Beta: Scheila Potter Malfoy
Fanfiction dedicado a: Meel Deep Dark e milinha-potter.
Parte 4
- Se adiciona primeiro as asas de mariposas ou as folhas de mandrágoras?
Draco sorriu e ergueu os olhos para ver seu reflexo. Estava em seu refúgio, deitado de bruços no tapete frente ao espelho. Seu reflexo estava igualmente da mesma forma e ambos tinham pergaminho e tinta em suas frentes e ao lado, um livro de Poções aberto na página correspondente ao trabalho. Enquanto tinha a mania de morder a ponta da pluma ao qual escrevia, o seu outro eu a rodava entre os dedos.
- Primeiro se agrega à poção o cedro previamente picado em cubos. – Viu como seu reflexo torceu os lábios e tratou de rabiscar algo em seu pergaminho e escrever o que acabava de dizer. – Depois as asas e por último as folhas.
Draco ficou observando como sua imagem era perfeita, não no sentido físico, mas tinha algo, ou melhor, várias coisas que não possuía. Notava um olhar verdadeiro e carregado de emoções. Quando sorria, era com vontade e sem vergonha e fazia alguns gestos que eram até graciosos.
Harry, que terminava de anotar em seu pergaminho, ergueu os olhos para ver Draco o olhando. A cabeça apoiada na palma da mão esquerda e um distinto sorriso detrás da pluma que mordiscava. Instantaneamente sorriu de volta.
Os dias que se seguiram, permaneceram sempre ali, como se houvessem entrado em um acordo mudo de passarem o tempo livre na companhia do outro.
Não se estranhavam mais e eram gratificantes essas horas.
- Não quero mais estudar. –Empurrou os materiais para o lado, quitando de sua frente e cruzou os braços frente ao peito.
- Sabe... – Draco também afastou seus materiais, não como Harry. Fechou o livro tendo o cuidado de demarcar a página, enrolou o pergaminho e os colocou cuidadosamente para o lado. – Quando te olho, eu vejo a mim mesmo, mas... Somos distintos.
-Distintos como? –Harry camuflou um sorriso. Sem dúvida eram completamente diferentes.
-Somos opostos. Enquanto eu sou ótimo em poções, você é lamentável. – Explicou, rindo quando seu reflexo ficou com uma expressão indignada.
- Não sou tão burro assim! – Se queixou em tom baixo e ofendido.
- Não disse que era burro, eu disse que era lamentável em poções. Entretanto, em Feitiços você é ótimo. E sou organizado, não faço isso que acabou de fazer. –Apontou para os materiais em seu espelho.
Harry deu uma olhadinha neles. Livro ainda aberto e pergaminho amassado como se fosse reutilizado depois de estar no lixo. Corou um pouco, vendo pela primeira vez como era relaxado. Ron era igual a si e os demais alunos de sua casa nunca disseram nada a respeito de ser tão preguiçoso. Só Hermione que lhe advertia, mas como ela era Mione, não levava a sério.
- Tem razão, não posso continuar assim. –Concordou, tentando inutilmente alisar o maltratado pergaminho para deixá-lo mais decente.
- A primeira coisa que Severus analisa, não é o que está escrito, mas o estado do trabalho. Depois a caligrafia, se está feita com desleixo ou se foi com cuidado. Isso lhe mostra a personalidade de cada aluno. Se a letra é grande e corrida, feita em garranchos, ele sabe que o aluno é preguiçoso e só por esse fato, ele já tem noção do que encontrará ali escrito. Nada coerente e faltando muitas coisas essenciais para uma pesquisa. Ganhamos pontos desde o exemplar trabalho até o conteúdo descrito e a riqueza nos detalhes.
- Então é por isso que os Slytherins tem notas mais altas em Poções? – Ficou surpreso por essa descoberta.
- Você diz como se Severus desse credencial para nós, o que não é verdade. –Negou com a cabeça sem alterar seu bom humor. – Se fosse assim, Hermione Granger e Dean Tomas não teriam notas altas nessa matéria. E Crabbe e Goyle não teriam notas tão baixas. A diferença é que todos os Sly são esforçados e cuidadosos, principalmente se tratando da matéria do nosso tutor de casa.
- Verdade... – Harry finalmente entendeu que o seboso e intragável Snape não faria algo assim. Ele e Ron também tinham as notas mais baixas, só perdendo dos dois Slytherins citados por Malfoy, mas porque eram mal nessa matéria, além de serem relaxados.
- Como você conhece todos esses alunos que conversamos?
Essa pergunta de Draco fez Harry se sobre-saltar.
