Capítulo 06 Seguindo pegadas

Draco saiu da casa e seguiu andando firme e de corpo ereto até o fim da rua. Quando chegou à primeira encruzilhada, já fora do alcance de visão da casa, quis se chutar. Potter tinha razão, como pode ser tão burro? Não suportava mais ficar lá, mas tinha que sair assim? E para onde ia?

"Foda-se", pensou com raiva. Ia achar uma saída. Sempre tinha uma saída, não tinha? E não ia voltar. Podia ter perdido tudo, mas ainda era um Malfoy, não ia implorar por um teto e um prato de comida, ainda mais para aqueles três.

Pegou a rua da esquerda e começou a andar calmamente, as mãos no bolso, a cabeça baixa, tentando pensar. Tinha sua varinha, podia aparatar. Mas para onde? Pedir um quarto no Caldeirão Furado? Com que dinheiro? Seu cofre no Gringotes estava vazio, tudo o que sua família possuía fora confiscado quando os três foram acusados de serem comensais, depois que atacou o velho. E estava sendo procurado. Procurar emprego não era exatamente uma opção, o entregariam para o Ministério no mesmo instante.

Talvez pudesse contar com a possibilidade de não ser reconhecido, afinal, estava caminhando pelas ruas de Londres anonimamente no momento, não estava? Mas até quando?

Olhou aflito à volta, crianças brincavam na rua, carros passavam, mulheres cuidavam de jardins na periferia trouxa.

"Talvez viver como trouxa, se isolar da comunidade bruxa, seja uma opção razoável", pensou com amargura, sentindo seu estômago revirar. Ele, um bruxo sangue puro, cuidando de jardins, dirigindo carros e frequentando supermercados, cercado por trouxas. "Eca!", fez uma careta. Não, não podia ter caído tanto.

Isso considerando que tivesse condições de viver como trouxa, pois estava sem documentos e dinheiro nos dois mundos.

Respirou fundo quando chegou a um cruzamento mais movimentado, prestando atenção para atravessar a avenida e seguir o seu caminho. Não sabia onde estava, mas a cada passo se distanciava mais daquele largo imundo. Andava devagar, sem pressa de chegar onde quer que fosse. Em nenhum momento achou realmente que Potter o seguiria, que o fosse buscar. Não, essa possibilidade não passou nem remotamente em sua mente. Ele conhecia o Gryffindor e, no máximo, se contentava com o feliz pensamento que nunca mais teria que olhar para aquele quatro olhos nojento de novo.

Suspirou e fechou os olhos por um momento, sentindo o perfume do outro que ainda exalava de seu corpo misturado ao cheiro de sexo em si, mas logo o afastou da cabeça. Precisava seguir seu caminho.

Pensou em seus amigos, em sua família, tentando encontrar alguém que pudesse ajudá-lo. Mas todos estavam servindo a Voldemort. E uma coisa era certa, ele o queria morto mais que nunca depois de passar tanto tempo desaparecido. Não teria uma história boa o suficiente para contar e conseguir escapar vivo. Se pelo menos tivesse conseguido tirar informações de Potter, talvez até tivesse uma chance. Não, não podia contar com amigos, ninguém se arriscaria por ele frente aos olhos do mestre.

Lembrou-se de Snape, o professor de que gostava tanto e que fora amigo de seu pai. Mas ele já havia mostrado que, apesar de toda sua força, não poderia protegê-lo plenamente. E além do que, ele parecia comprometido o suficiente com aquele jogo de agente duplo. Tinha a sensação de que Snape estava quase tão ferrado quanto ele, se equilibrando em cima de um barbante no meio da guerra.

Lembrou-se do pai e suspirou. Seu pai estava seguro. Queria vê-lo, pedir conselhos, desabafar. Talvez nunca mais o visse. Pelo menos não temia mais pela sua sanidade, os dementadores não estavam mais em Azkaban, mas se tivesse força o suficiente tentaria tirá-lo de lá.

O que ele diria ao ver seu filho tão perdido? Será que ele sabia que Narcissa havia morrido? Sentiu a tristeza o invadir e se lembrou de quando estava tudo bem, e podiam viver juntos. Não podia ter perdido tudo assim. "Como deixei isso acontecer?", pensou com raiva, a garganta fechando com a dor que sentia. Não podia. Não podia!

Apertando a varinha dentro do bolso se concentrou e aparatou, sem pensar muito bem no que estava fazendo.

