Capítulo 04
Lembranças de família
Harry e Draco e aparataram em uma praça mal cuidada, no meio de uma grande cidade.
- Por que tivemos que sair correndo? – perguntou o loiro, tentando arrumar as vestes mal vestidas.
- Aquelas cavernas são usadas por dementadores, eles se escondem lá do nascer do sol até pouco depois do meio dia, quando o sol começa a baixar. Não sei por quê, acho que é algo relacionado à magia deles.
- Onde estamos?
- Grimmauld Place, Londres.
- E o que viemos fazer aqui?
Draco olhava em volta enojado. O sol da manhã caía sobre pilhas de lixo e casas trouxas mal cuidadas. Harry caminhou até o encontro das casas número onze e treze, olhando para a de número dez. O loiro parou ao seu lado, desconfiado.
- Tem uma casa aqui. Número doze.
O loiro o encarou, descrente, depois voltou a olhar as casas e teve que dar alguns passos para trás com o susto que tomou ao ver o imenso casarão surgir.
- Bom saber que você acredita no que eu digo.
Harry caminhou para a soleira, ainda sorrindo da reação do loiro. Tocou com a varinha a porta e ouviu o conhecido tilintar metálico. Suspirou e girou a maçaneta em forma de serpente, entrando na casa escura e dando passagem para o loiro entrar.
Draco seguiu Harry pelo corredor olhando tudo curioso. Aquela casa tinha algo de muito familiar. Chegaram a uma cozinha que parecia um porão. Harry esvaziou as miniaturas do bolso em uma tina de cristal em um canto, tirando a camisa em seguida.
- Eu realmente preciso de um banho, mas acho melhor comermos primeiro. Senta aí.
O loiro observou o outro descer até uma possível despensa antes de se sentar. Harry voltou com uma série de coisas nos braços, que ele colocou na pia e enfeitiçou para que começassem a se preparar. Logo o cheiro de ovos e bacon se espalhou pelo ambiente.
- Você sabe cozinhar?
- Eu me viro.
- Que medo! – disse o loiro rindo.
Harry se voltou para ele, sorrindo. Nunca reparou em como o loiro ria com facilidade.
- De quem é essa casa?
- É minha.
- Sua? – Draco perguntou incrédulo – Potter, essa casa não pode ser sua!
- E por que não?
- Harry, eu ainda estou em dúvida se aqui tem mais coisas da sala comunal da Slytherin ou da casa da minha avó! Um Gryffindor não iria morar aqui.
Harry riu.
- Aposto que da casa da sua vó... Materna, com certeza.
- Potter, eu não estou brincando. Já tenho acusações suficientes sem arrombar a casa de ninguém.
- A casa é minha, Draco, fica tranquilo. Nem eu nem você conseguiríamos entrar aqui se não fosse.
Harry começou a distribuir os pratos e talheres para os dois.
- Então por que tem um brasão dos Black aqui? – o loiro perguntou indignado, segurando uma taça.
Harry se sentou a sua frente e começou a se servir.
- Eu herdei a casa do meu padrinho, satisfeito? Sirius Black.
O loiro o olhou intrigado, depois baixou a cabeça e começou a comer. Ambos sabiam que aquele era um assunto delicado. Harry ainda sentia a morte do padrinho, e a relacionava diretamente a ação dos Comensais no Ministério, e, portanto, ao pai e à tia de Draco. Este, por sua vez, associava a morte de Black e o mesmo episódio à prisão do pai. Sabia que o Black estava ajudando a Ordem desde que retornou, mas não tinha ideia da ligação entre ele e o moreno.
- Você ainda acha que eu fui culpado pela prisão do seu pai?
Draco não respondeu.
- Afinal... Você quebrou meu nariz por causa disso.
- Você ainda acha que foi minha tia Bellatrix que matou seu padrinho?
- É diferente. Eu a vi matando Sirius.
- E faz dois anos que eu não vejo meu pai, Potter, eu sequer posso escrever para ele. A dor é a mesma, se você quer saber. E eu ainda tenho que me conformar com a possibilidade dele estar mais seguro lá.
Harry engoliu com dificuldade e depois encarou o loiro.
- Não é disso que eu estou falando.
- Mas que merda, Harry! Eu sei que não é disso que você está falando. Mas está tudo englobado. Será que dá para parar de pensar só em você por um segundo e tentar ver o meu lado?