- Apenas conheço. –Deu de ombros, sem fitá-lo nos olhos.
Ficaram em silencio durante um tempo, até que o loiro se fez ouvir.
- Lembra quando falei que fiquei com várias pessoas?
Harry ergueu os olhos do tapete ao qual estava mirando, quando chegara a seu refúgio pela manhã do dia anterior esse tapete havia surgido bem ali, e se perdeu em prata brilhante. Draco permanecia na mesma posição, a cabeça descansando em sua mão e mordiscando a ponta da pena.
- Lembro. – Sorriu um pouco. Havia sido um choque saber que ele ficara com Seamus.
- Eu menti. –O loiro abriu um tímido sorriso enquanto, pela primeira vez, suas bochechas coravam de vergonha.
- Você. Mentiu... – Repetiu perplexo. Por pouco não agüentava e perguntava para Finnigan se Draco era realmente bom na cama, como todos diziam que era. Chegou a ponto de morder a língua ao ter o irlandês à disposição para suas curiosidades em relação a Malfoy, só não perguntou por não saber o que explicaria, se Seamus inquirisse como ficou sabendo disso, pois parecia que ninguém sabia.
- Menti. –Confirmou suas palavras. – Nunca estive com ninguém.
- Mas e os boatos que se espalham por toda Hogwarts... –Ainda estava pasmo.
- Que eu sou o rei do sexo? – Riu alto rolando o corpo para ficar de barriga pra cima. – É exatamente isso, boatos. Tudo começou com Pansy e a mentira que ela deu a todos depois do Baile de Inverno em nosso quarto ano. Ela estava tão revoltada porque nem sequer a beijei como ela garantiu às meninas que ia acontecer, então disse para Dafynne que tivemos uma louca e apaixonada sessão de sexo. Quando me perguntaram se era verdade o que se falavam pela Sala Comunal eu simplesmente não disse nada. Surpreso e curioso demais para saber o que aconteceria se essa dúvida continuasse.
- Todos acreditaram... – Harry permaneceu do mesmo jeito, observando o corpo pálido que estava displicente sobre o tapete.
- Sim. – Draco voltou a girar o corpo para conseguir ver seu reflexo. Nesse movimento, seu cabelo ficou levemente desgrenhado. – Dafynne, que tem uma saudável rivalidade com Pansy, esperou que chegasse a festa de Salazar Slytherin daquele mesmo ano e inventou que eu a encurralei num dos corredores desertos perto da aula de Adivinhação para passar o tempo e que foi incrível. – Voltou a rir, sem se gabar pelo que contava, como se isso fosse absurdamente patético e engraçado. – Eu não disse nada contra nem a favor, então passou a ser tido como verdade. Passei a ser um libertino, como Casanova, por estar com duas garotas, então outras se aproveitaram de minha fama e passaram a inventar aventuras com o monitor de Slytherin, tarde da noite e em algum recanto escuro.
Harry também sorriu, sem acreditar. Jurava que esses boatos eram verdadeiros, porque tinham pessoas que viram Malfoy com alguém pelos cantos de Hogwarts. Agora duvidava de tudo que se fofocavam pelo castelo.
- Por que resolveu me contar a verdade? – Estava louco por saber.
Draco parou de sorrir e pensou um pouco. – Não sei. – Deu de ombros.
- Confia em mim? – Harry sussurrou, ainda preso no olhar do loiro.
- Você é apenas um espelho e fica num quarto isolado. –Sorriu um pouco. – Só se você é como os quadros e pode passar de espelho a espelho.
Oh, certo. Como foi se esquecer que era apenas um reflexo? Ficou mais decepcionado do que imaginou.
- Não... Creio que não posso fazer isso... – E tentou um sorriso.
Notou que Malfoy o olhava estranhamente, com um brilho diferente nas esferas azuladas.
Draco sim sabia por que havia contado aquilo. Era o mesmo motivo que o levava até ali todos os dias e que o fazia querer viver nesse mundo ao invés da realidade de fora. O mesmo motivo que fazia com que parasse tudo que estava fazendo, para se fitar em qualquer espelho que lhe surgisse pelo caminho e ficar se olhando e se analisando com um sutil sorriso.
Blaise e Pansy começaram a lhe dizer que estava estranho e os outros a chamá-lo de Narcisista. Sabia que tinha um pouco disso, mas eles nunca dariam conta de seu confidente, de seu companheiro nos momentos mais solitários.
Estava se fechando dentro de si, julgando que ele próprio supriria a falta de contato com o mundo, que tudo passou a girar em torno de si mesmo.
