Capítulo IX

Operação de Devolução – Fase 1

Uma sombra cruzou a entrada da gruta, tapando a luz da lua, momentaneamente.

Maraya acabara de regressar ao abrigo. Imediatamente, foi abraçada por um Eragon extremamente aflito, deixando-a ofegante.

– Onde estiveste? O que estavas a fazer? Meteste-te nalgum sarilho?

Nesse momento, o seu olhar pousou sobre a jovem. Tinha um aspecto miserável: a sua pele estava coberta de arranhões, alguns bem profundos; o seu vestido estava rasgado às tiras, podendo-se entrever parte da túnica interior da rapariga; o cabelo estava completamente desgrenhado e sujo.

– O que…?

– Espera. Deixa-me respirar! Estou cansada…

Encostou-se a uma parede e deixou-se escorregar, até estar sentada no chão. Fechou os olhos e permaneceu calada, durante minutos a fio.

Entretanto, o jovem observava-a, preocupado. Contava, com apreensão, as vezes que o peito dela subia e descia. Alarmou-se quando a viu suster a respiração e só não voltou a abraçá-la, porque Saphira advertiu-o no sentido de não o fazer.

Tens de lhe dar tempo e espaço. Certamente, ela contar-te-á tudo o que se passou, assim que estiver preparada.

Espero que sim. Não aguento muito mais sem saber o que se passa!

Finalmente, a jovem recompôs-se. Abrindo os olhos lentamente, iniciou o seu discurso:

– Estamos prontos para pôr em prática o nosso plano.

Eragon ficou a olhar para ela, confuso. Decidiu não interromper, não obstante a sua curiosidade e preocupação.

– Tentei roubar o ovo. Estava quase a conseguir, quando apareceu aquele insuportável do Murtagh. Felizmente, não me viu bem e não me reconheceu. Apesar de ter sido uma tentativa falhada, consegui perceber algo fundamental para nós. – fez um pausa. – Roubei uma planta do edifício e, melhor ainda: descobri a fraqueza de Murtagh!

Nesse momento, sorriu. Bastou para desanuviar das dúvidas do Cavaleiro, quanto ao seu estado de saúde.

Sem se conter mais, este perguntou:

– E qual é?

– Hum, algo que, apesar de surpreendente, já deveríamos esperar, sendo ele um homem, ainda para mais, alvo de certos mimos de Galbatorix. – anunciou, de forma enigmática, a rapariga. – Mulheres, Eragon. O teu irmãozinho tem um grande fraquinho por rabos de saia.

– Queres, então, dizer que Murtagh faz tudo por uma mulher? – inquiriu, um tanto ingenuamente, Eragon.

– Afirmativo. Sei de fonte segura que, todas as semanas, uma criada é instigada a ir fazer uma "visita" ao patrão júnior.

O rapaz virou-lhe costas, pensativo. Então, Murtagh sempre tinha uma fraqueza. Ainda para mais, era algo tão mundano… Como poderia utilizar essa debilidade do irmão contra ele?

Mais uma vez, as suas perguntas foram respondidas pela namorada, que afirmou já ter um plano.

– Amanhã, ao pôr-do-sol, tu e eu vamos a Gil'ead. Enquanto que eu distraio o Murtagh, tu vais buscar o ovo. É simples e limpo.

– Espera um momento: Murtagh e o ovo estão aqui, na cidade?

– Esqueci-me de te contar… Vieram recrutar mais jovens, ao que parece. No entanto, penso que também andam à tua procura. Felizmente, Galbatorix não veio, o que facilita a nossa vida. – acrescentou, sem sorrir.

Nesse preciso instante, o Cavaleiro apercebeu-se de que faltava explicar algo. Sem rodeios, perguntou à namorada:

– O que queres dizer com "eu distraio o Murtagh"?

Ela corou e baixou os olhos até ao chão. Esta demora em responder confirmou as suspeitas de Eragon. Descontente e receoso, volveu:

– Tu não estás a pensar em…?

– É a única forma! Eu sei que não gostas da ideia; eu própria também não! Mas é a nossa única hipótese, a menos que conheces outros pontos fracos dele. – replicou, enervada, a jovem.

– Não. – admitiu o outro. – É mesmo preciso?

Como resposta, obteve um aceno por parte de Maraya, que ainda estava nervosa. Aproximando-se dela, Eragon rodeou-lhe os ombros, numa atitude protectora.

Não fiques zangada comigo. Tu sabes que eu não quero que te aconteça nada de mal.

Eu sei, Eragon. Contudo, também sei que temos de recuperar aquele ovo, custe o que custar. Estás comigo?

Claro. Só não me peças para não ficar aborrecido por pensar que aquele monstro te vai tocar!

Não te preocupes. Eu não vou deixar que ele… tu sabes o que quero dizer.

Tem cuidado…

Tu também.

Os dois beijaram-se apaixonadamente, sob o olhar atento de Saphira.

Quando faltavam duas horas para o pôr-do-sol do dia seguinte, Dama e Cavaleiro estavam prontos para agir. No último instante em que estariam juntos, antes de entrarem em acção, abraçaram-se ternamente.

– Quem me dera não te poder largar mais. – desejou o rapaz, num fio de voz. – Só de pensar que, dentro de pouco tempo, as manápulas de Murtagh vão percorrer o teu corpo…!

– Não te preocupes. Vai correr tudo bem. – sossegou-o ela, apesar de não ter a certeza do que afirmava.

Beijaram-se uma última vez e partiram, após despedirem-se de Saphira.

Assim que saíram da gruta, Eragon inquiriu, de sobrolho franzido:

– Que querias dizer com aquilo dos homens?

A jovem mordeu o lábio, evitando rir.

– Não me referia a ti; está descansado.

E partiram, sem mais demoras.