Seus olhos encheram-se de lágrimas, ainda mais quando ele veio em sua direção. Ela não pensou muito, desceu apressada pelas escadas localizadas na lateral do palco. Desde aquele dia, jamais estivera tão perto dele. Queria tanto sentir seus braços novamente, sua respiração, seu beijo... Queria apenas estar com ele.

Ele caminhava frio, estático. Observava-a vir ao seu encontro, feliz, e sua expressão não mudava. Não daria a ela o gosto de sentir o quão triste e amargurado ele estava. Juan Pablo chegou logo depois, ofegante.

- Caramba, Shura, como você consegue correr assim?

Se ele soubesse pelo que Shura passou, jamais teria perguntado tal coisa, mas ele sequer ouviu. Estava hipnotizado e tudo à sua volta congelou. Guilhermina desceu do palco logo depois de avistar o namorado aparecer na porta. A treinadora perdeu a paciência e resolveu dar um intervalo até que todo mundo se acertasse.

- Shura, que bom que você... – disse indo abraçá-lo.

- Não encoste em mim. – respondeu seco segurando-a pelos pulsos.

- Mas o que...? – perguntou confusa.

- Eu vim te dar os parabéns. – respondeu em uma frieza tão grande que lembrava o amigo Kamus de Aquário.

- Parabéns? – perguntou surpresa. – Parabéns por que?

- Pelo seu noivado com meu maior rival.

- Como você sabe que eu vou me casar com Javier?

Guilhermina olhou sem graça para a irmã e logo depois retribuiu com um olhar de fúria para Juan, que certamente tinha lhe contado sobre o noivo, mesmo depois de ela ter pedido para não o fazê-lo. O rapaz deu os ombros, pedindo desculpas, com um sorriso amarela que, se ela não estivesse tão brava com ele, teria rido.

- Não me importa. – cortou o assunto. – Eu quero que você seja muito feliz.

- Não vai ter como ser feliz... – rebateu chorosa.

- Cada um escolhe seu destino, Gisty. – disse soltando suas mãos.

- Eu não escolhi o meu! – bradou revolta. – Quantas vezes eu preciso dizer isso até que você entenda?

- Não me venha com essa! – retribuiu alterado. – Eu precisei morrer pra ver pelo que valia a pena viver e aprendi com isso!

- Shura, você tá me machucando.

- E não desejo isso pra ninguém!

- Eu sei, Shura, mas…

- Não, você não sabe! – bradou.

- Você quem pensa! Seu ego sempre foi maior que sua capacidade de visão, Shura de Capricórnio!

Ele fitou-a, assustado. Como ela sabia quem ele era? Pensou bem, e desde o primeiro encontro ela parecia saber muitas coisas sobre ele, quando ele mal sabia dela. Ele não tinha a menor idéia de que ela estivera no mesmo lugar que ele, que defendeu Athena como ele... A única diferença foi que ela voltou para casa mais cedo, desistiu de viver na Ilha Fantasma, longe de tudo e de todos... E justamente por saber tão pouco dela, ele desmoronou por dentro. Quando pensou em perguntar-lhe o que mais ela sabia, foram interrompidos por uma voz muito arrogante que Shura conhecia bem.

- Ora, ora, vejo que o novo morador de Toledo conheceu a minha noiva.

- Novo? – deu um sorrisinho irônico. – É cada uma que tenho que ouvir...

Guilhermina e Juan Pablo se entreolharam. Shura Salomón e Javier Velásquez nunca foram grandes amigos, pelo contrário, sempre foram grandes rivais. O mais velho dos Velásquez nunca digeriu muito bem o fato de Salomón ser melhor na arte da tourada que ele, sendo dois anos mais velho que o capricorninao. E com isso passou a persegui-lo. Shura, sempre pavio curto, respondia às suas provocações, mas na arena. Quando recebeu a carta do Santuário, sentiu-se aliviado, pois deixaria Toledo e os Velásquez para trás e se dedicaria a algo muito importante. E assim o fez.

No more masquerade

You're one lonely star

(One lonely star you don't who you are)

- Posso saber o que faz com Gisty? – perguntou ríspido.

- Dar os parabéns pelo casamento. – respondeu virando-se para ele.

