Capítulo 11

Epílogo

Harry estava sentado no sofá, meio torto, apoiando as costas no braço do móvel, com uma perna em cima do acento e a outra no chão, sem sapatos.

Merlin, estava cansado. Não se sentia cansado assim desde... Desde o fim da guerra. Desde que saíra do hospital.

E já fazia três anos.

Será que a sorte virá

Em um realejo?

Trazendo o pão da manhã

A faca e o queijo

Ou talvez... um beijo teu

Que me empreste alegria

Que me faça juntar

Todo resto do dia

Meu café, meu jantar

Meu mundo inteiro

Que é tão fácil de enxergar

E chegar

o0o

Harry abriu os olhos devagar, eles lacrimejaram, apesar da penumbra na qual estava o ambiente.

- Harry? – uma voz insegura o chamou.

O garoto virou a cabeça, devagar, fazendo o seu pescoço estalar.

- Ron... – sua voz saiu rouca e baixa.

- Oh, Merlin, você acordou! – Ron se esticou e puxou uma cordinha – Cara, como você está?

- Bem, eu acho. Onde eu estou?

- Saint Mungus.

- Há quanto tempo?

- Hum... Você quer saber há quanto tempo a guerra acabou, é isso? Porque já te mudaram de lugar várias vezes... Mas faz uns dois meses.

- O que aconteceu?

- Cara, calma. – Ron pousou as mãos em seus ombros, impedindo-o de tentar se levantar - Você chegou aqui só quase morto. Hermione falou que precisaram recolher seus pedaços do hall de entrada para levarem para sala de tratamento. Aparentemente acharam um milagre você ainda estar falando quando chegou aqui, depois viram que isso era um ótimo sinal, porque quando você perdeu a consciência de vez, eles não conseguiam mais te trazer de volta e seus sinais vitais sumiram. Você ficou umas duas semanas entre a vida e a morte, totalmente isolado, respirando artificialmente, inalando poções para reconstruir seus tecidos internos e praticamente tomando sangue de colherzinha. A sorte foi que aquele lance de você vomitar tudo acabou junto com Voldemort.

Ele fez uma pausa como se tentasse engolir algo amargo.

- Depois que você já conseguia se manter vivo, te levaram para o centro de recuperação, onde você ficou mais um tempo. A gente ainda não podia ter contato com você. Depois te levaram para o quarto, depois te trocaram de quarto, ou seja, te trouxeram para cá.

- Por que me trocaram de quarto?

- Ah, o Draco. – Ron apontou para o outro lado do quarto.

Harry olhou na direção e viu o loiro deitado em uma cama hospitalar, aparentemente dormindo.

- Ele está bem? – Harry perguntou com a voz embargada, se contendo para não se levantar e ir ver com os próprios olhos.

- Agora está, ele só está dormindo. Cara, Pansy Parkinson contou tudo pelo que ele passou, tudo o que aconteceu com vocês depois que chegaram à Câmara. – Ron engoliu em seco ainda olhando para o loiro inconsciente - Não foi à toa que ele ficou mais de um mês em coma. Os medibruxos falaram que ele podia ter acordado antes disso, mas meio que ele mesmo não queria acordar. Foi por isso que colocaram vocês dois no mesmo quarto, para ver se a sua presença ajudava no tratamento dele. Parece que funcionou. - ele acrescentou sorrindo triste para o moreno - Eu cansei de ver Pansy e Mione sentarem uma de cada lado da cama dele e conversarem com ele inconsciente durante horas, mas foi só colocarem ele aqui, junto com você, que ele acordou em dois dias. Ele chora muito, os medibruxos estão ajudando com isso também, mas ele já está bem melhor. O sono é por causa da medicação.

Nem um medo

Que possa enfrentar

Nem segredo

Que possa contar

Enquanto é tão cedo

Tão cedo

o0o

Harry afagou os cabelos loiros espalhados pelo seu peito. Draco adormecera há pouco tempo, deitado sobre o seu corpo, e esse era um dos motivos pelos quais se sentia desconfortável: evitava se mexer para não acordá-lo.

Harry se lembrava com perfeição daquele dia em que acordou. Depois da conversa com Ron, o curandeiro chegou e o levou para fazer uma bateria de exames e depois para uma série de alongamentos, já que seus músculos estavam sem uso há dois meses.

