Capítulo 02

Os opostos se distraem

Snape se mostrou novamente certo. Great Hangleton estava tomada por Comensais, aterrorizando a população, fechando o caminho deles. A batalha aconteceu fora da cidade, na estrada que levava a Litlle Hangleton e ao cemitério. Mais da metade da Ordem estava lá, e mesmo assim ainda estavam em número menor.

Harry, Ron e Hermione lutaram, não conseguiram ir a lugar nenhum. Estava escuro, não dava para ver de onde vinham os ataques. Os três se separaram, tentando alcançar os portões do cemitério. O objetivo de levar aquela investida adiante era mais testar as informações do Snape, mas se tivessem uma oportunidade de chegar à mansão, não desperdiçariam.

Snape não estava lutando, pela primeira vez. Harry achou muito propício. Ele agora duelava com dois comensais, dois irmãos, não lembrava os nomes deles, mas sabia que estavam no castelo quando Dumbledore foi morto. Uma névoa começava a surgir acompanhada por uma chuva fina. Aos poucos os outros combatentes que sabia estar a sua volta se reduziram a sombras coloridas pelos feitiços.

- Recuar! – a voz de Remus retumbou na escuridão.

"Propício", pensou Harry, era bem mais fácil aparatar naquela penumbra esfumaçada. E os estalos começaram a se multiplicar. Ele estuporou um de seus oponentes e correu para dentro da mata próxima, ouvindo o outro vir em seu encalço. Não tinha distância segura para aparatar ainda. De um salto, se pendurou em um galho de árvore, acompanhando o outro passar correndo embaixo. Soltou-se, caindo levemente no chão e começou a correr na direção contrária, olhando para trás. Sem perceber, colidiu com algo.

- Ai! – o algo falava.

Harry olhou o homem em quem batera. Ele estava vestido como todos os comensais, com suas vestes negras e máscaras brancas, mas no caso deste Comensal, saiam cabelos loiros, quase brancos, de trás da máscara. Harry a puxou com violência e pode ver o rosto assustado de Draco, todo ralado de um lado, no limiar da máscara.

- Pegue-o! Potter foi por ali! – aparentemente o Comensal caído no chão enxergava melhor do que muitos.

Harry não deu tempo para o outro murmurar qualquer feitiço, tomou a varinha erguida de sua mão, o abraçou pela cintura e aparatou.

Draco, quando foi solto por Potter, se desequilibrou e bateu em uma parede áspera. Estava em uma caverna iluminada somente pela luz azulada da lua.

Ele acompanhou a figura esguia de Harry Potter ir até a abertura da caverna e murmurar um feitiço. Algo brilhante saiu da ponta da sua varinha noite afora. Ele avaliava a sua situação. Não sabia onde estava. Estava desarmado, ferido e sozinho com Harry Potter. Não tinha muitas chances.

- Tira a camisa. – Potter ordenou enquanto acendia um cigarro.

- Quê?

Harry o olhou por um momento. Venceu em dois passos a distância que os separava e agarrou o braço do loiro, rasgando a manga com um gesto bruto. A pele lisa e branca apareceu, imaculada. Sem marca negra. Potter respirou fundo e se afastou tragando, sem olhar para o rosto do loiro.

- Vai tirar a camisa ou vou ter que arrancar de você? – o moreno perguntou enquanto procurava algo nos bolsos.

Colocou algo pequeno no chão e murmurou um feitiço. A coisa cresceu, adquirindo o formato de um baú. Potter o abriu e remexeu dentro, aparentemente estava cheio de frascos de vidro. Ele ergueu um contra a luz, havia um líquido avermelhado. Voltou a se levantar e percebeu que o loiro não havia se mexido, o olhando encolhido como um animal acuado. Harry amenizou um pouco sua voz.

- Vamos, Malfoy. Eu não vou te fazer mal. Você está ferido, eu só quero ajudar, ok?

- E desde quando você se preocupa comigo?

Harry sorriu. Jogou o cigarro no chão e soltou a fumaça longamente. Abriu um pequeno buraco na terra e enterrou a bituca, murmurando um feitiço redutor em seguida.

- Desde quando você fuma?

- Não conte para a Hermione, ok? – disse Harry rindo e se aproximando dele – Deixe eu ver seu ferimento.

O loiro tirou as vestes negras e, como o Gryffindor supôs, usava jeans e uma camiseta preta por baixo, que no momento estava encharcada de sangue em todo o seu lado esquerdo. Harry se aproximou e começou a examiná-lo. A pele branca e lisa estava manchada de sangue, ele não conseguia ver o ferimento, mas sabia que era próximo ao ombro. Derramou um pouco do líquido sobre a pele do loiro, que gemeu um pouco em dor, lavando o sangue e localizando o ferimento.