As conversas mais interessantes e os segredos mais bem guardados eram para o Draco do espelho. As confissões mais íntimas e os momentos mais felizes eram para o Draco do espelho...
Estava ficando tão apegado ao Draco sorridente naquela superfície fria que passou a desejar mais que uma casual conversa.
A poção do sono que estava dependente fazia dois anos passou aos poucos a ser esquecida dentro de seu baú, no quarto comunitário das masmorras.
As cobranças rígidas de seu pai, mesmo este estando preso, passaram a ser jogadas num canto qualquer de sua mente.
A marionete sem vida, manipulada ao bel prazer dos outros, voltava a ter carne e alma, quando pisava em seu refúgio e encontrava a si mesmo o esperando com aquele confortante sorriso de boas vindas.
"Como foi seu dia?" –O reflexo sempre lhe perguntava, como se seu bem estar e o que fizera era mais importante que qualquer outro assunto.
Frases que nunca dissera antes passou a dizer com freqüência, como:
"Quero conversar". "Me sinto sozinho". "Estou com medo".
E ouvia dos lábios daquele Draco tão diferente de si a que mais lhe agradava: – "Fique mais um pouco, não vá embora agora".
Lábios que imploravam sua companhia...
Baixo a mirada de si mesmo, levou dois dedos de encontro à própria boca, contornando com lentidão.
E o último desejo surgiu em seu peito, direcionado a si mesmo, do outro lado dessa superfície plana, emoldurada com narcisos.
Queria senti-lo...
E as duas molduras sobre a lareira se preencheram de uma tela amarelada, uma com a imagem do dono desse recanto, cabelo platinado e olhos fulgurantes e a outra com a sombra de alguém sem rosto e sem cores, como se fosse feito em aquarela.
- Draco? – Harry lhe chamou baixo, impressionado com tamanha sensualidade, beleza e ternura que irradiavam por todo o corpo do loiro.
- Não me olhe assim, por favor... –Implorou em um suspiro. – Me excita...
Seu reflexo ficou perplexo com essa revelação. Os olhos se arregalaram e um vermelho intenso tingiu suas bochechas.
Harry levou a mão ao peito, sentindo seu coração disparado e a própria excitação escolheu esse momento para aparecer, percorrendo seu sangue até o baixo ventre.
Ficou mais tenso quando Draco se engatinhou até o espelho e lhe sorriu um pouco. Tomou coragem e fez o mesmo parando bem próximos, apenas separados pelo vidro expeço.
Com cuidado o loiro encostou os lábios na superfície fria e espalmou a mão direita como um apoio. Não precisou de muito para pousar a sua contra a de Malfoy e encostar os lábios de encontro aos dele. Não fecharam os olhos para poderem se mirar intensamente.
Mesmo só conseguindo sentir o frio daquele objeto que lhes barravam o contato, Harry sentiu o calor lhe invadir o peito, e seu quarto, já quase todo mobiliado, terminou por se completar, sendo uma cópia fiel ao de Malfoy. E sobre sua lareira, as duas molduras se preencheram, uma com seu próprio retrato, a outra, com o retrato de Draco.
Quando o último matiz de tinta acabou por se espalhar pelo cabelo do quadro que representava Draco, o espelho se enegreceu por completo.
Assustado, tateou sem noção do que havia acontecido, enquanto do outro lado, Draco se viu se olhando a um simples reflexo seu. Os olhos que fitava não tinham mais aquele brilho nem aquele algo distinto por quem tanto se envolveu.
Também se afastou e se moveu, vendo sua cópia seguir fielmente todos os seus errôneos movimentos.
- Dray? – Chamou baixo, totalmente perdido.
E o reflexo apenas se manteve ali, confuso à espera da mesma resposta.
E foi assim até o avançar da noite, quando tiveram a obrigação de dormirem mesmo sem vontade, e no dia seguinte, quando despertaram cedo para correrem ao espelho, na esperança de se verem novamente.
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Harry caminhava desanimado ao lado dos dois melhores amigos. Tivera aula em conjunto com Slytherin, apenas para descobrir que Malfoy faltou às aulas.
Ficou preocupado.
Nessas poucas semanas que mantiveram contato através do espelho, o loiro havia lhe confidenciado sua vida, o porquê de estar deprimido, de não ter sono, de fingir o tempo todo.
E descobriu que não era o único que sofria por algo que não pediu. Que não era o único usado dentre todos os demais. E as cobranças, mesmo que bem diferentes em relação às de Malfoy, abalavam seu emocional da mesma forma.
Também precisava da ajuda de uma poção para dormir, também tinha seus segredos que não podia contar pra ninguém, nem mesmo para seus dois inseparáveis amigos, e sabia o que era se sentir sozinho...
