Capítulo 08
Crime e castigo
- Harry? – Ron perguntou cuidadoso ao ver o amigo se soltar em uma poltrona depois de quase quatro horas de busca.
- Muita magia. – Harry passou as mãos no rosto – Precisávamos saber o que é, ajudaria muito. Tudo aqui é muito mágico. Em algumas coisas eu ainda posso sentir a presença dele. Ele deve ter ficado aqui por muito tempo.
- Pelo que Dumbledore disse, suponho que anos. – completou Hermione – Descanse um pouco, Harry. Não vamos embora sem essa horcrux ou a certeza de que não está aqui.
Eles haviam trancado a loja, fechado todas as portas e cortinas e bloqueado a lareira. Borgin jazia inconsciente em cima do balcão, junto a peças jogadas pelos garotos, entre as quais estava sentado Draco, com as pernas cruzadas, cuidando para que o velho não acordasse.
- Acho que tem um quarto nos fundos, Borgin mora aqui. Se você quiser deitar um pouco... – sugeriu o loiro.
Harry negou com a cabeça, agradecendo. Ron e Hermione ainda vagaram pela loja por um tempo, examinando os objetos com cuidado. Harry esfregava a cicatriz, dolorida.
- Ei! – ele falou de repente, assustando a todos – Como eu sou idiota! A horcrux não está aqui!
Hermione suspirou desanimada.
- E onde está? – perguntou Ron.
- Cara, Voldemort não ia colocar a horcrux a venda, nem seria louco de deixar aos cuidados do Borgin, pois o velho certamente venderia. Não pode estar aqui!
Ron se deixou cair em outra poltrona, desanimado.
- Mas ele não deixaria assim, a vista, ele esconderia... – começou Mione.
- Sim, estou considerando isso, e estamos perto. Mas esconder uma antiguidade entre outras antiguidades não é muito inteligente, se você não quer que elas sejam tratadas da mesma forma. Olha, Dumbledore falou que o tal do Burques era sócio do Borgin. Suponho que os dois não morassem aqui, não é como se houvesse espaço para dois adultos viverem bem. Considerando que o Borgin só tenha se mudado de uns tempos para cá, esse quarto de que o Draco falou podia muito bem...
- Hospedar os funcionários.
- Bingo, Mione! Draco?
- Suponho que fique no andar de cima. Temos que ver, eu nunca fui lá.
Draco jogou mais um estupore no Borgin, só para garantir que ele não acordasse enquanto não voltassem, e os quatro começaram a explorar a loja. Atrás do balcão tinha uma porta. De um lado, um armário de vassouras, do outro um pequeno banheiro, ao fundo uma área com alguns instrumentos, uma mesa, um banquinho, objetos quebrados e uma escada.
Subiram devagar, em fila indiana. Saíram em um quarto, um cômodo único, muito amplo, que pegava a parte de cima da loja.
- Ele não tinha estoque? – perguntou Ron, pensando na loja dos gêmeos e espantado com o espaço aberto.
- Acho que coloca tudo a venda, não fica armazenando, por isso lá embaixo é tão apinhado de coisas. – respondeu Draco.
Eles se espalharam e começaram a examinar o espaço. No centro, a cama larga. Havia várias roupas jogadas por cima dos lençóis e sobre o baú a seus pés. No canto, uma mesa com papéis com várias contas, recortes de jornais e louça suja por cima. Havia no outro canto uma pia e um espelho. Do outro lado do quarto, uma cozinha improvisada ao lado da lareira.
Harry alisava a cabeceira da cama com os olhos fechados.
- Bem, certamente ele esteve aqui, e ficou por muito tempo.
Reviraram tudo, mas não acharam nada que parecesse não pertencer ao próprio Borgin.
- Ei, Harry, vem cá! – chamou Ron afoito.
Harry se aproximou dele, que estava examinando a janela que dava para a rua paralela à Travessa do Tranco, um beco sujo e sem saída, acabando em uma parede de tijolos vermelhos, como a que escondia o Beco Diagonal.
- O que foi?
Ron pegou a mão dele e levou o seu indicador à divisa do vidro superior com a massa que o prendia no batente.
- Céus, isso é...
