Capítulo 10

O fim

Draco surgiu ao lado de Harry e retirou de seu pescoço o colar com os três pingentes, três chaves de portal: uma que o trouxera até ali, outra que o levaria em caso de retirada para Hogsmead, e a outra para uma base preparada do St Mungus. Harry imitou o seu movimento e também entregou o seu colar para Remus, que estava ao seu lado.

Harry se voltou para ele e seu olhar se prendeu além, encarando a fileira de pessoas aparentemente interminável, levemente encoberta pela névoa da manhã fria. Olhou para o outro lado, para constatar a repetição da cena. Encarou Draco ao seu lado.

- Draco, ainda dá...

Draco somente sorriu, sem olhá-lo, aquele sorriso irônico, com um canto só dos lábios, e deu um passo, entrando na mata fechada à frente.

Harry o seguiu, dando passos lentos, sentido que a névoa densa e úmida vinda das árvores antigas o engolia pouco a pouco. Era como se estivesse sendo encoberto por uma camada invisível, mas quase palpável, de silêncio e frio. Quando aquela atmosfera o envolveu totalmente, surgiu a dor. Sua cicatriz explodiu, como se fosse se romper, abrindo seu crânio. Harry mordeu com força os lábios e tentou por tudo não gritar, mas não conseguiu se manter de pé, cambaleando até cair de joelhos no chão.

- Sinceramente, Potter, eu achei que você iria mais longe que isso.

Draco havia parado a alguns passos de distância e o observava com os braços cruzados e o rosto inexpressivo. Harry sacudiu a cabeça, tentando focar os olhos e controlar a dor. Levantou-se, ainda cambaleante, e andou até o outro.

- Vamos.

- Posso? – perguntou Draco, com a corda nas mãos.

- Claro. Já devíamos ter feito isso.

- Eu supus que você teria alguma reação e achei melhor passar por isso com as mãos livres.

Draco enfeitiçou a corda para se envolver nos pulsos de Harry sem muita força, mantendo-os às suas costas, mas com a varinha ao alcance, encaixada disfarçadamente no cós da jeans. Depois jogou uma capa sobre os ombros do moreno e cobriu o seu rosto com o capuz, empunhando a própria varinha e o instigando a andar a sua frente.

Os dois seguiram o seu caminho em silêncio, Harry os guiando pelas lembranças de Nagini, já que não avistaram nenhuma trilha ou algo parecido no meio da mata. Depois do que pareceu-lhes um hora de caminhada, pararam ao ouvir uma sequência de estampidos à volta e a varinha de Draco voou de suas mãos. Cerca de quinze encapuzados os cercavam.

- Ora, ora, Malfoy. O que o traz aqui? Saudades da família?

Eles riram. Draco deu um golpe atrás dos joelhos de Harry, fazendo-o cair no chão e levantou o seu capuz.

- Trouxe um presente para o Lord.

Os encapuzados trocaram olhares. Uma mulher se destacou.

- Certo, andem. Sem gracinhas.

Eles foram guiados por mais quase uma hora de caminhada na mata, até saírem em um espaço vazio em frente a uma montanha imensa. Dirigiram-se à sua base. A mulher ergueu a manga das vestes e encostou a marca negra na rocha, que se desfez, revelando uma passagem. Mais longos minutos de caminhada em corredores muito movimentados, frios e escuros, de paredes de rocha bruta e chão de terra batida, e chegaram ao que aparentemente parecia um beco.

- Esperem. – a mulher ordenou, e atravessou a parede sólida com metade dos comensais que os acompanhavam.

O silêncio os envolveu. O coração de Harry parecia que ia saltar pela boca. Ele procurava não olhar o loiro, mas pode notar que ele mantinha a pose ereta, aparentemente indiferente ao que acontecia a sua volta.

O tempo se arrastou até que a mulher voltou.

- Venham.

Ela pegou Harry pelos ombros, arrancando sua capa e o empurrou contra a parede. Harry se desequilibrou, caindo do outro lado, em uma sala ampla, com mais uns trinta comensais, dessa vez não mascarados, espalhados de pé ou sentados em cima de imensos blocos de pedra.

