Beta: Bibis Black
Parte 3
A primeira aula era Poções. Bela maneira de começar o dia depois de sua fabulosa descoberta, pensava Harry enquanto se dirigia à sala com Ron e Hermione.
Seus pensamentos ainda estavam em Malfoy e em sua expressão quando tocara no assunto Trio de Ouro.
Sempre o julgou arrogante e superficial, sem motivos profundos por suas rixas e demais artifícios. Para ele, Malfoy era e sempre seria, um rapaz que só enxerga o próprio nariz, sem problemas por ser rico, sem preocupações e obstáculos. Ele era alguém que tinha tudo na mão e não conhecia a verdade por trás do dinheiro e poderio o qual estava imerso. Malfoy não precisava se preocupar com nada, tudo já estava pronto e era apenas necessário respirar para passar cada dia e lograr um futuro brilhante.
Sim, para Harry Potter, Draco Malfoy teria um futuro brilhante...
Assim que entraram na sala, o notou sentado ao lado de Blaise Zabini, numa conversa casual. Pareciam se divertir com algum assunto.
Passou por eles como se não os visse ali e foi se sentar três fileiras atrás, numa posição que podia ver seu perfil sem dar tão na cara.
Tinha vontade de rir dele, mas ainda era cedo de mostrar sua brincadeira. Ainda queria descobrir mais coisas desse loiro, que talvez, fosse muito mais interessante, para ter como se defender de sua língua afiada.
Passou a aula da mesma forma que sempre, sendo ralhado pelo professor Snape e com comentários ácidos por parte de Malfoy.
Apenas se limitou a lhe sorrir enigmático, sem se abalar pelo que dizia, o que fez o slytherin franzir imperceptivelmente as sobrancelhas e parar por hora, de o provocar.
Realmente, para Draco, aquele dia estava sendo como outro qualquer, até aquele exato momento.
Snape havia zombado da poção mal feita de Potter, o que era rotina em todas as aulas, mas por estranha razão, quando foi caçoar de mais um trabalho mal elaborado do gryffindor, este lhe lançou um olhar divertido e um sorriso enigmático.
Sem aquele olhar de raiva e lábios frisados retendo algum comentário igualmente pesado para calar-lhe e eventualmente, perder pontos.
Potter apenas lhe dedicou uma expressão difícil de se decifrar, como quem sabe de algo que muitos nem sonham...
E se sentiu perturbado.
Deixou de atormenta-lo o restante dos vinte minutos que faltavam para a aula terminar, mais preocupado em saber o que acontecia do que perder tempo tentando incomoda-lo.
O restante do dia passou sem mais se encontrarem, e quando tiveram a última aula em conjunto, de Defesa Contra as Artes das Trevas, Potter continuava o mesmo gryffindor de sempre.
Conversando animadamente com os amigos, falando sobre Luna Lovegood e algo sobre o final de semana em Hogsmeade.
- O que houve Draco? – perguntou Blaise, ao deixarem a aula e encaminharem ao Salão Comunal.
- Nada... Achei que... – pensou melhor, negando com a cabeça – Esquece.
- Potter? – o amigo sorriu um pouco – Ele estava estranho, como se fosse inabalável, o que é bem surpreendente pra quem ontem mesmo quase ficou verde de raiva quando fizemos um inofensivo comentário sobre sua nova paquera.
O loiro apenas deu de ombros e entrou no dormitório, tratou de deixar sua mochila num canto perto da cama e pegou uma outra de ombro, estilo universitário, pronto para se enfiar em seu refúgio.
- Vai sumir de novo? – o amigo o observava de sua cama.
- Não tenho nada pra fazer, então eu ia desaparecer. – sorriu prepotente, vendo como Blaise enrugava as sobrancelhas.
- Vamos dar uma caminhada pelo jardim – o moreno propôs, dando de ombros. – Antes que você suma.
Draco ponderou um pouco e concordou, devolvendo as coisas em sua cama.
No jardim, caminharam tranqüilamente enquanto conversavam futilidades, e Malfoy nem chegou a notar que mais ao longe, um certo gryffindor conversava em baixo de uma árvore com seus dois melhores amigos e dispensava olhares furtivos em sua direção.
Depois de uma hora de distração, para relaxar dos estudos do dia, Draco se despediu do grupo de slytherins ao qual se envolveram pelo caminho e acabaram no meio de uma gostosa discussão sobre matérias e trabalhos futuros.
