Capítulo III – O Retorno da Desgraça
Eragon sorriu e observou:
– Não sabia que conhecias a língua antiga!
A jovem voltou-se na sela, novamente, para encarar o rapaz. Retribuiu-lhe o sorriso e respondeu, com uma voz suave:
– Há muita coisa que não sabes de mi, Destruidor de Espectros.
Voltou-se para a frente e continuou a incentivar o animal a avançar, cada vez mais depressa. Não falou durante uns minutos, concentrando-se na sua tarefa.
Por seu lado, Eragon tivera de se agarrar com ambas as mãos à cintura de Maraya, para evitar cair do cavalo. Também se manteve calado, pensando no que acontecera naquele dia. Só falou quando avistou a gruta onde estava Saphira:
– Vamos para aquela gruta, ali no cimo.
– Eu sei. – retorquiu a rapariga, de forma enigmática. – Estamos quase a chegar. Uma vez lá, preciso de falar contigo com urgência.
O Cavaleiro do Dragão suspirou. Já não bastava Saphira a dar-me conselhos e Arya a tratar-me como se fosse um miúdo. Nesse momento, sentiu uma pontada no peito. Pensar em Arya era-lhe extremamente doloroso.
Minutos depois, pararam o cavalo em frente à gruta e entraram. Saphira tinha acendido uma fogueira, portanto, pela primeira vez, o jovem conseguiu observar a amiga de infância, facto que não passou despercebido ao dragão.
– Então, tu és a Saphira! – declarou Maraya, num tom jovial. – Há muito tempo que te queria conhecer.
Sem demonstrar medo, aproximou-se do animal e olhou-o nos olhos. Seguidamente, fez uma curta vénia e cumprimentou-a na língua antiga.
– Saphira elda e Eragon finiarel, há muitos meses que tenho viajado por Alagaësia, à vossa procura. Contudo, há cerca de uma semana consegui alcançar-vos e hoje fui forçada a mostrar-se.
É simpática e persistente. Sabe alguma coisa sobre dragões e mostra o seu respeito por eles da maneira certa. Gosto dela. Saphira abanou a cauda afectuosamente.
Ainda bem. Se não fosse por ela, hoje não estaria aqui. Eragon baixou a cabeça, ligeiramente envergonhado pelo elogio.
– Senta-te, Maraya. Deves estar cansada. – ofereceu o jovem, que se apressou a preparar uma refeição para eles.
– Tens razão. Obrigada. – agradeceu a rapariga, sentando-se de encontro à parede. Fechou os olhos por um momento, abrindo-os de seguida. Quando Eragon estava de costas, levantou ligeiramente as saias e examinou uma ferida recente. Tinha um aspecto esverdeado, além do sangue seco que a cobria.
Eragon, ela está ferida. Saphira moveu-se até junto da rapariga e observou o ferimento.
O rapaz deixou o que estava a fazer e juntou-se às outras duas. Imediatamente, Maraya baixou as vestes e corou imperceptivelmente.
– Não é nada. – replicou, disfarçando um esgar de dor.
– Eu conheço-te, Maraya. Se tivesses com todos os ossos partidos, dirias a mesma coisa.
Com muito cuidado, voltou a destapar-lhe o golpe e observou-o, adoptando um esgar de preocupação. Concentrou-se durante uns momentos e, a seguir, afirmou:
– Isto não tem bom aspecto. Está infectada, mesmo muito infectada. Eu diria que foste atingida por um Urgal e que não tratas-te do ferimento. Não tens nada partido, mas é um golpe profundo. Tiveste sorte em não ter sido em nenhum ligamento.
Ergueu uma mão e pousou-a sobre a perna dela. Reuniu energias e pronunciou o feitiço de cura. Instantaneamente, a pele da jovem voltou à sua cor inicial e a ferida cicatrizou, sem deixar qualquer marca.
– Obrigada. Não era preciso… – disse Maraya, com um fio de voz.
– Não tens de agradecer. Na verdade, eu é que te tenho de agradecer. Se não fosses tu, a esta hora estaria nalguma cela.
Eragon relatou os acontecimentos e tudo o que descobrira, ao mesmo tempo que comiam. A jovem ia acrescentando alguns pormenores à história, completando-a.
– Só não percebi para que é que Galbatorix está a recrutar jovens de novo. Estou certo de que não é para reconstruir o seu exército.
– Quando vos tentava alcançar, passei pela capital, Urû'baen e falei com um jovem que tinha sido recrutado pelo Império. Ele contou-me que Galbatorix mandava um rapaz de cada vez para uma sala escura, ordenando-lhe que se sentasse a um canto e esperasse. Contudo, nunca acontecia nada e essas crianças eram mandadas para o exército. – relatou Maraya. – Achei o procedimento muito estranho e decidi infiltrar-me num grupo de rapazes. Consegui passar por um e entrei na tal sala. E foi então que descobri o que se passava.
Levantou-se e afagou o dorso de Saphira. Finalmente, revelou:
– Galbatorix está a tentar que o ovo que lhe resta choque. Então, controlaria mais um Cavaleiro do Dragão, além de Murtagh.
O dragão rosnou e Eragon arregalou os seus olhos de surpresa. Perguntou-lhe como sabia da existência de Murtagh, ao que ela respondeu:
– Tive um encontro, longe de ser romântico, com ele. Eu tentei trazer o ovo, mas ele apanhou-me e recuperou-o. Contudo, não vim de mãos a abanar e trouxe isto.
Retirou uma espada da capa e estendeu-a a Eragon. Este, surpreso, agarrou-a pelo cabo e acariciou-a. Era Za'roc.
– Penso que te pertence, amigo. – concluiu ela.
O rapaz continuou a fitar a espada que lhe tinha sido roubada e, lentamente, guardou-a no seu cinto. Então, num movimento impulsivo, abraçou a rapariga.
