PHOENIX IN ASHES, PHOENIX REBORNING FÊNIX NAS CINZAS, FÊNIX RENASCENDO - CAP. 6
Disparei a berrar seu nome como se não houvesse amanhã. Ao me ouvir, Layla parecia querer fugir, mas não o fez. Senti que algo a segurou para fugir e se manteve nas dependências do Kaleido. Acho que, por ela não querer sair dali, eu nunca havia amado tanto aquele lugar como agora, isso é, se fosse este o motivo pelo qual a segurou ali.
Quanto mais me aproximei, mais ela parecia distante. A diferença é que, desta vez, notei uma certa tristeza nos seus olhos. Pelo visto, ela não havia falado tão sério quanto eu pensei que o tivesse feito ao se dirigir a Kalos. Um alívio momentâneo tomou conta do meu rosto, enquanto o dela transformou-se em uma fênix em fúria, perfurando-me com os olhos mais uma vez.
- O que você quer?! - Intimidou-me em questão de segundos. Nunca havia feito isso antes, mas, assim como muitas surpresas que tive durante o dia, esta não era diferente - Já não basta o que fez comigo?!
Ela realmente pensava que eu tinha feito alguma coisa. Por que não confia em mim, Layla? E por que essa maldita insegurança, JUSTO AGORA? Era melhor que eu me recompusesse logo!
- Layla - comecei calmo, mas sabia que ela não cederia. E algo também me dizia que se aquela confiança e determinação não voltassem, era capaz de não vê-la nunca mais - Eu não sabia o que Kalos iria fazer com...
- Ora, Yuri, não me faça rir! - interrompeu-me. Isso sim era esperado, mas não com o tom amargurado e forçado de ironias que ela usara. Claro, estranhei na hora, mas fiquei calado. Algo naquele olhar me dizia que eu tinha uma carta na manga e não poderia desperdiçá-la. - Está muito claro para mim que você sabia de tudo, desde o começo!
- Mesmo se eu soubesse, Layla... Não treinaria com você o dia todo, não ficaria em silêncio com algo do tipo e muito menos teria algo para esconder de você. - Fui simples, claro e direto desta vez, o que a fez hesitar por um segundo. Parecia ter se esquecido desse Yuri que estava aparecendo na sua frente agora. No entanto, não recuou com as minhas palavras, mas eu senti que seu ponto fraco estava prestes a aparecer. Eu não estava lidando com a Layla de sempre. Tinha de ser mais persuasivo, implicante, insistente e arrogante, apesar da idéia não me agradar nem um pouco.
- Deixe-me em paz, Yuri! Eu não quero ouvir explicações suas! Elas não me importam mais!! - o desespero tomava conta dela. Podia sentir cada parte do seu corpo tremendo por dentro. Seria ódio...? Não... Era algo mais forte do que isso... E, mais uma vez, eu estava prestes a descobrir o que era. Faltava só mais um pouco...
O que Yuri pensava estar fazendo?! Por que estava me atacando agora? Os motivos pareciam claros nos seus olhos, mas eu não conseguia distingui-los... De alguma forma, ele escondia suas verdadeiras intenções, e isso me deixava mais nervosa, mais apreensiva do que irritada... Deixava-me com mais angústia do que ódio... Não... Lágrimas de novo, não...
- Vai embora assim? Vai largar tudo o que mais ama? Tudo que sempre lutou na vida? Tudo pelo qual ganhou mérito...? - Ele dizia aquelas palavras de uma forma tão frustrante e calma para mim que dilaceravam-me por dentro. Eu não sabia explicar, mas quanto mais me entristecia, mais ódio eu colocava para fora e, de alguma forma, ele percebeu isso... Será que não era exatamente isso que ele queria...?
- EU JÁ DISSE QUE NÃO ME IMPORTA! ... Não... Me importa mais... - Mas... de onde saiu aquele berro...? Que sentimentos eram esses e por que eu não conseguia controlá-los? Qual a sua origem? Qual o seu propósito? Por que me assustavam tanto...?
- Não importa...? O Kaleido, o público, os aplausos... Nada mais lhe importa? Você ama o Kaleido, jamais o deixaria assim. Muitos aplausos virão depois, você não pode partir no meio do caminho. Não pode reagir dessa maneira, largando o que mais ama e tomando rumo nenhum na vida...