- Não precisamos de seus votos, Salomón. Seremos felizes sem eles.

Javier abraçou Gisty, que não gostou, porém não recusou. O rapaz sorriu triunfante, vendo que Shura estava abalado por sua noiva estar com ele. Guilhermina torceu o nariz, achava o rapaz insuportável e não fazia bem ao amigo do namorado.

- E o que veio fazer aqui? – perguntou a noiva descontente.

- Te fazer uma visita. – sorriu. – E te trazer um presente.

Entregou-lhe uma caixa de jóias na cor vermelha de veludo, assim que tirou do bolso da calça. Fez um sinal para que ela abrisse e então avistou um lindo colar de pérolas negras, que combinavam perfeitamente com ela. A irmã se aproximou para verificar o presente e ficou admirada com o resultado.

- Obrigada, é muito lindo.

- Gostaria que o usasse amanhã. – pediu polido.

- Certamente. – respondeu com um sorriso.

- Foi feita exclusivamente para a minha família e só existe um modelo. – gabou-se. – É algo que nenhuma outra família teria acesso.

- Existem coisas que valem mais do que pérolas. – zombou Guilhermina.

- Pérolas significam glamour, poder e dinheiro. – respondeu contrariado Javier. – O que pode ser mais valoroso que isso?

- Um simples quartzo-rosa.

Javier simplesmente não entendeu a colocação da garota. Gisty imediatamente entendeu o que a irmã quis dizer, sabia o significado daquela pedra, que poderia parecer tão simples, mas era tão profunda... A pedra que representava o amor. E esse valor nenhuma outra pedra teria.

A treinadora das garotas chamou-as de volta ao palco. Guilhermina se despediu de Juan e foi a primeira a subir. Gisty se despediu dos rapazes e deu uma última olhadela para Shura, que permanecia frio e mal retribuiu. Juan sabia que o que estava por vir não seria nada agradável e irritou-se por um instante. O capricorniano nada mais disse, apenas saiu do palco daquela grande trama, com intuito de voltar à arena, quando foi interceptado do lado de fora.

- Qual seu problema, Javier? – perguntou ainda de costas.

- Não quero você rondando a Gisty.

- Medo de perdê-la pra mim?

- Não seja idiota. – riu maléfico. – Um acordo entre famílias jamais seria quebrado. Nem que isso significasse guerra com uma outra.

- Acordo? – perguntou sorrindo voltando-se para ele. – Então esse casamento é um acordo?

Javier riu escandalosamente, tirando sarro do rapaz mais novo.

Então Gisty estava certa, falou a verdade? Odiou-se por um tempo, perdeu-se por mais alguns instantes.

- O que você pensou? Que eu amava Gisty?

- Geralmente é assim que as pessoas se casam. – respondeu pasmo.

- Não seja ingênuo, Salomón. – riu da inocência dele. – Gisty é bonita, atraente, qualquer homem em sã consciência se interessaria por ela.

- Mas não é qualquer homem que se apaixonaria por ela.

Juan chegou logo depois, interrompendo a possível resposta de Velásquez, chamando Shura para irem para casa. Não seria nada bom para o amigo se ele se envolvesse em um briga com o noivo do tão clamado casamento, mesmo que ainda não soubessem que ele era o prometido.

E então deixaram a Academia. Shura foi lhe contando no caminho de volta o que ouvira de Javier e que Gisty estava certa. Aquilo o irritava por um lado e lhe doía por outro. Realmente, tinha visto, mas não tinha enxergado.

- Você gosta dela, Shura. – riu Juan bobo. – Não sei o que essas Herrera têm, mas deixaram nós dois, garanhões inveterados, bobos.

- Bobo... – divagou. – Essa seria a palavra perfeita.

All the world is a stage

And everyone has their part

- Sabe como é, né, amigo? – disse ao garçom no bar.

- Claro, sei. – respondeu sem dar muita importância.

- Quanto maior a altura, maior o tombo! – respondeu batendo o copo na mesa. – Vê mais uma dessa pra mim, amigo!

Há quantas horas estaria ali? Duas? Três? Quatro? Nem ele nem o garçom saberiam dizer. Ele apenas bebia contando histórias e o garçom apenas lhe servia, se divertindo com elas, mesmo sabendo que seu cliente já tinha exagerado nas doses.