- Eu não estou falando só de mim, Malfoy. Estou falando de você também, estou falando de nós.
Draco passou as mãos pelo rosto nervoso.
- Não, Potter, eu não sinto mais raiva de você, se é o que quer saber. Nem de você, nem da sangue ruim da Granger, nem do pobretão do Weasley, ou de qualquer outro maldito Gryffindor que já tenha cruzado meu caminho. Eu me sinto cansado demais para odiar e acuado demais para ficar me preocupando com essas coisas.
Draco bebeu um pouco de suco, limpando a garganta.
- Quando você me pegou ontem à noite, eu pensei "estou morto", mas quando você cuidou de mim e me ofereceu ajuda eu entendi uma coisa que eu pensava que você já soubesse. Foda-se toda a rivalidade entre você e eu, toda briga de casa, toda partida de quadribol, toda diferença de sangue! O que fazia a gente se pegar no tapa era algo muito mais velho e muito maior do que a gente. Sabe, eu estou cansando de ser brinquedo nas mãos dos outros. Eu dei tudo de mim para fortalecer o Lord para quê? Para no final não ter nem um prato de comida? Para ter que ouvir que a vida da minha mãe, a do meu pai e a minha vida não foram suficientes para cumprir os planos de um homem? Foda-se, Harry! A raiva que eu sinto agora é a mesma que eu tenho certeza que você sente. É só a vontade de acabar logo com tudo isso para poder voltar a viver!
Harry acenou com a cabeça confirmando as palavras do outro e se concentrou em seu suco enquanto Draco voltava a comer.
- Sabe, até que você não cozinha tão mal... – o moreno só sorriu frente à mudança brusca de assunto – Mas se você quiser, amanhã eu posso arriscar fazer alguma coisa também.
- Acho que não vamos ficar tanto tempo aqui. Eu havia combinado com Ron e Hermione de, caso nos separássemos, vir direto para cá e esperar 48 horas. Vamos ficar aqui mais esse dia, se eles não aparecerem, eu aviso a Ordem e volto para a mansão.
- E eu?
- Vou devolver sua varinha. Você vem comigo e nós conversamos com Remus, ele cuida de você.
- Vai me abandonar assim? – disse o loiro sorrindo, mas quando falou de novo estava sério - Deixe eu ir com você.
- Você viu com que eu estou lidando, Draco. Acha que aguenta? – Harry passou as mãos pelos cabelos – Eu não queria nem que os dois estivessem comigo. Quando acontecem coisas como essa eu...
O moreno não conseguiu terminar a frase, só cobriu o rosto com as mãos e respirou fundo.
- Ei! – o loiro pegou suas mãos – Eles estão bem! Daqui a pouco eles chegam.
Harry beijou as mãos do outro, se levantou e colocou a louça para lavar.
- Vem, você deve estar louco por um banho e um pouco de sono descente.
Harry guiou o loiro até o andar de cima.
- Pode ficar com esse quarto, o banheiro é seguindo o corredor, a próxima porta a direita. Mas vem cá, vou pegar umas roupas para você, acho que por enquanto você vai ter que se contentar com algo meu mesmo. Se importa?
O loiro acenou negativamente com a cabeça enquanto entravam no quarto de Harry e este separava umas roupas para o outro. Harry agora ocupava a suíte que fora de Sirius, Ron e Hermione tinham seus próprios quartos, não que isso limitasse a hospedagem do loiro, a casa era enorme.
Draco pegou as coisas e foi tomar banho. Harry terminou de se despir, deixando as peças caídas pelo chão a caminho do banheiro. Deixou os óculos e o medalhão em cima da pia e mergulhou na banheira quente, deixando o corpo afundar, relaxando. Ah, como era bom!
Harry ficou ali por um tempo indeterminado, a cabeça solta para trás, os cabelos molhados pingando no chão enquanto massageava levemente o corpo cansado.
- O que está fazendo aqui? – perguntou sem olhar para o homem que entrava devagar no banheiro.
- Olhando uma das coisas mais bonitas que eu já vi.
Harry sorriu e olhou o loiro. Ele estava molhado, os cabelos loiros pingando, a toalha em volta da cintura.
- Então agora eu sou bonito?
- Você sempre foi lindo, Potter. Eu que nunca olhei direito para você.