No instante seguinte, Draco andava por uma viela arborizada. Os raios de sol do fim da tarde batiam em seu corpo cansado enquanto ele seguia o caminho tão conhecido em direção ao portão de ferro negro logo à frente.

Aproximou-se e se apoiou nas grades. Do outro lado a viela continuava, agora não mais cercada de árvores. Um gramado se estendia até onde os olhos podiam alcançar, pontuado por algumas poucas árvores. No fim do caminho, uma mansão se erguia imponente, toda branca, com detalhes em madeira escura. Três andares de puro luxo.

Seguindo o caminho com os olhos, Draco se deparou com uma mulher, morena, os cabelos soltos ao vento, brincando sentada na grama com duas crianças. Uma terceira era empurrada por um homem alto em um balanço preso ao galho da árvore mais próxima.

Draco conhecia aquela cena, conhecia bem aquele balanço, conhecia a sensação de estar solto no ar quando o vento batia na grama, conhecia bem a casa, o caminho, as árvores, o gramado. Mas não conhecia aquelas pessoas. Não sabia quem eram ou o que estavam fazendo na sua casa.

Olhou o portão. Não havia tranca. Ele se lembrava das palavras que o abriam, mas nunca mais as pronunciaria. Por mais que sua vontade fosse derrubar aquele portão e gritar com aquelas pessoas até que eles saíssem correndo de sua propriedade, ele sabia que talvez fossem somente pessoas que pagavam seus impostos em dia e não tentavam matar ninguém. Enfim, gente medíocre que ele costumava ignorar. Mas no momento ele estava manchando o portão centenário daquelas pessoas com suas lágrimas, e o brasão dos Malfoy, que ainda estava lá, não merecia ser manchado daquela forma.

Afinal, aquela era a casa daquelas pessoas, a felicidade daquelas pessoas, a história daquelas pessoas. Draco deveria ter imaginado que suas propriedades tinham sido vendidas, leiloadas, doadas, qualquer coisa assim. Mas nada poderia prepará-lo para ver que sua história também havia.

Draco aparatou perto do Beco Diagonal e se obrigou a continuar andando. Talvez andasse até acabar suas forças, já que não tinha para onde ir mesmo. A noite caiu e o envolveu. Sentia frio, fome e cansaço, queria beber até perder a consciência, mas não podia parar de andar, não naquele momento.

Não saberia dizer quanto tempo vagou assim, tentando colocar os pensamentos no lugar, tentando lembrar-se de um buraco onde pudesse se esconder até descobrir o que faria para sobreviver. Tinha pelo menos clara essa necessidade: precisava se esconder e depois, com mais calma e segurança, pensaria no que fazer. Mas no momento sua cabeça doía imensamente e as ideias se perdiam.

Então ele continuava andando.

Agora andava por uma rua mais movimentada, com alguns bares e restaurantes, além de comércio noturno. Tudo parecia hostil e imerso em uma névoa que o separava da realidade. Procurava andar nas sombras, do lado mais interno da calçada.

Um homem corpulento passou por ele em sentido contrário e esbarrou em seu ombro. Ele seguiu seu caminho.

- Ei, moleque, não te deram educação?

Draco o olhou sem parar de andar, não iria se desculpar com um estranho que tropeçou nele. Ignorou a frase, até que uma mão pesada pousou em seu ombro, virando seu corpo a força.

- Não ouviu? Você quase me empurrou na rua, moleque!

Draco desvencilhou o corpo do braço do estranho e continuou andando. Até que sentiu a ponta de uma varinha o obrigar a erguer o rosto.

- Será que eu vou ter que lhe dar educaç...

Draco acompanhou os olhos do estranho se estreitarem quando o farol de um carro bateu em seu rosto. "Merda!", pensou, buscando a varinha, mas foi empurrado contra o muro com violência e ela escapou entre seus dedos, deslizando pelo chão úmido para a escuridão.

- Eu te conheço! Miserável! – o estranho conseguiu falar, quase o sufocando – Paul, James! – gritou – Corram aqui!

Draco não conhecia aquele homem, tinha certeza. Mas tinha certeza também que sua semelhança com o pai poderia levar facilmente à confusão, e, pela cara de ódio do homem, não adiantava explicar enganos do passado. Tentou correr, mas mais vultos se aproximaram e o que seguiu depois foi uma mistura de gritos, chutes e socos, até que perdeu a consciência.

o0o

Draco acordou incomodado com a luz. Levou a mão ao rosto para proteger os olhos claros e piscou com força, lacrimejando. Sentia o corpo dolorido, cansado, afundado no colchão macio. Olhou o teto. Conhecia aquele teto...