- Um amigo meu, o Deba, um cara brasileiro que conheci lá na Grécia...

- Brasileiro? – interrompeu-o.

- É, muito gente boa. – respondeu rindo. – Então, ele ficava cantando uma porcaria de uma música que todo mundo odiava.

- Música brasileira? – indagou limpando um copo.

- Isso! – riu o capricorniano. – Lembro até hoje quando o Aioria quebrou o CD dele... Mas então, é um cantor muito brega!

- Cantor brasileiro, certo?

- É, e a música tem tudo a ver com essa situação.

- Ah é? – perguntou curioso. – E como seria essa música?

- Eu decorei de tanto que ouvi aquela porcaria! – pigarreou, se preparando para cantar. – "Garçom, aqui nessa mesa de bar! Você já cansou de escutaar! Centenas de casos de amooor".

- Isso é bem verdade. – confirmou o empregado.

- Mas a parte que mais combina é: "Saiba que meu grande amoooooor hoje vai se casaaaaaaar! Mandou uma carta pra me convidaaaaaaar!".

- É mesmo? – surpreendeu-se. – Ela vai se casar?

- É, mas não hoje. – respondeu dando mais um gole. – Hoje é o noivado só.

- Poxa, que pena. – lamentou-se.

- Sabe o que é pior? Ele não gosta dela.

- Não?

- Não. Ele é só um filho da puta que gosta de competir comigo! – e então passou da raiva para o riso. – E é um idiota, porque ele sempre perde.

- Hum...

- E ele só acha ela bonita! Olha quanta mulher bonita temos em Toledo, na Espanha, no mundo... Mas não! Ele quer a minha!

- Esse mundo não é fácil...

- E como, amigo! E como!

Virou o resto da dose de uma única vez, como tantas outras anteriores. O garçom suspirou, estavam sozinhos no bar. Nenhum dos dois sabiam que horas eram, mas provavelmente já eram altas horas da madrugada e todos estariam em boates ou em casa. Foram surpreendidos pela porta que se abriu e revelou um rosto conhecido ao jovem cliente, que se alegrou (ainda mais!) em vê-lo.

- Juan, meu amigo!

- Shura? – surpreendeu-se. – Eu te procurei pela cidade inteira!

- E eu tava o tempo todo aqui! – riu, tentando se levantar. – Amigo, serve uma pra ele também!

- Não, nada mais de bebida! – afastou o copo.

- Qual é, Juan! – riu bobo. – Hoje é sexta-feira, dia de beber. Então vamos beber!

- E quem te leva pra casa depois?

- A vida! A vida nos leva pra onde ela quiser!

Ele começou a rir, provando que ele realmente tinha bebido além do aceitável. Quis se levantar, mas se desequilibrou e foi amparado pelo ombro do amigo, que o segurou antes que ele caísse. E ele continuava rindo.

- Quantas doses ele bebeu? – perguntou ao garçom.

- Não sei precisar... – respondeu confuso. – Talvez três garrafas.

- Três garrafas de vodka pura? – surpreendeu-se. – Jesus, ele deve ter conhecido algum russo na Grécia!

- Não, russo não! – interveio participando da conversa. – O Kamus é francês, mas passou muitos anos na Sibéria. – começou a rir novamente. – Nada melhor que um vizinho que te dá vodka! Que saudades daquele francês!

- Pelo visto ele conheceu gente do mundo inteiro na Grécia. – comentou o empregado. – Até cantar música brasileira ele cantou!

- O Juan é meu melhor amigo! – abraçou o amigo. – O Giancarlo não pode saber, senão ele mata todos nós! – riu. – Aquele italiano casca-dura! Joga poker como nenhum outro!

- Tudo bem, tudo bem – respondeu Juan levemente impaciente. – Vamos embora antes que eu fique com ciúmes!

- Juan, você mora aqui, ó! – e bateu no peito. – Eu te amo, viu?

- Ta, eu também.

- Eu to falando sério. – olhou-o nos olhos. – Eu senti sua falta esse tempo todo que fiquei fora, você é um irmão pra mim.

- Eu também. – sorriu.