Harry abriu a janela e ficou de joelhos sobre o caixilho para examinar de perto o vidro.
- Ha-ha! – ele gritou em triunfo.
- O que é, Harry? – perguntou Hermione, ansiosa.
- Uma cobra. – ele respondeu ofegante – Uma cobra minúscula esculpida em baixo relevo no vidro. Havia uma dessas marcando a entrada da Câmara Secreta, em Hogwarts. Ela deve marcar alguma coisa.
- Uma porta? – sugeriu Ron.
- Sim, mas não aqui. Eu não sinto nada. Não há a concentração de magia necessária. Só se... Só se ela estiver apontando, sei lá, indicando algo...
Ele desceu do caixilho e olhou o quarto, passando a mão com cuidado na parede oposta, para a qual a cobra apontava.
- Abra! - disse na língua das cobras, mas nada aconteceu. Repetiu isso em vários pontos, sem resultado.
- Espera... – Hermione falou, ofegando de antecipação – Me mostra essa cobra, Ron. – ele levou a mão da garota até o desenho – Isso é um vidro. A cobra pode tanto apontar para o que está dentro, quanto para o que está fora.
Draco e Ron se debruçaram e olharam para fora, procurando por algo.
- E...? – Draco perguntou, depois de não achar nada além de sujeira no beco vazio.
- Bem... O que pode atravessar vidro tanto de dentro para fora como de fora para dentro é luz. E... Acho que tem algo mais aqui...
Hermione subiu no caixilho, como Harry tinha feito, e examinou a cobrinha com atenção.
- Ela foi prismada. Lumus.
O raio de luz que saiu da varinha da garota em direção à cobrinha se repartiu em sete cores, brilhando em arco íris do outro lado do vidro, mas no centro foi reduzido a um pequeno facho de luz. Facho que apontava para um único tijolo na parede no fim do beco. No meio do tijolo, algo brilhou, refletindo a luz. Harry desceu a escada correndo, com os outros no seu encalço.
- Espera, Harry!
- O que foi, Mione? – ele perguntou em sua ansiedade.
- Você não está achando estranho? Quero dizer, para quê a cobra? Nenhuma horcrux estava marcada antes, por que deixar uma pista tão óbvia, um meio de achar a horcrux? Estamos falando de Voldemort, Harry.
Harry pareceu considerar por um momento.
- Eu não sei, Mione. Não sei por que ele deixou a pista. Talvez ele mesmo precisasse de um meio de encontrar o local onde escondeu, talvez pensasse em confiar a alguém como fazer isso. Como você disse, Mione, estamos falando de Voldemort. O que quer dizer que nada é seguro, nada é certo. Mas eu tenho que tentar, entende?
Os quatro ficaram lado a lado a três metros da parede, com as varinhas empunhadas. O tijolo que brilha parecia estar no centro, mas qual? Daquela distância pareciam todos iguais.
- É melhor alguém voltar lá e jogar a luz de novo. – Draco sugeriu.
- Eu vou. – Hermione se ofereceu e voltou para a loja.
A menina reapareceu na janela segundos depois. O facho de luz voltou a bater na parede, em um tijolo acima de suas cabeças.
Harry deu um passo para frente, a varinha em punhos, suas entranhas pareciam derreter em apreensão, seu corpo se arrepiando em resposta à magia evidente ali, seus pés e mãos gelados, o mesmo frio que parecia invadir seu corpo vindo do chão a cada passo que ele dava.
- Abra! - murmurou na língua das cobras ao vislumbrar a pequena cobra de luz no centro do tijolo.
A peça se moveu, girando no meio das outras, revelando uma face oca, com um pacote dentro. Harry se aproximou mais, sentindo o frio aumentar.
- Especto patronum - Ron gritou e Harry se obrigou a dar as costas à parede.
Centenas de dementadores invadiam o Beco. O patrono de Ron somente abriu um corredor entre eles, sem conseguir dispersar a todos.
- Vai logo, Harry! – gritou o ruivo.
- Aaaahhhh! – um grito de terror veio de cima.
Harry olhou a tempo de ver Hermione subir na janela e se jogar de cerca de sete metros de altura, caindo no chão com estrondo e, aparentemente, uma perna quebrada antes da janela se fechar sozinha.
