Capítulo V – Porquê?
– Não! Por favor, Eragon, não me faças isto… – disse a jovem, com uma voz fraca.
Eragon abriu os olhos, desconcertado. Tinham estado tão perto de se beijarem! O que é que teria corrido mal?
– Maraya, o que se passa? Não percebo. Porquê?
A rapariga, já de olhos abertos, não chorava. Isso seria impossível, depois de ter derramado tantas lágrimas. Contudo, os seus lábios tremiam, não de frio.
– Eu não quero que me uses para a esqueceres!
O Cavaleiro sentiu-se como se tivesse caído do seu dragão. Como é que Maraya sabia da sua relação com Arya?
– Mas… Não, não estás a perceber. – tentou explicar-se.
– Não há nada para perceber! – declarou, numa voz de comando sussurrada. – Eu sei que ela te deu uma tampa, mas isso não te dá o direito de te aproveitares de mim dessa maneira! Já me fizeste sofrer demasiado tempo!
E, furiosa, levantou-se, pronta para abandonar a caverna. Eragon ficou parado uns segundos, desorientado, no entanto, decidiu agir. Precipitou-se atrás dela e alcançou-a, já fora da gruta. Agarrou-lhe a mão, suavemente, fazendo-a estacar, de costas para ele.
– O que queres dizer com isso?
Ainda voltada de costas, a jovem suspirou e perguntou:
– Porquê?
O Cavaleiro do Dragão não percebeu a que se referia a rapariga. Virou-a para si e forçou-a a olhá-lo nos olhos.
– Porquê, Eragon? Porque é que me queres fazer sofrer de novo? Odeias-me assim tanto? – disse, numa voz demasiado calma.
– Eu não te odeio, Maraya e tu sabe-lo. Muito pelo contrário. – acrescentou, num fio de voz e de cabeça baixa. – O que queres dizer quando falaste no teu sofrimento?
A jovem retirou uma madeixa de cabelo da frente dos olhos, antes de responder. Depois, mordendo o lábio inferior, assumiu:
– Tu nunca te apercebeste, pois não? Roran percebeu, Katrina percebeu; só tu é que não! – exclamou. – E, agora, continuas sem perceber. Podes ser muito bom a lutar ou com a magia, mas em termos sociais és um desastre!
Não era um insulto e Eragon soube-o.
– Nunca pensaste que eu pudesse gostar de ti?
Eragon recuou um passo, surpreendido. Como pudera ser tão estúpido ao ponto de não ter descoberto a verdade? Agora, tudo se tornava claro: a persistência da jovem em encontrá-lo, a sua estranha atitude na gruta… Tudo fazia sentido.
– Eu não sabia… perdoa-me, Maraya, eu não me apercebi. Eu não passava de um jovem tolo, que só pensava em brincar.
Com um gesto, ela silenciou-o.
– Não tens de pedir desculpa por algo que não fizeste. – respondeu, amargamente. – E, agora, é tarde demais. O teu coração pertence a uma elfo e não a mim.
Virou-se para a lua, triste mas serena. Ficou a observá-la durante muito tempo. Ou, pelo menos, assim pareceu ao rapaz, que a fitava dolorosamente.
Por fim, a rapariga cansou-se de olhar para a lua e voltou a falar, perguntando "Porquê?".
Desta vez, Eragon percebeu a questão da amiga.
– Não foi para me esquecer de Arya. Eu sei que pode parecer que estou a mentir, mas não estou. Vel eïnradhin iet ai Shurt'gal. (Pela minha palavra de cavaleiro, na língua antiga).
Surpreendida, a jovem percebeu que o outro estava a dizer a verdade. Não se pode mentir na língua antiga e Maraya sabia disso.
– Então, porquê?
Eragon coçou a cabeça, constrangido. Não gostava de falar daqueles assuntos, não se sentia à vontade com eles.
– Porque eu… hum, bem… como hei-de de dizer-te? Oh, esquece, só há uma palavra para exprimir o que sinto por ti. Amor…
E, puxando-a para si, beijou-a docemente. Segundos mais tarde, ela retribuiu o beijo.
Momentos mais tarde, separaram-se, finalmente. A jovem continuou de olhos fechados, tentando acreditar em Eragon. Parecia estar com dúvidas, a que o jovem, depois de reflectir e confirmar a veracidade do que sentia, pôs fim:
– Amo-te. Vel eïnradhin iet ai Shurt'gal.
