deixando os olhos correrem pela sala do modesto apartamento.
-O que? –Juliana perguntou batendo a porta com força e voltando-se para ela, que já estava aparentemente tomando conta de seu sofá.
-Isso mesmo, porque vai precisar de um lugar para fazer aquilo que vim encomendar; a divindade falou, cruzando as pernas elegantemente enquanto recostava-se no sofá.
-Do que está falando? –a jovem perguntou com os orbes serrados perigosamente.
-Olha, vamos esclarecer uma coisa; Hekátes falou. –Infelizmente eu não tenho muitas opções, me disseram em Paris que você era a melhor naquilo que fazia por isso estou aqui. Por mim, eu iria atrás de qualquer luthier, mas as circunstancias requerem que seja o melhor, no caso você; ela falou indicando Juliana com tom aborrecido, como se dissesse que aquilo a desagradava tanto quanto a jovem.
Juliana fitou-a desconfiada, havia alguma coisa ali que não lhe cheirava bem. Pelo menos metade de Paris sabia por que havia deixado à cidade luz e voltado ao Brasil, porque justamente Hekátes iria aparecer agora, vinda sabe-se lá de onde, requisitando seus serviços?
-Então, eu preciso de um violino que seja perfeito para daqui um mês. Acha que é capaz de fazê-lo pra mim? –Hekátes perguntou num tom debochado e desafiador.
Os orbes castanhos estreitaram-se ainda mais diante do tom petulante.
-Só se você estiver disposta a pagar o valor que ele vale; ela rebateu, tentando ver se aquele ar debochado era tirado da face da jovem, mas foi com frustração que viu Hekátes não se abalar.
-Me diga seu preço, euros, dólares ou libras? Não importa; ela falou calmamente.
-Uhn! –Juliana murmurou surpresa. Ela só podia estar brincando.
-Estou falando serio; Hekátes falou aborrecida. –Mas façamos assim, quando terminar você me diz quanto é e acertamos isso. Pode ser?
-Que seja; ela deu de ombros, era melhor não contrariar, vai que era algum ataque de insanidade temporária.
-Então, daqui a um mês eu volto para buscá-lo; Hékates avisou levantando-se e sem esperar que Juliana lhe abrisse a porta, abriu-a sozinha e deixou o apartamento.
♥
Suspirou, tirando uma gotinha de suor que escorria por sua testa, antes de limpar a ponta do formão e coloca-lo sobre a bancada. Tateou a superfície da mesa buscando por uma flanela que pudesse limpar a peça antes de testá-la.
-Hora do lanche; a voz de Sheila soou atrás de si.
-Daqui a pouco eu como; Juliana falou voltando as atenções para a peça.
Se passaram três dias desde que Hekátes havia ido embora, até achou que fosse uma brincadeira da garota, mas para sua surpresa naquela mesma tarde uma caixa foi entregue em seu apartamento.
Quando a abriu quase caiu para trás, ali dentro continha tudo e mais um pouco do que precisaria para construir um violino. Algumas das peças que vieram na caixa, só havia visto por catálogos ou em vitrines muito bem protegidas, devido ao alto custo.
Nunca pensou que ela estivesse levando realmente aquilo a sério, tanto que nem havia providenciado nada para o violino, esperando que Hékates desistisse daquela insanidade, mas a questão é que, depois daquilo simplesmente não pode ignorar que agora tinha uma encomenda a fazer e menos de três semanas e meia para termina-la.
-Pode parar dona Juliana; Sheila lhe chamou a atenção, batendo o pé a seu lado.
Como estava de férias, a amiga resolvera dar plantão em sua casa, para garantir que não iria morrer de fome por simplesmente se esquecer de se alimentar direito enquanto estivesse trabalhando.
Deu de ombros com tal pensamento, não podia fazer nada se, se desligava do resto do mundo quando estava ali, só ela os abetos, ébanos e formões.
-Vamos, pare com isso; a jovem falou puxando-a para longe da bancada.
-Mas...;
-Nada de 'mas' nina, pode ir comer... Não vou tolerar nenhuma desculpa sua; ela falou puxando-a para a mesa da cozinha, posta para o lance.
-Ta certo; Juliana resmungou, dando-se por vencida.
-E tem uma coisa que eu queria conversar com você também; Sheila começou, enquanto se sentavam.
-O que? –a jovem perguntou, levando o copo de suco de laranja aos lábios.