Passou ao longe frente à mirada esverdeada até desaparecer dentro do castelo.
Harry sorriu vagamente, voltando sua atenção aos outros estudantes que também passavam as horas curtindo a entrada da noite, como quem apenas vaga o olhar sem um ponto exato para mirar.
Ficou ali durante mais trinta minutos até que se espreguiçando e disfarçando o tédio de continuar ouvindo as explicações de Hermione para um projeto de Herbologia, se pôs de pé.
- Pessoal, acho que irei ao dormitório.
- Já cansado Harry? – perguntara Dean, quem chegava esse momento junto com Seamus e Neville.
- Acho que vou dar uma passadinha perto do Salão Comunal de Ravenclaw antes de me deitar – desconversou, sabendo que com essa escusa, ninguém o interrogaria caso não estivesse de fato no dormitório masculino.
Ron e Hermione sorriram cúmplices e aprovaram a idéia.
Harry caminhou com cuidado até o Salão Comunal de Gryffindor, subiu para seu quarto e vasculhou o baú ao lado de sua cama a capa de invisibilidade. A dobrou cuidadosamente e com um feitiço de encolher a pôs no bolso da túnica e seguiu novamente para fora de sua Casa.
Na saída cruzou com Ginny e sorriu a ela, indo em direção ao corredor que levava a Ravenclaw, para garantir que estava realmente indo para aquele lado.
Quando constatou que não havia mais ninguém por perto e que o corredor estava completamente vazio, retirou a capa do bolso, fazendo com que voltasse ao tamanho original e se cobriu, retornando os passos até aquela escada escondida.
Deu mais uma olhada para trás, cuidando para não fazer barulho enquanto subia os degraus e se embrenhava pela escuridão do corredor de Eco.
Contemplou mais uma vez, baixo a capa de invisibilidade, os quadros que ali estavam enfeitando, parando na correspondente ao seu refúgio.
Eco lhe dedicou um olhar triste, mas depois sorriu. Isso lhe comprovou que as pinturas podiam ver através do tecido mágico que o cobria.
Ia dizer a senha quando um ruído foi ouvido vindo da direção da escada. Seu sangue congelou, se pregando contra a tela do quadro enquanto Filch erguia a mão que sustinha a lamparina, fazendo a claridade amarelada romper a escuridão do corredor.
Harry reteve a respiração, enquanto o velho inspetor estreitava os olhos e encarava em sua direção. Com cuidado, girou os olhos para Eco, que ainda o mirava. Ficou pálido e negou imperceptivelmente com a cabeça, tentando faze-la entender que ninguém podia vê-lo ali.
A moça logo deixou de olha-lo para olhar diretamente a Filch.
- Tem alguém aí? – o velho resmungou com grosseria, vendo que a pintura o encarava agora.
Eco levou o dedo indicador aos lábios em sinal de silêncio, lançando um olhar carinhoso e sonhador à imagem do belo Narciso, deitado a seus pés, na beira do lago, como se ele pudesse despertar com qualquer ruído.
Filch resmungou por baixo e logo deu as costas, retornando por onde viera. Nunca gostava de inspecionar aquele corredor, assim como o corredor contíguo a este, cujos motivos eram Narciso. Não sabia porque o castelo tinha aqueles dois ambientes que nunca eram usados, assim como muitos outros espalhados pela antiga e imensa estrutura de Hogwarts, mas como sua função, apenas cumpria ordens.
Harry soltou o ar que retinha e inspirou com alívio, mas manteve-se no mesmo lugar até que teve certeza de que o velho havia ido de fato. Desencostou do quadro e o olhou com um sorriso.
- Passion – sussurrou e viu o quadro se mover lhe mostrando a entrada.
Quando passou ao interior do quarto, ficou um pouco confuso ao notar que além da lareira e da poltrona, havia agora uma espécie de escrivaninha vazia encostada na parede e sem cadeira e sobre a lareira um candelabro de cinco velas apagadas. Mesmo sendo noite, a claridade da lua iluminava perfeitamente o cômodo vazio de janelas altas sem cortinas.
Retirou a capa e a deixou no encosto da poltrona, onde se acomodou. Seus olhos logo caíram sobre a superfície plana do espelho frente a si.
Porém, no instante que seus olhos focaram o alvo, ficou ligeiramente surpreso e preocupado.