Viveu na solidão por onze anos.
- Harry, você vem com a gente? – A voz de Hermione penetrou seus ouvidos.
- Não. Preciso ir falar com uma pessoa. –Não chegara a ouvir pra onde, mas já sabia que não iria com eles.
- Quer que te acompanhe? – Ron se ofereceu, nitidamente preocupado com suas distrações.
Sempre quando Harry ficava distraído, era motivo de assuntos graves.
- Não precisa, estou bem. –Negou, compadecido pelo carinho que esses dois tinham por si.
- Pelo menos nos diz aonde vai. Pra não ficarmos preocupados como nessa noite, que não dormiu na Torre. – A garota lhe ralhou, desaprovando seu repentino sumiço.
- Falar com Dumbledore. –Mentiu dolorosamente. Não gostava de mentir a eles, mas não podia dizer sobre seu refúgio.
Deixou a ambos acreditando em sua mentira e correu pelos corredores e escadas, com uma fagulha de esperança em rever o outro lado do espelho.
Ao alcançar o corredor de Eco, se ateve em observar os quadros. Parou de frente ao que demarcava a entrada de seu quarto, o único quadro em que Eco conversava e não apenas repetia o que dizia. Já havia tentado falar com a Eco de outra moldura, mas foi frustrante. Aquele também era o único quadro em que Narciso estava morto.
- Diga a senha. – A jovem moça lhe sorriu.
- Por que você pode conversar e as outras não?
- Finalmente reparou isso? – Ela voltou a lhe sorrir, com tristeza. – Porque meu amado está morto...
- Não entendo.
- Não tive coragem de me declarar a ele quando podia, então foi tarde demais... Por vingança, Hera me afetou da forma mais dolorosa que existe, me distanciando eternamente de quem amo. Assim que Narciso morreu e meu amor nunca pôde ser retribuído, ela me libertou dessa sina, para carregar em meu coração o martírio da dúvida e do arrependimento –Ela olhou ternamente ao moço afogado. – Se eu pudesse lhe dizer, ele ainda estaria vivo?
Harry estremeceu inteiro. - As palavras de Eco havia lhe desvendado o enigma do espelho.
Pronunciou a senha e entrou no quarto, reparando pela primeira vez, as mudanças que ele sofreu.
Seu recanto era a cópia perfeita da de Draco. Caminhou lentamente até o meio do aposento e fitou a parede sobre a lareira. Ambos os rapazes sorriam emoldurados.
O Espelho era como um elo de ligação entre quem desejava ao objeto de desejo. Todo o tempo, a resposta era a mais simples e explicita que poderia existir.
Desejava o morador do quarto contíguo. Desejava estar perto dele.
Uma mão foi posta em seu ombro, o assustando. Girou o corpo para se deparar com Dumbledore e fazer de sua mentira, uma verdade. O velho mago estava preocupado com ambos os rapazes e permitiu que levassem essa aventura, sem interferir.
- O senhor sabia? – Perguntou com a voz tremida.
- O tempo todo... –O velho lhe sorriu com carinho. - O quarto em que está retrata seu coração e seus anseios, Harry. No início, seu coração estava vazio, depois de tantas perdas por qual tivera de passar e não queria nada, além de querer ver tudo acabado o mais pronto possível. – O velho começou a explicar - Conforme sua convivência com Draco, seu coração começou a se preencher aos poucos e passou a desejar compartilhar o tempo e o lugar com ele, então, seu quarto passou a se encher daquilo que passou a querer... Um lugar criado por Draco. Do outro lado. – Apontou ao espelho. – A magia que envolve Hogwarts fez surgir o lugar perfeito para o jovem Malfoy. Tudo que você viu ali foi criado por ele. E ele se vê através do espelho, porque em seu coração e em seu mundo, está sempre sozinho. Esses quartos são como a Sala Precisa e foi criado pelos fundadores de Hogwarts. Existem mais delas espalhados pelo castelo.
- E os quadros lá fora? – Harry quis saber.
- Fui eu quem os colocou ali, para vocês dois não se perderem pelos inúmeros corredores – o velho sorriu com divertimento. – Quis passar a vocês a história de amor trágico desses dois personagens, pois estão caminhando pelo mesmo destino.
O moreno o olhou confuso. – Eu nem sabia que gostava de Malfoy. Ao contrário, creio que comecei a gostar dele depois desses acontecimentos todos.
- Eu só coloquei os quadros no corredor Harry... O resto, vocês criaram...