Juan perguntou quanto era a conta e pagou-a, com o garçom se divertindo com tudo aquilo, recomendando para que voltassem no outro dia e a primeira dose seria por conta da casa, o que o sóbrio agradeceu, porém recusou.

Chegaram ao carro e Juan abriu primeiro a porta do passageiro para que Shura entrasse e assim ele o fez. E então entrou em seguida.

- Shura, o que deu em você? – perguntou chocado.

- E ai, como foi o noivado?

- Foi legal, a música tava boa, a Gui dançou e... – sacudiu a cabeça. – Não muda de assunto! O que deu em você pra beber assim?

- É assim que se faz na Sibéria. – riu falando o nome do lugar em russo.

- Onde? – perguntou dando partida no carro.

- Sibéria! – riu. – Na Rússia, sabe?

- Sei, sei.

O carro partiu em alta velocidade, cortando as ruas desertas da cidade de Toledo com um único objetivo: a casa dos Salomón. O capricorniano reconheceu o caminho e no mesmo instante se recusou a prosseguir.

- Você ta me levando pra casa, não ta?

- Claro que to! – disse fazendo uma curva para a direita. – Queria que te levasse pra onde? Pro nosso ninho de amor?

- Eu não quero ir pra casa. – respondeu sério.

- Não? – perguntou surpreendido. – Seus pais ainda estão no noivado, não vai ter grilo.

- Não me importo com meus pais. – respondeu cabisbaixo. – Só não quero ir pra casa...

- E pra onde você quer ir? – perguntou rindo. – Se você falar nosso ninho de amor, eu...

- Pra colina.

- Então vambora!

Demoraram cerca de vinte minutos até chegarem ao local, mas valeu a pena por cada quilômetro percorrido; a vista era divina! Para Shura não existia lugar mais lindo em Toledo, nem mesmo a arena de tourada num dia de espetáculo. Amava estar ali, naquela paz que parecia invadir a sua alma... Estava tranqüilo.

Os dois rapazes saíram prontamente do carro, contemplando a noite e a cidade iluminada mais abaixo. Estava linda! Sentaram-se no capô do carro vermelho de Juan e apenas observaram tudo em silêncio. Mas aquela quietude incomodava um dos dois.

- Shura, por que você fez aquilo?

- Aquilo o que?

- Beber dessa forma. Nunca foi assim.

Ele demorou um tempo para responder. Sua cabeça ainda girava levemente e ele se sentia meio tonto. Deitou-se sob o capô, observando o céu estrelado, como se pudesse encontrar uma resposta para uma pergunta que ele nem sabia qual era. Cruzou os braços atrás da cabeça, formando um apoio.

- Hein? – insistiu o amigo.

- Queria esquecer.

- Esquecer? – surpreendeu-se.

- No Santuário a gente bebia pra celebrar ou relaxar, mas alguns queriam simplesmente esquecer. – respondeu sério. – Esquecer a vida, as obrigações, alguém...

- E hoje você queria esquecer...

- Esquecer de sentimentos. Esquecer de mim.

Uma lágrima rolou pelo rosto do capricorniano, sem que pudesse ser visto por seu fiel escudeiro. Uma lágrima que ele mesmo não queria ter derrubado.

- Você gosta muito dela, né?

- Não queria, mas gosto. E o pior é saber que ela tá se entregando pra um cara que a acha apenas uma garota interessante.

- Não deve ser fácil…

- E não é. Se fosse assim, que se casasse comigo.

- Casar? – olhou- sério. – Você aceitaria isso?

- Sem a menor dúvida… - divagou. – Mas eu... A perdi pra sempre.

Juan ficou sem nenhum tipo de reação quando observou o amigo chorar, de forma compulsiva. Shura se sentou, tentando esconder seu rosto, lavado de sentimentos, do amigo, envergonhado. Pediu desculpas por fazê-lo, e o amigo respondeu que não havia problema algum, que amigos eram para isso e então o abraçou. Deixou que ele desabafasse em seus ombros por um tempo, o que o capricorniano agradeceu mentalmente. Eram mesmo irmãos, e ambos se orgulhavam de tal coisa. O outro não soube se aquelas lágrimas eram frutos da ressaca ou de seu coração, ou os dois. Mas fez seu papel.