-Amanda te contou sobre os 'amigos' estrangeiros, não contou? –ela perguntou de maneira enigmática.
-...; Juliana assentiu.
-Então, tem mais algumas coisinhas que você precisa saber; Sheila completou iniciando o relato do que aconteceu nos últimos anos.
.II.
Holanda do Norte / Hoorn...
Recostou-se na cadeira de vime, enquanto observava a jovem de melenas negras a poucos metros a sua frente cuidando delicadamente de algumas tulipas, que compunham o belo jardim do Recanto das Sereias.
A seu lado, a xícara de chá jazia quase vazia, o dia não iria tardar a chegar ao fim, mas isso não parecia incomodá-lo, pelo contrario. A atmosfera daquele lugar era igualmente agradável como a de Dream Village, porém, não conseguia gostar mais dali, do que do seu pequeno paraíso na costa Escocesa.
-Meu lorde; a voz de um senhor já de idade soou atrás de si.
-Algum problema Rivers? –ele perguntou voltando-se com um olhar calmo para o mordomo que trabalhava ali a longos anos.
-Não senhor, apenas uma jovem deseja falar com o senhor; Evarist falou fazendo uma breve mesura e indicando a alguns passos atrás de si, a jovem de melenas royal.
-...; Emmus assentiu ao reconhecer Hekátes. –Pode pedir que ela se aproxime?
-Como desejar, meu lorde; ele falou numa clássica mesura antes de se afastar.
Voltou a acomodar-se na cadeira. Se Hekátes estava ali com certeza tudo estava se encaminhando como havia planejado; ele pensou passando a mão levemente pelos cabelos negros.
-Uhn! Alguém já te disse o quão irresistível você fica fazendo isso? –uma voz sedutora soou atrás de si, porém a face impassível continuou a mesma.
-Quer beber alguma coisa, Hekátes? –Emmus perguntou como se não tivesse ouvido o comentário atrevido da divindade, por sobre o ombro, indicou Evarist a esperar por uma resposta.
-Não, obrigada; ela falou ponderada, sentando-se na cadeira ao lado dele, enquanto o mordomo se afastava, deixando-os a sós.
Por mais que tentasse, não era capaz de acabar com aquela tranqüilidade inabalável dele, chegava a ser frustrante, qualquer homem cairia a seus pés pedindo por alguns segundos de sua atenção, mas Emmus não... Jamais. Como sempre, ele era inalcançável demais até mesmo para uma deusa como ela; Hekátes pensou.
-Então? –Emmus perguntou levando a xícara de chá aos lábios uma ultima vez, enquanto seus olhos mantinham-se pousados sobre a jovem de melenas negras, que parecia alheia a tudo e todos, cuidando as tulipas. Apenas parecia...
-Foi tudo como você havia dito. Ela achou que eu estava brincando; Hekátes comentou aborrecida.
-Previsível; ele murmurou. –Entregou a ela o que eu mandei?
-Três dias depois, como você falou. Imagino que ela tenha ficado surpresa. Você tem noção do valor de cada peça daquela? –Hékates exasperou. –Acha mesmo que vale a pena gastar tanto com um violino? –ela indagou quase indignada ao pensar na quantidade de zeros que ele adicionara ao cheque na hora de pagar aquelas coisas, que no fim, virariam um simples violino.
-Hekátes, não preciso lembrá-la de quem é que manda aqui, não é? –Emmus perguntou em tom calmo, porém com uma ameaça velada em seu tom de voz, que não admitia ser contrariado.
-Não, não precisa; ela balbuciou, seguindo o olhar dele encontrando a jovem de melenas negras de costas para eles.
É, talvez para ela, Emmus não fosse assim tão inalcançável, mesmo porque, todos sabiam perfeitamente que ela era o calcanhar de Aquiles do cavaleiro negro. Mesmo assim, ninguém nunca ousou atacá-la, para atingi-lo. Até mesmo seus parentes mais sórdidos mantinham uma distancia respeitável quando o assunto era o famoso Olhos Vermelhos e sua adorável 'amiga'.
Ignorando o ultimo episodio de anos atrás, acreditava que sim, ela era a única a conhecê-lo completamente e ter mesmo que pequeno, um pedaço especial em seu coração.
–E agora, qual o próximo passo? –Hékates perguntou saindo de suas divagações.