Draco deixou a toalha cair no chão, caminhando nu até a banheira, de onde o moreno o examinava atentamente.
- Vim cobrar uma promessa que me fez.
- Eu te fiz muitas promessas nos últimos tempos.
O loiro entrou na banheira, se aproximando do outro.
- Mas tem uma que só depende da gente realizar...
Harry sorriu.
- Não foi uma promessa, foi mais uma ideia...
O loiro ficou sério.
- Você não quer?
Harry o pegou pelos cabelos e o puxou para um beijo. Draco foi encostando-se a ele devagar, deixando suas mãos correrem pelo corpo do moreno, deslizando suas pernas por entre as pernas dele. Harry gemeu baixinho, interrompendo o beijo, ao sentir a ereção do loiro sendo pressionada contra a sua. Draco deslizou o rosto até a curva do pescoço do outro, beijando e mordendo devagar, ouvindo os suspiros do moreno enquanto este remexia o quadril, buscando mais contato.
Harry endireitou o corpo, içando parte do tórax para fora da água, facilitando o trabalho do loiro, que agora chupava e lambia os seus mamilos e gemia, sentindo as mãos do moreno brincando em seu peito, pernas e bunda, pressionando mais o seu quadril contra o dele.
Draco envolveu a ereção do outro com uma mão, ouvindo os gemidos aumentarem em volume e intensidade conforme massageava o corpo do moreno. Sentiu-se puxado para um beijo quase sem fôlego, e as pernas de Harry envolveram sua cintura.
- Eu... aah... eu quero...
Ouviu o moreno sussurrando em seu ouvido entre gemidos e quase foi à loucura. Deixou a ereção do outro para suspender um pouco mais o seu quadril, passando os dedos pelo seu corpo, preparando-o antes de se posicionar melhor para penetrá-lo, devagar, olhando no rosto do moreno. A boca entreaberta, soltando sons indistintos, os olhos verdes embaçados de desejo, a testa vincada pela dor.
Quando sentiu todo o seu corpo envolvido pelo do moreno, retirou e voltou com força, o ouvindo gritar alto, agarrando os seus cabelos. Não diminuiu a intensidade, os movimentos facilitados pela água, que caia para todos os lados da banheira. Respirou fundo, sentindo o corpo sendo invadido pelas novas sensações. A pressão em torno de seu membro, o cheiro do moreno, os gemidos, os tremores de prazer que começavam a tomá-lo conforme entrava e saia de seu corpo. As ondas de prazer eram progressivas, fazendo com que aumentasse a velocidade. Quando sentiu que não aguentaria mais, procurou a ereção do moreno e começou a masturbá-lo.
- Ah... Draco...
Não foi preciso muito para que Harry chegasse ao ápice, seu corpo tremendo sob o do loiro que gemia sem controle contra seu ouvido, gozando também. Draco deixou a testa cair contra a de Harry, respirando fundo, ofegante. Harry aproveitou para beijá-lo entre suspiros quando o loiro deixou seu corpo.
Draco se virou de costas para Harry, deitando em seu peito, o rosto encaixado em seu pescoço, sentindo seu cheiro.
Ficaram quietos um pouco, abraçados, se recuperando.
- É, você tinha razão... Não é tão ruim.
Draco riu.
- Não falando que você não é gostoso, você é uma delícia, Harry – disse mordendo o pescoço do moreno – Nem que a gente não possa variar... Mas eu acho que prefiro você em mim. – Draco corou fortemente ao dizer isso, mas se tranquilizou ao sentir o tremor que perpassou o corpo do outro.
Harry o puxou para um beijo. Um beijo profundo, cheio de desejo e de carinho. Draco respondeu na mesma intensidade, procurando sua língua com fervor. Sem interromper o beijo, foi descendo as mãos pelo corpo do loiro, contornando seus músculos, beliscando os mamilos, brincando no seu umbigo, acariciando as pernas. Sentiu a mão do loiro segurar seus cabelos e a outra brincar na sua nuca quando começou a acariciá-lo com ênfase. Sua outra mão desceu um pouco mais, tocando-o de forma íntima. Draco mordeu o lábio de Harry quando um dedo o penetrou, mas voltou a beijá-lo, gemendo em sua boca, sentindo o vai e vem gostoso e a pressão em sua ereção.