Mãos rudes o colocaram de pé e o empurraram por um corredor aberto pelos presentes. Harry pode divisar muitos rostos conhecidos, mas a sua direita se surpreendeu ao ver o grupo formado por Zabini, Parkinson, Crabbe e Goyle, sentados, fazendo comentários baixos à sua passagem. Pensou por um momento em como Draco reagiria àquela visão, mas logo seus pensamentos se desviaram ao ser empurrado com violência novamente, caindo no chão, batendo o rosto em alguns degraus de madeira.

Ele ergueu o olhar. Havia um patamar colocado mais alto do que o nível do salão, como um palco. No centro, uma confortável cadeira de braços almofadada. Sentado nela, Lord Voldemort, sorrindo.

- Ora, ora... A que devo tão agradável visita?

Harry sentiu Draco se ajoelhar ao seu lado, mas não pensou em olhá-lo, somente encarava Voldemort. Draco falou.

- Vim implorar seu perdão, Milorde. Vim pedir que perdoe meus erros e meu distanciamento. Como prova de minha lealdade e devoção, lhe trago Harry Potter, já que conheço seu desejo de matá-lo com as próprias mãos.

O silêncio envolveu a todos. Voldemort fitou Harry por um momento, depois se levantou, desceu alguns degraus e se abaixou até pegar o rosto de Draco, forçando-o a encará-lo.

- Como você chegou aqui?

- Meu pai já havia comentado sobre este lugar e depois Snape falou sobre a sua localização. Eu aparatei aqui perto.

Voldemort o encarava, obviamente verificando a veracidade dessas informações. Então endireitou o corpo, voltando para cima do patamar, em silêncio.

- Você terá minha condescendência, Malfoy. Seu pai foi um bom servo e você pode me ser útil, apesar de precisar de algumas... Correções. Agora, quanto a perdão, isso veremos futuramente. Cruccio!

Harry tentou não olhar para o loiro se contorcendo e gritando ao seu lado, tentou não gritar, não fechar os olhos, não pular no pescoço daquele desgraçado. Somente travou os dentes e respirou fundo, tentando controlar a raiva que se avolumava em seu peito.

Dois comensais se aproximaram e, puxando seus braços para trás do corpo, imobilizaram Draco, o arrastando para fora dali.

- Não. – advertiu Voldemort – Deixem-no ver o quão útil será o seu presente. Não quero que o jovem Malfoy pense que eu sou ingrato.

E com isso, Harry se sentiu ser erguido do chão e seu corpo foi arremessado contra a parede. Ele caiu de bruços sobre a plataforma de madeira.

Voldemort veio até ele e o pegou pelos cabelos, colocando-o de pé.

- Olá, Potter. Sentiu saudades? Cruccio.

Enquanto Harry se contorcia no chão, Voldemort continuou seu discurso.

- Sabe, Potter, eu realmente fiquei me perguntando se você sentiu minha falta. Nosso último encontro foi tão agradável, lá no Ministério. Durante um tempo eu até pensei em repeti-lo, mas sabe, estava meio sem tempo.

Alguns comensais riram. Voldemort suspendeu o feitiço por alguns segundos. Harry o encarou do chão, ofegante, os olhos brilhando de ódio.

- Mais? – perguntou baixinho, sorrindo de forma desagradável antes de repetir o feitiço, ignorando os gritos do garoto enquanto prosseguia seu discursso – Então você começou a agir de uma forma estranha. E eu fiquei me perguntando: o que será que ele está querendo? Será que tudo isso é saudade do querido Dumbledore? Ele que costumava sumir do meu controle, agir de modo preciptado e sempre, sempre, Harry, repetir os mesmos erros.

Voldemort suspendeu o feitiço e Harry sentiu seu corpo deixar o chão novamente. Ele estava flutuando a frente do outro, que o encarava insistentemente.

- O que você quer, Harry? Porque eu sei que você está buscando alguma coisa.

- Você! – Harry respondeu em um grito rouco, desatando as mãos e empunhando a varinha, já com um feitiço em mente, que atirou contra Voldemort.