Draco estava deitado de lado na cama, sem a túnica e a gravata, apenas mantinha a calça, a camisa e as meias do uniforme escolar. Seu corpo estava encolhido em modo fetal, os joelhos batendo rente ao peito, separados apenas pelos braços encolhidos cujas mãos unidas de dedos entrelaçados encobria a boca. Fios platinados caíam-lhe pela face de modo desgrenhado, mas não chegava a encobrir seus olhos. As pálpebras levemente serradas faziam com que seus olhos azuis prateados tomassem um matiz mais escuro, quase negro. Sua pele estava pálida, quase branca, que julgou ser efeito da claridade das velas acesas.
Franziu o cenho, intrigado em encontra-lo daquela forma tão frágil e abandonada.
Então aconteceu uma reviravolta de sentimentos, modificando tudo que sentia e achava desde cedo e nas traquinagens que queria pregar nesse slytherin no dia seguinte, passando a sentir preocupação, arrependimento e uma sutil vontade de conforta-lo.
O que causara este estado tão vulnerável? Em que estaria pensando?Então seu corpo tremeu, como se um vento frio lhe atingisse em cheio, fazendo seus ombros encolherem e instintivamente levou as mãos aos braços, como se abraçasse a si mesmo, no momento em que ouviu um soluço escapar pelos lábios de Malfoy, este, assustado com o próprio soluço, mordeu os dedos para evitar que mais deles escapassem sem seu consentimento e fechou os olhos, retendo as lágrimas, mas sem poder evitar que uma lhe deslizasse e molhasse o lençol.
Harry vagou os olhos por esse cabelo tão fino que lhe manchava a face agora rosada e sobre as pálpebras, notando que estas tremiam. Então desceu o olhar para o lábio róseo que outrora era impossível se ver, em como encobria parte da pele pálida de seus longos dedos, mas não o suficiente para lhe encobrir uma fileira rasa de dentes brancos, cravados na própria carne, para que não lhe escapasse o choro.
Draco Malfoy estava chorando?
Não era bem isso que queria descobrir de seu rival de escola, do garoto mimado e arrogante, filho de Comensal da Morte...
Não era isso que queria ver, de uma forma tão intensa e tão inesperada e que era inevitavelmente atraente...
Humano...
Tão humano quanto Ron em seu primeiro ano, se sacrificando com obstinação...
Tão humano quanto Mione o abraçando e o confortando após sua perda mais drástica...
Tão humano quanto Sírius e seus pais, dando suas vidas para protege-lo...
Mas havia algo completamente diferente nessa sensação de humanidade, de vida e de sentimentos, pois Malfoy estava sendo tão humano por aparentar pedir socorro, ser confortado, ser querido e protegido...
Era como se Malfoy colocasse em suas mãos a oportunidade de ser o sanador, e não o ferido... De ser o protetor e não a vítima...
E de certa forma desejava ser esse protetor, quem consola, quem mima, quem envolve...
Mesmo sendo aquele que deve vencer, sabia perfeitamente que todos a sua volta o protegem, que estão determinados em se sacrificarem para que chegue lá, que vivem cuidando de cada passo seu, para que não caia pelo caminho...
E invariavelmente, dessa forma, não o deixam respirar, não o deixam estender a mão para quem precisa e não conseguem enxergar que também pode socorrer e sair com vida para o confronto final...
Era angustiante viver nessa redoma de absoluta proteção, mesmo estando agradecido por cada sacrifício de seus amigos e daqueles que amava, mesmo assim, era angustiante vê-los sofrendo, se acabando e morrendo para que continue respirando por mais um dia...
Seus olhos voltaram a percorrer o corpo de Malfoy e o viu se sobressaltar por mais um soluço que tragava a duras penas.
Decidido, se ergueu da poltrona e se aproximou do espelho, vendo como a luz lilás o envolvia. Respirou fundo e chamou em tom suave.
- Draco...
Malfoy se encolheu assim que ouviu seu nome, apertando os olhos com força e se negando a responder.
- Draco... Deixe-me ajudá-lo... Por favor...
- Você não pode... – viu como o loiro abria vagamente os olhos, derramando duas lágrimas em seu trajeto. – Você é um simples espelho – ironizou com a voz fanhosa pelo choro retido por longo tempo.
Harry ficou ainda mais chocado, notando o quanto esse slytherin era contraditório. Horas atrás era esnobe e debochado, como se sua vida fosse as mil maravilhas e agora, estava tão arrasado e triste como se sua vida fosse uma tragédia.