- Mione!
- A loja se fechou. Todas as portas se trancaram. Harry, acaba logo com isso e vamos sair daqui! – ela pediu entre dentes, segurando a perna quebrada.
- Porra, me ensina a fazer isso! – pediu Draco, enquanto Ron lançava um patrono atrás do outro, sem muito sucesso em fazer os dementadores desaparecerem, mas conseguindo mantê-los a certa distância.
Os dois estavam recuando, Draco caiu de joelhos no chão, balançando a cabeça, tentando se livrar da influência dos dementadores. Harry se voltou ao pacote, o pegando com cuidado e retirando a seda que o envolvia.
- Tente... tente pensar em algo feliz... – Ron ensinava, enquanto ele mesmo tentava se concentrar – Algo muito feliz... O mais feliz... E então... Especto patronum!
O pacote era pesado. Hermione choramingava a alguns metros ao seu lado. Draco resmungava as palavras, tentando fazer um patrono, uma nuvem informe de luz pairando a sua frente. Ron estava de joelhos no chão, seu patrono os rodeando, mantendo os dementadores afastados deles.
Ele retirou a seda, tentando se concentrar no que fazia. Uma figura esculpida em ouro. Uma mulher, muito bonita e séria, morena e seminua, sentada entre árvores, coberta com véus, se mirando em um espelho, com uma figura idêntica a que ele observava, se repetindo ao infinito. Acima, um grande "R", trabalhado em bronze, o símbolo da Ravenclaw.
- Especto patronum - Draco gritou o feitiço mais uma vez, com uma força retirada da visão de Ron desmaiado ao seu lado e os dementadores avançando sobre eles, agora sem proteção. Um dragão de luz varreu a rua antes que Draco desmaiasse.
Harry respirou fundo e virou o espelho.
- AAAAAAAAAAHHHHHHHHH! - seu grito cortou o céu e ele caiu.
- Harry! – Hermione gritou ao ver o amigo jogado no chão, os olhos sangrando, como bizarras lágrimas vermelhas lhe banhando a face, a pele branca como cera, um objeto de ouro caído sobre o seu peito, imóvel.
Ela sentiu o frio, os dementadores estavam voltando. Ela se concentrou e lançou um patrono sobre eles, os afastando de Draco e Ron, enquanto se arrastava em direção a Harry.
Tomou seu pulso, nada. O coração do amigo estava parado. Aproximou sua face do nariz dele. Nada. Ele não respirava. Ele estava pálido e frio.
- Harry! – ela gritou, desesperada, sentindo as lágrimas caírem dos seus olhos sem controle – Harry!
O frio voltou a perturbá-la. Mas ela não conseguia mais pensar ao ver seu melhor amigo morto em seus braços. O medo e o desespero cada vez mais crescentes. Ela o chacoalhou, gritando seu nome novamente, sem resposta. O pânico a dominando. Ela o abraçou com força, chorando desesperada.
Morto.
Então uma luz esverdeada pareceu envolver os dois e uma pequena pressão se fez em seu ventre. Ela ouviu vidro quebrando com impacto, e só então, quando se separou do corpo do amigo, percebeu que em seu desespero, não havia visto que o objeto que ele segurava ficara entre os dois.
Ela o pegou com cuidado, virando-o. Era um espelho, um espelho de Ravenclaw, um espelho quebrado. Uma horcrux destruída.
A ausência de frio. Ela olhou à volta, a rua vazia. Só estavam ela, Ron e Draco desmaiados, e Harry visivelmente morto.
Aquela havia sido a horcrux mais fácil de destruir. Seu medo, o medo dado pelos próprios dementadores que protegiam a horcrux, seu medo de ver a morte do amigo, havia destruído a horcrux. Mas custara muito caro.
Ela chorou, voltando a abraçar o corpo de Harry. Uma luz avermelhada brilhou sobre os dois. Ela procurou sua origem: os últimos raios de sol daquela tarde refletindo nas janelas do beco.
A tarde em que Harry Potter morreu.
Precisava sair dali.