Este desviou, mas Harry já lançou outro, tentando não mentalizar os feitiços, pois sabia que o outro tentaria ler sua mente, somente desejando atacá-lo, ferí-lo, sua magia fazendo o resto. Mas Voldemort parecia entretido com a brincadeira, sinalizando para os comensais não interferirem e atacando de volta, deixando a situação do menino mais difícil, já que ele precisava focar a mente para se defender.

Quando, porém, dois feitiços se encontraram no ar e as varinhas se uniram através do raio dourado, Voldemort pareceu sério pela primeira vez.

- Não! – gritou, puxando a varinha, arrebentando o fio e jogando um feitiço contra o garoto, que se sentiu atirado contra a parede novamente, com os braços e pernas abertos, ofegante, preso.

Voldemort se aproximou e tirou a varinha de sua mão quase delicadamente.

- Isso não é brinquedo para crianças, Harry. Você precisa aprender a usá-la antes de sair com ela por aí.

Mas Harry não ouvia, somente percebeu que Voldemort estava perto, muito perto, segurando o seu rosto, sabendo que o toque causava-lhe uma dor quase insuportável, seguro da situação.

Mas era disso que Harry precisava, era isso o que ele queria. Não precisava da varinha. Ele mal conseguia respirar e seu coração batia dolorosamente em seu peito. Então se concentrou com todas as suas forças em sua mãe, seu pai, em Sirius, nos seus amigos, no amor que sentia por todos, em seu sentimento por Draco.

Os olhos do garoto brilharam em um verde vivo, vivo demais. Voldemort tentou se afastar, mas sua mão parecia presa à face do garoto, e ele sentiu uma névoa dourada os envolver, conforme a dor daquele toque o fazia querer gritar, quase o descarnando. E então ele entendeu o que o outro estava fazendo. Ele ergueu o outro punho e desferiu o golpe no rosto a sua frente, observando Potter rolar pelo chão, a névoa se dissipando, ele voltou a respirar.

- Amor, Potter? – seu tom era divertido, quase casual - Ora, que menininho esperto você é! Quem te deu a dica? O velho caduco? Ora... Estou surpreso. Mas o que você esperava? Me matar com isso? Poupe-me! Você acha que um sentimentozinho barato, uma coisa piegas e fútil como... como... – fez uma careta e cuspiu a palavra - amor poderia realmente me matar?

Harry estava sentado no chão. A dor em sua cicatriz maior do que nunca, agora somada aos vestígios da tortura, e se sentindo fraco pelo esforço que fizera. Ele sabia que aquele ataque fora o suficiente para alertar Ron e Hermione, que a investida contra a fortaleza começaria a partir de agora, e que todos morreriam, pois ele não cumprira sua parte. Não conseguira matar Voldemort.

Voldemort andou até o menino que ainda tentava se recuperar. Ele murmurou um feitiço e os braços de Harry se fixaram atrás de seu corpo. Voldemort o pegou pelos cabelos e o atirou contra a parede novamente.

- O que você sabe sobre o amor, Potter? – Voldemort parecia raivoso, o tom divertido sumira de sua voz, sendo substituído por raiva e desprezo - Você tem dezessete anos, nunca teve pais, tem meia dúzia de amigos e uma legião de fãs, fãs do "menino que sobreviveu". Você não sabe o que é amor, Potter! Acha que é melhor que eu por conseguir mobilizar um pouco desse... desse sentimentozinho ridículo? Acha que tudo isso que você tão intensamente sente pode te salvar, pode me machucar? Ora, eu adoraria ter aqui um dos seus amiguinhos para te mostrar o quanto o seu precioso amor pode te fazer fraco. Obviamente que o seu querido Dumbledore lhe diria que não, mas onde está Dumbledore agora? Nem o sentimento que você tinha por ele pode utilizar contra mim! A falta que você sente dos seus mortos miseráveis não pode me ferir, Potter! Você não tem esse poder para me abalar, Potter. Você, de todas as pessoas, deveria saber disso. Meninos que crescem sozinhos não amam. Ora, e você se acha um grande homem por essa sua atitude patética. Você sequer sabe o que é amar para poder utilizar esse tipo de magia contra mim! Você sabe? Sabe? RESPONDA! Imperius!