How was I to know

Which way the story goes

Depois daquela noite, Shura tinha finalmente caído em si. Desistiu de se lamentar pela garota, a qual considerou um caso perdido. Nada dependia somente dele e enquanto ela não estivesse disposta a mudar nada, ele nada faria também. E então canalizou suas forças novamente na tourada, ou deixaria mais uma vez Toledo e voltaria para o solo grego.

Soube depois, através de Juan, que o casamento foi marcado para dali três meses. Achou tudo meteórico demais, rápido demais... Quando tinha que ser, era para ser, acreditou nisso. E ele então voltou a ser o número um da tourada na cidade.

Gisty treinava cada dia com mais afinco. O flamenco era sua única forma de esquecer o inferno no qual vivia. Não agüentava mais as visitas do noivo, seu ego exacerbado, seus presentes caros... Cada dia mais sentia que era um troféu conquistado por ele, a ser exibido por ser belo e por ter destruído seu rival. E ela só queria um quartzo-rosa...

Shura ainda buscava em sua memória retratos de Gisty, de onde a conhecia e como ela o conhecia... Ela, por outro lado, se perdia pensando naquele belo Cavaleiro que encantava as amazonas e enfeitava a Décima Casa, com aquele ar soberbo e aquele sorriso lindo... Tudo bem, ela o conhecia de antes, mas ele não se lembraria... E nenhuma relação entre cavaleiros e amazonas era bem vistas, ainda mais partindo de um dourado... E entre devaneios e suspiros ela perdia horas. Ou melhor, um perdia horas pensando no outro, que estava tão longe e tão perto...

E então a cidade inteira só falava das duas coisas: do casamento e do toureiro. Javier um dia tentou desafiar o imbatível Shura e novamente foi fadado à derrota, de forma humilhante. Salomón estava ainda mais implacável e sem limites.

Na casa dos Herrera, o clima entre as duas irmãs não estava nada bom. Guilhermina não aceitava a situação que a irmã se pôs, porque ela estava infeliz, o melhor amigo do namorado também e porque o noivo não demonstrava de nenhuma forma que gostava sequer um pouco dela. Sabia que a única que podia dar um basta em tudo isso era a noiva, mas ela não parecia muito disposta a fazê-lo...

E assim os três meses se passaram rapidamente.

But how was I to know you'd break

You'd break, you'd break, you'd break

You'd break my heart

Dezenove de agosto. O dia do casamento.

Tudo estava pronto. A igreja, o salão, os convidados, os familiares, o noivo...

- Pensa bem, Gisty, é sua última chance.

- Gui, estou cansada já disso...

- Escolha errado agora e seja infeliz pra sempre!

As duas irmãs conversavam dentro do carro, na porta da igreja. A mais nova se recusou a ser uma das madrinhas junto com seu agora noivo Juan e assim que ela saiu do carro, se encontrou com o rapaz e se sentaram num banco mais ao centro da igreja.

A noiva saiu do carro quando ouviu a música tocar. O pai a esperava do lado de fora, orgulhoso pelo casamento da filha mais velha. Ela sorria, mas não estava feliz. Sentia-se como se estivesse prestes a ir pro abate.

- Você está tão linda, minha filha...

Ela sorriu, agradecida. Realmente, o vestido, vindo da França, era de muito bom gosto. Simples, porém muito bonito. Um tomara-que-caia branco com alguns cristais Swarovski na cor azul-claro, combinando com seus olhos, e na mão um buquê de orquídeas.

Subiram as escadarias da Igreja Matriz de Toledo e a porta então se abriu, mostrando uma igreja que já era tipicamente bonita ainda mais deslumbrante. Orquídeas e lírios decoravam todo o local, e os padrinhos, três casais de cada lado, sorriam felizes, assim como os pais dos noivos. Assim que a irmã passou por ela, Guilhermina apertou o braço do noivo, como se estivesse com raiva daquilo tudo e então perguntou por Shura. Observou os pais dele do outro lado, felizes. Se eles soubessem que o filho estava infeliz por causa de tudo isso...

A cerimônia então prosseguiu de forma emocionante e tranqüila. Até que chegou a hora dos votos.

