Capítulo 09

Agonia e êxtase

Harry olhou em volta. Estava em uma sala grande e circular. O chão espelhado devido ao piso brilhante e avermelhado do colégio. O frio constante das paredes de pedra.

Estava em casa.

A sua volta estavam McGonagall e outros professores, Remus e alguns membros da Ordem da Fênix, como Tonks, Kingsley e Moody, e Snape, Hermione, Ron e Draco, formando uma roda em torno da sala, sentados no limiar da luz. Ele estava de pé no centro, olhando a todos.

Como era bom ver de novo.

Fechou os olhos por um momento e respirou fundo antes de começar a falar.

- Eu chamei vocês aqui pois tenho que fazer uma coisa, e preciso de ajuda.

O silêncio se adensou e engoliu a todos.

- Ano passado, o professor Dumbledore me instruiu sobre a história de Voldemort. – arrepio coletivo nos presentes – Ele conseguiu descobrir um dos fatores que fazem Voldemort imortal. No caso, hoje, o único fator, visto que os outros provavelmente se perderam junto com o seu corpo. Quem garante isso? O fato deste encantamento lidar com a alma.

Harry observou novamente a sua volta. Ele se sentia desconfortável sendo observado com igual ou maior interesse que observava e estava longe de gostar de falar em público, especialmente sobre um assuntou como esse, em que tinha que selecionar as informações que passaria, mas fazia o possível para não gaguejar ou parecer inseguro.

- Voldemort tinha um interesse particular por horcruxes, quando estava em seu tempo de colégio, - um burburinho começou entre algumas pessoas. Snape parecia ter perdido todo o sangue, de tão branco que estava: ele já havia juntado as peças somente com essa informação. Slughorn encarava o chão - e tendências de sua história demonstram que ele as teve, - silêncio novamente - e provavelmente eram sete.

Harry respirou fundo antes de recomeçar.

- Sete horcruxes. Sete objetos que guardavam um sétimo da alma do bruxo mais poderoso da nossa era. A primeira, um diário, que eu destruí sem saber o que era há anos. A segunda, um anel que pertenceu ao seu avô, um descendente de Slytherin, que o próprio Dumbledore destruiu em vida. A terceira, um medalhão, que pertenceu a Salazar e, posteriormente, a sua mãe. – Harry respirou profundamente – Foi tentando destruir esta que Dumbledore se enfraqueceu no dia em que o mataram. – Harry fez um grande esforço para não olhar para Snape, outras pessoas não fizeram o mesmo – Eu destruí o medalhão neste ano, com ajuda de Draco Malfoy. A quarta era uma taça que pertenceu à fundadora da Hufflepuff, Ron e Hermione a destruíram na mesma época que encontramos o medalhão. A quinta, um espelho que pertenceu à fundadora da Ravenclaw, foi destruído ontem.

Harry parou no meio da sala.

- Faltam duas. – ele continuou – Uma eu acredito que seja o próprio corpo de Voldemort, afinal, ele precisa de um pedaço de sua alma para viver. A outra, algo muito próximo a ele. Dumbledore suspeitava da relação quase íntima que Voldemort tinha com sua cobra, Nagini. E Snape fez a gentileza de trazê-la para nós. Snape?

O professor se levantou e conjurou uma caixa, dando um impulso para que corresse para o meio da sala. Harry a parou com o pé e se afastou, a abrindo com magia.

A imensa cobra saiu reboando pela sala.

- Olá, Nagini. - Harry falou na língua das cobras.

Nagini se voltou para ele, sibilando. Harry se aproximou, sibilando ameaças de volta. Os dois se encaravam. Nagini começou a dançar no ar, empinando o corpo, sem perder Harry de vista enquanto ele dava voltas em torno dela, provocando, instigando. A cobra ficou da altura do menino, o olhando nos olhos, a língua tremendo em irritação.

Harry apertou com força a varinha quando a cobra atacou. Ele segurou com força abaixo do seu maxilar, impedindo suas garras de atingirem seu rosto, enquanto ela procurava se enrolar em seu corpo, já envolvendo seu outro braço. Com o impacto, Harry caiu no chão de costas, e xingou a cobra, sibilando, enquanto Nagini investia contra ele.

Harry imobilizou a cabeça da cobra e a encarou, se concentrando no que precisava fazer, no que precisava saber. A cobra se contorceu em torno do seu braço, fazendo seus ossos estalar. Harry se perdeu nas fendas vermelhas dos olhos da cobra depois de murmurar o feitiço. Sabia que não suportaria por muito tempo, mas a mente de uma cobra não é muito complexa. Em segundos, ele sabia tudo o que precisava saber.

- Estupefaça - gritou, atirando a cobra longe.

- Você usou legiminência contra uma cobra? – a voz de Snape veio aturdida até ele.

- Sim. – Harry respondeu sorridente, enquanto se levantava, ofegante – E agora eu sei onde encontrar a sétima horcrux. Mas, quanto a esta... – ele se aproximou da cobra que se mexia levemente no chão – Nós chegamos à conclusão de que o que destrói uma horcrux é algo que a protege. O diário foi destruído com veneno de Basilisco, o medalhão com pele de Inferi, a taça com veneno de aranha, o espelho com o medo dos dementadores. O que protege esta cobra? Voldemort, ou seus próprios soldados, os Comensais. Sozinha, ela é somente uma cobra, grande, esperta e mais forte do que as outras, mas só uma cobra.

Harry parou e olhou para Snape.

- Acredito que somente alguém que possua a marca de Voldemort, a Marca Negra, seria capaz de matar essa cobra, eliminando o pedaço de alma que ela detém. Você seria capaz, Snape? Seria capaz de destruir a última defesa de seu mestre? Depois que Nagini for destruída, matar Voldermot será somente matar Voldemort.

Snape o encarou demoradamente, os lábios crispados. Então esticou a varinha para a cobra e murmurou, ainda encarando Harry.

- Avada kedavra.

Harry suspirou ao olhar a cobra imóvel e o encarou de volta.