Harry colocou mais um dedo, sentindo o loiro se contorcer de desejo em seus braços. Não parava de massageá-lo com a outra mão e Draco não deixava de beijá-lo. Colocou um terceiro dedo, indo o mais fundo que podia, e sugou os lábios do loiro quando ele gemeu descontrolado, movendo os quadris contra sua mão. Aumentou a velocidade de seus movimentos, beijando-o com mais intensidade, até que sentiu o loiro perder o ritmo da respiração e soltar a sua boca, ofegante, seu corpo se contraindo pelas sensações que o dominavam.
Harry subiu suas mãos, afagando seus cabelos, o olhando entregue, deitado em seu ombro, os olhos fechados, a respiração descompassada, a boca vermelha.
- Você é tão lindo, Draco. Eu juro que te tomaria agora mesmo, se não tivesse a certeza de que eu desmaiaria de tão cansado que estou. Desculpa, meu loiro, mas eu preciso dormir urgentemente.
Draco concordou com a cabeça, dando um selinho no moreno antes de se afastar, permitindo que o outro se levantasse e saísse da banheira para tomar uma ducha.
Draco ficou um tempo ainda dentro da água, observando o outro se enxugar, colocar as roupas, os óculos, e pendurar o medalhão no pescoço novamente, antes mesmo de pôr a blusa.
- Esse colar também foi herança do Black?
- Não.
- Mas pertence a um sangue puro.
Harry parou de pentear os cabelos e se voltou para o loiro, que começava a se enxugar. Pegou o colar na mão e o examinou novamente. O medalhão era dourado e liso, não havia marcas ou insígnias. Era redondo com espaço para a foto, onde estava guardado o bilhete do R.A.B. O seu contorno era estrelado, tendo quinze pontas. Harry o mantinha consigo o tempo todo, como para lembrar-se do que precisava fazer.
- Você conhece esse medalhão? - perguntou apreensivo, colocando a peça na mão de Draco, que terminava de se vestir.
- Se não me engano, é um medalhão das Andrews.
- Andrews é o quê? – perguntou Harry, o coração acelerado.
- O sobrenome de uma família bruxa. Se não me engano, a mãe do seu padrinho, minha tia avó, era uma Andrews, como a minha avó, irmã dela, mãe da minha mãe, também era. Na casa dela tinha um quadro da minha bisavó com um medalhão como este.
- Draco, vem cá.
Harry levou o menino até a sala de estar e parou em frente à tapeçaria com a genealogia dos Black.
- Me explica essa história direito.
- Olha aqui – Draco apontou um braço da descendência depois de examinar a peça por um tempo, e Harry pode ver a linhagem dos Andrews, surgindo do casamento de dois irmãos e se misturando, até resultar no casamento de Anita Andrews e Stevan Black. – Eles só tiveram filhas, mulheres, então a linhagem acabou. – completou Draco, acompanhando o olhar de Harry.
- Filhas mulheres. A sua avó e a mãe de Sirius. Sua avó teve três filhas, Narcissa, Bellatrix e Andrômeda Black. E do outro lado, Sirius e Regulus. Sua mãe tem o sobrenome Andrews?
- Tem, mas ela nem assina. É um nome sem valor. Eu já não tenho.
- Então é provável que Sirius e Regulus também tivessem, mas não o utilizassem.
- Principalmente por serem homens, o nome forte é o Black.
Harry observou novamente toda a descendência Andrews. Não havia mais possibilidades, nenhum nome começado com R, nenhuma outra chance de alguém ter o mesmo sobrenome.
- Draco, você disse que viu esse medalhão em um quadro na sua casa. Você sabe o que aconteceu com ele?
- Ele pertencia a minha bisavó, que só teve filhas mulheres, então a mais velha deve ter herdado.
- A mãe de Sirius.
- Foi por isso que eu perguntei se fazia parte da herança que ele deixou com você. Afinal, Potter, onde você arranjou esse medalhão?
Mas Harry não respondeu. Ele encarava a tapeçaria onde estava estampado o nome de Regulus, e a voz de Sirius voltou a sua cabeça.
Juntou-se aos comensais da morte... Ele foi morto por Voldemort, ou por ordens de Voldemort.
- Não pode ser. – Harry sentou-se no chão, pensando.
- Harry, você está bem?