- Tudo? – O diretor confirmou com a cabeça. – E quem criou o espelho?
- Ah, o espelho! – Os olhos do velho ancião brilharam por tocar nesse assunto. - O espelho foi criação exclusivamente sua, Harry.
- Quê? – Ficou surpreso, não acreditando.
- O que você mais desejava quando encontrou esse lugar, Harry?
O moreno pensou por um tempo, antes de responder. – Desejava um rumo para minha vida, desejava algo que me fizesse esquecer do sofrimento... – Sua voz diminuiu – Desejava entender a mim mesmo...
Dumbledore se aproximou do espelho e o analisou com aprovação. – Essa foi sua resposta. Você criou este espelho justamente para te mostrar o que precisava, para ter um rumo em sua vida, algo em que acreditar e viver.
- E por que ele ficou negro? – A voz do moreno ficou levemente triste.
- Porque você conseguiu o que buscava. Já sabe o que sente e o que quer. –Mostrou com a mão ao redor do quarto. – Quer um lugar seu, mas que também seja perfeito para outra pessoa... Um lugar a compartilhar com ele... Não precisa mais do espelho. – Fez uma pausa, esperando que suas palavras fizessem sentindo ao seu pupilo. – Não seja como Eco... Não espere que Voldemort te arrebate quem você mais quer, para então se dar conta quando for tarde demais...
Os olhos de Harry se tornaram firmes e decididos. Não cometeria o erro de Eco. Não colocaria tudo a perder, não depois de saber o que sentia, depois de saber como Malfoy era.
Com determinação fez sua mente trabalhar rapidamente. Sabia que o loiro ficara ausente durante todo dia e agora à noite, não daria a graça de sua presença. Draco estava em seu refúgio, do outro lado do espelho.
Caminhou até ficar em frente à superfície plana e enegrecida. Apoiou ambas as mãos na borda de ouro e desejou com todas as forças.
- Quero chegar até Draco! –Disse em voz alta. Se ele realmente era o criador desse espelho, conseguiria o que desejava. – Quero chegar até Draco!
O negror que manchava o vidro se diluiu para lhe mostrar o outro lado.
Draco estava sentado no chão, encolhido ao lado da cama e da escrivaninha. Abraçava as pernas e escondia o rosto entre os joelhos.
Dizia a si mesmo que era apenas um reflexo originário de uma tola magia. Que aquele Draco que lhe fez companhia e lhe ergueu da miséria ao qual se via afundando não existia.
- Não é real... Não possui coração... Não possui sentimento... – Repetia várias vezes com a voz abafada – Ele não era vivo...
Mas a sensação deprimente de ser abandonado mais uma vez lhe corroia por dentro. Voltou a olhar o espelho, vendo somente o reflexo de um rapaz débil e fracassado, como diria seu pai. Sentado no chão contra a parede e chorando.
Voltou a soluçar, escondendo o rosto novamente.
Depois de se apegar tanto ao seu amigo imaginário, depois de construir esse mundo, longe das pessoas hipócritas, lugar inalcançável pelos que queriam que desse sangue para uma guerra que não era sua... Era angustiante.
Queria viver nessa fantasia até a morte, mas nem isso tinha a satisfação de possuir.
Harry ficou confuso que o loiro não o viu ali, então se lembrou que Dumbledore disse que o espelho era apenas para que descobrisse os seus próprios sentimentos e isso já havia descoberto.
Esmurrou o vidro com desespero. – Draco!
E na mente de Draco voltava toda a sua vida. O menino voltava a ser a marionete... E lembrou-se que Voldemort exigira sua presença...
Não conseguiria ir adiante com tanta pressão ao seu redor, não tinha mais ninguém que o fizesse desejar estar ali mais um dia.
Vivia numa mentira e continuaria vivendo até quando cansassem de si, depois seria jogado fora.
Com medo, agarrou a própria cabeça, tentando se livrar desses pensamentos, mas elas voltavam com mais força, depois que se viu abandonado.
E as palavras de seu pai o atormentavam como se sussurrasse com cinismo em seus ouvidos. "Apenas uma marionete sem coração vivendo uma vida de mentirinha".
Draco se arrastou pelo chão em busca de suas coisas. Abriu a bolsa que sempre levava ao refúgio e esparramou seu conteúdo sem cuidado, procurando alguma poção.
Não havia nenhuma, pois fazia dias que não precisava delas.
Harry voltou a se concentrar no espelho, desejando ardentemente consolar ao loiro... Dizer a verdade, dizer que era ele todo o tempo, e que ele continuaria ali, não apenas dentro daquele quarto, mas em qualquer lugar, em qualquer hora.