Uma das visões mais lindas de sua vida foi o loiro, com os cabelos longos pelo tempo de reclusão no hospital, com as vestes brancas do Siant Mungus, parecendo um anjo, correndo descalço pelo corredor para abraçá-lo, chorando. Depois o beijou na frente de toda a equipe médica.

Nunca mais Harry o viu chorar.

Harry desceu a mão pelo contorno do rosto do loiro, até pousá-la sobre o seu peito, sentindo o seu coração batendo compassado. Draco também estava cansado, passou a noite toda acordado, e teria que ir trabalhar dali a algumas horas. Harry não queria acordá-lo, embora soubesse que ficaria muito bravo se não o fizesse.

Draco era professor de história da arte em uma escola de formação básica bruxa que ficava a duas quadras da casa deles, em Godric's Hollow, mas trabalhava por prazer, para não ficar em casa como uma dondoca, como dizia ele, afinal, fora inocentado e sua herança devolvida em valores absolutos, o que já era muita coisa.

Harry acabou seguindo a carreira de auror, e não se importava de viajar todos os dias, mesmo com as infinitas horas extras que fazia, como naquela noite. Londres estava muito caótica, muita gente junta, muita informação, muita violência. Nada comparado aos tempos da guerra, mas não gostaria que sua família vivesse naquele ambiente.

Harry ergueu a cabeça e abriu a porta com um aceno de varinha. Ron parou com a mão no ar, no ato de bater na porta, interrompido pela ausência desta. Harry pediu silêncio, colocando os dedos sobre os lábios, e fez sinal para os dois amigos entrarem.

Será que a noite virá

Em um vilarejo

Vejo a ponte que levará

Ao que desejo

Admiro o que há de lindo e o que há de ser

Você

o0o

- Como está a Mione?

- Bem. Ela não se feriu muito. Estivemos juntos a maior parte do tempo, você sabe, comandando duas das frentes, mas em certo momento as coisas saíram das mãos do Lupin. Era muita gente e a maioria nunca tinha passado por treinamento ou algo assim. Muita gente morreu, mas a maior parte foi do lado deles. Parece que quando há muita morte em volta, as pessoas têm uma tendência a matar... Foi horrível.

Ron ficou um tempo em silêncio. Harry também teve flashes do que foi sua luta com Voldemort e de todos os mortos no salão.

- Não, não pense nisso ou o curandeiro vai me tirar daqui.

- Como você sabia no que eu estava pensando, Ronald Weasley? – Harry perguntou, bem humorado.

- Você precisava ver a cara de assassino que você estava. – Ron respondeu rindo, mas Harry ficou repentinamente sério.

- Eu sou assassino, Ron? – Harry perguntou, sua voz pesando entre sentimentos demais para definir.

- Cara, você fez o que tinha que fazer. E você matou um, e o mais filho da puta. E eu, que perdi as contas de quantos eu matei... E eu nunca vou saber nem o nome deles... - Ron respondeu sério.

- Não pense nisso. - Harry pediu, sentindo a angústia do amigo.

- Ok. – Ron respirou fundo - A Mione... Bem, ela que me trouxe para o hospital quando eu caí. Não sei até hoje o que foi exatamente que me acertou, mas eu fiquei bom rápido, uns dois dias de cama, só. A Hermione, cuidaram dela na hora, e ela já estava pensando em voltar para o campo quando você chegou com o Draco. Depois disso ela ficou cuidando da gente. Só que os outros comandantes se ferraram, eles ficaram até o final. Da cúpula da Ordem, acho que se salvaram meia dúzia de professores, o Remus e alguns aurores... Cara, morreu muita gente! E de repente não tinha quem pôr ordem nas coisas, e estava tudo um caos!

Ron se permitiu sorrir antes de continuar.