- Você pode se desabafar... – tentou, mordendo o lábio inferior em agonia, sem saber realmente como se fazia para confortar alguém.
Draco ficou observando seu reflexo através de seus claros cílios. As lágrimas formavam uma névoa em sua visão, mas mesmo assim, podia ver claramente a si mesmo, naquela superfície fria emoldurada por flores douradas, como se realmente quisesse ajuda-lo e conforta-lo. Via preocupação aos olhos prateados e angustia por presenciar a si mesmo naquela situação lamentável.
- Por favor... – seu reflexo implorou tão suave e carregado de sentimento, que era até impossível ter vindo de uma mera magia.
As lágrimas voltaram a embargar os olhos prateados. Malfoy se encolheu ainda mais, dessa vez soltando soluços baixinhos.
- Estou morrendo... – murmurou por fim, a voz carregada de dor que estremeceu o coração de Harry, do outro lado do espelho.
O moreno se retesou, as palavras de Malfoy penetrando em sua mente e sendo processadas, sentiu o momento em que sua preocupação e angustia por vê-lo naquele estado, dava lugar ao pânico e desespero. Seu peito se oprimiu, a voz sumiu na garganta e apenas conseguiu arregalar os olhos com espanto.
Mas tentou recobrar o controle do próprio corpo quando a voz apagada do loiro se fez ouvir novamente, mais baixa que antes.
- Estou morrendo sozinho... – e voltou a fechar os olhos com tristeza.
- Draco... Por Merlin... Eu não entendo... – Harry apoiou as mãos na borda do espelho, apertando inconscientemente – Olha pra mim. – pediu, mas o loiro não voltou a abrir os olhos, o que o fez se desesperar – Draco! - Com sacrifício Malfoy voltou a abrir os olhos e o focou com cansaço. Harry voltou a sentir seu peito oprimindo – Não vou deixa-lo morrer... Entendeu? Eu não o deixarei morrer... – disse com calma e cuidadosamente.
Viu como o slytherin franzia o cenho de modo doloroso e mordia o lábio inferior, deixando-o avermelhado. Seu olhar azulado percorreu o quarto, para então, com um tremendo esforço, se erguer com a ajuda dos braços.
Assim que Malfoy se sentou, de seu corpo rolou um frasco vazio de poção que no instante seguinte caiu da cama e foi parar ao centro do tapete. Isso fez Harry ficar ainda mais preocupado.
- Draco... O que andou bebendo? – seus olhos não se desviaram do frasco.
Malfoy seguiu seus olhos até o frasco e sorriu com desgosto, negando com a cabeça ignorou a pergunta. Deslizou os pés para o chão e se incorporou. Vacilou alguns passos, as pálpebras se fechando como se estivessem pesadas e se aproximou do espelho.
Seus longos e brancos dedos tocaram a superfície fria do espelho e foi deslizando até se sentar no chão.
Harry o acompanhou, também se sentando no chão, ao seu lado.
- Você é o primeiro que me diz isso... – Malfoy sorriu de leve, apoiando um ombro contra o espelho e descansando seu peso, depois pousou a cabeça, ficando levemente inclinado. – Pena que não passa de um simples feitiço...
Não entendia porque, mas ver Malfoy nesse estado o fazia se esquecer de todas as brigas, de que o detestava e que chegou a desejar que ele sumisse de sua vida. Seria sua síndrome de herói altruísta? Não sabia dizer...
Era como se fosse seu dever resgata-lo do que seja que o estava consumindo. Seu estado não parecia ser uma brincadeira de mau gosto, parecia real, doloroso e triste...
Extremamente triste...
Era como se ele estivesse realmente cansado de continuar vivendo, que preferia se deixar levar, para ter um pouco de descanso, e se perguntou o que lhe faziam... Quem estava lhe causando tanto sofrimento.
- Não se preocupe Draco... – murmurou. – Vou estar aqui e o ajudarei no que for preciso... Nunca o deixaria perecer...
Enquanto dizia essas palavras de conforto, mal notou que atrás de si, cortinas brancas se desenrolaram magicamente e encobriram as janelas, como uma suave e ao mesmo tempo resistente barreira. Um grosso tapete apareceu ao meio do cômodo, dando mais calor, assim como mais uma poltrona surgiu frente à lareira, como se invitasse o dono a se sentar confortavelmente frente ao fogo para se aquecer do frio.
Os olhos de Harry apenas estavam fitos ao semblante suave de Draco, contemplando de perto a caída que formava suas pálpebra terminando em longos fiozinhos platinados, levemente curvados.