Conjurou macas e colocou seus amigos sobre elas, cuidadosamente. Precisavam de um médico, todos eles. Mas sabia que, se alguém ainda poderia fazer algo por Harry, essa pessoa estaria em um lugar.
Precisava chegar a Hogwarts.
Precisava de ajuda.
Olhou à volta. O beco vazio. O trecho da Travessa do Tranco que conseguia vislumbrar além não parecia diferente. Mesmo se conseguisse chegar ao Beco Diagonal com a perna daquele jeito, não sabia que tipo de gente encontraria disposta a ajudá-la. E não queria deixar os amigos sozinhos. E qualquer tipo de sinal que enviasse poderia chamar a atenção das pessoas erradas. Precisava de alguém de confiança, alguém disposto a ajudar, alguém que pudesse chamar dali, discretamente.
Ela sorriu descrente de seus próprios pensamentos quando percebeu que um elfo doméstico seria o ideal. Mas ela não tinha um elfo, e não usaria um elfo daquela forma, a menos se ela soubesse que ele realmente queria fazer aquilo.
E então ela se lembrou.
- Dobby! – a voz saiu baixa, mais para si mesma. Ela se concentrou no que queria e chamou de novo, com mais força – Dobby!
Crack
- A senhorita chamou Dobby, amiga Harry Potter?
Hermione se arrastou e abraçou o elfo, quase chorando de felicidade.
- Por Merlin, Dobby! Obrigada por vir! Eu... Eu...
- O que aconteceu Harry Potter? – perguntou Dobby assustado, ao ver o corpo do garoto.
- Eu preciso de ajuda, Dobby. Preciso levá-los a Hogwarts.
- Bem... Dobby avisa diretora, depois vem ajudar. Espera Dobby aqui. - Crack
Hermione murmurou um feitiço para imobilizar a própria perna e se arrastou até Ron, tomando seu rosto entre as mãos e o beijando, esperando que Dobby voltasse logo.
O elfo não a decepcionou, minutos depois estava de volta.
- Dobby leva esses dois. – orientou o elfo - Você vai com Harry Potter. Vá para os portões. Dobby espera você.
Os dois aparataram. Os portões se abriram e os dois seguiram à frente das macas, Hermione andando com dificuldade, arrastando a perna.
- Venha. Diretora espera você sala dela.
Hermione agradeceu mentalmente o fato das escadas se moverem sozinhas, apoiando, cansada, a cabeça na pedra fria das paredes do colégio enquanto subiam à antiga sala de Dumbledore, as macas encantadas a seguindo em um cortejo fúnebre.
Entrou sem bater, empurrando a porta pesada.
- Granger, Dobby disse que queria me ver, mas... Merlin!
A professora, mal começou a falar, parando estática quando viu as macas a seguirem. Hermione cambaleou e foi amparada por Remus. Ela olhou à volta e percebeu ainda a presença de Snape na sala. McGonagall lançou um feitiço e fechou a porta.
- Por Merlin, Hermione, o que aconteceu?
A garota balançou a cabeça em negativa, aquela não era a melhor pergunta para o momento.
- Ajudem, por favor. – ela pediu em um sussurro.
Os professores rodearam as macas.
- Draco e Ron devem estar só desmaiados, dementadores. – a garota explicou – Mas Harry...
- O que aconteceu com ele, Granger? – perguntou Snape, tomando o pulso do garoto.
Ela estendeu o espelho para ele.
- Tinha algo aí. Eu não sei...
O antigo professor examinou o espelho, mas não lhe deu muita atenção, passando a examinar o garoto. Tocou-lhe o corpo inteiro, abriu seus olhos e resmungou alguma coisa. Depois começou a desabotoar suas vestes e quando viu o peito nu, suspirou, preocupado.
- Foi uma sorte você vir rápido.
- Ele não está morto? – Hermione perguntou, esperançosa.
- Ainda não. – respondeu Snape, seco – Minerva, meu estoque de poções continua como deixei?
A professora concordou com a cabeça, examinando Ron enquanto Remus cuidava de Draco.
Snape conjurou várias coisas, entre potes e poções. Elas se misturavam e se cozinhavam enquanto ele se debruçou sobre o corpo de Harry, a varinha apoiada em um ponto no meio do seu peito. As palavras saiam de sua boca em uma cadência contínua.
