Capítulo VI – Verdade e Planos
Os dois voltaram a beijar-se, desta feita, mais intensamente. As mãos de Maraya desalinhavam o cabelo de Eragon; as mãos dele entretinham-se em agarrá-la, para nunca mais a largar. Permaneceram assim longos instantes, sem se aperceberem do que os rodeava. No entanto, muito relutantemente, tiveram de se separar, assim que ouviram Saphira rosnar, ainda no interior da caverna.
Assim que a dragão assomou à entrada da gruta, foi encontrar os dois jovens de costas um para o outro, olhando para direcções diferentes. Estavam muito afastados, como se estivessem zangados. Contudo, Eragon sorria para a lua e Maraya tinha uma expressão que era tudo menos infeliz.
Interrompi alguma coisa? Saphira olhou para as costas do rapaz.
Não, claro que não! Estávamos apenas a conversar! O Cavaleiro tinha perfeita consciência do quanto soara a falso o que dissera, mas insistiu: Não interrompeste nada.
Hum, nada mesmo? Porque será que me parece que estás a mentir? Pequenino, posso ser um Dragão, mas sei ver o que me aparece à frente! Cabelos desalinhados, respirações ofegantes, olhares distantes, um sorriso a bailar-vos nos lábio… Além disso, sou mulher. Sei ler nas estrelinhas…
Oh, não me chateies!
Tudo bem. Mas quero que saibas que fico feliz por já não estares obcecado pela Arya. Penso que Maraya está mais ao teu alcance. E gosta de ti.
– Um Cavaleiro do Dragão pode ter tudo, menos segredos e privacidade! – disparou o rapaz, me voz alta. – Ela já descobriu…
Maraya corou, à luz do luar. Não obstante, aproximou-se de Saphira e falou-lhe na língua antiga, dizendo-lhe que o que sentia por Eragon era verdadeiro. Saphira replicou e o seu Cavaleiro repetiu as suas palavras para a jovem, um pouco reticente:
– Não te preocupes, pequena. Muito antes de isto acontecer já eu sabia. Mal ele te pôs a vista em cima ficou logo apanhadinho. Bem-vinda ao clube, miúda.
A jovem sorriu e, sem aviso prévio, abraçou o pescoço de Saphira. Esta, surpreendida, permaneceu quieta e, quando o abraço terminou, bafejou a jovem docemente.
– E para mim não há abraços? – reclamou, alegremente, o jovem.
Maraya riu-se e correu para junto do seu namorado.
Na noite seguinte, estavam todos sentados na caverna. Não se tinham arriscado a sair de lá durante o dia. As tropas de Galbatorix ainda estavam à procura deles e não podiam arriscar. Portanto, Eragon e Maraya passaram a maior parte do dia a dormir, uma vez que não o tinham feito de noite.
Só acordaram ao anoitecer, altura em que Saphira regressava à gruta, trazendo o jantar. Juntaram-se à volta da fogueira e cozinharam os coelhos caçados, enquanto que conversavam alegremente.
– E agora? O que pensam fazer? – perguntou a rapariga.
– Em relação a quê? – volveu Eragon.
– Estou a falar do nosso destino. Certamente, não vamos ficar aqui para sempre. Só ficámos aqui um dia e eu já estou saturada!
– Não gostas de estar aqui comigo? – replicou o rapaz, provocadoramente.
Maraya ignorou-o e continuou:
– Que pensas fazer a seguir?
– Recuperar o ovo que Galbatorix tem em seu poder. E, se Murtagh me aparecer à frente, quero derrotá-lo. – respondeu, já sem sorrir.
– Deixa Murtagh para mim. Tenho contas a ajustar com ele. – afirmou a rapariga. – Ele vai pagar bem caro.
– Tens alguma ideia? – inquiriu Saphira, através de Eragon.
– Muitas, mas só uma é boa. Mas vamos jantar; tratamos disso amanhã. Não vamos estragar esta maravilhosa refeição a falarmos desses dois patifes!
Entregaram-se, então, à comida, silenciosamente. Cada um estava entretido com os seus pensamentos. Por fim, decidiram deitar-se, não sem antes combinarem tratar daquele assunto na manhã seguinte.
Saphira deitou-se no seu canto e adormeceu, imediatamente a seguir. Pelo contrário, os dois jovens tiveram bastante dificuldade em adormecer, visto terem dormido tanto naquele dia. Decidiram ir, novamente, para junto da fogueira, de modo a não acordarem a dragão.
Maraya aproximou-se de Eragon e beijou-o na face e sentou-se a seu lado. O jovem, por sua vez, inclinou-se para ela e sussurrou-lhe, perto do ouvido:
– Que me fizeste? Só consigo pensar em ti… Que feitiço me lançaste?
Sem esperar resposta, beijou-a. Lentamente, puxou-a para o seu colo e percorreu o seu frágil corpo com as mãos. A jovem insistia em despenteá-lo, mas nenhum deles se importava.
Quando se separaram, observaram que a fogueira estava completamente apagada. Tinham-se beijado durante poucos minutos, mas fora o suficiente. Não obstante, nenhum deles tinha frio.
Com um súbito impulso, Maraya agarrou a mão de Eragon, a que tinha a cicatriz. Beijou-a e colocou-a no seu peito, acima do decote. Nesse momento, uma estranha luz azulada encheu a caverna.