-Não se preocupe, o resto é comigo; ele falou colocando a xícara vazia sobre a mesa.
-Mas...;
-Obrigado pela ajuda Hekátes; Emmus ele falou dando por encerrado a conversa.
-O que pretende com isso, Emmus? –ela insistiu em saber. Era melhor perguntar de uma vez, não sabia se teria outra oportunidade de fazer isso.
-Do que se refere? –ele perguntou casualmente.
-Você esta jogando com o destino, o que quer ganhar com isso? –a deusa falou.
-Nada; o cavaleiro respondeu calmamente.
-Ninguém joga com elas sem querer algo em troca, nem mesmo você; Hekátes falou em tom sério.
-Pelo contrario, e é exatamente ai que você esta enganada, não sou como aqueles que você esta acostumada a conviver. Meus motivos para me envolver nessa historia só dizem respeito a mim, agora você já pode ir; Emmus falou denotando aborrecimento.
-Como quiser, meu lorde; ela falou em tom frio e frustrado levantando-se e se afastando.
Não demorou muito para a divindade de melenas royal desaparecer. Uma brisa suave esvoaçou os longos cabelos negros, fazendo-o soltar um suspiro relaxado. Muitas vezes se perguntou o que queria com isso? Mas não houve resposta alguma. Por quê? Simplesmente porque não queria nada para si dessa historia, nada que não fosse à satisfação de ajudar alguém.
Poderia ser hipocrisia, como Hekátes certamente achava. Afinal, ninguém fazia nada sem querer algo em troca, mas a verdade é que não se importava com as perguntas que viessem a lhe fazer sobre os infinitos "porquês" de querer ajudar o casal ou não.
-Finalmente; ouviu a voz aborrecida da jovem de melenas negras soar próximo o suficiente para tirar-lhe de seus pensamentos.
-O que foi? –Emmus perguntou voltando-se para ela.
-Aquela detestável já foi embora;
-Você não gosta realmente dela, não é? –ele perguntou arqueando a sobrancelha.
-Não; ela deu de ombros, indo sentar-se na cadeira antes ocupada por Hekátes. –Mas o que ela disse?
-Que esta tudo saindo como o planejado; Emmus respondeu.
-E o que esta lhe aborrecendo? –a jovem de orbes violeta perguntou fitando-o atentamente.
-Que essa é a parte em que eu banco o cretino e dou uma surra no Aiácos; ele respondeu em meio a um suspiro pesado.
-Realmente, isso é estressante; ela concordou. –Bancar o cretino nunca é fácil, mas se quiser, eu dou uma surra nele por você?
-Uhn! –arqueou a sobrancelha descrente quanto ao que ouvia, mas o largo sorriso que formou-se nos lábios da jovem dizia que ela falava realmente sério.
-Estou brincando; a jovem apressou-se em dizer, embora se ele concordasse, não fosse achar ruim. –Mas falando sério, como vai encontrá-lo?
-Não vai ser difícil; Emmus falou se levantando. –O que acha de ir a Champs fazer compras, enquanto eu resolvo algumas coisas em Paris? –ele perguntou estendendo-lhe a mão.
-Ótimo, estava com saudades de Paris; ela falou animada seguindo com ele para dentro da mansão, antes de partir.
-o-o-o-o-o-
Apoiou a cabeça sobre os braços que jaziam no o encosto de madeira. Ao longe conseguia ouvir os cânticos sacros que ecoavam por toda Notre Dame, não sabia quantas horas estava ali, ou se já haviam se passado dias, apenas não conseguia levantar-se e sair.
-Esta tudo bem, meu filho? –uma voz amigável soou atrás de si.
Assentiu, ainda mantendo a cabeça escondida pelos braços, se havia uma coisa que não conseguia agora era encarar alguém. Não depois de tudo que havia acontecido.
-Acredite, por mais difícil que as coisas sejam, sempre a formas de resolvê-las; Frei Francis falou sentando-se ao lado dele.
-Não no meu caso; Aiácos respondeu num sussurro.
Mesmo depois da missão terminada não conseguia ignorar o fato de tê-la colocado em perigo. Em outros temos isso pouco lhe importaria, afinal, seria apenas mais uma vida, mas depois de conhecê-la essa 'vida' despertou algo em si.
