Capítulo IV – As Crónicas de Maraya
Até à meia-noite, Maraya falou sem cessar, contando a sua história. Iniciou-a em Carvahall, onde nascera e conhecera Eragon.
– Lembras-te, Eragon? Tu, eu e Roran brincávamos juntos e, às vezes, Katrina também o fazia.
Eragon anuiu, perdido em recordações.
– A certa altura, tornámo-nos adolescentes e afastámo-nos ligeiramente, como sempre acontece. Roran começou a olhar Katrina com outros olhos… – acrescentou, rindo como se fosse uma menina travessa. – Eu queria aprender mais, não queria ser uma camponesa como os meus pais. Portanto, quis estudar, mas isso era impossível na nossa terra. Então, fui ter com Brom e pedi-lhe que me ensinasse a ler, escrever e contar. No início, ele rejeitou a ideia e eu tive de insistir muito. Mas, finalmente, ele assentiu e ensinou-me. No fim das lições, contava-me histórias de Dragões e dos seus Cavaleiros. Eu adorava ouvi-lo e, dentro de mim, crescia uma curiosidade enorme.
Fez uma pausa e olhou para Eragon, perscrutando algo. Não encontrou o que procurava e, satisfeita, continuou o seu monólogo:
– A certa altura, descobri a verdadeira faceta de Brom, como Cavaleiro. A partir daí, as minhas lições tornaram-se mais sérias e eu aprendi tudo o que os Cavaleiros devem aprender, apesar de não o ser.
– Já percebi porque é que sabias falar a língua antiga e combater tão bem! – exclamou o rapaz, admirado.
Esta rapariga tem bastantes qualidades e parece ser de confiança. Pode ser uma boa ajuda. Se Brom lhe ensinou tudo o que ele sabia, ela pode auxiliar-nos.
Tens razão, mais uma vez, retorquiu Eragon, ainda contemplando a rapariga. Sim, acho que é mesmo uma boa ideia. As qualificações dela são preciosas para nós.
Chama-lhe qualificações…, gozou Saphira. Eu chamar-lhe-ia outra coisa, mas fiquemo-nos por "atributos". Podias ser menos óbvio, pequeno. Ainda não despregaste os olhos dela!
De que estás a falar?
Sim, faz-te de desentendido.
Maraya apercebera-se de que os seus ouvintes estavam a conversar e calou-se, esperando pacientemente. Quando eles se deram conta do facto, pediram-lhe que continuasse e ouviram-na com redobrado interesse.
– E foi assim que, ontem vos descobri, naquela gruta. Penso que Saphira me viu, porque tu vieste ver se estava alguém à entrada. – concluiu ela, cansada.
Saphira sorriu e apagou a fogueira, dando a entender que eram horas de dormir. Enroscou-se a um canto e fez-lhes sinal para se aproximarem.
– Estas noites são frias. Eu tenho ali um cobertor, mas não mais do que isso. Se nos mantivermos bem juntos, ficaremos quentes. – afirmou a jovem, com um tom neutro.
Só nesse momento é que se apercebeu que a sua capa estava completamente desfeita, sendo inútil. Retirou-a e atirou-a para um canto, enquanto que pegava num cobertor de pêlo. Voltou para junto de Eragon e juntos sentaram-se perto do dragão. Estenderam o cobertor sobre eles e deitaram-se, o mais longe possível um do outro, mas de modo a manterem-se cobertos.
Ficaram assim durante algum tempo, acordados e em silêncio. No entanto, assim que ouviram os roncos de Saphira, Eragon virou-se para Maraya e murmurou:
– Lembras-te das noites que passávamos na Espinha, a olhar para o céu?
A jovem também se virou para ele. Não respondeu, apenas sorriu.
– Agora, já não temos o direito de o fazer. Eu sou um Cavaleiro do Dragão e não posso ignorar o meu dever. Roran e Katrina estão juntos, longe daqui. E tu já não és a criança que eu conheci. Crescemos, todos. Deixámos de poder praticar as nossas brincadeiras infantis. Antes, nadávamos nus no lago. Agora, quase nem nos conseguimos olhar de frente.
Maraya fechou os olhos e, quando os voltou a abrir, Eragon viu que um par de lágrimas escorria pela sua cara. Carinhosamente, aproximou-se da rapariga e limpou-lhe as lágrimas. Pousou um suave beijo nos seus cabelos e esperou.
– Há tampo tempo que ninguém me fazia isso! – confidenciou a jovem, com uma voz melancólica. – Quando éramos pequenos e estávamos na Espinha, eu era a mais nova do grupo e, assim que a noite descia, começava a chorar de medo. E tu conseguias que eu parasse de chorar. Fazias-me sentir segura.
Nesse instante, o rapaz notou que Maraya tremia. Ao abandonar a sua capa (que de nada servia), a jovem ficara apenas de vestido. Vestido esse que era composto por uma saia comprida e com rachas, para facilitar os movimentos, e por uma espécie de corpete, sem alças. Assim, no frio da noite, estava desprotegida.
Sem pensar no que estava a fazer, Eragon puxou-a para si e passou uma mão por baixo da sua cintura e outra por cima, envolvendo-a. Tentava aquecê-la com o calor do seu corpo.
A princípio, sentiu que a jovem estava nervosa e encolhida, mas, progressivamente, foi-se descontraindo. Já não tremia e a sua respiração estava mais regularizada. Contudo, parecia estar a chorar, novamente.
Eragon largou-a e ergueu-se, enquanto que a virava para si, estando esta de costas no chão. Olharam-se longamente, nos olhos. O rapaz tentava descortinar o que se passava, porém não o conseguiu fazer. Atreveu-se a perguntar, sem esperança que ela lhe respondesse. Esta, contudo, fê-lo:
– Por favor, Eragon. Não me deixes sozinha. Eu tenho medo…
Abandonando toda a sua anterior aparência adulta e corajosa, também se levantou e enterrou o seu rosto no peito do amigo, chorando desalmadamente. Segundos depois, os braços do rapaz envolveram-na, consolando-a.
Nessa noite, chorou tudo o que precisava: anos de desprezo por parte dos adultos, que não a consideravam digna de aprender, apenas por ser uma mulher; os perigos vividos durante a viagem; os horrores vistos e sofridos.
Finalmente, acalmou-se e separou-se dele. Olhou-o nos olhos e sorriu. Já não era a jovem assustada de há minutos. Voltara a ser a mulher corajosa e sábia em que se tornara.
Eragon observou-a e aproximou-se mais dela. Murmurou-lhe, com uma voz doce, de cuja existência desconhecia:
– Cresceste, pequenina.
E precipitou-se para ela, lentamente. Ela fechou os olhos, preparando-se para o momento em que os seus lábios se uniriam. Ele aproximou-se ainda mais e também cerrou os olhos, esperando o contacto daqueles lábios que o atraíam tanto.