- Que bom que acordou.

Conhecia aquela voz. Olhou em sua direção e voltou a fechar os olhos. Aparentemente pertencia à sombra sentada em frente à janela. A sombra caminhou em sua direção e Harry Potter se sentou na beirada de sua cama, sério.

- Como está se sentindo?

Draco deu de ombros e se sentou na cama do seu quarto em Grimmauld Place.

Partir, andar

Eis que chega

Essa velha hora tão sonhada

Nas noites de velas acesas

No clarear da madrugada

- Hum. Bem. O que estou fazendo aqui?

- Te tirei do hospital antes que você fosse preso.

- E como me encontrou no hospital?

- A Ordem tem gente no Saint Mungus, Malfoy. Te reconheceram e me avisaram, já que eu estava responsável por você.

- E eles simplesmente te deixaram me levar de lá?

- Você ainda não havia sido identificado pelo hospital, o que ajudou. Nós alegamos que você estava sendo ameaçado pelos Comensais e assim era uma ameaça para o hospital, se ficasse lá. Além do que, seus ferimentos eram trouxas, não são difíceis de tratar.

Só uma estrela anunciando o fim

Sobre o mar, sobre a calçada

E nada mais te prende aqui

Dinheiro, grades ou palavras

"Ferimentos trouxas" acordou no loiro as lembranças do seu último encontro com Harry. Olhou o moreno. Como ele havia dito, as cicatrizes quase haviam desaparecido.

- Há quanto tempo eu estou inconsciente?

- Uns dois dias. Você perdeu muito sangue. Foi encontrado quase morto caído em uma calçada. A sorte que foram bruxos que te viram e te levaram para o Saint Mungus porque encontraram sua varinha ao seu lado e concluíram que era um bruxo também. Você estava irreconhecível.

Houve um momento de silêncio. Harry não perguntou o que aconteceu. Draco não perguntou por que o trouxe de volta para sua casa. O loiro sentia que tinha que dizer alguma coisa, mas não sabia o que. O que deveria dizer, seu orgulho não permitia. Então o silêncio permaneceu.

Partir, andar

Eis que chega

Não há como deter a alvorada

Para dizer: um bilhete sobre a mesa

Para se mandar: o pé na estrada

- Bem, você tem que tomar uma colher dessa poção a cada duas horas por mais três dias. – o moreno se levantou e se encaminhou para uma mesinha do outro lado da cama - Vou deixar meu relógio com você, ele vai despertar te avisando. Aqui tem comida, mas se precisar de alguma coisa é só falar. Suas coisas estão no armário. São suas, não precisa devolver. Você conhece a casa, fique à vontade. Aqui está sua varinha e...

O moreno passou o dedo por um bloco de papéis sobre a mesa, pensativo.

- Isso é uma promessa cumprida, acho que você deve dar uma olhada, apesar de ainda não ter terminado. Você não é prisioneiro, Malfoy, pode ir quando quiser. A vida é sua, eu não estou te obrigando a nada.

E saiu.

Tantas mentiras e no fim

Faltava só uma palavra

Faltava quase sempre um sim

Agora já não falta nada

Draco se debruçou sobre a mesa e pegou os papéis. As folhas tinham aspecto oficial e muitas assinaturas. Um título chamou sua atenção: requerimento de suspensão de inquérito judicial. Abaixo vinha seu nome e as acusações que tinha. Era o pedido de Potter para que o Ministério o inocentasse. Pela data, ele havia iniciado no dia seguinte ao que chegaram ao Largo. Draco virou às últimas páginas. Realmente, o processo ainda estava correndo, mas os últimos documentos eram daquele mesmo dia. Algo amargo desceu pela sua garganta.

Mesmo depois que Draco o deixara, Potter continuou com o processo, brigando por ele, cumprindo sua promessa.

Eu não quis

Te fazer infeliz

Não quis, não

E de tanto não querer

Talvez fiz

o0o

Durante toda a semana seguinte Harry não voltou ao quarto e Draco não saiu, só para usar o banheiro, mas nunca encontrou ninguém. Depois de três dias que havia acordado, Hermione apareceu.