Uma parte importante que estava trancada num lugar inacessível em seu coração desde o momento que escolhera ser um dos juizes. Jamais se importara com a segurança das pessoas, sua única função era garantir que elas chegassem em segurança até o outro lado após passarem pelas prisões de Minos e Radamanthys.
Mas se até o companheiro havia mudado de vida, o que poderia ele fazer para ir contra essa natureza?
Nada...
Absolutamente nada...
-Todos têm direito a uma segunda chance, meu jovem; Francis falou calmamente, tentando com isso, fazê-lo desabafar.
-É estranho, mas acho que já desperdicei a minha; ele murmurou.
-Mesmo assim-...
-Padre; Aiácos o interrompeu.
-Sim;
-Posso subir até a torre? –ele pediu, voltando-se para o Frei. –Vai ser rápido;
-...; sem outra alternativa, Francis assentiu. Quem sabe estar ali pudesse trazer algum alivio para aquela alma cansada. –Vá e que isso possa lhe trazer alguma paz; ele murmurou vendo o espectro sumir nos corredores.
.III.
-Você não esta querendo que eu realmente acredite que essas lendas mitológicas são verdadeiras, quer? –Juliana perguntou quase caindo para trás quando Sheila lhe contou sobre seu famoso 'santo anjo de asas douradas'.
-Juliana; Sheila começou ponderada.
-Nina, desculpa... Mas é insano; ela falou gesticulando nervosamente.
-Vai me dizer que você nunca achou estranho àquilo que aconteceu em Manhattan? –a jovem insistiu.
-Tudo bem, foi um milagre aquelas pessoas não terem morrido com a explosão do petroleiro, mas isso não quer dizer que...;
-Paris, Londres e as maiores capitais européias serem inundadas por Tsunamis vindos sabe-se lá de onde? –Sheila continuou disposta a fazê-la entender que nem tudo era apenas coincidência.
-Ta certo, mas...;
-Juliana, não seja tão cética; a amiga a cortou. –Você sabe que tem coisas que nós simplesmente não temos explicações, mas não quer dizer que seja impossível;
Aquietou-se por alguns minutos, a amiga estava certa, mas admitir que acreditava nessa historia de que lendários cavaleiros existiam e estavam dispostos a tudo para proteger a Terra, era pedir demais; ela pensou passando a mão levemente pelos cabelos.
-É melhor eu voltar a trabalhar;
Levantou-se indo para a sala novamente ouvindo Sheila falar mais alguma coisa sobre não querer acreditar, mesmo que houvessem evidencias. A amiga não estava mentindo sabia disso, mas simplesmente não queria pensar em mais nada que não fosse o ultimo violino.
Mesmo que tentasse negar a si mesma, em seu intimo, não conseguia esconder a saudade que tinha de Aiácos, dos encontros casuais nos lugares mais inusitados de Paris.
O primeiro encontro ao pé da Torre Eifel, depois na mesma noite em "Alegria", por falar nisso, o circo estaria fazendo uma turnê pelo Brasil em breve, com a peça Alegria, seria interessante ir assistir, mesmo porque, depois do segundo ato, não se lembrava de mais nada que não fossem aquele par de olhos de um azul tempestuoso e aqueles lábios curvados em um típico sorriso cafajeste, que pediam por um beijo e lhe tiravam as noites tranqüilas de sono sem um pingo de piedade.
Balançou a cabeça nervosamente para os lados, era melhor trabalhar.
-Nina! – Sheila chamou arqueando a sobrancelha ao vê-la balançar a cabeça tanto para os lados, que achou que ela fosse ficar atordoada e cair.
-O que foi?
-O chefe me deu alguns ingressos para assistir a temporada de Alegria aqui em São Paulo semana que vem, não vai esquecer viu. Você vai junto; Sheila avisou vendo-a abrir a boca para contestar, mas não lhe deu tempo. –Não vou deixar você mofando aqui dentro; ela completou com os orbes estreitos.
-...; Juliana assentiu, tentando não entrar em paranóia achando que aquilo não era uma simples coincidência.
-o-o-o-o-o-
Assoprou a fumaça acinzentada da xícara de chocolate quente, aquele dia estava frio, alias, era um dos mais frios da temporada ali, mas nem por isso a cidade perdia o ar agradável que tinha.
Um fino sorriso formou-se em seus lábios, quem diria que iriam acabar ali depois de tantas coisas.
-Em que esta pensando? –Saori perguntou esfregando as mãos enluvadas umas nas outras para conter o frio.