A mão do loiro ainda se mantinha espalmada contra o espelho. Observou como era isenta de cor. Levantou a sua e também a pousou sobre a superfície fria, de encontro a ela e foi como se pudesse sentir a maciez de Malfoy.
Draco permaneceu de olhos fechados por alguns minutos, até que quebrou o silencio e a contemplação de seu reflexo.
- Lembra quando me perguntou sobre o Trio de Gryffindor? – Draco sorriu sem esperar uma resposta e continuou. - Queria que ele me tirasse daqui... Que me socorresse como faz com seus amigos... Queria poder enxergar nele o herói que todos vêem... Mas ele me rejeitou uma vez, e só uma única vez alguém me rejeita. Me decepcionei desde aquele dia, não pela rejeição em si, mas ao descobrir que ele não era como todos diziam... Ele me julgou sem me conhecer e nunca de fato quis saber como eu era... – suspirou com cansaço – Eu posso ser tudo aquilo que ele me xinga, mas boa parte foi em função ao que ele próprio criou. As pessoas mudam conforme as convivências... Se tivéssemos sido amigos, talvez eu saberia como é ter sentimento de equipe e ser cúmplice, e talvez eu seria mais um de seus cúmplices em cada regra quebrada... Talvez ele me faria aceitar a sangue ruim como uma igual e ao ridículo do ruivo mesmo ele sendo pobre... Porque ele tem carisma e sempre consegue o que quer, e acho que não seria tão diferente comigo... Se tivéssemos sido amigos...
Harry fechou os olhos com pesar, frente a essas palavras tão duras, mesmo sendo ditas com tanta suavidade.
Agora sabia o motivo de ser tão desprezado... E pensava se realmente seria diferente, pois como Malfoy acabara de dizer, as pessoas possuem a capacidade de mudar umas às outras com a convivência, tanto para o bem, como para o mal.
Se não tivesse se precipitado em excluir qualquer possibilidade de convivência com esse loiro, talvez teria conseguido algo bom no final das contas... Tão satisfatório para Malfoy, como para si próprio, pois como dito, as pessoas aprendem coisas novas com as convivências...
Voltou a abrir os olhos para ver que Malfoy adormecera ali, os braços caídos frouxos em seu colo, as pernas dobradas e o corpo inclinado contra o espelho.
Quis carrega-lo para deita-lo na cama onde pudesse dormir com mais conforto, mas não podia. Então, se encostou de igual forma contra o espelho, como um verdadeiro reflexo e ali adormeceu, confuso demais para tentar saber o que acontecia com eles, angustiado demais para tentar entender em quê estava se metendo e se culpando, pois sabia que fizera mais um erro e que muitas coisas, talvez, poderiam ter sido evitadas, se tivesse tomado outras decisões...
Sua única certeza era a de nunca deixa-lo sozinho...
A fraca luminosidade do sol fez com que acordasse. Piscou algumas vezes para dispersar o sono remanescente e adaptar os olhos com a claridade até que sentiu seu corpo dolorido e levemente dormente.
Xingou baixo ao notar que adormecera sentado no chão e numa posição desfavorável para dormir.
Com preguiça endireitou o corpo e esfregou a nuca, tentando amenizar o mal estar. Então seus olhos focaram o espelho.
Sorriu um pouco e mal se dera conta que havia sorrido. Seu reflexo estava bem ao seu lado, ainda dormindo, o que achou bem estranho para um feitiço de espelho. E se recordou das palavras confortantes e carregadas de preocupações que lhe dispensara até o último segundo, antes de adormecer.
Tocou no vidro, bem sobre o rosto de si mesmo, como se fosse um tímido carinho de gratidão.
Via a si mesmo, sem tirar nem pôs. Era o seu cabelo liso, fino e platinado, seu rosto suave e pálido, as mesmas maçãs do rosto, os mesmos lábios rosados e definidos, assim como os olhos, tão pratas como deveriam ser, sem um tom a mais ou a menos...
Entretanto, havia a berrante diferença nas personalidades, no caráter e na forma de se expressarem.
Se de aparência eram tão idênticos, mais idênticos dos que gêmeos, na personalidade e na forma de pensar eram completamente distintos, e isso era o que estava lhe fascinando...
Olhava a si mesmo e sentia-se atraído...
Draco não era tolo e percebera que esse espelho deveria ser especial e único. Seria alguém ali preso?