O garoto estava sentado no batente da janela. Ele a olhou quando ouviu a porta se abrir, mas não falou nada. Ela trazia uma bandeja nas mãos, que depositou em cima da mesa. Quando Draco percebeu que não havia ouvido o som da menina saindo foi que se virou novamente para olhá-la.

- Oi. – ela cumprimentou timidamente.

- Oi. – ele voltou a olhar para fora.

- Trouxe algumas coisas para você comer. Você não desce. Está se sentindo melhor?

Ele a olhou mal humorado, percebendo que a menina não iria embora tão fácil, e voltou a olhar pela janela. Demorou para responder, indicando com o silêncio que não queria conversa.

- Se você quer saber se estou curado, sim, não sinto mais nada.

Ela se aproximou dele, contrariando sua vontade.

- Malfoy...

- Não tem nada melhor para fazer, Granger? Se quiser levar a bandeja, pode, não tenho fome. – era mentira, a fome aparecia periodicamente, mas faltava vontade de comer. Para compensar ele dormia muito, não fazia mais nada o resto do dia mesmo, além de olhar o Largo imundo.

- Os meninos saíram, eu estou sozinha. Achei uma boa ideia vir ver como você estava.

- Estou bem. – respondeu secamente.

- Você precisa comer, Malfoy.

- Não enche, Granger! – ele respondeu ríspido, a olhando com rancor. Mas voltou a olhar para fora rapidamente, angustiado, pois o olhar da garota o lembrou sua mãe, e naquele momento foi uma lembrança dolorosa.

Hermione ficou ali, encostada na parede ao seu lado em silêncio durante alguns minutos. Ele não a olhou de novo. Podia sentir que a preocupação da garota era sincera, e um gosto amargo descia pela sua garganta, aumentando a sua angústia. Quando ela se afastou, pegando a bandeja vazia que Potter havia deixado há dias, Draco tomou uma resolução, andando até ela e pegando seu braço.

- Espera.

Ela o olhou firmemente.

- Ah... – ele não queria dizer – Er... Granger... Eu...

- Tudo bem, Malfoy.

- Não. Desculpa. E... Bem, obrigado. – ele a soltou, passando a mão pelos cabelos loiros.

- Eu só queria saber como você estava. Quero dizer... É óbvio que você está péssimo, mas, bem...

- Não, eu... – ele respirou fundo – Bem, acho que já estive pior.

Ela sorriu com ternura.

- Coma. Você não pode ficar fraco agora.

Ele se sentou na cama e puxou a bandeja, começando a comer devagar, se esforçando, a comida descendo seca pela sua garganta. Ela se sentou ao seu lado.

- E então... – ele começou em tom casual, tentando iniciar uma conversa – Vocês continuam buscando aquelas coisas?

- É, a gente está procurando.

- Você pode me falar delas? – ele perguntou sorrindo, já sabia qual seria a resposta.

- Bem... Não posso, Malfoy. – ela respondeu meio tensa.

- Não, ok. Eu já esperava. Só me diz uma coisa, você saberia me falar sobre essas coisas?

- Bem... Mais ou menos... O Harry sabe mais do que a gente.

- E você arrisca sua vida daquele jeito sem saber ao certo o que está fazendo?

- É importante, Malfoy. Eu posso não entender exatamente a grandeza que isso envolve, mas é algo muito importante. E eu confio no Harry.

Draco sorriu triste.

- Parece que todo mundo confia. Você sabe que ele conseguiu que o Ministro assinasse um pedido de perdão para mim?

- Quê? – ela perguntou, confusa.

Ele se debruçou sobre a mesa e pegou os papéis. Ela começou a ler com atenção.

- E aí, o que você acha? – ele perguntou depois que acabou de comer.

- Bem, pelo que tem aqui, você tem alguma chance. O testemunho que o Harry deu a seu favor está muito forte, e você não matou ninguém, afinal.

- Como o Harry conseguiu isso?

- O que quer dizer?

- Por que ele simplesmente não foi preso ou tachado de louco traidor por defender um Comensal da Morte condenado como eu dentro do Ministério da Magia?

- Bem... – Hermione pareceu ponderar – Entenda assim: o Ministério da Magia em si é um velho babão que está sentindo cada vez mais a água bater na bunda.

Draco riu ao ver a "bruxa mais inteligente de Hogwarts" usar aqueles termos.