- E, bem, você conhece a Mione, quando ela vê que as coisas não estão muito certas... O Scrimgeour começou a prender gente a torto e a direito, alegando serem remanescentes dos Comensais. A Hermione praticamente invadiu o Ministério, apoiada pela professora McGonagall, que meio que conquistou algumas posições que pertenciam ao Dumbledore, e as duas começaram a pressionar o Ministro para não fazer tanta merda, mobilizando outros setores da sociedade. Está dando certo... Pelo menos o caos diminuiu um pouco. Quando eu tive condições, fui ajudar, mas o meu trabalho foi bem mais delicado: estou fazendo a ponte entre as famílias e os hospitais que receberam os mortos e feridos. Sabe, identificando e coisa assim... Estou gostando de trabalhar com o pessoal daqui, talvez eu faça um curso para virar medibruxo, ou quem sabe, pelo menos curandeiro. Já a Hermione, aposto como ela vai ser a nova Ministra da Magia.

Enquanto for

Um berço meu

Enquanto for

Um terço meu

Serás vida

Bem vinda

Serás viva

Bem viva

Em mim

Viva em mim

o0o

No fim os dois se casaram. A Hermione assumiu realmente um cargo no Ministério e Ron começou a residência no mesmo ano que terminaram o colégio.

No dia anterior, haviam mandado uma coruja no escritório para Harry, avisando que passariam na sua casa para dar uma notícia.

- Você deveria ter avisado, viríamos em outra hora. – sussurrou Hermione, sentando-se próxima a Harry.

- Não, tudo bem. Natalie teve cólicas, reinou a noite toda, e eu estava de plantão, Draco ficou sozinho, por isso está desmaiado agora. Mas não se incomodem. Só façam silêncio.

Ron se aproximou do sofá, afastando delicadamente o cabelo muito preto da testa da menina que dormia de bruços sobre o peito de Draco.

- Normal nessa idade, ela ainda nem completou um ano, não é?

- É... E Draco não gosta de ficar dando muita poção para ela, só o suficiente para passar a dor. E não é algo tão frequente assim, mas às vezes pega a gente de surpresa. – Harry sorriu – Mas vocês disseram que têm uma surpresa...

Ron sorriu e voltou a sentar ao lado da esposa, abraçando-a.

- Eu estou grávida, Harry.

- Uou, que legal!

- E nós queremos que vocês sejam os padrinhos.

- Ora, essa é nova, fuinha! – a voz sonolenta de Draco soou divertida e todos o fitaram.

- Ah, você acordou.

- Não faz muito tempo. – Draco se esticou, dando um selinho em Harry – Você pretendia me acordar?

- Talvez. – Harry respondeu, se ajeitando melhor no sofá e encarando o namorado sorridente.

- Ei, vocês não deram a resposta! - Ron reivindicou, interrompendo o momento dos dois.

- Ron! – Hermione brigou com o marido.

Os outros dois sorriram.

- É claro que aceitamos. – disse Harry.

- Bem, acho melhor a gente ir... Eu tenho umas coisas para ver antes de voltar para o Ministério. – constatou Hermione, notando a forma como Draco ainda parecia sonolento.

- A gente só passou mesmo para dar a notícia. – completou Ron.

Os dois se levantaram e Harry os acompanhou até a porta, voltando para o sofá em seguida. Natalie tinha acordado.

Draco se sentou.

- Preciso ir.

- Não... - Harry ronronou, manhoso, e voltou à posição puxando Draco de volta contra o seu peito, envolvendo-o com os braços.

- Harry, eu preciso trabalhar! – Draco reclamou, em tom de riso.

- Eu acho que nós dois estamos precisando de férias, isso sim. – Harry sussurrou no seu ouvido, sorrindo ao completar maliciosamente em um tom mais baixo – E eu preciso de você.

Draco se virou e o beijou longamente.

Duas mãozinhas pousaram na face de Harry. Ele abriu os olhos, interrompendo o beijo, e se deparou com um par de olhinhos azuis curiosos. Natalie estava de joelhos, quase sobre o pescoço de Draco.

- E de você também, linda! – ele disse, beijando aquelas mãozinhas.

Finalmente, sua família.

Os opostos se distraem

Os dispostos se atraem

FIM

Música utilizada no capítulo: "Realejo", Teatro Mágico

NA: Oi! Aos que chegaram firmes e fortes até aqui, espero que tenham gostado. =)

Eu adorei escrever essa fic. Foi a primeira em que eu me preocupei realmente com o desenvolvimento da história, as relações e coligações da trama. Tenho todo um carinho por ela. ^^

Se vocês quiserem deixar comentários, eu vou ficar muito feliz, e respondo a todos assim que possível. Obrigada.