E seu desejo se expandiu numa fraca luz azul que o envolveu. Seus braços vararam o vidro frio do espelho e sentiu-se caindo.
Quando conseguiu se recompor desse surto momentâneo, estava no quarto de Draco e este o olhava com assombro, ainda sentado no tapete dentre suas coisas esparramadas.
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Enquanto vasculhava suas coisas, sentiu uma enorme magia vinda através do espelho. Olhou a tempo de ver, assustado, seu reflexo atravessar a barreira que dividia a realidade da fantasia.
Ficou ali sentado, como que em choque, sem acreditar.
Um rapaz de cabelos platinados o olhava com aquele mesmo sentimento no olhar e um triste sorriso nos lábios.
- Draco... – Ouvir novamente seu nome lhe causou um estranho arrepio. – Você está bem? Posso te ajudar? – E uma mão foi estendida para que a segurasse como apoio.
O loiro estendeu a mão que tremia visivelmente, lágrimas ainda manchavam seu delicado rosto, mas não chorava mais.
Quando seus dedos se tocaram e suas mãos se fecharam em carne, osso, calor e tato, Draco não resistiu ao impulso de se balançar contra seu outro eu, num abraço desesperado e há muito ansiado.
Seus corpos voltaram ao tapete ainda num agarre firme. Draco ficara por cima de seu reflexo e lhe sorria amplamente.
Não disse uma única palavra, apenas se vergou contra essa boca que outrora queria ter sentindo. Maciez molhada se mesclaram com tanta doçura e paixão, que os fizeram apenas se entregarem ao momento.
Logo seus braços e pernas entraram na dança sensual, causa primária dos sentimentos. Não sabiam quanto tempo ficaram desejando esse contato, por toques, beijos, abraços, suor e gemidos, apenas perceberam que fazia muito, muito tempo, muito antes de encontrarem aquele lugar, muito antes de se verem através do espelho.
Seus corpos foram despojados de tecidos incômodos para se deliciarem com pele e odor.
Rolaram pelo chão aprofundando ainda mais o beijo e os toques sendo cada vez mais ousados e trocaram as posições. Cabelos se uniram para formarem um único emaranhado platinado, que ondulavam a cada movimento.
Draco abriu os olhos para se deleitar não apenas com as sensações, mas com a visão. Prata fulgurante buscava o mesmo tom em seu igual, mas encontrou verde intenso carregado de desejo.
Um Draco de olhos verdes lhe aprisionava deliciosamente com o corpo pálido. Abriu as pernas e as deslizou pelas dele, sentindo a musculatura das coxas até as encaixar na linha suave do quadril e gemeu quando suas ereções se tocaram e friccionaram.
Mesmo com as pupilas verdes, Draco conhecia aquele olhar, aquele doce e intenso olhar... E não se importou.
Também não se importou quando, num momento de descontrole ao sentir esse membro deslizar por sua entrada, embrenhou os dedos nesse cabelo outrora da mesma cor que a sua, mas que despontavam revoltos, as mechas se escurecendo lentamente tomando um tom profundo e brilhante.
Mesmo sem a penetração, seus corpos tomaram uma cadencia gostosa, um vai e vem prazeroso, apenas sentindo a intimidade do outro, sem aprofundamento.
E quando o êxtase chegou ao ápice, também não se importou em se liberar no aconchego de um corpo levemente bronzeado. Gemendo e o ouvindo gemer... Timbre familiar...
Ficaram imóveis na mesma posição, corações disparados e respirações ofegantes...
E sentiram-se completos...
Quando a sanidade começou a retornar, Draco se negou a abrir os olhos. Sentia um corpo estranho o envolvendo, assim como um perfume que não era o seu, mas ao sentir um suave e carinhoso beijo sendo depositado em seu pescoço; deixou escapar um suspiro de satisfação.
Havia se entregado e estava feito. Nada mais teria volta...
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Sempre quando Harry olhava para Malfoy, nas salas de aulas ou no Grande Salão, o via com o semblante tranqüilo. De vez em quando seus olhos se cruzavam, se contemplavam por um momento e voltavam a se desviarem.
Arrogância e cinismo exalavam daquele corpo pálido como exalava seu irresistível perfume. Seu sorriso afetado, seu desprezo e sua voz arrastada percorriam pelos corredores.
Por mais que Ron e Hermione jurassem que era o mesmo de sempre e que nunca ia mudar, ele via algo completamente diferente...
Ele via seu mundo e seu futuro que caminhava todo cheio de si mesmo, que lhe lançava olhares furtivos e sorrisos provocadores. Que o esperava naquele refúgio no corredor de Narciso e que passou a pertencer a ambos...