- É verdade. Os caras estão com medo. Estão desesperados. O Ministro assina todos os dias uma pilha de papéis autorizando os aurores a serem cada vez mais autônomos em campo, pois se não fosse quem dá a cara à tapa e luta, eles já eram, como muitos já foram, entende? E eu te pergunto: quem luta? Quem vai morrer nessa história toda? Os aurores, a Ordem e a gente. E quem tem a maior chance de ganhar, de vencer Voldemort?

Draco se arrepiou da cabeça aos pés ao som do nome. Para disfarçar, debochou.

- O famoso cabeça rachada do Potter.

- Fama abre portas, Malfoy. – ela respondeu séria - Você sabe disso, quantas vezes não jogou isso na nossa cara? Mas nesse momento é a chance que o Harry tem. – ela riu – Demorou até que ele resolvesse usar a imagem dele para influenciar alguém. Se ele entra no Ministério e fala que fulano é Comensal, então fulano é Comensal. Se ele fala que não é, então não é. Porque se alguém sabe sobre Voldemort, esse alguém é ele.

Draco fez uma careta, ironizando.

- Fama é só pose. O Potter não é tudo isso, ou eu já estaria livre.

Hermione sorriu.

- É verdade. Ele é só um menino, e tratam ele como se ele fosse o "salvador". – ela riu de verdade – Você nunca viu ele revoltado por causa disso, não é?

Draco sinalizou que não com a cabeça.

- Depois que passa, chega a ser engraçado quando ele não começa a gritar ou quebrar as coisas... Mas você conseguiu conhecer ele durante uns dias. Ele é isso: atrapalhado, espontâneo, instintivo, inseguro até. Mas muito atento às pessoas de quem ele gosta. Ele não tem nada de mais, só fama.

Draco ficou quieto por um tempo, pensando.

- Você gosta dele?

- Quê? – a pergunta da garota o arrancou de seus devaneios.

- Você confia no Harry, Malfoy?

- Eu tenho um acordo com ele, Granger. – Draco respondeu tentando imprimir o máximo de frieza a sua voz - Acho que tenho que confiar, não é mesmo? Ele me protege, e eu...

Ele ficou perdido em seu pensamento, a frase suspensa no ar.

- Você... – estimulou Hermione.

- Eu... – Draco parecia de repente angustiado e surpreso – Ele... Ele não me pediu nada em troca!

- Típico. – ela disse rindo – Mas, ora, você tem as suas escolhas, não precisa ficar aqui.

- Escolhas são uma ilusão. Eu nunca escolhi a vida que eu tenho hoje. – o garoto respondeu sério – Ter perdido tudo... Ter que ficar preso aqui...

- Isso passa, Malfoy. – ela respondeu séria também, lhe devolvendo os papéis – Se eu não acreditasse que um dia tudo isso vai acabar, não teria forças para fazer o que eu estou fazendo. E olha que eu nem consigo acreditar totalmente no fato de que vai ser Harry quem vai acabar com isso, como todos acreditam. Mas tem que acabar, isso não é vida.

Ela disse a última frase mais para ela do que para o garoto, e o loiro sentiu na sua voz a mesma agonia que sentia dentro de si.

Ele admirava uma sangue ruim naquele momento.

o0o

Os dias foram passando. Hermione voltou outras vezes para conversarem, ele desceu algumas vezes para comer com ela, enquanto os outros dois não voltaram.

Duas semanas depois que ele acordou, para sua surpresa, quem abriu a porta de seu quarto foi Harry Potter. Ele estava diferente, tenso. Vestia calça e camiseta pretas, coturnos e a capa aberta caia sobre seus ombros. E seus olhos verdes brilhavam com fúria.

Céus, ele estava lindo.

- Vem. – ele chamou rudemente – Vamos sair e é melhor você não ficar sozinho.

Draco se aproximou e ele o pegou pela mão, aparatando em seguida. O loiro olhou à volta. Estavam em um lugar baixo, empoeirado e sufocante: um sótão.

- Não faça barulho. – alertou Harry em um sussurro.