Harry se levantou e desceu até a entrada da casa correndo, parando em frente a um quadro coberto. Puxou as cortinas com violência e apontou a varinha para o seu ocupante.
- Você deu esse medalhão para o Regulus? – gritou – Vamos! Responda ou eu ponho fogo em você, não preciso te tirar da parede para fazer isso!
- Traidor! Vadio miserável! Como ousa tocar no tesouro da minha família?
- Responda! Você deu isso para o Regulus?
- Era dele sim! Ele era o único filho que eu tinha! O único que deveria possuir o que foi de minha família! E não aquele traidor do sangue! Escória! Eu exijo que devolva esse medalhão!
- Não! – gritou Harry, e então parou para pensar um pouco – Nunca!
- Seu mestiço imundo! Não ouse roubar a minha família! Devolva!
- Ok! – respondeu ainda gritando – Onde Regulus costumava guardar?
A Senhora Black o olhou assustada.
- No armário da sala de estar, dentro de uma caixa preta.
- Estupore.
- Sabe, você muda de ideia muito fácil. – comentou Draco, que acompanhou a cena de longe.
- Eu estou lidando com uma sangue puro imbecil, precisa ter jeito para conseguir as coisas.
- Eu não gostei disso! Aquela era minha tia avó? A mãe de Sirius Black?
- Era. Simpática, não?
Draco riu.
- Você vai mesmo devolver o colar? – perguntou ao ver o outro voltar para a sala correndo.
Harry não respondeu, correu o mais que pode, subindo as escadas de três em três degraus, e se jogou em frente ao armário que ele ajudara a esvaziar dois anos antes. Draco se abaixou ao seu lado.
- Não tem nada aí.
Harry riu.
- Há dois anos esses armários pareciam a loja do Borgin&Burkes. Você ia gostar.
- Você já esteve na Borgin?
- Duas vezes, te seguindo. Uma no nosso segundo ano, outra ano passado. Loja legal.
Draco pareceu indignado por um momento, enquanto observava Harry tatear a prateleira, mas depois respondeu em tom de riso malicioso.
- Nossa, Harry, você já era vidrado assim em mim desde aquela época?
- Você não imagina o quanto. – respondeu o outro concentrado – Se afasta.
Harry levantou e pegou uma cadeira próxima, a atirando contra o vidro, que se espatifou. Ele pegou a varinha e fez os cacos sumirem, se ajoelhando de novo. No fundo do armário se via um camafeu preto, que de tão pesado não conseguiram abrí-lo nem tirá-lo do armário quando fizeram a limpeza da casa com Sirius. Harry tentou novamente, sem conseguir. Ele se sentou no chão pensando.
- Precisa de ajuda? – ofereceu o loiro.
- Preciso abrir essa caixa.
- Eu abro para você se você me contar onde arrumou esse colar e qual o problema com ele.
Harry o encarou por um momento, pensando. Ele hesitou um pouco, escolhendo as palavras, e então falou, aceitando a oferta.
- Eu procurava uma coisa parecida com a que fui buscar na mansão de ontem, mas quando consegui pegar, não era o que eu esperava, era esse colar. Se o que você disse estiver certo, o que eu buscava deve estar dentro da caixa.
- E o que são essas coisas que você procura tanto?
- Abra a caixa que eu te conto.
- Maldito!
Draco tentou alguns feitiços, mas nada deu resultado.
- Você não sabe abrir, não é? Ah, seu Slytherin trapaceiro, sai daí!
Harry se debruçou dentro do armário, examinando a caixa com mais atenção.
- Draco, vem cá! É impressão minha ou ela foi corroída?
O loiro se aproximou com a varinha acesa na mão. Havia sulcos na tampa e nas laterais da caixa, principalmente nas quinas. O moreno pegou um caco de vidro caído e esfregou na madeira do armário próximo à caixa. Havia resíduos de uma meleca preta, aparentemente um líquido que secou. O garoto cheirou a substância.
- É fadicida! O excesso corroeu a caixa. Espere aqui!
E saiu correndo, voltando com dois galões na mão.
- Se afasta e cobre o rosto, Draco.
O moreno retirou a tampa do galão e derramou o líquido em cima do camafeu. A caixa pareceu murchar, soltando uma fumaça branca e espirrando. Harry se aproximou para observar. Lá, no meio dos restos da caixa, estava o medalhão com a insígnia de Slytherin.