Sobre esse último capítulo, o 10. Bem, foi violento, eu sei, mas acho que não tinha como não ser... Tentei não imaginar como vai ser a luta final de verdade (a da JK) entre o Harry e o Voldemort, procurei criar a minha... Acho que ficou bom... Sei lá.

Sobre o capítulo 11, o epílogo, bem... Originalmente ele não existia. Era pra fic ficar com 10 capítulos, sendo que o último terminaria com a cena do Harry acordando e o "anjo" o reencontrando.

Eu tinha imaginado essa cena do Harry com o Draco e a filhinha, recebendo a notícia da gravidez da Mione, como a primeira cena de uma continuação. A idéia original era fazer essa segunda fic girar em torno das dificuldades dos dois de construir uma família depois de tudo o que passaram. As encanações do Draco para "aprender a ser pai", somadas a algumas intervenções de comensais remanescentes daria o tom.

Mas eu queria uma mpreg. Então eu fiz uma pesquisa no fórum do 3v e vi que o tema tinha muita rejeição. Como "Dispostos" estava sendo bem aceita como tava, eu achei melhor guardar a ideia pra uma outra fic futura, desvinculada dessa, e deixei livre para cada um imaginar de onde veio a Natalie segundo as suas próprias preferências.

Espero que a oscilação de consciência do Harry (aquele lance do preto/branco) tenha ficado clara, assim como as lembranças do dia que ele acordou aqui no epílogo.

Bem, "Os dispostos se atraem" termina aqui.

Beijos pra todos! :*

NA póstuma (aka da revisão da fic em 2011):

Os Dispostos se Atraem foi minha primeira fic longa. Eu já havia escrito Noites Claras, que tem vários capítulos, mas ela não tem nem o planejamento nem o desenvolvimento que Os Dispostos tem. Eu tenho muito orgulho dessa fic, gosto muito dela, e foi interessante fazer essa revisão.

O texto em si mudou muito, creio eu. A Twin costuma dizer que quando eu comecei a escrever, eu colocava o "Harry do gueto" nas minhas fics. Há muitos palavrões e muita linguagem coloquial que eu tentei amenizar um pouco, dando outro trato para o texto, mas havia certos traços que se tornaram fundamentais para a trama, isso não desapareceu completamente.

Duas coisas que eu não tinha consciência e agora, anos depois, me chamou a atenção na fic foram a dinâmica entre o Harry e o Draco, porque nenhum dos dois parece mais submisso ou mais fraco que o outro, apesar de eles se pegarem loucamente das mais diversas formas. Há um equilíbrio de papéis na relação que eu acho que nunca mais consegui desenvolver com essa força e achei interessante como isso foi algo inconsciênte para mim.

O outro ponto foi o Snape. Eu sempre gostei do personagem, e foi meio perturbador ver ele sem o afeto que a Lily dá para ele no último livro na relação de fidelidade que ele tem com o Harry. Apesar de ser algo forte para mim dentro da fic, quando eu li agora, com a luz do sétimo livro, eu senti falta dessa passionalidade do Snape que não se importa de morrer pelo Harry por conta do amor da Lily, ao mesmo tempo que é interessante ver ele sendo fiel sem isso, uma fidelidade dura e desconfiada ainda, mas que tem força também.

Mas acho que, afinal, a parte mais difícil da revisão foram as NCs. Tem muitas e elas são súbitas e violentas, e isso faz parte da dinâmica do relacionamento dos dois, que é algo raso e forte. Eles se preocupam um com o outro, mas o sexo é zona de conflito e subordinação, não de carinho, que é algo que surge mais no fim da fic.

A linguagem "de gueto" volta com força nas NCs também, porque há muita coisa desnecessariamente explícita que eu certamente não tinha o trato linguístico para descrever de forma sutil quando fiz a fic original. Eu tentei amenizar isso ao mesmo tempo sem descaracterizar a relação dos dois construída através disso. O sexo é a base do relacionamento deles durante um período muito longo do texto, e é a partir dele que surge o sentimento e a relação em si. Foi difícil fazer isso e ainda não estou satisfeita, mas foi o que eu consegui por hora.

Enfim, espero que, com essa revisão, a fic seja relida com outros olhos, não só por mim.

Beijos.