- Matar Voldemort não é tão simples. – Snape disse baixinho.

- Eu só vou destruir mais uma horcrux.

- Você o subestima, moleque.

Harry balançou a cabeça de olhos fechados parecendo cansado.

- Você conhece a profecia...

- A profecia não diz que você vai ganhar.

- Não, mas diz que eu tenho o poder que o Lord não tem. E que poder é esse, Snape? Dumbledore acreditava que era a capacidade de amar. Eu realmente nunca achei que isso fosse o suficiente para derrotar ninguém... Porém, eu andei pensando muito nesses últimos meses. Amor é realmente uma ameaça ao Lord, e eu tenho essa arma em mãos, mas isso não significa que eu possa derrotá-lo. O Lord já me tomou duas vezes, e o amor o afastou, mas não o destruiu. Ele tem defesas contra isso, e a principal delas fui eu mesmo que lhe dei, assim como ele me deu muitos dos meus poderes.

Harry voltou a andar pela sala, ainda falando.

- No fim do torneio Tribruxo, quando Voldemort me levou para o cemitério, ele fez com que Rabicho tirasse um pouco do meu sangue. O mesmo sangue que corre em minhas veias corre nas dele. E isso, naquele momento, significou uma vitória para ele, pois ele pode me tocar, passando por cima da proteção que me foi dada pelo amor da minha mãe. Daí eu penso, se a proteção dele contra o amor é o meu sangue, seguindo a lógica das outras seis horcruxes, o que pode destruí-lo é...

- Seu sangue! – Hermione falou baixinho – Harry! – ela começou em um sussurro rouco – Você não pode... Não precisa ser agora... Você não está pronto para isso... Você...

- Eu nunca vou estar pronto, Hermione. E nós já conversamos sobre isso. – ele respondeu docemente - Eu nunca vou ter o poder que ele tem. E, sinceramente, eu nem quero isso. Tudo o que eu quero é poder ficar na minha, fazer minhas escolhas, viver minha vida. Eu nunca vou estar pronto, mas eu nunca estive tão disposto a arriscar, e foi ele que me levou a isso quando tirou de mim tudo o que me faria temer perder. Eu não sei se eu vou conseguir. Sinceramente, eu duvido muito que eu consiga, mas me forço a acreditar que por mais que dê errado, eu ainda posso prejudicar e muito a ele, fazer com que ele perca força novamente, até que alguém consiga terminar com isso. E sim, precisa ser agora. Ele nunca esteve tão vulnerável. Eu não vou ficar esperando ele me enfraquecer mais ou criar outras horcruxes, Mione. Mas... Mas... – ele olhou a volta - Eu não posso fazer isso sozinho... Posso chegar até ele, de uma maneira ou de outra, mas mesmo que eu consiga derrotá-lo, preciso de apoio para lidar com os comensais e lobisomens e gigantes e dementadores, enfim, com esse exército de loucos que ele criou.

- Eu vou com você, Harry. – Lupin se levantou, e junto com ele os representantes da Ordem da Fênix.

- Hogwarts também te dará o apoio que for necessário. – McGonagall confirmou.

Hermione, Ron e Draco também se levantaram, as feições preocupadas.

Harry olhou Snape, que o encarou de volta.

- Eu vim até aqui, não vim? – o professor pareceu confirmar o que o garoto queria ouvir.

- Harry. – Remus o chamou – Como você pretende encontrá-lo?

- Nagini. Ela me deu o mapa.

E ele pegou um rolo de pergaminho que estava em um armário no canto da sala e o abriu no chão. Pegou uma pena, mergulhou em tinta e a equilibrou sobre o papel, então se voltou para Lupin.

- Como é o feitiço do mapa, professor?

Remus o olhou por um instante, os olhos brilhando maroto, um sorriso enviesado no rosto.

- Ideas Mobilis. Mas concentre-se bem, ou o mapa sai errado.

Harry fechou os olhos, focando o que havia visto na mente da cobra com o máximo de detalhes, e murmurou o feitiço com a varinha apoiada no pergaminho ao lado da pena. Um burburinho passou a sua volta, e quando ele reabriu os olhos, viu a pena dançando sozinha sobre o papel, dando os últimos retoques na fortaleza desenhada a sua frente.

- Este, senhores, é o reduto de Lord Voldemort.

Lupin se aproximou, se abaixando até o mapa.

- Por Merlin... Harry, você sabe onde isso fica?

- No meio de uma floresta, próximo à Albânia. – Harry respondeu olhando para Snape, esperando uma confirmação.

- Eu não sei. – o professor falou – Ele, ou alguém a seu comando, aparata conosco até lá a primeira vez, depois nós aparatamos direto dentro dos salões. Não sabemos onde fica.

Lupin examinava o mapa.

- Parece um complexo de salas e passagens incrustado na encosta desta montanha. Há poucas entradas e saídas, mas a mata em volta parece um desafio a mais. Deve ser impossível passar sem ser notado.

- Voldemort monitora tudo dentro e em um raio grande em volta do seu território. Mas são monitoramentos diferentes, e por isso acho que podemos encontrar um ponto falho. Olha.

E ele apontou os limites da floresta.

- Ele é senhor do que é seu. Portanto, da floresta para dentro nada se move sem que ele saiba. Da floresta para fora, a magia dele não pode ser tão evidente, ou ele se delataria e teria que prestar contas de suas atividades para as autoridades. Então aqui, na fronteira, ele tem que reduzir bruscamente sua influência. Eu imagino que se aparatarmos aqui, ele não vai perceber. Ou, se perceber, não será preocupante, já que é uma zona naturalmente instável, e ele não notará mais nada nem dentro nem fora do território.

- Ok. Precisamos pensar mais nisso. Mas o que você pretende fazer?