Sempre que Draco olhava para Potter, via aquele rapaz desengonçado e tímido, aquele que mesmo apresentando um trabalho impecável ao professor de Poções, não conseguia fazer a carranca de desprezo desaparecer de seu rosto. Via o herói amado por todos e que não desgrudava da sangue-ruim e do pobretão.
Nas partidas de Quidditch ele era o mesmo insuperável, o mesmo sorridente e tolo. E por mais que todos dissessem que ele nunca mudaria, que seria aquele rapaz carismático, bonzinho e que nunca tomava as iniciativas, Draco o via diferente...
Ele via um companheiro caminhando com o cadarço solto de seu sapato sujo... Via sua fonte de alegria nas horas mais sombrias... Via um amante perfeito que lhe levava a um lugar que sempre sonhou viver e lhe dava forças de encarar a realidade por mais um dia... Que nas aulas beijava a pontinha da pena para dizer que chegaria mais cedo ao refúgio e piscava um olho de modo provocativo com a promessa que seria uma noite maravilhosa.
E se alguém viesse a descobrir seus segredos e perguntasse a Draco porque nunca cobrou uma satisfação sobre o espelho, ele diria simplesmente que Harry já lhe dera a resposta naquela mesma noite, que via a verdade toda vez que seus olhos se encontravam e que um sorriso se fazia naqueles lábios que aprendeu a beijar. E quando corria para aquele recanto e o encontrava ali lhe esperando, era recebido por um sorriso carinhoso e com a pergunta "como foi seu dia hoje?", nada mais importava.
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Um longo gemido se espalhou pelo quarto.
- Olha pra mim...
Draco abriu os olhos para atender ao pedido. Seu corpo subia e descia cada vez mais rápido, sendo deliciosamente empalado. Observou o corpo de Harry deitado no tapete, o suor deslizando por sua pele bronzeada.
Entrelaçaram os dedos para buscarem mais contato, para mais intimidade e cada qual se perderam nas íris do outro, obscurecidas pelo desejo. Gostavam de alcançar o orgasmo dessa forma; totalmente imersos ao companheiro. Na parede sobre a lareira os dois quadros os observavam nesse momento tão íntimo. – Draco com um sorriso satisfeito e Harry, agora nítido com suas formas e cores destacadas, com um rubor nas bochechas.
- Quero que... – Suspirou quando o loiro fez um movimento mais brusco, sentindo como seu pênis entrava mais fundo. – Quero que nosso mundo permaneça... Para sempre...
Draco sorriu. Seria o mundo que eles criaram... Um mundo que ninguém conhecia, mas que para eles, era perfeito...
- Também... – Gemeu alto, apertando os dedos contra a mão do moreno. – Também quero... Que nosso amor seja relembrado... Para sempre...
Draco abriu os lábios num grito mudo e jogou o corpo para trás, ainda cavalgando sobre o ventre de Harry que mordeu o lábio inferior com força após soltar um entrecortado gemido de satisfação. Trocaram suas essências e se entregaram ao cansaço.
Draco abraçou Harry apertado enquanto tinha o cabelo úmido de suor acariciado com carinho.
Permaneceram assim durante um longo tempo, sem coragem de quebrar essa magia que ainda flutuava ao seu redor.
Quando não puderam mais adiar a despedida, se levantaram e de mãos dadas, apenas se comunicando com olhares, sorrisos e beijos, adentraram ao banheiro e se lavaram entre carícias.
Tudo lentamente, ainda apreciando o momento que haviam construído desde que encontraram aquele lugar. Depois se vestiram e caminharam pelo aposento, vendo pela última vez aquele mundinho que compartilhavam.
Sentiriam falta, tinham certeza.
Pararam frente ao espelho de Narciso que ainda continuava ali, os refletindo. Apertaram suas mãos entrelaçadas e se beijaram longamente antes de darem as costas aos seus reflexos e deixarem o quarto para nunca mais voltarem...
Quando a porta se fechou para sempre detrás de ambos e o fogo da lareira se extinguiu, assim como as chamas das velas se apagaram, tudo ficou escuridão.
E assim finalmente a guerra tomou sua densidade mais catastrófica, quando o derradeiro "fim" estava um segundo do presente, eles ainda estavam firmes. Cada qual com sua missão, cada qual com suas cargas para carregarem...
E quando a guerra terminou, as duas marionetes foram largadas num canto quaisquer, pois já não representavam os papéis principais da vida que a sociedade criara...
Já não tinham mais utilidade...