Diga: qual seu amor?

Fale o que te faz amar...

Diga por que o seu amor tem tanta força... Fale...

Fale por que o amor me derrotaria...

- Não! – a voz do menino saiu fraca, mas resoluta.

- Não, Potter? Não? Ora, Potter, por que você tem sempre que fazer as coisas tão difíceis? Você sabe que eu vou conseguir o que eu quero de uma forma ou de outra. Olhe para mim, Potter... Olhe...

Voldemort o pegou pelos cabelos, girando a cabeça do garoto e o encarou, prendendo seus olhos aos verdes, revirando sua mente.

Harry tentou, por tudo, daria a vida para que aquilo não acontecesse, para que Voldemort não invadisse sua mente a procura da fonte do seu amor. Mas ele nunca fora bom nisso, e estava fraco... Harry Potter gritou quando a imagem de Draco Malfoy surgiu à sua frente, seu peito inundado de aflição, de medo, de carinho.

Voldemort desviou o olhar do garoto a sua frente para encarar o loiro imobilizado em um canto do salão com uma expressão de dor no rosto.

- Malfoy. – a voz saiu sibilada, como se constatando algo, para em seguida gritar - Tragam-no aqui!

O loiro foi arrastado novamente aos pés do mestre. Potter foi fixado à parede com um novo feitiço, seus olhos desfocados devido ao esforço de se manter são. Voldemort caminhou até o loiro, que mantinha a cabeça baixa, e o puxou pelos cabelos, o obrigando a encará-lo.

- Malfoy, você não quer compartilhar conosco como foi a captura de Potter? Porque duvido que você não tenha essa informação, mas me parece que o nosso amigo está apaixonado por você.

- Eu o seduzi. – a voz do ex-Slytherin veio fria e segura, embora o seu tom fosse indulgente – Ele me ofereceu ajuda, eu aceitei pensando em conseguir informações para Milorde. Como não consegui nada, aproveitei a proximidade para seduzi-lo. Quando eu percebi que ele estava entregue, o raptei sem dificuldades e o trouxe. Por isso demorei a voltar, Milorde.

Draco fez uma flexão com a cabeça, em reverência a Voldemort, mas o bruxo o puxou pelos cabelos bruscamente e o encarou, vasculhando sua mente sem encontrar evidências que contrariassem suas palavras.

Mas não estava convencido.

Sem desviar o olhar do mar cinza-azulado a sua frente, Voldemort esticou a varinha para trás, mirando o moreno. Os olhos do Slytherin seguiram seus movimentos, sabendo o que viria a seguir.

- Avada kedavra!

Draco não teve nenhuma reação, sua respiração não se modificou, seu corpo não fez nenhum movimento.

Mas seu coração pulou uma batida quando percebeu que o moreno ainda estava vivo, por pouco. Voldemort errara o feitiço.

Foi o suficiente.

Voldemort lhe deu um chute na face e se ergueu, gritando cruccio novamente.

- SEU SUJO! Quem lhe ensinou a mentir dessa forma? Seu querido pai ou o miserável do Snape? Você está tão apaixonado quanto ele, seu imprestável! Chega a feder!

Voldemort suspendeu o feitiço, mantendo a varinha apontada para o garoto que tentava se afastar se arrastando pelo chão, dobrado de dor, aparentemente pensando na melhor forma de matá-lo. Então olhou para o outro garoto, observando a cena preso à parede, com o rosto revelando óbvia raiva contida.

- Estuprem-no!

- Não! – Draco gritou, se debatendo compulsivamente quando sentiu seus braços serem agarrados – Milorde!

- E quero ouvi-lo gritar! – Voldemort completou, vendo Draco ser atirado de bruços contra a superfície de uma pedra, mãos e pés sendo firmemente amarrados com mágica, um pequeno grupo de homens se aproximando.

- NÃO! – o grito veio de trás. Harry de alguma forma se livrou do feitiço que o aprisionava à parede, esticando a mão em direção ao outro, sua força se revelando na intensidade do olhar.