- Ele fica aqui. – apontou uma câmara quase no centro da montanha – A sala é uma fortaleza. Eu vou entrar sozinho e matá-lo. Será a distração para vocês entrarem no território. Vocês sentirão quando for o momento. - Harry falou como se não fosse nada - Mas conforme ele me vir, vai mover suas forças para frente, aqui. – ele apontou no mapa – Será necessária uma força de resistência neste ponto, e pelo menos mais uma para dar cobertura deste lado, caso reforços apareçam. – ele apontava no mapa - Mas Nagini e Rabicho costumam usar as fendas na rocha deste lado da montanha para saírem sem ser notados. Ou seja, esta encosta é volúvel. Eu sugiro que a primeira investida seja aqui, pegando a retaguarda do ataque dele. No lugar de enfrentar as defesas de fora para dentro, implodimos.

Lupin examinava o mapa.

- Bem, vamos ter que melhorar isso. Kingsley, vem cá.

E os dois homens começaram a traçar planos. Snape se voltou a Harry.

- E como você pretende entrar? Batendo na porta? – perguntou, sem esconder o ar de deboche.

- Não. - Harry respondeu calmamente – Preciso que alguém me leve para dentro. Pensei em me entregar a um Comensal, mas preciso de mais segurança. Não vou servir de nada se já chegar lá desacordado de tanto apanhar. A ideia original era você me entregar, mas demoramos muito. A essa altura, Voldemort já deve estar desconfiado do seu sumiço e com a certeza de que você o traiu. Nem me levando debaixo do braço com um laço na cabeça você sai ileso. Não. Quem vai me entregar a Voldemort vai ser Draco.

- Quê? – o loiro se assustou.

Ele e Ron haviam se juntado aos demais em torno do mapa, mas ele permanecia em silêncio, observando os outros trabalharem.

- Ora, Draco, - continuou Harry no mesmo tom casual – nada mais lógico. Afinal, esse era o seu plano original, não era?

- Não! – Draco se ergueu assustado e recuou um passo para longe do grupo onde estava o moreno.

O salão caiu em silêncio. Harry também se levantou. Fez um leve sinal para que ninguém interferisse - Hermione segurou o namorado pelo braço, para garantir que ele ficasse no lugar - e encarou o loiro, muito sério.

- Não negue, Draco. – Harry começou a falar frio – Quando você aceitou me seguir, quando aceitou minha ajuda, você não pensava em nada além de conseguir informações suficientes para me entregar a Voldemort.

- Eu... Eu... Potter, eu não...

Harry deu um passo em direção ao loiro, que recuou um. Os dois passaram a andar em círculos, mantendo a distância que os separava, se encarando. Draco olhava a tensão dos presentes à sua volta. Estava acuado. Puxar a varinha não era exatamente a ação mais prudente.

- Potter... Eu não... Eu nunca faria...

- Desde o começo, Draco. – a voz de Harry saiu mais alta e mais fria – Desde que te levei para aquela caverna, você só pensa nisso. Você só se aproximou de mim porque era uma brecha para me trair, para me levar para ele!

- Você me deu uma chance, eu... – Draco tentou argumentar.

- Eu era sim a sua tábua de salvação. Mas porque me entregar faria seu mestre te perdoar, e mais nada.

- Você... Você está delirando... Eu...

- Para quê você está aqui, Draco? Para ajudar? Para dar seus préstimos à Ordem? Para agradecer a proteção? Estou te dando essa chance: me leve a Voldemort e implore pelo seu perdão.

Draco estava mais pálido do que jamais esteve. Sua respiração saía em sorvos. Ele recuou até alcançar a parede e não conseguia deixar de encarar Harry, que se aproximava dele devagar.

- Você sempre soube muito bem o que estava fazendo. Cada passo calculado. Você me suportou por dias, então se descontrolou, foi embora, e ficou imensamente aliviado de voltar...

- Eu quase morri, seu idiot...

- E nas vezes que dormiu comigo? Será que até aí você pensava em me matar? Até quando a gente transava, Draco? – a voz de Harry era quase um chiado, mas não foi o suficiente para evitar os comentários no salão à volta.

- Céus. – disse McGonagall.

- Merlin! – disse Lupin.

- Eca! – disse Snape.

Mas Draco não ouviu. Ele estava perdido encarando Potter, as palavras ecoando na sua cabeça.

Então ele puxou a varinha e começou a avançar em direção ao moreno, gritando.

- VOCÊ NÃO SABE O QUE ESTÁ FALANDO, POTTER! Você acha que eu sou o quê? Acha que eu desceria tão baixo por tão pouco? Eu sou um MALFOY, Potter! – Draco empurrava Harry pelos ombros, em impulsos espaçados, a varinha apontada para o peito do moreno – E você nunca vai entender isso! Posso não ter mais nada, NADA! Mas ainda tenho minha dignidade! Nem pelo perdão daquele louco nem por nada no mundo eu chegaria tão baixo! Eu não me venderia por ISSO! – Draco gritava descontrolado. Harry bateu contra a parede e o loiro aproximou seu rosto do do moreno, apoiando a varinha no seu pescoço – Nem para ter tudo o que eu perdi eu dormiria com você! Você não vale isso! VOCÊ NÃO VALE NADA! E SE UM DIA EU FIZ O QUE FIZ, NÃO FOI POR MERDA DE PLANO NENHUM! SE EU TRANSEI COM VOCÊ FOI PORQUE EU ME APAIXONEI!

Silêncio.

Draco piscou, percebendo o que havia dito. Percebendo pela primeira vez o que realmente sentia.

Afastou-se um passo do moreno, o peito subindo e descendo rápido, a saliva quase inexistente difícil de engolir. Abaixou a varinha mecanicamente, ainda sem conseguir desviar o olhar da imensidão verde à sua frente.

- Eu te amo, Harry Potter. – disse em um sussurro quase dolorido, e ele se sentia livre como há muito não sentia.

- Eu sei. – Harry respondeu firme e cobriu a distância que o separava do Slytherin, beijando-o com a maior intensidade possível.