-Em nós; ele respondeu pousando a mão suavemente sobre as dela.
O centro estava pouco movimentado naquele dia, mas isso apenas servia para aumentar a tranqüilidade que compartilhavam naquele lugar, que as pessoas apenas sentiam-se ainda mais próximas umas das outras.
Nunca mais iria duvidar que o frio fosse uma boa forma de manter as pessoas bem juntas; ele pensou balançando a cabeça levemente para os lados, lembrando-se que fora justamente essa frase que o amigo lhe dissera quando lhe oferecera o Solar dos Anjos.
Pelo menos até agora Saori não perguntara quem era o dono daquele pequeno paraíso, porque simplesmente não tinha como responder. O trato fora bem claro, não revelar quem era o dono e ficar na casa por tempo indeterminado.
-E você, esta quietinha ai, por quê? –Aioros perguntou.
De onde estava, conseguia ver por sobre o ombro da jovem do outro lado da rua a estande da Honda e algumas lojas de chocolate, o movimento ainda era pouco pelo horário, mas já vira tantas pessoas diferentes, que não duvidava que poderiam passar um ano ali sem ver um conhecido.
-Ainda me custa um pouco a acreditar que estamos aqui; ela falou com um fraco sorriso.
Levantou-se, sentando-se ao lado dela, enlaçando-a pela cintura de maneira que ambos ficassem confortáveis naquela posição.
-Não há mais com o que se preocupar; ele falou afagando-lhe as melenas lilases que caiam em mechas fartas sobre o ombro dela, enquanto algumas ainda mantinham-se protegidas do frio, pelo gorrinho de lã felpuda.
-...; Saori assentiu, descansando a cabeça sobre o ombro dele. -Para onde vamos agora? –ela perguntou, mas antes de obter uma resposta, ouviu o celular do cavaleiro tocar dentro do bolso interno da jaqueta.
-Alô;
-Como vai, Aioros? –uma voz conhecida soou do outro lado.
-Bem, obrigado. E você? –o cavaleiro respondeu com um fino sorriso nos lábios ao reconhecer a voz do amigo.
-Bem, mas me diz, Beatriz e Lucas estão cuidado bem de vocês? –Emmus quis saber.
-Estão sim, não se preocupe; Aioros respondeu.
-Então esta certo, você já sabe, se precisarem de algo, falem com Lucas, ele esta autorizado a providenciar qualquer coisa; o jovem de melenas negras falou.
-Obrigado;
-Já foram ao Parque das Cerejeiras?
-Todas as tardes;
-Quem bom, àquele lugar é ótimo. Não deixem de aproveitar o festival de musica, começa nesse final de semana; ele avisou.
-Não vamos perder, pode deixar; Aioros respondeu sorrindo.
-Agora Aioros, queria saber sobre aquele assunto; Emmus começou.
-Já acertei tudo; o cavaleiro respondeu de maneira ponderada.
-Então elas já estão com os convites?
-Sim;
-Perfeito, daqui uma semana Alegria ira estrear em São Paulo e é imprescindível que tudo de certo;
-Com certeza vai dar; o cavaleiro confirmou.
-Bom, não vou lhe atrapalhar mais, sei bem que estou sendo inconveniente ao ligar agora; Emmus falou com um sorriso nada inocente nos lábios. –Mas espero que aprecie sua estadia no Solar, até mais amigo;
-Até e obrigada novamente;
-Não por isso; ele respondeu desligando.
-Quem era? –Saori perguntou quando ele desligou o telefone.
-Um amigo, me cumprimentando por ter a maior sorte do mundo; Aioros respondeu com um sorriso matreiro.
-Uhn? –ela murmurou confusa, porem igualmente desconfiada daquele sorriso.
-Por estar com a mulher que amo, nesse mulher incrível... Acho que ninguém pode querer coisa melhor não? –ele indagou.
-...; negou com um aceno. –Mas então, pra onde vamos? –ela perguntou mudando de assunto.
Sabia que se perguntasse quem era o tal amigo que ligara e que evidentemente era o mesmo dono da casa, ele iria se esquivar e não iria responder. Então, depois usaria outros métodos para descobrir o que ele estava escondendo.
-O que acha de irmos até o auditório, estava vendo no guia que vai ter uma peça interessante lá, se não me engano é uma comedia; ele comentou.