Um vendaval varreu o salão, os bruxos que se aproximavam de Draco voaram para longe, as amarras deste se soltaram. Mas Fenrir Greyback impediu Draco de escapar, refazendo as amarras quase imediatamente, encostando-se ao loiro.

Voldemort jogou outro feitiço em Harry.

- Harry, não seja idiota! Faça o que veio fazer... Aaahh! – Draco gritou, quando Ferir rasgou suas roupas com as unhas, as cravando em torno de sua cintura, e se forçou contra o corpo do loiro.

- Confesso que você melhorou bastante, Potter, mas não gaste sua energia à toa. Tem coisas que são inevitáveis. Agora, venha assistir comigo, será divertido. – Voldemort disse, sorrindo medonhamente.

Harry sentiu seu corpo se dobrar forçosamente, ficando de joelhos ao lado da cadeira de Voldemort, onde este se sentou, o segurando pelos cabelos, direcionando sua cabeça, forçando-o olhar para a cena.

Draco mordia com força os lábios que já sangravam, tentando não gritar com a invasão, mas não conseguiu evitar, quando Fenrir foi substituído por McNair.

- Alguém pode calar a boca desse moleque? – Voldemort sugeriu calmamente.

Pettigrew se aproximou, abaixando a calça e segurando os cabelos de Draco para levantar o seu rosto. Draco o mordeu, arrancando sangue, na primeira tentativa. O bruxo sacou a varinha, jogando a maldição crucciatus no garoto. McNair e Crabbe o seguraram no lugar com força enquanto o garoto se debatia, gritando de dor. Draco deixou a cabeça cair sobre a pedra quando o feitiço foi suspenso, mas logo Pettigrew insistiu, e ele cedeu, sentindo Crabbe substituir McNair.

Harry viu lágrimas lavarem o rosto do loiro, enquanto mal registrava que as suas já corriam há muito tempo.

- Zabini! Você é o próximo! – ordenou Voldemort.

Harry se voltou para encarar o Slytherin moreno. Ele deu um passo para trás. Seu rosto estava lívido, revelando pavor.

- Isso é uma ordem, Blaise! - Voldemort insistiu, deixando clara as consequencias da negativa.

O moreno recuou em choque, observando a cena do ex-colega sendo violentado com uma expressão que variava entre o medo e o nojo. Voldemort não teve dúvidas, estendeu a varinha e declarou a maldição.

- Avada kedrava.

Parkinson gritou e se debruçou sobre o corpo do amigo em visível desespero.

- Vicent, Gregory, vão vocês! E quanto a você, querida, não lamente não poder participar da festa, logo seu momento chegará também.

Harry observou o medo passar pelo rosto de Pansy e ela se encolher junto ao corpo de Blaise. Uma mão girou a cabeça de Harry, puxando seus cabelos, fazendo seus olhos recairem sobre Draco novamente.

O rosto do loiro estava sem expressão, seu corpo balançando com a violência de seus agressores, o rosto sujo de semen e sangue, e sangue correndo por suas pernas.

Ele era só um menino.

O coração de Harry batia tão forte que ele achava que poderia saltar do peito a qualquer momento. Doía. Como doía ver... Ver o seu Draco daquela forma, sem poder fazer nada, sabendo que foi ele que o levou até ali.

E Harry sentiu toda aquela impotência se avolumando, seu medo, sua derrota, toda a sua raiva canalizando para aquela cena.

- Isso, Harry, é só o começo. – Voldemort sussurrou bem perto de seu ouvido - Seus amigos não poderão salvá-lo. Ah, sim, eu sei que eles estão aqui. Mas eles não chegarão nem perto desta sala. E nós teremos muito tempo juntos, você poderá ver bem de perto o que seu precioso amor pode gerar.

Harry não ouviu direito. Seus ouvidos pulsavam como se todo o fluxo de sangue do seu corpo se concentrasse em sua cabeça. Seu corpo todo pulsava, o sangue queimava em suas veias. Ele não conseguia respirar, parecia que o ar a sua volta não era o suficiente.