Potter se abaixou para uma janela e começou a examinar o lado de fora. Draco se abaixou ao lado dele, mas sequer conseguiu focar a rua escura antes que um arrepio corresse por todo o seu corpo. Ele voltou a encarar o moreno ao seu lado. Harry estava concentrado, a testa vincada. Os dois pontos verdes na escuridão, que eram seus olhos, corriam de uma ponta a outra da rua, procurando algo nas sombras. Escutava a tudo com atenção, tentando não respirar para que o som não o atrapalhasse. Seu corpo também estava arrepiado e uma energia sutil, mas poderosa, pairava a sua volta, se estendendo em todo o ambiente e além. Draco não duvidaria que ele soubesse de cada movimento em um raio de muitos quilômetros.

Harry era puro sentir.

Uma risada distraiu o loiro, que voltou sua atenção para a rua. Um casal passava abraçado entre as árvores, rindo e conversando distraidamente. Os dois começaram a se beijar e entraram por um jardim abandonado, pulando desajeitadamente o portão de ferro caído no chão. O garoto empurrou a namorada contra a porta velha e a beijou com entusiasmo. A lua saiu de trás de uma nuvem e iluminou seus cabelos ruivos. Eram Ron e Hermione. Alguns beijos depois e a mão da garota deslizou para a fechadura, fazendo os dois escorregarem para dentro da casa.

Draco encarou Harry, que parecia mais tenso ainda. O moreno ainda esperou alguns minutos antes de olhá-lo.

- Vê aquela árvore? A mais alta no jardim da casa? – ele apontou para o loiro. – Aparate embaixo dela em três.

Draco concordou com a cabeça e ouviu o moreno contar.

- Um... Dois... Três.

A brisa da noite brincou com suas mechas loiras quando o moreno surgiu ao seu lado, quase instantaneamente, embaixo da árvore.

- Vem.

Harry andou com passos firmes até a porta entreaberta. Entrou sem a mover e deu um passo para o lado, para o loiro poder segui-lo. Draco pode ver duas sombras, uma em cada ponta do corredor, Ron e Hermione.

Os quatro andavam silenciosamente, o trio vasculhava cada canto de cada aposento em que entravam. Draco não sabia o que procuravam, tentava só não se mexer muito para não atrapalhar, mas estava sempre por perto.

- Harry, algum sinal? – perguntou Hermione, afoita, quando subiram para o segundo andar.

- Nada. Tem menos magia aqui do que na casa dos meus tios. Eu não sinto nada.

A busca continuou por mais de três horas. A única coisa mais empolgante foi a revista de um guarda roupa em um quarto escuro, que estranhamente chamou a atenção de Harry. Ele pegou uma caixa e a virou no chão, onde alguns objetos rolaram. Ele apanhou a pequena gaita quase que com medo e a segurou com força na mão por alguns minutos, olhando o nada, antes de seguirem.

- A gaita era somente uma gaita. – Draco o ouviu dizer baixo, como para si mesmo, quando saíram do quarto.

Depois da casa inteira revistada, os três saíram e rodaram o jardim e as vizinhanças. Quando o céu começou a empalidecer e o movimento da rua em frente aumentou, Ron declarou, tenso.

- Harry, não tem nada aqui, cara.

Harry parecia angustiado, mas cedeu.

- Vamos.

Os quatro aparataram em frente ao largo e Potter abriu a porta com violência, andando em passos firmes para a cozinha. Ron e Hermione o seguiram. Draco fechou a porta e ficou parado no corredor por um momento, tentando decidir o que fazer. Resolveu segui-los.

Harry andava de um lado para o outro fumando.

- Harry... – Hermione tentou.

O moreno a olhou.

- Foram quase dois meses jogados fora e ainda não sabemos o que é, Mione. Eu não elimino o orfanato.

- Mas, cara...

- Não, Ron. Mas não vou mais perder tempo lá. Nosso próximo passo é o Beco Diagonal. Mas vai ser difícil...

Harry convocou uma garrafa de Firewhisk da dispensa e saiu da cozinha, subindo para o seu quarto. Draco olhou os outros dois por um momento, depois resolveu subir também, para o seu quarto.

Três horas depois, sentado na janela, Draco acompanhou Harry sair da casa e aparatar. Ele voltou muito mais tarde, quando já havia escurecido novamente, e foi direto para seu quarto.

Draco se sentia cansado, o clima na casa estava tenso. Ele tinha muitas perguntas e muito em que pensar, apesar da exaustão, não conseguia dormir. Voltou a se sentar no batente da janela, onde se acostumara a ficar, e quase caiu quando o grito de dor quebrou o silêncio da madrugada.