Aquelas palavras... Por mais que eu tentasse, não conseguia esconder mais a minha tristeza... E mesmo assim, ainda não sabia o motivo dela. Forçava cada vez mais para não chorar, mas a dor era insuportável. Tão insuportável, que eu parecia querer explodir... Yuri me olhava de uma forma diferente da qual qualquer um jamais me olhara antes... Era inexplicável o modo de como parecia me vencer ali. Mas eu não podia deixar isso acontecer. O que ele me dizia eram apenas coisas ridículas, já que o Kaleido Star não importava mais para mim... Ou será que eu mesma estava me iludindo? Qual, afinal, era o significado de tanta raiva e tristeza? O olhar de Yuri me indicava que ele sabia o caminho e as respostas, mas minha mente não queria acreditar nele... E o coração? O que o coração lhe diz, Layla...?
O amor faz milagres... E eu podia senti-lo no meu rosto. Estava conseguindo trazê-la de volta, podia perceber em volta a sua áurea gloriosa. Mas algo a detinha. Algo a impedia de ceder. Seria orgulho...?
Dei o primeiro passo. Estava na hora de descobrir.
- Layla... Não faz nem idéia de por que foi demitida?
- De que me interessa isso?! Já disse que não me importarei mais com coisas fúteis!
- Ao menos, então, pode me responder por que o Kaleido Star existe...?
Ela hesitou mais uma vez, dessa vez por um tempo maior. Será que ela conseguiria me responder essa pergunta? As respostas eram sempre duras, mas a cada palavra minha, ela cedia um milímetro. Era certeza de que eu ganharia. Minha determinação estava ali, naquele instante, e realmente, nada mais importava... Além dela.
- Por que quer me confundir dessa maneira?! Eu não responderei a essa pergunta sem contexto algum! - eu apenas suspirei e dei um sorriso leve para ela. Queria mostrar, mais do que tudo, que eu estava ali, ao seu lado. Até então, ela ainda não havia percebido isso.
- O Kaleido Star existe para entreter e divertir as pessoas. O que você mostrou naqueles trapézios foi exatamente o contrário. E eu tenho certeza absoluta que você sabia o que estava fazendo, do contrário, não mostraria aquelas expressões de tanta satisfação, não é mesmo? Afinal, foi você quem me ensinou a amar aquele palco...
Eu estava calmo, porém desafiador. Talvez ela me quisesse morto naquele momento, mas eu não ligava. Esperava por respostas que vinham cada vez mais demoradas e com mais hesitação. Estava na hora da carta na manga.
- Eu não estava preocupada com esse tipo de coisa...! Minha nova técnica não foi feita para aprecio de todos, muito menos feita para entreter as pessoas. Eu simplesmente fiz o meu melhor e...
- ... Queria que a notassem com essa técnica. - a interrompi de um modo sereno, completando-a, de certa forma. Aparentemente, as últimas palavras causaram mais impacto do que eu supus. Mas eu não iria parar... Não agora. - Não... Na verdade, queria que ELE a notasse. Refiro-me ao seu pai. Ou o que aconteceu ontem foi mera coincidência para a sua atitude ter mudado repentinamente?
A resposta dela, primeiramente, veio com o olhar. Parecia que aquela barreira entre nós dois havia sumido e ela voltara a demonstrar claramente um sofrimento profundo. Percebi então, que daqueles olhos cheios de lágrimas, não caiu uma gota... E entendi que era justamente isso que faltava a ela. Apesar de odiar a idéia de vê-la sofrendo, ela tinha de acabar com aquilo de uma vez por todas. O fato de nunca querer chorar só havia piorado as coisas. E por tê-la visto ontem derramando um mundo de lágrimas, só pude supor que ela ficara furiosa consigo mesma por não ter conseguido se conter. Só que não podia ficar escrava do pai para sempre, muito menos sofrer calada. Estava na hora de colocar isso para fora, Layla... E ser livre.