- Cara, isso... Isso é...
O loiro se aproximou, estendendo a mão para tentar pegar o medalhão que também estava soltando fumaça.
- Não! – Harry o empurrou para longe e jogou mais fadicida sobre o medalhão, observando o metal se diluir até sumir totalmente, quando ouviram um grito indistinto de agonia.
Harry ficou parado um instante, ofegante. Depois deu alguns passos para trás, até bater na parede oposta, deslizando até o chão, onde ficou olhando fixo o armário, a respiração ainda alterada.
- Harry, você está bem?
Harry não respondeu.
- Cara, aquilo era uma medalha de... de Slytherin, não era?
Harry o olhou e não respondeu, deixou a cabeça cair para trás, batendo contra a parede, os olhos fechados com força, como se algo estivesse doendo. Draco se sentou ao lado dele.
- Harry...
- Draco, nem se você quisesse... Nem que estivesse com todos os Comensais do mundo ao seu lado, você não seria capaz de matar Dumbledore. Nem você, nem Snape, nem Voldemort, nem ninguém. Naquela noite... Naquela noite ele já estava fraco, ele já chegou fraco naquela torre. Ele já estava morrendo e a única pessoa que poderia ajudá-lo era o Snape. E ele se enfraqueceu para pegar aquele medalhão!
- Harry...
Harry atirou o medalhão Andrews na poça de fadicida, se levantou e andou até a janela próxima, se apoiou no batente com as duas mãos, as costas curvadas, mordendo os lábios, respirando fundo e rápido.
Draco se levantou e saiu da sala, deixando o outro com os próprios pensamentos. Foi para a cozinha e se sentou à mesa.
Potter estava mexendo com algo grande demais para ele, disso o loiro tinha certeza. E ele precisava descobrir o que era. Aquela era a única oportunidade que tinha. Harry o colocara dentro de sua casa, o que era mais do que ele sonhara. A possibilidade que Harry lhe oferecera, de ser inocentado e protegido pela Ordem certamente era mais do que ele poderia desejar, mas se isso não funcionasse, ele ainda tinha um trunfo na mão: poderia entregar Potter ao Lord, retomando seu posto de Comensal, tão desejado, e com um crédito próximo ao que seu pai tinha antes de ser preso.
Bem, não estava nos seus planos transar com Potter, mas se esse era um meio de ficar perto dele, então valia a pena. "Se valia!", pensou sorrindo. Não era exatamente um sacrifício, o moreno estava lhe dando mais prazer do que jamais imaginara poder sentir com outra pessoa. As meninas com quem ficara não tinham conseguido esse feito.
Mas ainda assim, estava entregue demais. Tinha que tomar cuidado, pois se se envolvesse, seria difícil esconder do Lord os seus sentimentos.
Um arrepio correu as costas do loiro e ele sentiu a boca secar. Olhou em volta e decidiu procurar alguma coisa para beber.
Depois de algumas horas Harry desceu até a cozinha, encontrando o loiro tomando chá. Draco viu que o outro ainda parecia abatido, estava descabelado, com olheiras, o nariz meio avermelhado e ainda não terminara de se vestir. Achou que não era hora para perguntas.
- Servido? Tomei a liberdade de revirar sua cozinha.
Harry concordou com a cabeça e se sentou de frente a ele. Os dois ficaram em silêncio por muito tempo.
- Você precisa dormir. – lembrou o loiro.
Harry sorriu.
- Eu não conseguiria. Não agora.
O silêncio voltou a imperar, até que o barulho metálico da tranca da porta o interrompeu.
Harry se levantou e correu para o corredor que dava na porta da frente, seguido por Malfoy. Uma Hermione Granger, suja e abatida entrou, seguida pela figura de Ron, duas vezes pior.
- Harry!
Ela gritou e correu para os braços do moreno, em um abraço abraçado demais, segundo a concepção de Draco.
- Céus! Você está vivo! Você está bem? Não te aconteceu nada?
- Eu estou legal, Mione! O Draco cuidou bem de mim...
Hermione olhou bem a figura de Malfoy, vestido com as roupas de Harry, e o comprimentou com um sorriso tímido, enquanto Harry examinava Ron.
Foram para a cozinha. Ron se jogou em uma cadeira.