Remus se colocou ao lado de Snape, observando atentamente o que ele fazia, como para garantir que ele não machucaria Harry. Madame Pomfrey entrou na sala e começou a cuidar dos outros garotos, mas Snape pareceu não notar. Simplesmente continuava falando, resmungando. A pele de Harry começou a mudar de tom, passando do acinzentado mórbido que adquirira para algo um pouco mais pálido do que seria o seu normal. A cor se diluía sobre a pele em círculos, indo das extremidades em direção ao ponto em que a varinha de Snape tocava.
Snape interrompeu o feitiço e respirou fundo, ofegante. Encarou Remus.
- Por Merlin, Lupin, faça algo de útil! O garoto está morrendo e você só fica me olhando! Cuide dos olhos dele, imagino que isto você saiba fazer!
Remus pareceu por um momento que ia responder, mas Snape voltou ao seu trabalho. Ele se afastou, preparou um elixir e pegou alguns panos, limpando o rosto de Harry e começando a murmurar feitiços para seus olhos.
Levou quase meia hora até que Snape levantasse os olhos do corpo a sua frente, parando de falar, e começasse a apanhar as poções a sua volta. Hermione respirou aliviada ao ver que o tórax do amigo subia e descia levemente, em um ritmo lento e cadenciado.
Snape abriu a boca do garoto e derramou um líquido avermelhado, ajudando-o a engolir enquanto Remus conjurava mais elementos para poções. Hermione suspirou aliviada ao ver que o amigo tomou tudo sem repelir. O ex-professor repetiu o processo com mais duas poções, e esperou, tocando o peito do garoto em alguns pontos, procurando vestígios de magia.
Harry tossiu e engasgou, se afogando, a poção voltando à boca. Snape virou a cabeça dele para que não sufocasse.
- Vamos, Potter. Você precisa disso...
- Ele não consegue ingerir nada. – Hermione resmungou.
- Quê? – Snape perguntou, afoito.
- Voldemort. – ela explicou em um sussurro – Harry não consegue ingerir nada.
Snape voltou a olhá-lo.
- Então é por isso que ele está desidratado? Papoula, você tem sangue de dragão? – ele disse com desprezo antes de se debruçar novamente sobre Harry e voltar a lhe lançar feitiços. Harry começou a tremer, sua respiração ficando mais rápida. – Droga! – Snape rosnou - Eu preciso que ele tome as poções, ou ele não vai resistir. A maldição é cíclica, eu a afasto, mas ela volta. Não vou conseguir só com feitiços... Por Merlin, Granger, o que aconteceu?
A garota estava sendo cuidada por McGonagall, sentada em um canto, chorando. Ela soluçou mais e não respondeu. Snape foi até ela e a pegou pelos ombros.
- Se você não quer ver seu precioso Potter morrer, é melhor...
- Severus! – McGonagall o afastou da menina com a varinha.
Snape rodou pela sala passando as mãos pelos cabelos. A última vez que Hermione o vira tão nervoso foi quando ele se encontrou com Sirius na Casa dos Gritos, há quatro anos.
- Eu... Eu... – Hermione engoliu com dificuldade, sentindo um aperto no peito – Eu não posso dizer... Eu não consigo...
- Quê?
- Acho que Harry deve ter lançado algum feitiço de segredo em mim sem eu notar. Quero dizer... Eu pelo menos não consigo falar o que estávamos fazendo, como se as palavras parassem na garganta. Mas... – ela respirou fundo e pensou, escolhendo as palavras para que a entendessem – Eu... Nós... Nós estávamos na casa dele e Harry teve um pesadelo. Ele não consegue dormir há meses, os pesadelos cada vez mais frequentes. Mas dessa vez foi... intenso... demais. Ele não conseguia acordar. Seu corpo reagia de uma forma e... Eu tive que... bem... tive meio que puxá-lo de volta com legiminência...