Chega de tentar, dissimular e disfarçar e esconder

O que não dá mais para ocultar

E eu não posso mais calar

Já que o brilho desse olhar foi traidor

E entregou

O que você tentou conter

O que você não quis desabafar

E me furtou

Chega de temer, chorar, sofrer, sorrir, se dar

E se perder, e se achar

E tudo aquilo que é viver

Eu quero mais é me abrir

E que essa vida entre assim

Como se fosse o sol

Desvirginando a madrugada

Quero sentir a dor dessa manhã

Nascendo

Rompendo

Rasgando

Tomando meu corpo e então

Eu

Chorando

Sofrendo

Gostando

Adorando

Gritando

Feito louco alucinado e criança

Sentindo meu amor se derramando

Não dá mais para segurar

Explode coração

- Eu sei. – Harry repetiu no meio do beijo, como para se assegurar do que dizia, enquanto puxava mais o loiro contra ele e o abraçava com força, sentindo os dedos do outro em seu cabelo e o beijo se aprofundando.

- Merlim. – Draco suspirou, buscou mais ar e voltou a beijá-lo.

Harry soltou sua boca e o abraçou com força, como para impedi-lo de sumir.

- Harry...

- Eu sei, Draco. Eu sei... – Harry repetia meio febril e voltou a olhá-lo, ainda sem afrouxar o abraço – E é por isso que eu estou te pedindo. – ele deixou a testa cair contra a do outro e fechou os olhos, sussurrando, rápido - Eu estou colocando a minha vida em suas mãos. Eu não confiaria isso a mais ninguém neste momento.

- Mas... Eu não posso... Eu não consigo...

- Você pode. Você quis isso, Draco. – Draco o olhou e tentou se afastar – Não! – Harry o puxou de volta - Me ouça, por favor. Eu não estou mentindo, não negue que quis me entregar. Eu preciso que você saiba disso... Que você tenha consciência...

- Harry... Eu não...

- Escute, só escute. – Harry o beijou novamente, calando-o, e voltou a olhá-lo firme – Você é um oclumente muito melhor do que eu.

- Harry, você... – começou o loiro, indignado.

- Sim, eu tentei usar legiminência com você várias vezes, e não consegui nada. Mas eu não sou burro. Quando você me acusou de não confiar em você, antes de sair da minha casa, você estava totalmente certo. Eu é que não tinha noção do quanto já estava envolvido com você, ou não teria deixado você ir.

Draco o empurrou e passou as mãos no rosto.

- Draco...

- Espera... Não, não me toca! Eu preciso pensar!

O garoto deu alguns passos pela sala, percebendo a quantidade de pessoas que presenciaram as últimas cenas e se irritando um pouco. Mas no momento tinha coisas mais importantes em mente.

Ele foi até o moreno e deu um soco no rosto dele. Harry cambaleou e o encarou.

- Potter, eu sabia que você era um idiota, mas não tinha ideia que já estava nesse ponto! O que você tem na cabeça? Merda? Você me acusa como um compulsivo para me convencer a te ajudar? Eu não vou conseguir fazer essa porra! Não vou conseguir te entregar de bandeja para o cara que desejou te matar desde que você nasceu, mesmo que você faça esse discurso ridículo dizendo que vai acabar com ele! Eu não posso fazer isso! Sem falar que eu teria que mentir estupidamente sobre o que eu sinto por você! Como se fosse fácil mentir para ELE! Oclumente... Oclumente... VÁ À MERDA, POTTER!

- Senhor Malfoy, devo lembrar-lhe de onde você está? – a professora McGonagall resolveu entrar na conversa – Porte-se! E se vocês dois querem discutir a relação, vão a um lugar menos público. O colégio está cheio de salas vazias!

Draco, atônito com a sugestão, abriu a boca para falar, mas Harry tomou a frente.

- Desculpe, professora, mas a questão não é essa. Draco...

- Já disse para não tocar! – Draco afastou o braço que Harry estava para pegar.

- Está bem, mas me ouça, sim? Draco, eu não pretendia te machucar tanto ao te acusar, eu só queria que você não negasse. Você não vai precisar mentir, você só precisa conseguir ocultar que sua opinião mudou, que o que você sente é diferente do que você sentia. E... Draco, eu preciso de você. Não me deixa sozinho agora... Eu não quero te pôr em risco. Por Merlin, essa é a última coisa que eu quero. Mas você não ouviu o que eu disse sobre a arma que eu tenho contra Voldemort? Você acha que o meu amor pelos meus pais, que por mais que eu ame, eu nunca conheci, nunca tive contato nenhum, será suficiente para vencê-lo? Ou o amor pelos meus amigos? Céus, foi o amor pelo Sirius que me salvou uma vez, mas Sirius está morto! Faz mais de um ano... E o que eu sinto pelos que estão a minha volta... Foi tão difícil para a Hermione me libertar... É tão incerto, por mais sólido que seja. – Harry passou as mãos no rosto, nervoso – Eu preciso de você, Draco. Preciso da certeza de que você está comigo, preciso do que você sente por mim, do que eu sinto por você.

Draco balançou a cabeça, passando as mãos no cabelo. Deu alguns passos soltos pela sala.

- Snape. – chamou pelo professor – Você acha que eu consigo?

Snape sorriu de lado.

- Veremos. Posso treinar um pouco com você e te avaliar. Mas eu acho que sim.

Draco sorriu para Harry, que voltou a abraçá-lo e o beijou novamente.

o0o

As próximas horas foram tensas. Eles decidiram atacar pela manhã, a luz do dia no mínimo eliminaria a presença dos dementadores.

O Ministério e o St Mungus foram contatados e colocados em alerta. A Ordem estava reunindo todas as pessoas que estivessem dispostas a lutar. Muitos alunos, cujos pais se habilitaram, também quiseram fazer parte desse exército. Muita gente estava se mobilizando. Chaves de portal individuais estavam sendo talhadas para cada participante.

Montaram grupos, elegeram lideranças, planejaram ataques e projetaram as ações do inimigo. Ron e Hermione se mostraram bons estrategistas, coisa que Harry já sabia, e ajudaram muito. Cada um deles iria liderar uma frente no ataque.

