Capítulo 4 – Segredos Confessados
Não quero!
NÃO QUERO MORRER EM SILÊNCIO!
Isso é tão injusto!
TÃO, TÃO, TÃO INJUSTO!
"Eu preciso falar alguma coisa! Não quero morrer em silêncio!", me desesperei.
"Quando eu era mais nova, uma vez, eu comi um girino vivo, achando que era gelatina...", disse, surpreendendo tanto a mim, quanto ao homem, que ovltava sua atenção para mim, lentamente.
"...e, quando a Luna terminou seu namoro de três anos com a Neville, eu passei a noite com ele! Quero dizer... Não foi bem culpa minha, ele estava realmente fofo chateado!", argumentei, sentindo as bochechas vermelhas.
"... Não posso morrer! Nem descobri meu ponto G ainda! Pra ser sincera, nem sei se tenho um!", disse ela, então o loiro ergueu as sobrancelhas.
"Perdão?"
Então, um pingo de sanidade voltou à minha cabeça.
"OK, eu... sinto muito", digo, com o peito subindo e descendo rapidamente.
"Er... Tá tudo bem... eu acho", disse o loiro, com os olhos arregalados.
XxXxX
Os cinco minutos seguintes foram calmos e sem grandes problemas, até que uma nova turbulência chegou.
Foi como que, com o movimento, o filtro que eu tenho para escolher o que é dito e o que é segredo se rompeu e eu me pus a falar.
"E ela é minha prima, mas..."
"...uma vez eu tive um sonho estranho com a Luna, mas..."
"...eu sempre pego as roupas da Cher, eu sei que isso é errado, mas ela é tão egoísta..."
"...eu acho que meu namorado é gay..."
"...ele me deu uma calcinha fio-dental muito pequena, mas eu não posso dizer para ele isso, porque aí ele vai começara achar que eu sou gorda, então, as vezes, eu uso ela, porque ela é muito lindo... na verdade, to usando ela agora..."
"...e quando eu vou sair para um grande compromisso, eu sempre dou um pulinho, antes de atravessar a porta, não sei, acho que dá sorte..."
"...e o noivo dela só pega no meu pé..."
"...do MÉXICO! Dá para acreditar nisso...!"
Eu juro que eu tentava de todas as maneiras possíveis e imagináveis obrigar-me à parar, mas eu simplesmente não conseguia! Parecia que aquelas balançadas haviam dado um "pane" no meu filtro e eu simplesmente não conseguia parar de falar.
Eu tentava lançar ao desconhecido um olhar do tipo "me ignore, olhe para a janela e finja que eu não estou aqui!", mas ele obviamente não o fez.
Não sei se porque achava que seria muito rude de sua parte – embora eu estivesse claramente implorando que ele o fizesse - ou se ele realmente estava interessado – não é sempre que uma mulher de 26 anos sai por aí falando sobre as suas coisas mais intimas –, o fato é que ele simplesmente não entendeu – ou ignorou completamente -o que meus olhos tentavam arduamente lhe falar.
Depois de ter contado tantos segredos da minha vida pessoal que eu nem me lembro de todos, comecei a falar da minha vida profissional:
"Eu trabalho no Profeta Diário..."
"... e eu acabei de estragara minha única chance de promoção..."
"... e eu fiquei um tempinho, não desempregada, mas, de fato, ahn 'instável profissionalmente'..."
"... e a Rubi – aquela minha prima, sabe? – tem uma firma de produção de varinhas e eu pedi para ela me dar estágio na área de Marketing, você sabe, de graça, e ela não fez, na verdade, ela me respondeu com uma carta normal de 'não admissão', como se eu fosse..."
"...e ela é uma vaca, a Cho, ela age como..."
"...na verdade, odeio o chá que tem lá, para mim, é como se fosse veneno, e..."
"...e ninguém nunca me dá uma chance de mostrar meu potencial, quero dizer, o que houve hoje foi um acidente, eu não sou assim o tempo todo..."
"...e eu sempre quebro a impressora, mas não é culpa minha..."
"...e – essa é boa – eu fiquei bêbada e sentei na copiadora e - dá para acreditar? – tirei um xerox da minha..."
"...e eu quebrei a 'caneca-de-cerveija-amanteigada-da-sorte' do meu chefe, e escondi na minha bolsa..."
"... e tem aquela garota, a Cho, que quando ela me irrita eu molho a planta ultra-rara dela com chá, de propósito, quando ninguém está olhando..."
"...e sabe de uma coisa, eu acho que ela me odeia, porque eu e o Har...", então, para meu total alívio, uma aeromoça aproximou-se.
"Senhorita?", ela me chamou e eu interrompi aquela frase no meio, voltando-me para ela.
"Sim?", pergunto, com uma pontada de alívio, mas, na minha cabeça, o complemento 'o meu túmulo já está pronto?' estava formado e prestes a sair, quando ela adicionou, com um sorriso.
"Aterrissamos"
"O quê?", perguntei, numa mistura de surpresa e terror.
"Na verdade", adicionou o homem ao meu lado "Nós somos os únicos que ainda estamos aqui", parecia um tanto aborrecido.
"Então, nós... não morremos?"
"Não", disseram a aeromoça e o loiro, em uníssono.
"E... não tem nenhuma chance de você...", eu digo, me virando para o loiro, mas me interrompo.
A frase original seria "Então, não tem nenhuma chance de você morrer, né?", porque, de certa forma, eu desejava ardentemente que ele morresse, porque ele sabia de todos os meus segredos!
Aiin... que injusto!
"Chance de...?", instigou ele, erguendo a sobrancelha, de maneira que me fez lembra alguém... mas quem?
"Ahn... não, de nada", digo, dando um suspiro, aliás, ele é só um desconhecido estranho que vai contar a história da louca desvairada que sai por aí contando os seus segredos mais íntimos.
Mas, quer saber?
Eu não me importo.
Sabe por quê?
Por dois motivos:
1 – eu nunca mais vou vê-lo
2 – eu nunca mais vou vê-lo
Na verdade, eu tinha um dois em mente, mas eu esqueci, então, serve a pena reforçar que ele é um total desconhecido e blábláblá...
Continua...
N/A: Uau!
Curti muito escrever esse capítulo!
Só lembrando que, quem estiver gostando e quiser dar uma lida em outrafic que está bem engraçada,