M-mas o que foi essa sensação que acabei de ter? Todos os sentimentos vieram-me à tona e eu perdi a noção de tudo e de todos... Segundo o que seus olhos mostravam, Yuri havia percebido a mesma coisa. Eu parecia ter afundado em um poço de ódio e lástimas sem fim, tamanha era a dor que eu sentia. Incontrolavelmente, ela bloqueava tudo que eu podia pensar de positivo no momento e expelia mais raiva e rancor do que qualquer outra coisa vista antes. Eu era um mero objeto com lembranças tristes naquele momento, controlado pelo ódio e impedida de amar. Ninguém poderia me ajudar e eu não queria aceitar ajuda ou consolo. Tudo o que eu queria era afastar tudo de mim, nem que isso tivesse de ser apenas com palavras.
- NÃO DEDUZA O QUE VOCÊ NÃO SABE!! ISSO NÃO TEM NADA A VER COM VOCÊ, ENTÃO CALE-SE!
- Não estou deduzindo, Layla, e é claro que isso tem a ver comigo, afinal, estou do seu...
-VOCÊ NÃO ESTÁ DO MEU LADO! SE ESTIVESSE, TERIA IMPEDIDO KALOS DE FAZER O QUE FEZ! TERIA ME... Me...
- ...Impedido? Teria te impedido? - Ele estava mais calmo do que nunca. Éramos definitivamente Ying e Yang naquele momento. Quanto mais calmo ele ficava, mais confusa eu ficava e mais raiva eu queria demonstrar. Será que, realmente... Será que, talvez, eu queria que ele tivesse me impedido de criar aquela técnica...? - Você está confusa Layla. Deixe-me ajudá-la, por favor...
Ele se aproximou mais. Ao invés de afastá-lo com os meus gritos, eu o aproximei mais... Por quê? Por que tanta insistência?! Eu o queria longe... O mais longe possível e... Ele me ofereceu a mão... Não... Não desejo mão alguma!
- PARE! SUMA DA MINHA FRENTE!
Ele insistiu. Não acredito que o fez! Quando percebi, estava nos seus braços, relutando para ir embora. Por que não o fiz antes? Por que as lágrimas estavam cada vez mais evidentes, se tudo o que ele disse me irritou?! Por quê...?
Ela estava cedendo em meus braços. Relutava menos e minhas palavras pareciam confortá-la, por mais que suas falas dissessem o contrário. Eu estou aqui... Layla.
- Eu não vou sumir... Serei a última pessoa da sua vida que irá sumir da sua frente...
- Solte-me... Por favor, solte-me, Yuri...
Ela precisava de um conforto que eu não poderia dar. Precisava de uma família presente, a qual ela jamais teve... Por mais que amasse e confiasse em sua mãe, jamais foi exatamente o que ela queria. Eu podia sentir tudo o que ela queria me dizer apenas com gestos e silêncios curtos... Apenas... Com um abraço.
Minhas palavras tornaram-se sussurros, os quais entravam em concordância com o barulho do mar, envolto em brisas calmas, e com o silêncio do pôr-do-sol. Seria um pecado continuar berrando daquela maneira, perante visões tão lindas, incluindo a Fênix que ressurgia nos meus braços. Eu era um anjo, afinal... Não é mesmo?
- ... Eu sei o quanto é duro perder uma mãe e um pai... Achar que está só... Achar que, apesar do mundo de pessoas à sua volta, ninguém entende você... Sua solidão existe... E por conta disso, não quer confiar em ninguém... Eu sei de tudo isso, Layla...
Eu a fitei ternamente, como se ambos não fôssemos mais existir daqui a alguns segundos. Ela devolveu-me o olhar vazio e triste, porém único, que só não poderia quebrar aquele maravilhoso pôr-do-sol por ele ser eterno. Faltavam apenas algumas palavras-chave para conseguir. Três, em especial... Eu tinha certeza.
- É por isso que eu estou sempre aqui... E sempre estarei. Não poderei ser como um pai para você porque não sei como fazê-lo... Mas eu darei a minha vida para lhe suprir essa falta, se precisar... Porque eu te amo... Layla.
Senti seu corpo tremer e a crueldade em seus olhos quebrarem ao final da minha fala. Era indistingüível aquela sensação... Eu havia vencido e meu corpo fora jogado no chão, graças à perda de forças do ser esplendoroso à minha frente. Agora, a vitória derretia-se em lágrimas sobre os meus ombros.