Harry ficou a maior parte do tempo em um canto, procurando descansar. Draco foi para uma sala com Snape, onde passaram quase três horas, depois dormiu um pouco, e agora estava discutindo com Snape e Lupin sobre o posicionamento das tropas.

- Draco, vá se concentrar para a batalha, você precisa limpar sua mente das lembranças que aquele desgraçado do Potter deixou em você! Deixe que a gente cuida disso!

- Snape, a ideia do garoto é válida! – respondeu Lupin.

Harry se aproveitou da deixa para se aproximar do grupo.

- Draco, posso falar com você?

O loiro o olhou interrogativo. Os professores deram de ombros e os dois garotos deixaram a sala.

- Isso não vai dar certo. – Snape resmungou ao ver Harry passando um braço pela cintura de Draco e este se aproximando para falar alguma coisa no ouvido do moreno.

o0o

- O que foi, Harry? – Draco perguntou quando entraram em uma sala vazia e escura.

- Nada. – respondeu o garoto fechando a porta – Eu só queria ficar um pouco sozinho com você antes de irmos.

Draco sorriu e passou os braços pelos ombros de Harry enquanto esse o abraçava pela cintura. Os dois sorriram, íntimos, deixando os lábios se tocarem devagar, antes de fechar os olhos e aprofundar o beijo.

Os dois aproveitavam o beijo em tudo: a forma como seus lábios se tocavam, o encontro das línguas, o sabor da boca do outro, os suspiros que escapavam no meio do beijo, a paixão recém descoberta.

Draco deixou uma mão deslizar para o meio dos cabelos do moreno, enquanto a outra escorregou pelas suas costas, puxando-o para mais perto. Uma perna de Harry acabou entre as de Draco. Suas mãos alisavam sua cintura sem parar. Então uma subiu um pouco, entrando por baixo da camiseta, tocando a pele branca.

E Harry gemeu, só de tocar Draco.

O loiro começou a puxar a camisa do outro, mas as mãos de Harry pousaram sobre as suas, parando o movimento.

- Eu odeio dizer isso, mas eu não acho muito prudente, considerando que você não precisa de mais uma lembrança para fingir que não viveu.

Draco concordou com a cabeça e deixou as mãos voltarem às costas vestidas do moreno. Ele fechou os olhos e encaixou o rosto no pescoço do outro, sentindo o seu cheiro e a textura da pele. Ouvia Harry suspirando baixinho em seu ouvido, o puxando para mais perto, suas mãos no seu cabelo, os corpos colados, o coração de um batendo com força contra o do outro.

Harry beijou sua nuca e o arrepio que o percorreu foi quase insuportável.

- Ah... Harry... – o loiro suspirou, pensou por um momento e arrancou a camisa do outro – Foda-se. Se eu não conseguir parar de pensar em você aí que vou estar ferrado mesmo.

Harry sorriu, tirando a camiseta dele e o abraçando novamente, sentindo finalmente o contato do seu tórax contra o do loiro. O calor da pele, o suor que começava a surgir, deixando os corpos brilhantes. Ele capturou a boca do loiro novamente em um beijo cheio de desejo, para depois descer sua boca, beijando, lambendo e mordendo o pescoço tão branco.

Draco gemeu quando Harry chupou abaixo de sua orelha e começou a desabotoar a calça do moreno. Harry parou o que estava fazendo para olhar nos olhos de Draco quando sentiu a mão do outro entrando em sua calça. Harry mordeu o lábio ao ser tocado, segurando um gemido, e se colocou a despir o loiro também.

Draco ficou de joelhos aos pés do moreno e o olhou por um momento.

- Eu ainda tenho uma promessa a cumprir. – disse sorrindo, antes de abocanhar o membro do outro.

Harry mordeu as costas da mão para não gritar. Draco o chupava sem parar, segurando na base do seu pênis, a outra mão entrelaçada à sua, do lado do corpo, impedindo que o moreno saísse do lugar. Harry gemia, zonzo de prazer, olhando seu membro sumindo dentro daquela boca, sentindo a língua do loiro tocá-lo.

- Draco... – chamou rouco, se agarrando aos cabelos loiros – Céus... Ah... Vem cá... Eu não quero tão rápido!

Draco se levantou e Harry o beijou faminto. Nus, queimando de dentro para fora, os dois se abraçaram com mais força, pressionando os seus corpos entre gemidos.

- Ah! – Draco deu um grito de susto quando o moreno deslizou as mãos para baixo de suas nádegas, segurando firme nas suas coxas e o impulsionou para cima. Draco o abraçou com as pernas, voltando a beijá-lo, e sentiu o moreno andar até bater suas costas contra a parede.

Draco ergueu a cabeça, jogando-a contra a parede, quando sentiu o membro de Harry tocando-o entre suas pernas, gemendo enquanto o moreno atacava seu pescoço.

- Harry... – ele pediu.

O moreno desceu a boca para os mamilos de Draco, mordendo e lambendo devagar, enquanto suas mãos apertavam sua bunda, os dedos do loiro puxando seu cabelo.

Harry não conseguia mais controlar sua excitação, parou o que estava fazendo, se endireitou e encarou Draco. O loiro segurou a respiração, sentindo o feitiço lubrificante fazer sua parte antes do moreno penetrá-lo devagar. O loiro apertou as pernas em torno da cintura do moreno, impulsionando-o todo para dentro dele. Draco gritou, Harry gemeu, mas não se moveu, deixando o corpo do outro se acostumar.

As duas bocas abertas a centímetros de distância. Draco colocou a língua para fora e lambeu os lábios de Harry, que também colocou a língua para fora, e as duas se encontraram no ar, em um duelo mudo, fazendo uma onda elétrica correr os corpos dos dois. Harry se moveu levemente e pela primeira vez, vendo o loiro sugar o ar à volta, e se aproveitou para unir as bocas dos dois, explorando cada centímetro, enquanto Draco gemia e ele aumentava a velocidade de seus movimentos.