Harry não saberia dizer como se livrou do feitiço, como foi parar em cima de Voldemort, os dois caídos no chão, a cadeira despedaçada ao ser arremessada longe. Não tinha noção do que estava fazendo, não tinha noção do que o levava a fazer algo tão idiota como avançar de mãos nuas para cima de Voldemort.

Harry não pensava, nunca antes ele pensou antes de agir, não começaria agora.

Harry só sentia. O amor o guiava e o ódio lhe dava forças.

E estava tão concentrado em seu próprio ódio, que mal sentiu quando os feitiços dos Comensais começaram a atingi-lo, ferindo-o, marcando sua pele e rasgando o seu corpo.

Ele mal via o sangue correndo.

Nada o faria soltar Voldemort naquele momento.

o0o

Draco não registrou os gritos, não registrou a ausência de um corpo sobre o seu. Havia mergulhado em um torpor além da dor, além da humilhação.

Sentiu, como se fosse com outra pessoa, alguém soltando-o. Seu corpo deslizou por sobre a pedra e ele caiu no chão. Mas quando alguém o tocou, ele se encolheu, tentando fugir.

- Calma, Draco, calma... Sou eu, Pansy. – Draco gemeu em sua dor, dor era a única coisa de que tinha consciência naquele momento - Oh, Merlin! Enervate!

Draco sentiu a dor diminuir um pouco. Tentou focalizar o rosto da garota. Ela estava chorando.

- Pansy... – falou, fraco, sua voz saindo rouca.

- Draco. Oh, Merlin, Draco, o que fizeram com você? Eu... Eu preciso te tirar daqui.

Draco tentou pensar, tentou focar as ideias, de onde estava, o que estava fazendo. Olhou à volta e o que viu o fez perder o fôlego.

O salão parecia vazio, todos se concentravam à beira dos degraus, mas aparentemente alguma força invisível os impedia de avançar além. Em cima do patamar, havia duas pessoas no chão. Harry estava sobre Voldemort, segurando com todas as suas forças em seu pescoço. Uma névoa dourada os envolvia, a magia que circulava os dois era tão forte que formava uma barreira que impedia os feitiços que os Comensais atiravam em Harry continuamente de fazerem total efeito. Mas o rosto de Harry estava transfigurado, descarnado. O sangue dele já corria pelos degraus.

- Oh, Merlin!. – Draco falou baixinho – Pansy! – ele gritou – Pansy, onde está minha varinha? Pansy, ouça. – ele segurou a garota pelos ombros, percebendo com esse gesto o quanto suas mãos tremiam, mas ele não se importava agora. Não se importava com a dor, precisava ajudar Harry. Olhou fundo nos olhos da garota - Você está comigo? Você quer sair daqui? Mesmo que isso signifique se aliar à Ordem da Fênix? – ela balançava a cabeça freneticamente, concordando.

Draco usou a varinha dela para convocar a própria de algum lugar do salão. Em seguida, fez o feitiço, conjurando uma rosa.

- Ouça, Pansy. Estão vindo reforços. Eles devem... devem estar chegando. Ouça, segure esta rosa, não a solte, e eles saberão que você está do nosso lado. Agora, eu preciso ajudá-lo, Pansy. Eu não posso deixar ele morrer.

Ela concordou com um gesto de cabeça, abraçando-o trêmula. Ele se soltou e lhe deu as costas. Avançou cambaleante, pulando algumas pedras, se escondendo atrás de outra. Parou um momento para respirar, sentindo seu corpo latejar em dor, ainda trêmulo. Limpou o rosto no que restara de suas vestes e se virou, conjurando feitiços a esmo, atacando os Comensais que atacavam Harry. Viu Pansy se posicionar atrás de outra pedra e fazer o mesmo, um dando cobertura ao outro.

Poucos minutos depois, uma explosão o desalojou de seu esconderijo. A parede direita da caverna desmoronou, e por ela um batalhão da Ordem, liderado por Tonks, entrou na luta. Draco se levantou, observando o caos que virou o salão, e respirou aliviado. Mas caiu, quando um feitiço o atingiu pelas costas.

- Olá, querido.

- Oi, tia Bella.