- Ah, cara, eu estou todo dolorido! Preciso de banho e cama! Quando a gente vai sair de novo?
- Não sei... Precisamos nos preparar agora para desenterrar aquela casa, não é?
Hermione sorriu, tirou algumas coisas do bolso e jogou algo dourado para Harry.
- Ah, por Merlin! Eu não acredito! Vocês conseguiram!
A taça que pertencera à fundadora da Hufflepuff brilhava em suas mãos.
- Como vocês conseguiram? – perguntou, se sentando à mesa, olhando o tesouro.
- A gente só foi arremessado para lado certo quando a casa caiu. Um feitiço escudo para evitar morrermos e pegamos.
- Falando assim, Mione, até parece que foi fácil. – protestou Ron – Harry, você não imagina o exército de aranhas que estava protegendo essa taça. Me fez lembrar daquela vez que a gente caiu no ninho da Aragogue. Sem falar dos dementadores que nos pegaram nas cavernas. – Ron estremeceu.
- Manhoso! – Hermione disse rindo, beijando Ron na boca – E demoramos um pouco mais do que o esperado porque esse aqui resolveu quase morrer de hemorragia no meio do caminho.
- Harry também. Mas foi logo depois que aparatamos da casa. – falou Draco, pela primeira vez.
- O que confirma a minha teoria de que é algum tipo de reação à magia naquela porta. – completou Hermione.
- Mas, mudando de assunto. – interrompeu Harry sorrindo – Vocês dois estão juntos e não falam nada?
- É, acho que a gente brigou muito no caminho de volta. – disse Ron em tom de gozação.
- Ao contrário! Acho que foi a primeira vez que ficamos tanto tempo sozinhos sem brigar. E estamos namorando, sim!
- Eu e o Draco também – Harry falou em tom debochado, o loiro gargalhou, para surpresa dos outros dois.
- É sério, Harry! – protestou Hermione.
- Mas eu estou falando sério, Mione! E espero que vocês se casem e tenham muitos filhos! – disse Harry rindo. Esse pensamento o consolava, de alguma forma.
- Se a gente não morrer antes... – Ron completou no mesmo tom brincalhão – Ei, o que a gente faz com isso agora? – perguntou, pegando a taça.
- Destruímos. – respondeu Harry com simplicidade.
Ron levantou e pegou uma machadinha de lenha no canto da cozinha, descendo com força em cima da taça delicada. O machado se partiu em dois e voou longe. A taça não sofreu sequer um arranhão.
- Certo. – disse o ruivo se sentando – Como?
- Bem, o diário foi com o veneno de basilisco; o anel a gente não sabe porque o Dumbledore não contou; o medalhão foi com fadicida...
- Medalhão? Você destruiu o medalhão?
- Ah, é! Desculpe. Draco descobriu o R.A.B.
- R.A.B.? – perguntou o loiro, confuso.
- Era o Regulus, o medalhão estava aqui em casa o tempo todo. – e Harry contou a história aos dois.
- Eu não acredito! E a gente nunca pensou nisso! – disse o ruivo, incrédulo.
- Mas me diz uma coisa, - perguntou Hermione, com a testa franzida para Harry – como o Malfoy viu o medalhão?
- Potter tirou quando fomos trepar. – respondeu o loiro, rindo.
- Menos, Draco! – advertiu Harry
- Foi você quem começou!
- Certo, deixa para lá. – disse Hermione, perturbada, começando a andar de um lado para outro na cozinha, a mão esfregando a testa – Ah, eu não consigo pensar! – se sentou, derrotada, depois de um tempo.
- Você precisa de descanso. Os dois.
- E você também, Harry. – alertou o loiro.
- Acho que todos nós. De qualquer forma, vamos ficar pelo menos uma semana aqui... Eu preciso resolver umas coisas.
Os quatro subiram, cada um para seu quarto, e a casa caiu no silêncio que velou o sono deles. Draco se deitou na cama simples, sentindo o corpo relaxar. Agora teria tempo. Potter estava mais calmo e ele tinha mais chances de colher informações das conversas dele com os outros dois.
Ele deixou-se embalar pelo sono enquanto pensava que ficar com Harry não era tão ruim.
- Harry... – ele suspirou sorrindo, tentando se lembrar quando começara a tratar o outro assim, e adormeceu.
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