- É uma queimadura. A Tonks que gosta desses feitiços. Estava lutando com ela?

- Acho que sim. Como sabia que eu estava ferido?

- Pelo grito que você deu. Eu não bati tão forte em você.

Pegou a blusa de Draco e limpou o local, murmurando vários feitiços e passando a poção mais uma vez. Repetiu o processo três vezes, era fundo. Quando acabou, limpou as costas e braço do garoto com magia. Não pode deixar de reparar na quantidade de cicatrizes que marcavam sua pele.

- Pronto. Mas não ponha a blusa agora, deixa tomar um pouco de ar senão vai ficar dolorido. Senta aí.

Harry caminhou até o baú e pegou duas garrafas de cerveja amanteigada, jogando uma para o loiro, e seguiu de novo para a entrada da caverna. Bebeu um pouco, depois voltou até o baú, tirou a própria camiseta, murmurando um feitiço para limpar, depois as botas e as meias, repetindo o processo. Draco reparou em um medalhão que o garoto levava pendurado no pescoço. O moreno voltou para a boca da caverna e tornou a beber.

- Como está a sua mãe, Malfoy?

O loiro demorou a responder, e quando o fez, sua voz veio mortalmente fria.

- Morta há dois meses.

Harry o olhou. Draco o encarava com raiva.

- Desculpe, eu não sabia.

O silêncio se prolongou por um tempo enquanto se olhavam fixamente, como se ambos tentassem averiguar a partir do olhar o que havia de verdade nas palavras trocadas.

- Por que você me trouxe aqui, Potter?

- Queria conversar com você. Mas não agora.

- E onde estamos?

- Perto demais do local da luta.

- Eu sou seu prisioneiro?

Harry parou de beber e se virou para encará-lo.

- Malfoy, a menos que eu me engane, Voldemort não deve estar muito feliz com você. E também não está feliz com o resultado dessa luta. Vocês tiveram baixas...

- Ele esperava ter baixas.

-... e não conseguiram me pegar. – Harry completou, desconsiderando a interrupção, voltando a beber e dando as costas ao outro - Me responda sinceramente, Malfoy, se eu te devolvesse a sua varinha e dissesse "pode ir", você ficaria feliz de voltar? Você tem para onde voltar, Malfoy? Ou melhor, o que você diria? Que foi capturado por Harry Potter, que eu te levei para o meu esconderijo e cuidei de você, depois deixei você ir? Não me parece um bom álibi para sumir do campo de batalha. – o outro se levantou e andou até ele, o encarando com raiva - Mas não, você não é meu prisioneiro. Espere a poeira baixar um pouco que eu deixo você ir.

O loiro ainda o encarou por um tempo. Depois olhou para fora da caverna, calculava que estavam há uns trinta metros do chão, na encosta de uma montanha, e não se podia ver o fundo do vale devido à neblina. Não reconheceu o lugar. A garrafa de cerveja tremia em suas mãos. Ele tinha impulso de atirá-la longe, ou quebrar na cabeça daquele idiota que o encarava com insistência. Deixou o corpo escorregar para o chão.

- Eu estou tão visivelmente ferrado assim?

Harry sorriu vitorioso, olhando o loiro beber com a cara fechada.

Depois de um tempo de silêncio entre os dois, uma luz surgiu da escuridão, indo parar no meio da caverna, Harry parecia esperar por isso e foi ver. Eram na verdade três pontos de luz e dentro de cada um havia uma mensagem que o menino se colocou a ler.

- O que é isso? – o loiro perguntou ao mesmo tempo em que um barulho baixo se fez ouvir. Ele se mexeu incomodado.

- Ron e Hermione mandaram notícias de que estão bem e seguros, vamos partir ao amanhecer. E Remus enviando notícias da Ordem, não tivemos baixas.

Uma coruja entrou na caverna. Harry a apanhou e leu o conteúdo com o cenho franzido. Não comentou sobre essa mensagem, o barulho se repetiu, orgânico e incômodo, interrompendo sua leitura, fazendo com que encarasse o loiro, que se encolhera em um canto, abraçando o corpo.

- O que é isso?

O outro parecia envergonhado, mas abaixou a cabeça e respondeu baixo.

- Estou com fome.

Harry o olhou espantado, depois seguiu até o baú.

- Acho que não tenho muita coisa aqui, e não podemos acender fogo, mas dá para você comer.

Estendeu para o outro um prato com salsichas enlatadas, pão, castanhas e frutas secas. Depois se sentou de frente a ele, observando-o comer ferozmente, toda a pose esquecida.

- Há quanto tempo que você não come?

O loiro fez um gesto incerto com o ombro e engoliu antes de responder.

- Uns dois ou três dias.

