Capítulo II – Reencontro de Irmãos

– Roberto, traz mais um jarro de hidromel! – gritou um homem de aparência sombria.

– Helfud, não achas que já bebeste demais? – replicou o estalajadeiro, sorrindo.

Não obstante, pousou um enorme jarro sobre a mesa. No minuto seguinte, foi de encontro a um velho mendigo, que acabara de entrar.

– Só podes entrar aqui se puderes pagar. – disse-lhe, com um sorrisinho de escárnio.

O mendigo reprimiu uma tossidela e mostrou uma moeda de ouro.

– Vejo que te correu bem o dia. – declarou, com uma voz diferente, Roberto. – Podes sentar-te ali. Eu trago-te uma caneca de hidromel.

Eragon sorriu, por baixo do seu capuz. Sentou-se perto do homem denominado Helfud, ouvindo atentamente e tentando não dar nas vistas.

– Já sabes das últimas? – inquiriu o estalajadeiro a Helfud, após pousar a bebida de Eragon na sua mesa e receber o dinheiro deste. – Galbatorix está, novamente, a recrutar jovens. Contudo, penso que, desta vez, não são para o exército. É para algo diferente.

– Não me admira nada. – respondeu um homem muito gordo. – Depois da derrota do Império nas Planícies Flamejantes, ele já se apercebeu que não vai conseguir ganhar aos Varden e ao Destruidor de Espectros tão facilmente. – acrescentou, num sussurro.

Dois guardas observavam o estalajadeiro e os dois homens a murmurar, com um esgar de desconfiança. Tentaram ouvir a conversa, de modo a descobrirem o seu tema.

Nesse momento, Eragon entrou no diálogo, fingindo uma voz rouca:

– Haveis falado no Destruidor de Espectros? Afinal, não é só uma lenda?

– Uma lenda? Por onde tens andado, pobre diabo? Não ouviste as notícias da sua vitória sobre Galbatorix?

A um sinal negativo do suposto mendigo, o homem gordo prosseguiu:

– Surgiu um novo Cavaleiro do Dragão, que se aliou aos Varden contra o Império. Venceram-nos duas vezes e penso que Galbatorix começa a ficar receoso. Mas ele afirma que tem uma arma secreta…

Murtagh. Eragon cerrou os dentes firmemente. Forçou-se a continuar a ouvir, sem se desmascarar.

– Pois é. Alguns dizem que ele criou um monstro que conseguirá derrotar Eragon, o Cavaleiro do Dragão. Outros pensam que ele está a reunir um exército ainda mais poderoso. No entanto, apenas sabemos que ele anda a recrutar jovens.

Nesse instante, um dos guardas que tentara, em vão, ouvir a conversa aproximou-se do grupo e agarrou Eragon pelos ombros.

– Mendigo, não sabes que Galbatorix proibiu que os vermes entrassem nos estabelecimentos públicos?

Ao ouvir tal obscenidade, o jovem espetou um murro no guarda. Ao fazê-lo, o capuz escorregou-lhe da cabeça, desmascarando-o.

– É Eragon, o Destruidor de Espectros! – constatou o guarda que fora agredido, enquanto que o outro se apressava a pedir reforços.

Imediatamente, Eragon largou a sua velha capa e desferiu outro golpe sobre o soldado. Aproveitando a sua fraqueza, retirou-lhe a espada. Tentou abandonar o recinto, mas viu-se impedido, já que uma dúzia de guardas acabara de entrar.

Ignorando as ordens de rendição, iniciou um duelo com dois dos guardas. Conseguiu desarmar um e ferir o outro, mas eram demasiados para ele. Ainda para mais, continuavam a chegar soldados.

Subitamente, ouviu-se um ruído produzido por um par de espadas, ao fundo do café. Estava alguém a lutar lá, contra as tropas do Império. Eragon não conseguiu descortinar quem era.

Lentamente, os soldados do rei iam caindo, mas parecia que se levantavam sempre. O jovem Cavaleiro e o seu ajudante desconhecido iam-se aproximando, enquanto que lutavam. O desconhecido combatia bastante bem e tinha bons reflexos, apesar dos seus gestos serem um pouco graciosos demais.

De repente, Eragon e o estranho chocaram de costas e permaneceram assim. Depois de desarmar um soldado que corria de encontro ao jovem, o estranho sussurrou:

– Quando eu disser, corres em direcção à porta das traseiras.

Segundos depois, os dois fugitivos corriam para a saída do estabelecimento, onde encontraram um cavalo. A um assobio do estranho, o animal trotou para eles e ambos montaram.

– Agarra-te bem! – advertiu o desconhecido, que incentivou o cavalo a iniciar uma corrida.

Só nesse momento é que Eragon se apercebeu que a voz do desconhecido era uma voz de mulher! Com uma mão, agarrou-se à sua cintura, para se manter equilibrado. Com a outra, baixou o capuz da sua salvadora e descobriu a sua cara.

A cavaleira esporeou o seu cavalo e, quando já estavam a uma distância considerável dos seus perseguidores, virou-se para trás durante uns segundos.

– Olá, Eragon. Estás bem?

E sorriu. Era um sorriso que o rapaz conhecia de qualquer lado… Só existia uma pessoa que sorria assim, em toda a Alagaësia.

– Maraya?

– Kvetha Fricai (). – respondeu ela, na língua antiga.

() Saudações, Amigo.