O loiro o abraçou com mais força, fechando as mãos e arranhando suas costas. Ele deslizou o rosto para a curva do pescoço de Draco, permitindo-se gemer livremente contra sua pele, ouvindo reação idêntica do outro, aumentando a velocidade e a força das investidas e ouvindo uma cadeia de palavras sem sentido deixarem os lábios quentes do namorado.

Harry percebeu que não ia durar muito, e pelo estado de excitação de Draco poderia dizer que ele também não. O moreno o puxou mais para o perto, o suficiente para deixar marcas, o encarando enquanto investia contra seu corpo com mais força.

- Harry! – Draco gritou de forma abafada, mordendo o ombro do moreno, que tremia em seus braços tentando somente respirar em meio a todas as sensações.

Harry respirava em sorvos, tremendo, ainda empurrando o loiro contra a parede, com medo de que se se afastasse o suficiente não conseguiria sustentar o próprio corpo. Draco também tremia, abraçado a ele, mas sem força agora.

- Maravilhoso... – o loiro gemeu rouco em seu ouvido.

- Eu te amo. – foi a resposta sussurrada do moreno, e Draco se virou para olhá-lo e depositar um beijo cálido sobre seus lábios.

Harry soltou as pernas do loiro e se apoiou na parede, deixando o corpo cansado deslizar para o chão, trazendo o outro junto. Murmurou um feitiço de limpeza, se acomodou com as costas apoiadas na parede e puxou Draco para que encostasse as costas no seu peito, o abraçando, as pernas entrelaçadas.

Draco apoiou a cabeça no pescoço do moreno e ficaram por um bom tempo em silêncio, só sentindo o calor um do outro, até que algo pingou na testa do loiro.

- Harry? – Draco ergueu a cabeça assustado e percebeu que o moreno estava chorando.

- Shh... – Harry pousou a mão na cabeça do loiro, fazendo-o deitar novamente.

Durante alguns segundos os dois mantiveram o silêncio, Draco sentindo o peito do moreno tremer com os soluços contidos.

- Draco, – Harry chamou baixinho – me promete uma coisa?

O loiro voltou-se para olhar para ele.

- Hum?

- Me promete – Harry passou os dedos de leve pelo seu rosto – que não importa o que acontecer comigo, você vai sair de lá o mais rápido possível, na primeira oportunidade, sem culpa, sem olhar para trás.

Draco voltou a se acomodar.

- E o que te faz pensar que eu vou prometer isso? – respondeu frio.

Harry o abraçou com mais força. Draco sentiu ele soluçar novamente.

- Harry...

- Eu acho que nunca senti tanto medo, Draco.

Draco levou a mão até o rosto do outro, puxando-o para um beijo breve.

- Medo por você... Medo por mim... Medo por aquele monte de gente que está confiando em mim...

- Shh... Esquece, Harry. Não pense nisso agora.

O moreno voltou a chorar, o apertando com força em seus braços.

- Eu não posso prometer, Harry. O que eu vou fazer aqui sem você? Não posso te deixar lá... Agora que você me convenceu a ir, ou a gente sai junto, ou não sai...

- Por Merlin, Draco! Não! Você ainda tem tanta coisa para fazer... Eu...

- Você também. E eu preciso de você... Você é tudo o que eu tenho agora. Você não entende isso?

Harry voltou a abraçá-lo.

- Eu te amo tanto. – disse, beijando os cabelos do loiro.

Draco riu baixinho.

- O que foi?

- Nada. – mas voltou a rir.

- Fala!

- Não... É que... A gente mudou tanto, não acha? Eu estava lembrando de quando você me viu chorando aqui no colégio, que você quase me matou...

- E você ri? Por Merlin, Draco! Eu fiquei preocupado com você! Eu não sabia o que aquele feitiço fazia. Eu...

- Ei, tudo bem! Está tudo bem, Harry.

- Ficou alguma marca?

- Um pouco.

O loiro pegou a mão de Harry e a fez correr sobre uma linha branca transversal, quase invisível, em seu peito, que se intensificava próximo ao ombro direito.

- Mas o engraçado – continuou o loiro - é pensar que poucos meses depois eu estava chorando nos seus braços, o lugar em que eu mais me senti seguro, e agora a gente está aqui. Quero dizer, quando foi que tudo mudou desse jeito?

- Eu mudei o jeito de pensar em você depois que te vi chorando. Depois que, bem, Dumbledore, entende? Mas acho que tudo mudou mesmo depois que a gente parou de se atacar e sentou para conversar pela primeira vez.

- É verdade. – Draco ficou lembrando-se da conversa deles na caverna, e depois da primeira vez que transaram – Harry, porque você me beijou?

- Como assim?

- Na primeira vez, lá na caverna. Você lembra?

- Claro. Mas eu estava dopado, Draco. Eu não sei por que diabos eu achei que o mais lógico a fazer era te beijar.

- Mas e depois? Sabe, depois que você acordou.

Harry ficou em silêncio. Draco riu.

- Sabe, Harry, eu não sou exatamente... humm, delicado, sei lá... para você ficar com medo de falar que só me beijou porque estava com tesão.

Harry sorriu e respondeu debochado.

- Acho que eu não era o único.

- Ora, você não esperava que eu já estivesse totalmente apaixonado, esperava?

- Não, acho que não.

- Mas você era mesmo virgem?

- Sim. – Harry se sentiu corar quando Draco riu.

- Eu pensei que era brincadeira. Você parecia saber o que estava fazendo.

- Sexo tem muito mais de extinto do que de experiência, é impulso. Você me ensinou isso. - ele sorriu beijando o loiro novamente - E sobre fazer coisas por impulso, sem pensar, eu sou bom. – Draco riu – Além do que, eu estava a ponto de explodir há séculos. Eu precisava daquilo, daquele contato, daquele alívio... E, bem, você estava lá, parecendo bem disposto... Então... – Harry riu.

- Tudo aquilo era saudades da Weasley fêmea, então? – Draco perguntou, rindo, mas com uma acidez a mais no tom de voz.