Era possível...
Alguém que morrera, e sua alma ali estava confinada por toda a eternidade?
Era o mais provável...
Esse pensamento fez amenizar o sutil desespero por se ver gostando de si próprio. Gostando das palavras que absorvera e lhe acalmara consideravelmente na noite anterior...
Gostando dessa inusitada companhia...
Seu sorriso se alargou um pouco mais, antes de se levantar de deixar o quarto, em direção ao banheiro. Se trocaria ali para só voltar ao seu dormitório em Slytherin para pegar seus materiais antes de tomar o café da manhã.
Depois de meia hora, voltou para frente do espelho e notou que seu reflexo ainda estava adormecido. Contemplou-o por um par de minutos e marchou rumo às masmorras, mais alegre em passar o dia, mesmo o efeito da poção que tomara o deixar com um inevitável vazio por dentro.
Quando a passagem do refúgio de Draco se fechou, deixando o quarto sozinho, foi que Harry abriu os olhos e girou o corpo, ficando encostado na superfície plana do espelho.
Estava acordado fazia algum tempo e a única coisa que conseguiu fazer foi ficar ali, observando o slytherin dormindo.
Era estranho...
Suspirou longamente com a mesma sensação de ontem... Com a mesma determinação crescendo dentro do peito...
Não sabia se estaria fazendo certo, mas se pudesse ajudar a Malfoy, se utilizando daquele espelho, assim o faria. Ao menos usaria esse artefato de forma certa e não apenas para espionar e caçoar dos outros, como no início pensou em fazer.
Fechou os olhos, jogando a cabeça para trás até encostar ao vidro e puxou na memória cada pedacinho de pele, de fios, de pêlos, de lábios e lágrimas que contemplou na noite. Não precisou se esforçar para que esses trechos de corpo e pele lhe dominassem a mente, causando um estranho calafrio em sua coluna.
Esse era um Draco Malfoy que valia guardar vivo na memória...
Olhos túrgidos o fitando com intensidade, lábios semi-abertos e ofegante, pele levemente rosada...
Se sobre-saltou quando essas novas imagens surgiram sem sua permissão. Estremeceu tentando borrar esses pensamentos, mas que de fato nada adiantou.
Foi então que decidiu sair dali e retornar o quanto antes à Gryffindor para se aprontar, ou chegaria atrasado na primeira aula, pois já se fazia tarde e mal se dera conta que perdera tanto tempo apenas assim, contemplando, imaginando e sonhando acordado.
Agradecimentos à: Bella Potter Malfoy (obrigada pelas palavras e pela compreensão! É gratificante saber que gosta das fics e que sempre as acompanhará! Bjs!), Gê-Black (obrigada pelas palavras e pela compreensão. Aqui expliquiei o que tem nessa inimizade, mas também dei margens a outros mistérios em relação ao Draco. Espero que tenha gostado e que acompanhe sempre, apesar da longa demora nas atualizações. Bjs!), Giulia Lovegood (obrigada pelas palavras! Bjs!), Scheila Potter Malfoy (obrigada pelas palavras! Apesar de que essa fic não será longa, mas espero que goste mesmo assim. Adoro seus coments! Bjs!), Felton Blackthorn (obrigada pelas palavras, que bom que está gostando dessa fic também, espero que a acompanhe sempre. Quanto a Segunda Chance, ela está um pouco encalhada, mas já escrevi uma parte do capítulo, espero que eu consiga escrever o resto em breve para estar postando. E desculpe, só agora estou lendo as reviews daqui, e que notei sua pergunta. Quando o FF não deixa postar, eu exporto um chap já existente, depois eu edito ele apagando tudo e no lugar colando o chap novo. Espero que ajude. Bjs!), Inu (obrigada pelos 2 reviews, apesar de serem mais um apelo para atualizar Caminho do Coração "risos XD", mas me alegra que goste tanto assim daquela fic a ponto de ler outras minhas e deixar reviews! Bjs!), Flor da Aurora (obrigada pelas palavras! Bjs!), Rafael9692 (obrigada pelas palavras, fico até sem saber como agradecer! Espero que acompanhe sempre essa fic, e nesse capítulo, coloquei um pouco mais de mistérios, achei que estava precisando para incrementar um pouquinho na trama :). Bjs!) e Tonks Black (obrigada pelas palavras! Bjs!).
E obrigada à Bibis Black por betar.
Até o próximo capítulo.