Snape colocou a mão no ombro dela, fazendo-a se calar, indicando que tinha entendido o suficiente, percebendo o enorme esforço que era para a menina continuar com aquilo. Pomfrey voltou com um vidro de sangue de dragão. Snape o pegou e apanhou uns ramos no meio de suas poções. Eles tinham espinhos largos, parecidos com os de rosa, mas maiores. O professor cortou um trecho pequeno, com um único espinho e o descascou, deixando-o verter seiva, então o mergulhou no sangue. O raminho absorveu o conteúdo, mudando de cor, ficando mais escuro. Snape foi até Harry e virou lentamente sua cabeça, cravando o espinho abaixo da pele atrás da orelha esquerda.
- Isso pode mantê-lo vivo e bem por cinco dias, sem sono, comida ou água. Mas enquanto ele estiver inconsciente quero que troque a cada hora. Ele está muito fraco.
Snape colocou as mãos sobre as duas têmporas do garoto e encostou sua testa na dele, resmungando. Ficou assim por um minuto, então se levantou, parecendo mais calmo, mas fraco.
- Ele precisa da poção. E eu não posso fazê-lo engolir. – ele olhou os presentes, como que pedindo ajuda.
- E se você injetar, professor? – Hermione arriscou.
- Quê? – Snape fez uma careta.
- Tem algum risco se a poção for injetada direto na corrente sanguínea dele? Muda o efeito?
- Eu... Eu não sei. Nunca injetei nada.
- Os trouxas fazem isso. – explicou Pomfrey.
Snape encarou Harry por um tempo. A respiração do garoto estava acelerando de novo.
- Bem, pior não pode ficar.
Remusse afastou, conjurando uma bandeja com diversas agulhas.
- Lupin, os olhos... – perguntou Snape.
- Acho que sou mais competente do que você imagina. Ele vai ficar bem, a retina dele foi destruída por algo, mas já a restaurei. Ele vai precisar de 24 horas com os olhos vendados para que ela cresça perfeitamente, mas vai voltar a enxergar, imagino até que dispense os óculos. Isso provavelmente foi somente a forma como o feitiço penetrou em seu corpo.
- Você sabe o que a queimou? – perguntou Snape enquanto enchia as agulhas com a poção.
- Se você não sabe... – Remus respondeu, indicando o espelho com a cabeça. Os dois se encararam, como se se consultando – Acho que só ele poderá nos dizer o que diabos era aquilo.
Snape terminou com as agulhas e olhou para Pomfrey. Ela tomou a bandeja de sua mão, limpou a área de junção entre o braço e o ante braço direito de Harry e localizou a veia, introduzindo a agulha. Vinte e sete ampolas de poção depois e os braços de Harry pareciam violentados, graças à pouca familiaridade dos bruxos com agulhas, mas sua respiração se normalizara novamente e ele parecia até mais corado.
- Ele não vai acordar tão cedo. Talvez só amanhã à noite. Eu cuidarei dele pessoalmente assim que descansar um pouco. Minerva, você pode cuidar dos outros? – perguntou Snape.
McGonagall concordou com a cabeça.
o0o
Silêncio.
Uma leve brisa brincava em seu rosto. Era uma sensação boa e leve, como dedos de fadas passeando pela sua pele. Um cheiro adocicado no ar frio, um cheiro familiar e bom.
Sentia-se bem, sem dor, sem cansaço, sem fome. O corpo afundado confortavelmente no colchão.
Ele abriu os olhos. Eles doíam. Tornou a fechá-los. Ouviu alguém se mover perto dele e bater uma janela, puxando tecidos. Sentiu a luz diminuir e tentou abrir os olhos de novo.
- Não. – uma mão pousou sobre suas pálpebras e Harry recuou, se sentando na cama repentinamente ao reconhecer a voz, mas a mão só deixou seus olhos quando foi substituída por uma venda – É melhor você não abrir os olhos ainda, eles não estão bem cicatrizados. Você acordou antes do que eu esperava.
- Você! – Harry rosnou com raiva, afastando a mão de seu rosto. Mas não retirou a venda, havia aprendido que não seguir os conselhos do professor, por mais rudes que fossem, podia ter grandes consequencias – Eu... – Harry respirou fundo, pensando rápido.
- Você está em Hogwarts. Hermione o trouxe para cá depois que perdeu a consciência. Você quase morreu, Potter. Não deveria brincar com as coisas dos outros.
Harry pesou aquela frase. Ele sabia. Ele pensou rápido.