- Eu falei para sua mãe que você deveria morrer tentando matar Dumbledore. Mas ela não me deu ouvidos, fez aquele pacto ridículo com Snape. – Bella cuspiu no chão – Outro traidor. Se ela tivesse seguido meus conselhos talvez você realmente tivesse morrido, mas pelo menos não teria chegado tão baixo.

- Ora, agradeço a sua compaixão, tia.

- Não agradeça! - ela sorriu falsamente antes de erguer a varinha - Expeliarmus!

- Estupefaça!

Draco viu a tia girar para se desviar do feitiço e quase não conseguiu murmurar o escudo quando o braço dela desceu em sua direção, no meio do movimento, deixando um risco de chamas roxas no ar.

- Protego! - mas Draco cambaleou com o poder do feitiço, sentindo a dor se alastrar por seu peito.

- Sectusempra! - ele disse em um fio de voz, descendo a mão rapidamente, duvidando que o feitiço funcionasse pelo seu estado.

E Draco viu a tia cair para trás, ensanguentada, antes dele próprio perder os sentidos.

o0o

Harry estava no limite das suas forças. Seu corpo tremia, sua visão estava embaçada. Voldemort se debatia e convulsionava sob seus dedos, banhado no sangue do garoto. Harry ainda sentia o poder que ele exalava, ainda sentia seu próprio corpo quase se desmanchar de dentro para fora com aquele contato, mas a dor já estava além da sua capacidade de sentir.

Ele olhava para suas mãos e enxergava alguns de seus ossos, de tão feridas que estavam. O resto de seu corpo não devia estar melhor, mas ele não tinha consciência disso. Não tinha consciência da própria dor, e muito menos da luta que acontecia à sua volta.

O único pensamento que passava pela sua mente era a visão de Draco sendo violentado, e era seguido por uma série de imagens que variavam da morte dos seus pais ao carinho que Hermione tinha por ele, ou do dia que Sirius o chamara para morarem juntos à morte de Dumbledore. Todos aqueles sentimentos o inundavam de tal forma que nada mais existia, nem mesmo suas lágrimas, somente o que ele sentia, e o homem agonizando sob os seus dedos por trás de todas as imagens que passavam por sua mente, como ele sempre esteve por trás de todos os atos que levaram a elas.

E então a dor aumentou a proporções inimagináveis. Harry sentiu seu corpo ser envolvido em espirais de desespero, como se algo o sufocasse, e ele reviu a criatura de olhos vermelhos enlaçando-se a ele, tomando seu corpo. Ele não conseguia pensar, mergulhado em dor. Mas no fundo sabia o que estava acontecendo, sabia que essa era a última tentativa de Voldemort. E ele sabia que mesmo se o outro o tomasse, ele mesmo não suportaria. Seu próprio ser estava quebrado demais. Não havia refulgio para Voldemort nele, os dois morreriam e esse seria o fim.

Harry percebeu que tudo estava perto do fim, e sorriu, sendo invadido por uma felicidade imensa envolta em alívio, como um anestésico em meio à toda dor.

- Garoto idiota. – a voz que saiu de sua boca não era sua, seu queixo mexendo contra a sua vontade.

Harry sentiu que estava morto, a dor o cegando, e uma lágrima correu pelo seu rosto, indo parar nos lábios que ainda sorriam.

"Pelo menos outros vão viver por isso.", pensou, mergulhando na escuridão que a dor formava em sua mente.

E o rosto de Draco reapareceu, olhando-o, triste. O que eu vou fazer aqui, sem você?

Seu peito se encheu de emoção e ele pensou que seu corpo fosse se desmanchar quando a criatura que o envolvia se contorceu.

- A morte não é nada. – um sussurrou escapou de seus lábios, reconhecendo a própria voz novamente, a luz voltando aos seus olhos e o rosto ofídico reaparecendo a sua frente.

Voldemort gritou e de sua boca uma nuvem negra saiu e se perdeu no ar, como um vapor informe. Seu corpo estalou e se fragmentou.

Harry piscou, e se viu caído sobre uma poça de sangue e cinzas.

Respirou, como se não fizesse isso há muito tempo, tentando puxar o ar em pequenos sorvos, encarando o chão onde até um segundo antes estivera a cara vampiresca de Voldemort.

