Capítulo XII – A Lagoa

Quando se encontravam suficientemente longe de Gil'ead, atreveram-se a parar um pouco. A rapariga estava cabisbaixa e muito calada, o que alarmou Eragon.

– Aconteceu algo? Ele …?

– Não, Eragon, não. Tentou, mas eu não deixei. – respondeu ela, num fio de voz.

Nunca pensara que poderia ficar naquela estado de trauma. Imaginara que seria como uma brincadeira de crianças. Enganara-se redondamente e, agora, tinha de viver com aquele sentimento de nojo, que tardaria a desaparecer.

O rapaz quis abraçá-la e confortá-la, no entanto, deteve-se, ao adivinhar os seus pensamentos. Temia piorar a sua situação.

Foi Maraya quem tomou a iniciativa de se aproximar. Sentou-se ao pé do namorado e descansou a cabeça no seu peito. Não chorava; estava demasiado apática para tal. Lenta mas decididamente, os braços de Eragon envolveram-na, consolando-a. Permaneceram assim, durante muito tempo.

Quando se sentiu mais segura, a jovem iniciou a sua narrativa:

– Tive tanto medo, Eragon! Pensei que iria ser fácil. Nem sabes o quanto me enganei! Ele era um autêntico monstro e eu, uma criança indefesa. Tive sorte, pois ele poderia tê-lo feito assim que me atirou para a cama.

Não notara que o rapaz se retraía, corroído por uma mistura de sentimentos: raiva, frustração, remorsos e… ciúmes. Continuou:

– Quando ele me rasgou o vestido, pensei que seria o fim…

Dando-se, por fim, conta do que se estava a passar com o namorado, interrompeu o seu próprio relato, para perguntar o que se passava.

– Por favor, não digas mais nada! Não sabes o quanto me dói que tenhas passado por tudo aquilo. Só de pensar que te poderia perder, que tu poderias ter sido…

– Mas não fui, Eragon! Felizmente, tu roubaste o ovo a tempo. Foi graças a ti que nada aconteceu. E, mesmo que tivesse ocorrido o pior, a culpa seria só minha, visto ter sido eu quem pensara naquele plano.

Eragon ia replicar, mas a jovem silenciou-o com um dedo. Olhou-o, olhos nos olhos, antes de afirmar:

– Eu sou tua, só tua. De corpo e alma. Tu sabes disso. Não receies nem te importunes pelo que poderia ter acontecido. Agora, já não interessa.

Beijou-o ternamente. Receara lembrar-se dos beijos de Murtagh, mas a presença do namorado fazia com que ela se esquecesse desses maus momentos.

Ergueu-se e puxou Eragon, para que ele também o fizesse. Disse-lhe, num sussurro, para a seguir.

De mãos dadas, embrenharam-se num pequeno bosque, tendo como única fonte de luz a lua. As árvores, majestosas, pareciam grandes guardas, prontos a impedir que os estranhos entrassem na sua fortaleza mágica. Contudo, contrariamente a estes nefastos pensamentos, atravessaram o arvoredo em segurança.

Pararam numa pequena clareira, junto a uma lagoa de águas límpidas, mas profundas. Sem aviso prévio, Maraya despiu o que restava do seu vestido e, envergando apenas a sua túnica interior, mergulhou naquelas águas, que se adivinhavam geladas.

Eragon aproximou-se da água e sentou-se no chão, sentindo as pedras e os pequenos grãos de areia sob os dedos. Precisava de pensar um pouco; ainda não estava pronto para ir ter com a jovem.

Simultaneamente, a Dama do Dragão nadava energicamente na lagoa, aventurando-se nas zonas mais escuras e profundas. Sempre se sentira bem dentro de água. Era como uma segunda casa para ela. Profundamente mergulhada naquele espírito de segurança, não notou a hesitação do rapaz.

Os minutos passaram, sem que nenhum dos dois entrasse no mundo do outro. A lua estava, agora, no seu apogeu, brilhando mais do que nunca. Foi ela que despertou Maraya do seu estado de semi-dormência espiritual. Apercebendo-se de que estava gelada, decidiu sair, indo ao encontro do rapaz. Sentou-se a seu lado, sem trocarem um único olhar.

– Eragon? – chamou ela, expectante.

Ele não respondeu. Limitou-se a fitá-la, com um estranho brilho nos olhos.

– Eragon? – repetiu, ligeiramente assustada.

O jovem desviou o olhar, envergonhado. Não sabia o que se passava com ele e não queria que a namorada soubesse.

Preocupada com o estado de letargia em que Eragon estava mergulhado, atreveu-se a agarrar-lhe a mão. O contacto da sua pele fria pareceu despertá-lo daquele encanto.

– Maraya…

A rapariga sentiu uma pontada no peito, ao ouvir o seu nome, dito daquela forma. Quase que podia agarrar os sentimentos saídos da boca dele: paixão, arrebatamento, preocupação, carinho e medo.

– Eragon, o que se passa contigo? O que temes? – perguntou, verdadeiramente apreensiva. – Responde-me; caso contrário, enlouqueço.

O Cavaleiro escondeu a cara entre as mãos, tremendo como um enfermo.

– Eu não te quero magoar! Não quero que sofras! – desabafou, finalmente, num fio de voz. – Tudo o que já passaste… foi tudo culpa minha!

– Que dizes? Estás a delirar! Como serias capaz de me magoar? – retorquiu ela, numa voz esganiçada.

– Tu própria afirmaste que sofreste durante todos aqueles anos em que te ignorei! E agora, voltaste a ser uma vítima das minhas acções!

Com um nó na garganta, Maraya balbuciou:

– O que que-queres dizer com… com isso?

– Não te quero magoar mais. – respondeu ele, simplesmente, sem olhar para ela.

– Queres terminar a nossa relação? – murmurou ela, percebendo a intenção dele.

Erguendo o olhar para a lua, Eragon proferiu a palavra que mais magoaria a jovem, durante toda a sua vida.

– Sim.

Maraya, triste e confusa, levantou-se e colocou-se diante do outro, interpondo-se entre este e a lua.

– Então, não me amas mais? Diz-me isso na cara! Se o fizeres, eu vou-me embora, para sempre.

Odiando-se pelo que estava a fazer, Eragon fitou a testa da rapariga e afirmou:

– Não te amo.

A última coisa que Eragon viu, antes de Maraya correr para a lagoa, foi um par de lágrimas solitárias, escorrendo pela face da pessoa de quem ele mais gostava e que insistia em magoar.