A informação era verdadeira. Ele se sentia em Hogwarts. O cheiro, a magia pairando no ar. Ele sentiu falta daquele lugar.
- Onde está minha varinha? – perguntou arisco.
- Aqui. – Snape a colocou em sua mão e se afastou um pouco, embora continuasse sentado na beirada da cama de Harry.
- O que você sabe sobre o que eu estava fazendo? – Harry perguntou receoso, ainda se sentindo ameaçado pela presença do outro quando estava tão vulnerável.
- Sei que é o mesmo que Dumbledore esteve fazendo no ano passado. E sei que tem a ver com o Lord. Agora, eu espero que você tenha me chamado até aqui por um motivo maior do que cuidar dos seus preciosos olhos, Potter, porque a cada minuto que eu passo aqui, fica mais difícil eu me explicar com o Lord depois.
- Há quanto tempo eu estou desacordado?
- Acho que só Granger pode dizer isso ao certo, mas só para você ter uma referência, a nossa reunião estava marcada para ontem, às nove da noite. São mais de três horas da tarde.
- Céus... Eu... Merda! Quando eu vou poder usar meus olhos?
- Daqui umas duas horas. Como está se sentindo?
- Minha cabeça dói um pouco. Mas...
- Eu sei, está mais forte do que se sentia antes.
- Por quê?
Snape levou a mão até a orelha de Harry, que se contraiu ao ser tocado repentinamente. Snape colocou o espinho na sua mão.
- Sangue de dragão. Agora que acordou, troque de doze em doze horas.
Snape colocou outro no lugar. Harry se afastou mais dele.
- Você trouxe a cobra? – perguntou seco.
- O que você quer com Nagini?
- Na hora certa você vai saber. Preciso dos meus olhos. Você trouxe?
- Sim. – Snape respondeu seco.
- Você pode esperar mais duas horas?
- O que você quer com o Lord, Potter? Você é estúpido?
- Não me...
- Granger me falou que você invadiu a mente dele novamente. Sabe, eu fico me perguntando, será que você está brincando de ser herói ou quer se matar mesmo? Seria um favor para todos nós...
- Ora, então porque se deu ao trabalho de me curar, Snape? Você ficaria feliz de facilitar as coisas para mim nesse ponto, não é mesmo? Mas você sabe que não é tão simples assim lidar com o Lord. Você já esteve na minha mente, Snape, depois do que Hermione te contou o que aconteceu, não é mesmo? Você sabe que nem se eu fosse melhor oclumente que você eu poderia...
- Isso não te faz menos incompetente, Potter. Você está provocando...
- Eu estou fazendo o meu...
- Então é heroísmo puro e idiota. Escuta aqui, garoto – Snape pegou o queixo de Harry. O garoto podia sentir o quanto o professor estava alterado pela frieza quase mórbida de sua voz, e mesmo assim era como se ele estivesse prestes a gritar – Eu sei que você sabe que eu ouvi aquela merda de profecia. E vou te dizer uma coisa, eu não acredito que um pirralho metido como você tenha poder para derrotar o Lord. CALA A BOCA! – ele gritou ao sentir Harry abrindo a boca para interrompê-lo – Eu não tenho a esperança ridícula que Dumbledore tinha em você. Mas ele mandou eu te proteger e te ajudar, e é o que eu estou fazendo. Então não estrague tudo assim, está me ouvindo?
Ele soltou Harry e respirou fundo.
- A sua pequena excursão na mente do Lord não só deu a ele o local onde você estava, como também a certeza de que você está fazendo algo muito, muito arriscado e potencialmente perigoso para ele. Ele não está somente desconfiando, ele está se armando agora, Potter. Está esperando o seu ataque com todas as suas forças a postos. E agora ele está em você. Você cometeu o erro de abrir a sua mente para ele...
- Eu não...
- Os seus esforços foram patéticos. Muito bem, você conseguiu esconder a sua informação tão preciosa, mas foi somente porque estava tão entregue ao domínio dele que ele se desviou do seu objetivo vendo que podia conseguir muito mais. Ele viu que te dominar totalmente é mais fácil do que ele pensou. E foi o que aconteceu, não foi? Você perdeu o controle do seu corpo. Se não fosse pela Granger, você seria um fantoche dele a essa altura.