O loiro correu para o corredor a tempo de ver Ron e Hermione fazerem o mesmo, aparentemente ninguém dormia naquela noite. Os três se olharam interrogativos, e então um segundo grito os atingiu, mais fraco.

- Harry! – Ron grunhiu.

Hermione correu para o quarto do moreno, seguida pelos outros dois, e abriu a porta com magia.

Potter estava deitado sem camisa, o lençol enroscado no corpo banhado de suor, os braços abertos, as mãos segurando com força o tecido, o rosto contorcido em dor, os dentes rilhando entre gemidos. Os olhos fechados.

- Ele está sonhando. – Draco constatou assustado.

- Não. – Hermione afirmou e com decisão sentou-se na beira da cama, pegando o rosto de Harry entre as mãos e chamando, quase gritando – Harry! Harry! HARRY! Enervate!

Potter voltou a gritar e abriu os olhos, mas eles estavam brancos, totalmente brancos, sem pupilas ou íris.

- Merlin! – Ron gritou, Draco deu um passo para trás, assustado.

- Ele está preso! – Hermione afirmou e se sentou sobre o abdômen do amigo, passando uma perna de cada lado do seu corpo, segurando seus ombros com as mãos para evitar que ele se debatesse. – Legiminens!

Hermione olhava tão fixamente para o rosto de Harry que parecia que ela iria cair dentro dele, seu corpo tremendo, sua boca murmurando sem parar. A magia fluía pelo ambiente, a lareira bruxuleou e apagou, as janelas se abriram e o vento rodeava a cama com fúria. Hermione gritou e foi atirada para fora da cama, batendo na parede do outro lado do quarto.

- Mione! – Ron correu para ela.

Tudo parou de repente. Draco olhou para a cama. Harry estava debruçado, vomitando compulsivamente no chão. O loiro foi até ele e segurou seus ombros, afastando seu cabelo do rosto.

- Mione... – Potter tentou falar, abrindo os olhos vagamente, e Draco pode respirar novamente ao ver o verde de seus olhos.

- Ela está bem. Ela vai ficar bem. – o loiro repetia enquanto olhava o casal atrás deles, tentando verificar se o que falava era verdade. Ele respirou aliviado, Ron ajudava a menina se levantar e a carregou para a cama.

Harry se virou cambaleante, respirando com dificuldade. Draco o puxou contra o seu corpo, o encostando nele, um braço cruzado sobre o seu peito, o outro segurando sua testa, levando sua cabeça a pousar em seu ombro. Harry sentia frio, o corpo dolorido, a cabeça parecia que ia explodir. Olhou suas mãos, estava mortalmente pálido e tremia. Olhou o loiro que o encarava com aflição. Deixou a cabeça cair contra seu ombro e tentou respirar.

- Eu vou ficar bem.

Draco beijou sua testa em um impulso. Harry sorriu.

- Você é um idiota cretino, Harry! – Hermione falou ofegante.

- Eu não pude evitar, Mione.

- Não minta para mim! Merda! Você sabe o que você fez!

- Eu não fiz nada! Eu não consigo mais barrar ele!

- Harry, eu sei que você não consegue e sei que você sofre com isso, mas tem uma grande diferença entre não conseguir impedir que Voldemort entre na sua mente e ficar passeando pela mente dele!

Harry fez uma careta quando nova pontada de dor percorreu sua cicatriz. Draco estremeceu quando entendeu a situação.

- Foi por causa da horcrux, não foi? Você achou que poderia descobrir onde ela está, não é? Você foi na Borgin hoje à tarde...

- Eu... Ah, Mione, dá um tempo! Não basta um dentro da minha cabeça, você também precisa ficar passeando por ela?

- Você é um cretino, Harry! – repetiu a menina - Eu só espero que ele não tenha arrancado nada de você!

Harry ofegou e passou nervoso as mãos trêmulas no rosto e então se lembrou porquê não se sentia seguro. Levantou-se com dificuldade.

- Precisamos sair daqui! Ele sabe onde estamos.

- Ah, cara! – gemeu Ron.

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Música utilizada: "Partir, andar" - Herbert Vianna (autor), Zélia Duncan (intérprete)

NA: Pessoas, aqui está o sexto capítulo. Espero que estejam gostando. Não estou recebendo reviews suficientes para saber! (beijos para a Fabriela!) Acho que o próximo capítulo (se chamará "em território inimigo") pode demorar um pouquinho, mas não desistam da fic, por favor!