- Javier Velásquez, você aceita Gisty Herrera como sua legítima esposa? – perguntou o padre.

- Aceito. – sorriu o rapaz para a noiva.

- Gisty Herrera, você aceita Javier Velásquez como seu legítimo esposo?

Ela nada respondeu. Sua cabeça estava longe, bem longe dali. Ela não pôde ver, mas naquele mesmo instante Shura chegou à igreja e ficou recostado bem ao fundo, rente à parede. Javier afagou sua mão e a instigou com o olhar.

- Gisty?

- Oi, desculpa. – respondeu meneando a cabeça.

- Você aceita se casar com Javier Velásquez?

- Claro. – sorriu.

O coração da irmã doeu e o de Shura também. Agora realmente não tinha mais volta. Guilhermina ainda pensou em retrucar na próxima fala do padre, mas foi previamente advertida por Juan, que a avisou que ela deveria tomar as suas decisões.

- Se tem alguém aqui que saiba de algo que possa impedir esse casamento, fale agora ou cale-se para sempre.

Gisty olhou para todos os presentes na igreja, esperando desesperadamente que alguém falasse algo contra. Avistou mais um fundo da igreja um rosto conhecido, que fez seu coração saltar. Ele tinha ido! Shura foi ao casamento! Ela não conseguiria prosseguir...

- Eu tenho, padre.

A intervenção assustou e surpreendeu a todos na igreja, ainda mais tendo sido feita pela própria noiva em questão. Ela olhou para fundo da igreja, ainda imóvel, criando coragem para mudar a sua vida. Guilhermina e Juan segurando-a com o olhar e então avistaram a mesma pessoa que ela vira momentos antes.

- Desculpa, Javier, não posso me casar com você.

- Como não? – perguntou surpreso.

- Gisty, o que aconteceu com você? – perguntou o pai.

Ela meneou a cabeça, mas estava disposta a prosseguir.

- Eu não te amo, Javier e ficar com você, só nos traria infelicidade. Não é certo me casar com você sendo que amo outra pessoa.

As mãos dos dois, que estavam unidas se soltaram e ela então desceu do altar no qual se encontravam. Ela tinha um único objetivo, que estava ao fundo da igreja. Os olhos dos convidados a seguiram e ela foi à direção ao seu amado, cruzando por toda a igreja, e para surpresa do rapaz.

- Shura, me perdoa. – respondeu com as mãos trêmulas e lágrimas nos olhos.

- Gisty, você ficou maluca? – perguntou descrente.

- Desculpa por ter te feito sofrer tanto.

- Gisty, eu...

- Eu te amo, Shura.

O espanto foi geral quando ela o abraçou e lhe deu um longo e apaixonado beijo. Jamais nenhum dos presentes pensou em viver tal momento, nem em seus mais profundos devaneios. Shura retribuiu, amava-a também! E como esperou por ouvir aquilo...

- Eu também. Também te amo, Gisty.

- Isso é absurdo! – interveio Javier. – Veio destruir meu casamento!

- Não existe casamento, Javier. – disse a garota abraçando o rapaz. – Eu não vou me casar com você.

Novamente rostos surpresos e espanto geral.

- Como não? Estava tudo feito num acordo! Você concordou!

- Eu não concordei com nada! – rebateu ofendida. – Nossos pais fizeram esse acordo sem nunca me consultar.

A confusão estava formada. Alguns apoiavam, outros recriminavam, mas ela não estava disposta a ceder. Os pais dos noivos chegaram logo em seguida ao burburinho.

- O que ta acontecendo? – perguntou o pai da noiva.

- Não vou me casar, papai. Não com Javier.

- Pedro, o que acontece com a sua filha? – perguntou o pai do noivo. – Virou uma rebelde?

- Não! – ofendeu-se. – Se me casar, quero que seja por amor e eu amo Shura, não seu filho.

- Filha, você tem certeza do que diz? – perguntou confuso.

- Tenho, papai. Demorei muito pra dizer isso.

O patriarca do Herrera parecia bem confuso com tudo aquilo, ainda mais ouvindo reclamações por parte do patriarca dos Velásquez. Javier estava prestes a arrumar briga com Shura, ali mesmo dentro da igreja, mas foi contido pelo seu primo, que lhe disse que brigar não adiantaria nada – mesmo que fosse com o Salomón.