-Uhn! Ótimo, ouvi dizer que o por do sol de lá é lindo; ela falou levantando-se e puxando-o consigo.
-Vamos então; Aioros falou tomando o ultimo gole de chocolate quente e seguindo com ela.
Pelo menos parte dos planos de Emmus estava dando certo, não sabia direito o que ele estava aprontando, mas não pensara duas vezes em ajudar quando ele lhe pedira que enviasse até São Paulo três convites para a peça Alegria que aconteceria dali a uma semana.
Porém a surpresa maior foi o nome que o pacote estava endereçado. Achou realmente estranho quando viu o nome de Sheila, mas mesmo assim enviou com a carta escrita pelo próprio Emmus no pacote, com instruções de como deveria proceder depois.
Assim que colocara os convites no correio e foi falar com Lucas, o senhor lhe contou sobre a missão de Emmus em Paris e as conexões que tinha com algumas pessoas que sempre lhe prestavam alguma ajuda quando precisava, entre elas, a nova curadora da pinacoteca, alguém muito próxima de quem ele estava visando interesses no momento.
Quase caira para trás com a noticia de que a 'conexão' de Emmus no Brasil era nada mais nada menos, do que Sheila, mas aos poucos estava se acostumando com algumas facetas antes desconhecidas sobre o amigo, mas agora que tudo estava resolvido, só o que podia fazer era aproveitar sua estadia ali.
.IV.
Subiu a passos corridos até a torre, parou em frente ao alpendre que servia de suporte para as enormes gárgulas de pedra, ofegando. Fechou os olhos por um momento, sentindo a brisa suave e fria chocar-se contra sua face, trazendo pelo menos um pouco de alivio a seu coração.
Ouviu um barulho atrás de si, mas não se moveu, deveria ser só o vento, mas um cosmo conhecido elevou-se chamando sua atenção.
-Tsc. Tsc. Tsc;
Virou-se rapidamente encontrando um par de orbes vermelhos e um sorriso sádico nos lábios daquele que menos precisava encontrar agora. Que era um fracasso para toda ordem de espectros, isso já sabia. Que o imperador estava certamente querendo sua cabeça. Evidente. Mas definitivamente não precisava encontrar com Emmus agora e ser arrasado em meio a humilhações sádicas e ferinas como aquele sorriso nos lábios dele prometia.
-O que quer aqui? –Aiácos perguntou em defensiva.
-Aiácos. Aiácos. Quando o conheci há alguns anos atrás, logo vi que você era um completo idiota, mas achei que ainda houvesse esperança de salvação para você; Emmus respondeu mantendo-se encostado num dos pilares de concreto próximo ao alpendre.
A figura imponente de Emmus parecia equiparar-se com a presença das gárgulas ali, que por mais sombrias que fossem ainda mantinham aquele magnetismo sobre qualquer um que as observasse e com ele ali, a sensação não era diferente.
De certa forma conseguia sentir o terror que Alegra sentira ao se deparar com Emmus, vindo sabe-se lá onde, para impedi-la de atacar Juliana. Ainda lembrava-se da primeira missão em Londres, já vira o quão Emmus era poderoso e perigoso se quisesse.
Os poderes dele pareciam ser ilimitados, não duvidava que Hades preferisse mantê-lo como 'amigo' do que tê-lo como inimigo, já que a ultima alternativa, não fora lá muito vantajosa daquela vez.
Mas a verdade é que a simples presença dele ali estava lhe aterrorizando.
-Só que, como diz minha adorada amiga, mesmo os mais estúpidos merecem uma segunda chance; ele falou descruzando os braços da frente do corpo e desencostando-se do pilar.
-O que quer dizer? –Aiácos perguntou recuando um passo, encontrando o pilar atrás de si.
No momento seguinte viu apenas uma nuvem negra cobrir seus olhos, tentou se esquivar, mas algo agarrou seu pescoço e sentiu os pés deixarem o chão.
-Esta vendo, Aiácos? –Emmus perguntou, enquanto os pés mantinham-se bem estabilizados sobre o alpendre, enquanto o espectro se debatia para se soltar.
Lá embaixo Paris parecia continuar a viver, alheia ao conflito que se iniciava sobre as guarnições de Notre Dame.
Sentiu o ar faltar-lhe nos pulmões e a mão em seu pescoço aumentar a pressão. Agora sim ia morrer e tinha certeza do que lhe esperava do outro lado, tendo Thanatos como o novo carrasco do submundo, já que ele fora gentilmente obrigado pelo imperador, para cobrir a antiga função de Radamanthys.