Harry o olhou quase com pena, ao que ele reagiu fechando a cara e virando o rosto.

- O que aconteceu com você, Malfoy?

- O que quer dizer, Potter?

- Nada, só estou perguntando.

- O que você quer? Que eu passe informações para você do que o Lord está fazendo? Eu não sei!

- Não sabe? Mas você está com ele, não está?

O outro deu de ombros e continuou a comer.

- Você não me respondeu.

- O que você quer saber? - sua voz era mais baixa e séria.

- O que aconteceu com você depois que deixou o castelo.

- Para quê? Por que isso te interessa tanto?

Harry suspirou e se levantou, indo ao baú e pegando outra garrafa, sentando na escuridão do fundo da caverna.

- Eu sei que você está sendo perseguido pelo Ministério como Comensal da Morte, mas não recebeu a marca. Sei que toda a sua herança foi tomada de você, até fim de julho eu ainda lia jornal. Sei que sua mãe foi assassinada a mando de Voldemort, você me contou isso agora. Sei que seu pai só está vivo porque está preso. Sei que você foi torturado, pelas marcas no seu corpo, e é mantido mais prisioneiro dele do que de mim, já que você não come, não recebe notícias, não tem muita noção do tempo e não pode lutar. Sei que você foi mandado nessa batalha para morrer, você também me disse isso. Voldemort queria me pegar ou pelo menos conseguir informações do meu paradeiro, por isso arriscou esse ataque, sem saber exatamente o que estava atacando, mandou um contingente grande de pessoas dispensáveis, que não faria muita diferença se perdesse.

Draco suspirou e deu um sorriso cínico.

- Você sabe mais do que a metade dos Comensais da Morte. E se sabe tudo isso, sabe também que eu não tenho informações sobre nada que ele faça para te passar. Como você mesmo disse, eu sou dispensável. O que quer de mim?

- Por que, Malfoy? Para quê tudo isso?

Draco não respondeu, se limitou a encarar a noite.

- Vale à pena, Draco?

- Porra, Potter! - ele pareceu que ia falar algo, mas vacilou, e emendou como se fosse algo muito mais importante do que era - E não me chame pelo primeiro nome!

Harry riu e voltou a beber. Levantou-se, apanhou a carta que a coruja entregou e se sentou do lado do loiro.

- Você conhece esta letra?

O loiro examinou o bilhete.

- É do Snape... Potter, isso... Ele... Ele está te passando informações!

- Me fala sobre o Snape, Draco.

O loiro o olhou irritado e leu o bilhete mais uma vez, descrente do que via.

- A vida toda eu ouvi falar que Severus era agente duplo. Meu pai falava isso, que toda a confiança que o Lord tinha nele, e ele era um dos preferidos do Lord, era pela capacidade dele de tirar informações de qualquer um. A aliança dele com Dumbledore foi uma das coisas mais valiosas que o Lord conseguiu. Obviamente Dumbledore também acreditava em Snape, mas ao contrário, como espião do Lord. Eu nunca soube de que lado ele estava realmente, pensei que do nosso, afinal, ele matou Dumbledore.

- É o que eu fico repetindo desde que essas cartas começaram a chegar. Ele tinha mesmo um voto perpétuo com sua mãe?

- Tinha, para me proteger. Ele me ajudou depois. – o garoto ficou quieto alguns segundos, olhando o chão, depois começou a falar febrilmente - Eu teria morrido. A maioria dos Comensais queria isso, me ver morto. Não sei como, mas ele conseguiu convencer o Lord a não me matar. Mas a minha mãe foi inevitável, ele me disse que o Lord não gostou muito deles terem feito o voto, Severus não deveria se envolver, ele tinha que continuar em Hogwarts. Então ele ia matar ou o Snape ou minha mãe. Quando eu acordei minha mãe já tinha morrido.

- Acordou?

- Eu não fui morto, mas não sai ileso, Potter. Passei muito tempo inconsciente por causa de tortura. Acho que foi nesse ponto em que eu perdi a noção do tempo. Eu estava em um lugar, não me pergunte, eu não sei onde é, Snape aparatou comigo lá depois que deixamos Hogwarts. Mas havia muitos Comensais, eu fui levado à presença do Lord, e então começaram os castigos. Não sei dizer quando eu perdi os sentidos, mas quando eu acordei estava em outro lugar, em uma casa, junto com Pettingrew. - ele olhou para Harry e o moreno indicou que reconhecia o nome - Não gosto dele. – disse com uma careta - Depois de alguns dias Snape apareceu, cuidou de mim, me deu notícias e ordens para eu não sair dali. Eu o vi poucas vezes desde então, não sei o que ele está fazendo. Quem me mandou vir para a luta foi o Nott. Eu não sei do Severus.