- Então não vamos perder a viagem! – adiantou-se o pai de Shura no meio da confusão. – Vamos, meu filho, diga algo.

Shura respirou fundo, ainda confuso com o rumo que tudo aquilo estava tomando, e se ajoelhou, pegando a mão da moça, que sorriu de felicidade desta vez. Olhou-a nos olhos e sob o olhar de centenas de convidados, apenas disse:

- Gisty, você quer se casar comigo?

- Sim, eu quero!

Aplaudiram emocionados o casal se abraçar e se beijar ali à frente de todos. Guilhermina e Juan Pablo chegaram logo depois, incentivando os dois em tal ato de insanidade, o que pareceu enraivecer ainda mais o jovem Velásquez.

- Então vamos, o padre está ali, estamos em uma igreja! – interveio Juan puxando Shura.

- Mas não estou com roupa de casamento! – rebateu o capricorniano confuso.

Ele trajava uma calça social preta e uma camisa azul, sem gravata ou nada mais, com alguns botões abertos. Ficou surpreso quando viu que o próprio pai tirou seu paletó preto e sua gravata, vestindo o filho, enquanto a irmã da noiva ajeitava-lhe a maquiagem. Juan e Guilhermina, claro, foram os padrinhos, além de alguns outros amigos do casal que estavam na platéia e que ficaram felizes vendo a frustração do antigo noivo.

- Isso não terminou, Shura. – ameaçou.

- Já sim. – sorriu feliz. – Admita, ao menos uma vez, que você perdeu.

- Não, eu não perdi! – respondeu amparado pelo primo. – Vai ter voltar! Ah se vai!

- Bom, não preciso nem dizer que as relações entre os Velásquez e os Herrera e Salomón foram cortadas, certo, Pedro e José?

- Não, não precisa. – respondeu sorrindo o pai de Shura.

- Ver nossos filhos sorrindo dessa forma, tão felizes, vale muito mais do que qualquer relação entre famílias.

E a cerimônia recomeçou assim que os Velásquez foram embora, enraivecidos com toda a situação. Sorte a festa ser na casa da noiva, tradição européia. Shura esperava orgulhoso pela noiva, que entrou feliz. A irmã, sorriu emocionada. O padre recomeçou, fazendo um discurso ainda mais belo, um discurso que envolvia sentimentos e amor. Novamente fez os votos e agora ninguém interrompeu a cerimônia. Não haviam alianças, mas isso não seria um grande problema. O amor era grande e superaria qualquer coisa. Os dois riram como dois adolescentes de tudo que acontecia ali, incrédulos.

- Pode beijar a noiva.

E os dois trocaram um longo beijo apaixonado e emocionado. Depois disso, olharam para os presentes, e não acreditaram no que viviam. Shura olhou para Juan e Guilhermina, fazendo mímica para o amigo, indicando que ele seria o próximo.

- E então eles viveram felizes para sempre. – riu Guilhermina sussurrando para o noivo.

- É agora que os problemas começam, isso sim! – riu o rapaz.

- E posso saber por quê? – perguntou curiosa.

- Porque não é fácil segurar uma Herrera.

Ela riu, envergonhada, batendo no braço dele. Guilhermina tinha entendido bem a colocação do noivo, e se divertiu com aquilo. Era verdade mesmo, mas tanto ele como Shura não eram rapazes normais.E talvez esse fosse o segredo do sucesso.

E a partir dali uma nova vida começava para todos.


N/A

E então, gente, o que acharam?

Se vocês não se lembrarem, Gisty é aquela da Ilha Fantasma, que o Seiya derrota. Ela vive acompanhada dos cavaleiros de Medusa, Golfinho e Água-viva, se não me engano. É uma personagem que gosto muito D

A Guilhermina foi feita pra Deia, e o Juan surgiu sem querer. Mas me cativou muito!

Espero que tenham gostado.

Afinal, quem nunca viu fanarts do Shura de toureiro e não o imaginou no clipe da Madonna? O Pervas Clan já D

Aliás, fic pra vocês, meninas!

Beijos a todos que leem e comentam