-Me solte; Aiácos falou tentando se soltar.
-Tem certeza que é isso que deseja? –Emmus perguntou com um fino sorriso nos lábios, de soslaio vendo os pés do espectro balançarem sem apoio algum, a queda seria fatal. –Você teme a morte? –ele perguntou quase rindo da frase que acabara de presenciar.
Era melhor parar de assistir aqueles filmes que ela gostava, isso estava lhe afetando; Emmus pensou lembrando-se do dia que ficara com a jovem de melenas negras assistindo a trilogia Piratas do Caribe e a ultima especialmente, fora bastante interessante.
E aquela frase, ainda lhe tirava boas risadas, se pensasse no quão irônica e cínica ela poderia ser naquele momento.
-Acabe logo com isso; Aiácos vociferou, dando-se por vencido.
-Se é o que você quer; Emmus falou antes de soltá-lo.
Foi com espanto que viu-se caindo, era como se seu corpo estivesse completamente dormente e não sentisse nada. Será que essa era a sensação que as pessoas tinham quando iam morrer? De não sentir nada?
Fechou os olhos e mesmo não querendo pensar, lembrou-se da jovem de melenas avermelhadas. Juliana. Como queria ter impedido Alegra de machucá-la, mas não, preferira se afogar em uma garrafa de wisk só por não ter conseguido convencê-la de sair do municipal.
Alias, isso também era culpa sua, se houvesse contado a verdade, mas ela não acreditaria, lhe chamaria de louco, ou não? Agora jamais iria saber. A queda parecia interminável, era como se o tempo estivesse correndo de maneira mais lenta.
Quando acabara a missão em Visby retornara as pressas a Paris, mas ela já não estava mais lá, voltara para o Brasil. O país era enorme e encontrá-la era praticamente impossível, mesmo porque, sabia que não merecia entrar na vida da jovem de novo e vira - lá de ponta cabeças como havia feito.
Juliana merecia alguém que realmente pudesse confiar, que fosse capaz de contar quem era sem reservas. Que lhe entregasse seu coração sem esperar por algo em troca. Uma entrega que não sabia se conseguira dar a alguém algum dia, ou pelo menos, em alguma próxima encarnação, porque essa, já estava perto do fim.
O vento batia fortemente contra sua face, nunca tivera muitos planos ou perspectivas, mas agora, quando tudo parecia parte de algo longínquo e tarde demais para si, queria vê-la. Apenas uma ultima vez.
Ouvir a melodia suave que era extraída pelas mãos delicadas no instrumento de cordas, sentir novamente aquela sensação dos pés saírem do chão quando a ouvia tocar. Sempre a comparara a uma bela sirene, capaz de lhe atrair para os rochedos, sem que ao menos hesitasse.
Ainda se lembrava de como fora tê-la entre seus braços por alguns poucos minutos, mas o suficiente para ainda ter a essência suave de flores emanado pelas madeixas avermelhadas guardado em sua memória.
Antes a única coisa que sabia fazer era esperar por que mais uma alma batesse nas portas de sua prisão, para que definisse para qual inferno a mandaria, mas quando a conheceu mais coisas mudaram, mais do que desejava.
Era difícil admitir, mas nesse momento final só queria uma coisa. Sabia que de nada adiantaria dizer que a amava agora, que só descobria quando era tarde demais. Que como Emmus dissera, era um idiota sem mais nenhuma chance, mas era isso.
A amava e não havia como ignorar nem reprimir; ele pensou com um fraco sorriso.
Tomado por uma coragem que tinha medo de saber de onde vinha, abriu os olhos esperando pelo momento que ira se chocar contra o chão de concreto das escadarias de Notre Dame, mas foi ai que tudo aconteceu...
Continua...
Domo pessoal
Ta chegando ao fim, o próximo vai ser o ultimo, eu sei que já falei isso umas três vezes, mas essa fic realmente tem me inspirado muito, tanto que outros três projetos nasceram desde que comecei Luthier.
Mas a verdade é que justamente nessa, eu adiei o máximo que pude o fim, porém... No próximo, muitas surpresas e encontros marcantes. Espero sinceramente que tenham gostado do capitulo e obrigada de coração pelos reviews.
Um forte abraço
Dama 9