- Draco, não fale assim.

- Harry, se você disser que ainda gosta dela eu vou mandar você chamar ela para ir com você nessa porra de guerra!

Harry riu.

- Estou sentindo uma ponta de ciúmes? – perguntou, beijando o pescoço do loiro. Como o outro não respondia, ele continuou – É claro que eu gosto da Ginny, mas não do jeito que eu gosto de você. A gente terminou, Draco, depois do enterro do Dumbledore.

- Terminou, é? E ela aceitou assim, de boa, depois de correr atrás de você por anos? Por que vocês brigaram?

Harry ficou em silêncio.

- Harry?

- Nós não brigamos. – ele começou, sério - Eu disse para ela que não podíamos mais ficar juntos, que eu não queria colocar ela em perigo, e ela aceitou, ela respeitou minha decisão.

Ficaram um tempo em silêncio.

- Isso é tão ridículo, sabia? – Draco começou, sério – Eu fico imaginando você, com sua pose de heroizinho do mundo mágico, não querendo colocar a amada em perigo e recusando o seu amor pelo bem da nação. E o que é pior, ela aceitando! Por Merlin, Potter, me poupe de uma cena dessas! E você ainda sentiu falta dela?

– Claro, muita.

Draco riu.

- Ei, você tentou fazer a mesma coisa comigo lá na Toca, não foi? Antes da gente ir para a Borgin?

- É... Mas a sua cabeça dura é surpreendente! – Harry riu também.

- A mãe do Weasley percebeu o que estava rolando, não é? Ela me olhou de um jeito estranho...

- Ela te olhou estranho por ser você, Draco. Mas ela percebeu sim.

- Imagino o quanto ela achou estranho o seu querido Pottinho abraçado com outro menininho. – Draco falou em voz de falsete. Harry riu.

- Naquele dia na caverna estava tão alheio que nem o fato de sermos homens pesou, não é? Quero dizer, acho que hoje, se eu não te conhecesse e você me beijasse do nada como eu te beijei, eu não ia aceitar tão fácil. Acho que nós estávamos pensando muito mais em nós mesmos do que no outro naquela hora.

- Que posição mais Slytherin essa sua.

- Hum, mas eu já te disse que eu só não sou Slytherin porque não quero. Aliás... – Harry voltou a ficar sério – Você não fazer a promessa foi algo bem Gryffindor da sua parte.

- Não me ofenda. E eu não quero falar sobre isso agora. – Draco respirou fundo e tentou retomar a conversa – E depois... Quando você percebeu que estava gostando de mim?

- Quando? Sei lá... Quando eu fiquei um tempo fora de casa eu senti sua falta, mas achei que era só tesão. E quando você foi embora eu fiquei muito puto. Mas acho que eu percebi que tinha alguma coisa a mais quando você voltou. Foi muito mais difícil ficar sem você sabendo que você estava no quarto ao lado do que quando você estava longe.

- E por que você não bateu no meu quarto?

- Ora, porque você saiu da minha casa dizendo que não era minha puta! Você esperava o quê? Que eu invadisse seu quarto te beijando e pedindo desculpas, que eu estava arrependido de não confiar em você e, pelo amor de Deus, me joga nessa cama agora?

Draco riu.

- Eu me senti até um pouco rejeitado quando você simplesmente se trancou, - continuou Harry - sem querer nem olhar para minha cara. Eu estava esperando um sinal seu, de que, sei lá, eu podia tentar alguma coisa.

- Eu estava confuso. Senti sua falta também, mas, sei lá... Eu estava muito confuso. Acho que foi esse o ponto em que eu comecei mudar. E a Hermione foi muito influente nas minhas decisões. E ainda assim ela teve que insistir bastante para eu escutar o que ela vinha me dizer todos os dias.

- Sério? A Mione ficava fazendo sua cabeça? – Harry riu – Ela ficava mandando eu ir falar com você.

- Muito esperta essa Hermione. - Draco riu.

- Então você encontrou o ponto em que você mudou. – Harry concluiu.

- É... Acho que sim... Eu acho que aí, nesse tempo em que eu fiquei sozinho, eu meio que tomei minhas decisões. Mas mudar mesmo eu mudei depois que... – a frase de Draco morreu e ele voltou a se acomodar contra o peito de Harry, que começou a mexer nos seus cabelos.

- Seu pai.

- É.

- Foi quando eu comecei a confiar em você. Eu nunca tinha te visto tão fraco, tão entregue... tão simplesmente você.

- Harry...

- Hum?

- Depois que tudo acabar, você vai comigo, sabe, visitar o meu pai? Eu não quero que ele fique enterrado em Azkaban. Vou tentar tirar ele de lá.

- Claro. – Harry beijou a cabeça do loiro.

Ficaram em silêncio um tempo.

- Harry...

- Hum.

- Você já pensou no que vai fazer depois de amanhã?

- Quê?

- Depois da guerra, dessa batalha... O que você vai fazer?

Harry ficou quieto. Draco sentiu o silêncio incômodo.

- Você não pensou nisso?

- Pensei, claro. Quero dizer, eu tenho vontades. Mas é meio difícil você acreditar nos seus sonhos com uma faca no pescoço.

- Mas, bem, o que você pensa em fazer a longo prazo?

- Acho que eu vou terminar o colégio. Não queria deixar assim, pendente. Quero ter uma profissão, mas acho que auror, que é o que eu pensava em ser, não vai ser exatamente legal. Acho que vou querer parar um pouco... Mas por enquanto é isso... Ah, e vou ter que procurar uma casa para morar também, afinal de contas, não vou voltar para a casa dos meus tios, e a que eu recebi de herança deve estar meio inabitável a essa altura.

Harry ficou quieto por um momento. Fazer a mesma pergunta para o loiro não parecia uma boa ideia, ele estava em uma situação mais difícil que a sua.

- Draco. – Harry o chamou momentaneamente mais animado.

- Hum?

Harry se endireitou e fez o loiro olhar para ele.

- Quer vir morar comigo?