- Porra, Malfoy, e você ainda quer voltar para essa merda?

- Eu tenho escolha, Potter? Eu estou sendo perseguido, você mesmo disse.

- Você quer ter escolhas, Malfoy? Quer? Muito bem!

Harry se levantou e começou a andar de um lado para o outro na caverna, às vezes passando os dedos entre os cabelos de forma compulsiva. Draco o acompanhava com o olhar.

- Em que merda você está pensando, Potter?

- Em o que eu vou fazer a seu respeito! Eu posso falar com Remus, a Ordem te dá cobertura para você se esconder, se você quiser sair da guerra. Se quiser ficar, bem, vai ser mais difícil convencer todo mundo que você mudou de lado, mas isso é questão de tempo. Quanto ao Ministério, também é só entrar com o pedido de inquérito, uma averiguação do seu caso em pedido próprio pode ser um bom indicativo, e se o pedido for no meu nome talvez eu até consiga adiantar as coisas... Bem, isso depende das acusações que tem contra você, não dá para falar que três acusações de tentativa de assassinato são fáceis de tirar, principalmente se uma delas foi de Dumbledore, mas eu sou testemunha que ele mesmo te ofereceu proteção e, bem, você não o matou...

- Testemunha? – perguntou o loiro, confuso.

Harry o olhou e disse em um quase sussurro.

- Eu estava lá, Draco. Eu vi tudo. Se você quer um motivo para eu te ajudar foi eu ter ouvido da sua boca que não conseguiria matá-lo, mas que não tinha escolha...

Draco olhava incrédulo para o outro menino.

- Você não pode estar falando sério! Você vai colocar o seu nome, o seu crédito, a sua segurança em jogo para me proteger, é isso? É isso que eu estou ouvindo? Eu sou um Malfoy, Potter!

Harry olhou para o loiro a sua frente e falou quase gritando.

- Um Malfoy que um dia estendeu a mão para mim me oferecendo amizade! Um Malfoy que está sendo ameaçado pelo meu pior inimigo e que eu tenho condições de ajudar, sim! Se eu pudesse fazer isso por cada um que passa pelo que você passou, eu faria, Malfoy! Mas se você quiser, a gente pode voltar às discussões infantis de sempre e se pegar no braço agora mesmo, por qualquer motivo! Vamos, Malfoy, eu estou te dando alternativas! Não foi isso que você pediu? Não estou pedindo sua lealdade nem nada parecido! Não estou pedindo nem que abra mão dos seus ideais de pureza ridículos! Eu não estou te pedindo nada, porra! Só que faça o que eu mandar, por enquanto, para sua própria segurança! Estou te dando a chance de largar de vez esse miserável que se não te matou ainda foi por falta de oportunidade, que está te destruindo!

O loiro passou a mão no rosto e depois as escorregou, agarrando os cabelos com os olhos fechados.

- O que foi, Draco? O que te impede de aceitar? Tudo isso é orgulho?

- Não, idiota! - o loiro o encarou com raiva e disse um pouco mais baixo – Eu estou com medo. Será que é tão difícil assim você entender que é normal as pessoas terem medo do Lord das Trevas?

O moreno olhou para ele ofegante depois de ter gritado. Largou-se no chão ao lado de Draco.

- Desculpe.

O loiro riu, mas ainda demorou um tempo até voltar a falar.

- Eu estou dentro. E quanto aos meus ideais de pureza, acho que eles se desgastaram um pouco. Se eu puder fazer algo pela Ordem, contem comigo.

Harry o olhou com mais atenção. Havia uma fúria no rosto do loiro que ele conhecia muito bem, mas que nunca tinha visto em outra face que não a sua, aquele misto de ódio e esperança. Ele sorriu, Malfoy queria a mesma vingança que ele.

- Só tem um problema. Você vai ter que esperar um pouco. Quero dizer, para toda essa pressão funcionar, eu vou ter que ficar em cima do Ministério e da Ordem, e agora não tem como, eu preciso terminar o que vim fazer aqui. Então, acho que pelo menos por enquanto, você vai ter que ficar comigo.

- Ser seu prisioneiro por mais um tempo? – perguntou o outro rindo.

Potter sorriu, pensando na reação que esperava de Ron e Mione no dia seguinte.

- Durma um pouco. Amanhã o dia vai ser longo. – disse enquanto acendia outro cigarro e caminhava para a entrada da caverna.

- Você não vai dormir?

- Não estamos tão seguros assim. Você leu a carta de Snape, os Comensais continuam rondando o vale.

Não falaram mais. Draco logo dormiu, encostado na parede de pedra. Harry ficou de pé, estava cansado, se se acomodasse em um canto era capaz de dormir também. Mas tinha muito em que pensar.

As coisas estavam mudando.

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