Capítulo VII – Surpresa

Nesse momento, uma estranha luz azulada encheu a caverna.

Eragon deixou de ver, durante os escassos segundos em que aquela luz invadiu a gruta. Sentiu que a rapariga se afastava dele. Tentou agarrá-la, sem sucesso. Contra a sua vontade, permaneceu quieto.

A luz tinha desaparecido, mas a visão do Cavaleiro ainda estava muito turva. Lentamente, foi recomeçando a ver e, dez minutos depois, conseguiu levantar-se.

Saphira!

Sim, pequeno…

Onde está Maraya?

Está aqui, junto da minha cauda. Não sei como veio até aqui; está inconsciente.

Oh não…

Eragon correu para o seu Dragão e ajoelhou-se junto do corpo que estava estendido no chão. Agarrou-lhe o pulso e, com um suspiro de alívio, constatou que ela estava viva.

O que se passou?

Não sei bem, mas vamos já descobrir.

Maraya soltara um gemido audível e começara a mexer-se. Piscou os olhos insistentemente. Olhou para o jovem que estava à sua frente, ostentando um olhar preocupado. Dirigiu-se-lhe:

– Quem és tu?

A rapariga conseguiu sentir a mágoa do outro. Este tentou dizer algo, mas tremia demasiado. Por fim, conseguiu balbuciar:

– Não… nãos sa-sabes quem sou? Nã-nã-não te lembras de… de mim?

A jovem continuava a observá-lo com uma expressão de incompreensão total. Permaneceram calados, fitando-se olhos nos olhos, até que Maraya desatou a rir às gargalhadas.

– O que se passa? De que estás a rir? – Eragon não percebia a piada do momento.

– Estou-me a rir da tua cara, tonto! Devias ter te visto! Estavas tão engraçado! Parecias um fantasma…

– Não percebo…

– Eu sei quem tu és! Não estou amnésica! Estou de perfeita saúde física e mental (acho), exceptuando umas tonturas ocasionais. Estava a brincar contigo!

O Cavaleiro levantou-se repentinamente e, após sussurrar algo parecido com "que brincadeira de mão gosto", virou costas e saiu disparado do abrigo.

Ups. Acho que ficou zangado, pensou Maraya. Foi só uma brincadeira! Que mal tem?

Não te preocupes, criança. Ele é um pouco sensível; só isso.

Naquele momento, dragão e mulher partilharam um rosnido-grito. A jovem afastou-se de Saphira, ao mesmo tempo que esta última pensava:

Maraya, ouves-me? Consegues ouvir-me?

É estranho, mas sim. E parece que também tu me consegues ouvir.

– O que se passa aqui? – gritou uma voz de homem, vinda da entrada da gruta. – Porque gritaram?

Eragon, mal ouvira os gritos, correra de volta para a caverna. Esquecera a sua irritação, que dera lugar a uma preocupação extrema.

Eragon, passa-se aqui algo muito estranho. Eu, eu consigo falar com Maraya e ela pode fazer o mesmo!

Isso é impossível! Eragon olhava para as duas criaturas, perplexo. Esperava que Saphira lhe respondesse, mas foi a rapariga que o fez, telepaticamente.

Nada é impossível, por mais esquisito que pareça.

Maraya, foste tu que falaste?

Não falei, pensei.

Se Eragon já estava confuso, agora ainda estava mais. Como pode isso ser?

Não me perguntes, volveu a jovem. Nunca ouvi falar disto. Sei apenas que eu não sou uma Cavaleira do Dragão.

O rapaz olhou para a rapariga e lembrou-se da partida que esta lhe pregara. Voltou a ficar mal-humorado. A mulher, quando se apercebeu deste facto, apressou-se a pensar:

Eu não fiz por mal e tu sabes disso. Eu queria ver o quão era importante para ti. Não vais ficar zangado, pois não?

Aproximou-se do namorado e acariciou-lhe o cabelo, levemente, como se tivesse medo de o magoar mais.

Oh, está bem. Mesmo que quisesse, não conseguiria ficar zangado contigo…

Puxou-a para si e beijou-a. Assim que se separaram, percorreu o corpo dela com o olhar e, com surpresa, encontrou uma cicatriz recente, que nunca vira.

– O que é isso? – perguntou, apontando para o local da marca.

– Não sei. Não estava aqui antes de… da luz! – retorquiu ela. – É estranho… é parecida com a tua cicatriz!

Saphira aproximou-se e reprimiu um uivo. Pedaços de informação estavam a invadir a sua mente a uma velocidade espantosa. Fechou os olhos e, apenas quando aquele vendaval de imagens e palavras parou, permitiu-se a anunciar:

A cicatriz de Maraya é uma cópia simétrica da tua. São exactamente iguais; só a orientação é que muda. Estamos perante um fenómeno antigo, que só aconteceu uma vez.

Como é que isto aconteceu?, foi a pergunta que os dois humanos fizeram em uníssono.

Ao beijares a mão de Eragon, aquela que tem a marca dos Cavaleiros, desencadeaste uma reacção mágica, que culminou com uma multiplicação reduzida das capacidades de Eragon.

O que é que isso quer dizer?

A magia e a habilidade de Eragon aumentaram um pouco. Essa porção foi transferida para ti, Maraya. É por isso que consegues falar comigo e com Eragon, usando apenas a mente. Também por isso vais conseguir penetrar nas mentes mais fracas e utilizar magia. No entanto, não possuis a força dele. Então, o teu poder também é menor.

E que acontecimento é este?

Saphira recuou ligeiramente e disse, antes de se prostrar no chão, numa humilde vénia:

Ajoelha-te, Eragon, perante a Dama do Dragão.