- Isso não é verdade. Você sabe que ele não suportaria ficar no meu corpo.
- Talvez. Você já teve sorte uma vez, não é mesmo? Mas o fato é que ele ainda está aí. Você não conseguir ingerir nada significa que uma parte da sua vontade não te pertence mais. Não digo que ele é que comanda sua digestão agora, mas simplesmente não é mais você. Você tem noção do que isso significa? Da ameaça que isso é?
Harry se encolheu contra a cabeceira abraçando as pernas e deixou a cabeça cair sobre os joelhos dobrados.
- É melhor você saber muito bem o que está fazendo, Potter. Ou muita gente vai perder a esperança antes da hora.
Harry sentiu o peso do professor deixar a cama.
- Dumbledore te deu confiança demais.
Harry não podia deixar Snape sair assim.
- Por que, Snape? Por que você o matou? Não foi somente o feitiço...
Harry ouviu os passos pararem, quase podia sentir a apreensão do outro.
- Porque ele pediu. – Snape respondeu baixo, a voz carregada por algo diferente da frieza habitual.
O silêncio vindo de Harry fez a respiração do professor parar. Ele sentia a raiva do garoto florescendo, não sabia se Harry acreditaria ou não.
Mas Harry sabia que simplesmente o fato do professor responder a sua pergunta já era um indício de sinceridade, seria muito mais típico de Snape ignorar suas perguntas. Mas isso explicava muita coisa. E no fundo ele sabia que era provável que Dumbledore tivesse realmente pedido isso, embora não quisesse acreditar. Ele havia feito pedido semelhante a ele mesmo horas antes. Mas ele não sabia se obedeceria.
Harry tentou controlar seus impulsos, sua vontade de pular em cima daquele homem. Não. Ele precisava dele. Tinha suas dúvidas, mas as colocaria em teste mais tarde. Agora ele precisava saber.
- Para quê?
- Segurança. Sua. De Draco. Do castelo, dos alunos. Imagine o que teria acontecido se Draco, não conseguindo matá-lo, como ele queria que não conseguisse, tivesse deixado isso a cargo dos Comensais. Acha que eles se contentariam com um avada? Apesar de morto, Dumbledore queria a certeza de poder controlar a situação. Se não pudesse viver, pelo menos a Ordem precisava liderar a retirada dos Comensais e precisava garantir que Voldemort não voltasse a Hogwarts. Eu fiz isso por ele. E fiz o que pude pelos Malfoy depois disso, como ele queria. Foi um alívio encontrar Draco vivo e bem.
- Não toque nele. Ele está sob minha proteção. – Harry disse em tom de aviso.
Harry esperava o sarcasmo característico do professor. Sabia que não estava em condições de proteger a si mesmo, quanto mais a outros. Mas não houve resposta. O silêncio seguiu tenso. Harry deixou a cabeça cair novamente sobre os joelhos, sem nenhuma indicação de que acreditava ou não na palavra do professor.
- Você está em uma área isolada do castelo, ninguém sabe que está aqui. Seus amigos estão aqui perto. Eles estão bem, caso te interesse. Vou chamá-los para ficar aqui com você e te avisarem quando você poderá abrir os olhos. Escureça o quarto quando fizer isso. É pouco provável que ainda vá precisar de óculos. Nos falaremos mais tarde. – e a porta bateu.
-:=:-
NA:Oi, pessoas. Espero que tenham gostado do capítulo. (Por Merlin, comentem!)
Era para o capítulo 8 e 9 serem um só, mas ia ficar muito gigante. O Snape não podia reencontrar o Harry e os dois saírem vivos sem milhares de explicações. Para compensar (quem está sentindo falta?), prometo que no próximo capítulo nossos dois mocinhos vão estar um pouco mais próximos novamente.
Mas, um aviso aos navegantes, a fic está acabando... Se não acontecerem mais imprevistos como este, suponho que tenha mais uns dois ou três capítulos só. Portanto, saboreiem...
PS: Até quando eu postei o capítulo, ainda não tinha conseguido colocar a capa T.T Mas eu hei de vencer...