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Um rapaz do quarto ano de Gryffindor andava cautelosamente por um corredor há muito tempo não utilizado por Hogwarts. Ergueu a varinha e sussurrou "lumus" para poder enxergar alguma coisa. Quando a luz se expandiu, foi que pôde ver as pinturas nas telas retratando Narciso. Ficou impressionado por nunca ter visto aqueles quadros antes. Parou frente ao que retratava o belo rapaz frente a um grande espelho, se mirando desejoso por seu próprio reflexo e notou que havia uma pequena abertura pela moldura. Empurrou com receio de se topar com algum monitor, mas apenas se deparou com uma sala vazia, isenta de móveis e totalmente empoeirada.
Entrou e observou ao redor, não vendo nada de interessante. Pensava que encontraria uma grande aventura, mas pelo visto, não havia nada interessante ali, apenas um espelho velho ao lado da lareira.
Decepcionado, deu as costas e partiu, em busca de outro corredor misterioso para se embrenhar.
A fraca claridade da lua que entrava pela janela batia de encontro ao frio vidro emoldurado por narcisos e detrás da grossa poeira, via-se uma apagada imagem de duas pessoas de mãos dadas. Um rapaz de suaves fios platinados e um rapaz de adoráveis olhos verdes.
- Não tem nada aí. – O moreno sorriu ao loiro e o puxou delicadamente. – Venha, vamos pra cama.
- Pensei ter visto uma luz sair do espelho. –Teimou, observando a si mesmo com determinação.
- Aposto que está se apreciando, seu narcisista. – O outro brincou, finalmente fazendo com que seu amante desviasse a atenção daquele espelho e fosse em sua direção se jogando sobre seu corpo e lhe tomando a boca num beijo apaixonado.
Rolaram numa luta sensual para ver quem dominava o outro, mesmo sabendo que no final das contas o loiro se deixava ser aprisionado pelo corpo do moreno e recebia prazerosamente o seu castigo.
Do outro lado da porta, um rapaz do quarto ano de Slytherin observava o quadro de Eco com desconfiança.
- Você guarda uma porta? – Sabia que era uma passagem, pois a moldura era diferente das demais.
Eco lhe observou e sorriu. – Sim.
- E posso entrar?
- Esse quarto não pode ser aberto...
- Por quê? – Ficou curioso.
- Porque há muitos anos, guarda as lembranças de duas pessoas... –Ela suspirou com melancolia. – E permanecerá guardado... Para sempre...
Enquanto Eco observava o jovem partir decepcionado, relembrava daqueles dias... Dos dois protagonistas que fizeram da tragédia um mundo perfeito... Que construíram sonhos em meio à guerra e que estiveram felizes enquanto viveram esse romance...
E que a magia de seus corações fizeram durar...
Para sempre...
Nota: aqui termina mais essa fic. Espero que tenham gostado. Obrigada a todos que leram e que aguardaram as atualizações tão escassas. A todos que me enviaram comentários desde o primeiro capítulo e principalmente a quem fez dessa fic uma de suas favoritas. Desculpem se não foi como queriam e sim, essa fic foi curta porque não tinha como continuá-la...
Agradecimentos a: Scheila Potter Malfoy; Lover.44; Felton Blackthorn; Ge Black; Aleera Black; Sy.P; Paulinhakawaii e Vanessa.
Obrigada a Scheila Potter Malfoy por betar.
N.B: Não acredito que essa fic acabou... buáááá... Quero mais... E Sanae não precisa agradecer D
Para Ge Black, com carinho: Olá querida amiga! O seu review foi o primeiro nesse final e eu gostaria de agradecer aqui para os demais leitores que chegou à mesma conclusão que a sua poder se esclarecerem. Obrigada de coração por ter dedicado seu tempo para ler mais essa fic e comentar. Adoro seus jeitinho de se expressar! Eu fiz um final em branco, não sei se deu pra perceber, mas eles deixaram o quarto juntos e de mãos dadas. Eles partiram de Hogwarts e cumpriram com suas missões e foram finalmente deixados em paz. Eles foram esquecidos pelas pessoas que cobravam e jogavam tudo nas costas deles, pois não tinham mais utilidades para a guerra que acabou. Deixei assim para que vocês pensassem se eles ficavam juntos ou não, dependendo do ponto de vista de vocês. Eu creio que sim, eles estão juntos, mas o romance de Hogwarts é lenda, pois foi o começo e a alavanca que os fizeram aguentar até o final. Te adoro muito e espero que os raios do sol voltem a brilhar em tua vida, pois a grandeza da vida são as mil oportunidades que temos para amar... Beijos!