- Quê? – Draco se ajoelhou ao seu lado, prestando atenção.

- Sabe, depois da guerra... Quer viver comigo? – Harry passava a mão pelo seu rosto delicadamente.

Draco demorou um tempo para responder.

- Harry... É impressão minha ou isso é quase como um pedido de casamento?

Harry se impulsionou e beijou o loiro.

- É. Acho que sim. – Harry respondeu meio assustado – Eu não usaria a palavra casamento, mas acho que a ideia é essa. Você quer viver comigo, sabe, para dividir a mesma cama todo dia, fazer as refeições juntos, dividir o pote de escova de dente, falar sobre o que fez durante o dia... Enfim, começar uma família?

Draco passava a mão carinhosamente pelo seu rosto, tentando engolir a saliva, a testa meio vincada, olhando nos olhos verdes do Gryffindor. Então deixou a testa cair contra a dele e murmurou.

- Ah, Merlin, sim, eu quero, quero muito ir morar com você, Harry.

Harry o abraçou e o beijou. De certa forma, aí estava uma coisa que ele sabia que os dois desejavam intensamente: uma família. Ele, por nunca ter tido a presença dos pais. Draco por ter sido criado em um sistema em que a família, o sangue, o nome, era algo tão importante e de repente ter perdido tudo isso. Esse pensamento trouxe uma preocupação para Harry.

- Draco, você pensa em ter filhos?

- Bem, isso vai ser complicado, no nosso caso. – o loiro respondeu rindo.

- Ah, você me entendeu. Você quer ter filhos, adotar crianças?

- Bem... - Draco respondeu sério – Não seria má idéia.

- Mas, Draco... Filhos, – Harry enfatizou – não herdeiros.

- Sabe, Harry, meus pais não eram tão ruins assim. Eu fui filho, no sentido que você colocou, pelo menos até meus sete, oito anos, só depois eu virei o "herdeiro" Malfoy. – Draco enfatizou as aspas com os dedos – E isso não foi de todo ruim.

- Não foi de tudo ruim? Ah, por Merlin, vamos ter que conversar muito sobre isso! Mas não agora. Vem cá. – e puxou o loiro para a posição anterior, voltando a abraçá-lo e beijando a sua cabeça – Agora eu quero só ficar com você assim, sem pensar em nada, ok?

Draco se acomodou novamente contra Harry e os dois ficaram trocando carinhos por um longo tempo.

- Acho melhor nós voltarmos, antes que mandem um pelotão atrás de você. – Draco comentou.

- Nããããooo. – Harry gemeu no ouvido do outro – E além do mais, McGonagall sabe onde estamos. Tem muita sala vazia no castelo. – Harry imitou a voz da professora.

- Por Merlin, não! – Draco riu – Vou ter pesadelos eternos se ela nos encontrar aqui, assim. Vem. – Draco levantou rindo e puxou o outro – Eu preciso me concentrar e você precisa descansar, e não vai ser nesse chão de pedra que a gente vai conseguir.

Os dois se trocaram e voltaram para a sala. Quando entraram, Hermione veio até eles com a varinha em punho.

- Que bom que voltaram. – e começou a murmurar feitiços de cura para os lábios inchados e as marcas nos pescoços dos garotos – Francamente, recomendo que vocês façam isso no resto do corpo de vocês, porque eu não vou ficar revistando marmanjo, mas acho que Voldemort pode tentar, e isso não é uma boa ideia.

Os dois, muito corados, foram um de cada vez ao banheiro para se lavar e poder se examinar. Depois Draco pegou uma poltrona vazia, na qual se sentou com as pernas encolhidas sobre o acento e a cabeça apoiada nos joelhos. Harry pegou duas poltronas do outro lado da sala e tentou descansar sem dormir.

Horas depois, Hermione chamou Draco.

- Hora de ir.

Draco se levantou e a garota se assustou, se afastando dele.

Nunca vira o seu olhar mais frio.

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Música utilizada: "Explode Coração" - Gonzaguinha (autor), Maria Betânia (intérprete)

NA: Oi, pessoas! Se preparem porque o comentário é grande...

Em primeiro lugar: desculpa, eu fui muito, muito má com vocês...

Esse capítulo já estava pronto desde que eu postei o anterior. Eu só não postei antes porque tinha algumas informações aqui que podia influir no próximo, então eu resolvi esperar terminar o décimo pra postar esse, pra não correr o risco de ter que ficar editando depois... Então, desculpem pela demora eterna...

Agora, boa notícia: a fic já está toda escrita. Vou postar o décimo (e último) capítulo junto com o epílogo na próxima atualização do 3v, sem mais delongas...

O que acharam do capítulo? (comentem, por Merlin!) Eu estava pensando nele há MUITO tempo, principalmente essa conversa final do Harry com o Draco.

Eu gostei do resultado final, mas sei lá, acho que ficou meio meladinho demais pros meus padrões (taxa de romantismo no sangue da Agata: -2), mas depois de três capítulos sem nem beijo na boca, até que o momento de tirar o atraso foi legal. Só que não esperem nada mais romântico que isso vindo de mim, em nenhuma fic. Não foi exatamente fofo e tal, mas já escrevi mais do que podia aguentar desse lenga lenga de casalzinho. XD

Quanto à música, (minha irmã falou que esse capítulo tem duas cenas NC17: a minha e a da música O.o) eu tirei a letra de ouvido, se tiver algum erro, perdão, aceito correções. No verso "Feito louco alucinado e criança", o eu lírico é feminino (Feito louca alucinada e criança), eu que mudei, afinal, neste momento, essa música pertence aos dois menininhos e ponto final. E sim, eu sou eclética, pular de Herbert Vianna para Gonzaguinha não foi um erro de cálculo. E ainda pretendo pôr mais uma música na fic, a primeira que eu escolhi, então não pode faltar.

Agora, um aviso, eu abri um tópico no fórum do 3v, na seção "Harry e Draco" para quem quiser falar sobre a fic... Fiquem a vontade...

Beijos!