- Acabou. – sussurrou fraco, mal percebendo o que dizia. – Acabou.

Ele queria gritar, queria rir, mas a dor o impedia. Seu corpo convulsionava e ele sentia que não poderia controlá-lo.

Ele tinha que sair dali.

Levantou a cabeça e olhou à volta. O salão parecia um campo de guerra, estava coalhado de corpos caídos sobre os degraus, o chão e as rochas em volta. Havia muito sangue e, aparentemente, nenhuma alma viva. O som de batalha chegava aos seus ouvidos de forma ecoada, provavelmente vindo das salas vizinhas, para onde os combatentes deviam ter seguido.

Para onde ele iria, se não tivesse uma única preocupação neste momento: Draco.

Com esforço, sentindo seu corpo tremer, se apoiou nas mãos e nos joelhos e tentou focar a visão, vasculhando com mais cuidado o local. Draco tinha que estar vivo, ele não podia estar ali, entre aqueles corpos.

Mas, para seu desespero, localizou o reflexo loiro mais além. Seu corpo estava jogado no chão, aparentemente deslizara de cima de uma rocha. Ao seu lado jazia Bellatrix Lestrange.

Não! Aquela mulher não pode ter-lhe tirado duas das pessoas que mais amou na vida!

Harry tinha consciência de que não teria forças para se levantar. Tentou engatinhar, mas aparentemente suas pernas estavam quebradas, então ele se arrastou pelos degraus, caindo no chão de terra.

Ao seu lado, um garoto um ano mais novo que ele, da Ravenclaw, estava caído, os olhos abertos. Harry tirou, com toda a delicadeza possível, com a mão esquerda, já que a direita também não queria obedecê-lo, o colar de seu pescoço.

Harry voltou a rastejar até Draco, apoiando sua cabeça no peito imóvel do loiro.

- Não! Não esteja morto, Draco... Por favor... Por favor... Não esteja morto... – resmungou, como uma ladainha, um mantra vital para sua própria sobrevivência.

Não conseguiu perceber se ele respirava ou não ao depositar um beijo em seus lábios. Sua mão envolveu delicadamente a mão do loiro e a trouxe para um beijo trêmulo, deixando um rastro de sangue na pele branca a cada toque. Depois colocou o pingente do Saint Mungus entre as duas mãos e o ativou.

Harry desmaiou logo que recebeu o conhecido puxão no umbigo, mergulhando na escuridão.

o0o

Negro, tudo escuro...

Gritos e movimento a sua volta...

Dor, muita dor...

Forçou-se a abrir os olhos...

Branco.

A luz o cegava, tudo à volta era extremamente branco...

Voltou a fechar os olhos.

Negro.

- Harry! – o grito era de uma voz conhecida.

Branco.

- 'One. – sua voz saiu fraca ao ver aquele cabelo castanho. Ele não conseguia articular as palavras – 'One.

- Não fale, Harry. Oh, meu Deus! Harry, não fale, não se esforce!

- 'Visa... Remus... – ele ofegou ruidosamente - Mortos... Câmara...

- Sim, ele já deve estar chegando à câmara central. Os mortos serão recolhidos. Harry... E... E Voldemort?

- Morto

Os gritos em volta o deixaram tonto.

Negro.

Branco.

As luzes andavam, revezando-se para cegá-lo. Estavam movendo-o.

- 'One.

- Eu estou aqui, Harry... Estou aqui...

- On...

- Ron? Ele está bem, Harry. Eu o trouxe para cá... Ele... Ele vai ficar bem... Agora não fale.

- 'One... – Harry esticou a mão em um esforço maior do que falar.

- Eu estou aqui, Harry. – Hermione apanhou a mão dele no ar.

- 'aco...

- Eu... Já o levaram, Harry...

- 'Orto...

- Não, ele estava vivo. Mas... Bem... Ele... Ele vai ficar bem, Harry. Ele vai ficar bem. Já estão cuidando dele. Não se preocupe.

- 'One... Cuida... Drac...

Negro.

Negro.

Negro.

A dor.

A escuridão.

E o nada.

-:=:-