Capítulo XIII – As Garras da Morte
A rapariga continuou a correr, mesmo dentro a lagoa. Não parou até chegar a um local profundo, onde era totalmente envolvida por aquelas águas.
No mesmo instante em que ouvira da boca do seu amada tais palavras, soubera que já não tinha mais razões para viver. Como se não fosse suficiente, perdera a voz e quase não conseguia ver, uma vez que os seus olhos estavam toldados de lágrimas que não queriam escapar.
Sempre fora uma excelente nadadora e conseguia suster a respiração durante vários minutos. Agora, amaldiçoava aquela capacidade, que atrasava a hora da sua morte. Soltou o ar que os seus pulmões insistiam em suster e agarrou-se a uma planta marinha, evitando vir à superfície.
Dentro de água, o tempo passa de forma diferente. Os segundos, os minutos arrastam-se como se fossem horas, dias, até meses. Nunca ansiara tanto para que o tempo passasse mais depressa…
Por fim, deixou de ver totalmente. O seu corpo estava totalmente imobilizado e o seu cérebro não lhe obedecia, limitando-se a bradar por oxigénio.
E então, viu-o. Parecia um deus, vindo do reino dos céus. Sabendo que tudo estava acabado, deixou-se arrastar até ao mundo dos mortos.
Eragon continuou a fitar a jovem, que corria e nadava na lagoa, debatendo-se com muita ferocidade. Deixou de a ver, assim que ela chegou ao meio do lago.
Esperou pacientemente que a sua cabeça, novamente ruiva, assomasse à superfície. No entanto, a rapariga tardava a emergir.
Os minutos arrastavam-se, sem que Eragon voltasse a ver a rapariga. Levantou-se de um salto, verdadeiramente preocupado.
Será que…? Não, ela não é tão louca assim.
Não obstante, não conseguia acreditar nos seus pensamentos. Relembrou algo que o seu primo Roran lhe dissera, certa vez, enquanto trabalhavam na sua terra natal:
"Por amor, as pessoas fazem todas as loucuras possíveis e imagináveis."
Dando-se conta da gravidade da situação, correu para a lagoa. Sentindo o contacto da água gelada no seu corpo, nadou a toda a velocidade, procurando Maraya. Não parava de se amaldiçoar: Se lhe acontecer alguma coisa, a culpa será minha. E tenho a certeza de que, se tal suceder, não conseguirei viver. Como se não bastasse, arrastarei comigo Saphira. Droga! Estarei condenado a ser responsável pelo sofrimento e morte dos que amo?
Numa lenta sucessão de imagens, viu-a: um corpo aparentemente sem vida, agarrado a uma planta aquática. Tinha uma expressão calma, de alívio.
Alcançou-a num ápice. Ela não ofereceu resistência, largando a planta, de seguida. Chamando a si toda a sua força, nadou até à superfície. Parou apenas para recuperar o fôlego e nadou até à margem mais próxima.
Cuidadosamente, estendeu a jovem no solo. Tomou-lhe o pulso, quase sem esperança. Alarmou-se ao constatar que o coração dela já não batia.
Tentou descobrir uma maneira para reanimar Maraya, sem sucesso. Sabia que não poderia utilizar a sua magia. Estava a ficar sem tempo, nem opções.
Quase ser ver, devido às lágrimas que teimavam em escorrer pela sua face, decidiu agir. Instintivamente, debruçou-se sobre a rapariga e forneceu-lhe o seu próprio oxigénio. Repetiu aquele método várias vezes, sem obter resultados visíveis.
Quando se apercebeu de que era inútil continuar, desistiu e deitou-se ao lado dela, decidido a morrer também.
Maraya abriu os olhos dolorosamente. A sua visão estava ainda muito turva. Custava-lhe a respirar e a sua cabeça quase explodia de dores. Um formigueiro desagradável percorria todo o seu corpo dorido.
Ouviu uma mistura de sons, que se assemelhavam a cânticos sagrados. Estou no Céu e os Anjos estão a saudar-me.
Muito a custo, ergueu-se até ficar sentada. Ainda continuava a não conseguir ver perfeitamente, mas já não lhe doía tanto a cabeça. Olhou em volta, tentando descortinar os Anjos, por entre toda aquela bruma.
Perto de si, alguém cantava uma melodia fúnebre. Estranhamente, era semelhante ao choro de uma criança! Virando-se para a entidade em questão, perguntou, muito confusa:
– Isto é o Céu, certo? E tu, tu és um Anjo, não és?
Continuava sem ver, mas ouviu um grito de surpresa, por parte do Anjo. Logo a seguir, foi envolvida por uns braços que não conseguia ver, só sentir.
– Maraya, estás viva?!
Aquela voz era-lhe familiar. Deveria pertencer a alguém de quem ela gostara muito. Mas quem?
– Por favor, fala comigo…
Subitamente, fez-se luz no seu espírito, assim como nos seus olhos. De imediato, viu quem era o Anjo, reconhecendo-o.
– Eragon?
Ao ouvir a voz da jovem, o rapaz reiniciou o seu pranto.
– O que é que aconteceu? Como é que vieste aqui parar? Também morreste?
O jovem limpou, a custo, as lágrimas e fitou-a. O brilho desconhecido que Maraya vira desaparecera, apagado pelas lágrimas.
– Tentei… Eu tentei salvar-te, mas não consegui. Estava prestes a pôr fim à minha vida, para ir ter contigo, quando falaste.
As palavras dele reavivaram a memória dos últimos acontecimentos. Lembrando-se do motivo que a fizera empreender aquela viagem até ao mundo dos mortos, a jovem virou-lhe costas.
– Porque o fizeste?
– Que queres dizer? – inquiriu o rapaz, confuso.
– Porque me salvaste? Odeias-me assim tanto que te deleites com o meu sofrimento? – disse ela, numa voz aguda. – Responde-me!
– Tudo o que fiz foi para evitar que sofresses mais! Eu não queria que continuasses a ser maltratada! Consegues entender isso? Eu não te odeio…
– Pois os teus actos contrariam as tuas palavras!
E mergulhou novamente na lagoa, pronta a repetir aquela experiência. Adivinhando as suas intenções e com um medo crescente no seu peito, Eragon seguiu-a, através daquelas águas geladas. A perseguição foi curta: rapidamente, a rapariga foi alcançada pelo rapaz.
– Larga-me! – ordenou ela.
– Não!
– Não me obrigues a combater contigo! – ameaçou Maraya. – Deixa-me em paz!
– Não. – repetiu ele, convictamente.
Soltando uns gritinhos de raiva e frustração, a Dama do Dragão esmurrou o outro, na face. Sem qualquer reacção que não continuar a fitá-la, o jovem defendeu um outro murro, agarrando a mão da jovem, sem, no entanto, a magoar.
Utilizando a sua mão livre, a rapariga insistiu em atacá-lo, sem sucesso. Por fim, Eragon capturou, também, essa mão.
Não se dando por vencida, a jovem usou as pernas, para desferir um valente pontapé. Contudo, tal já era esperado por ele que, imediatamente lhe rodeou as pernas, imobilizando-a completamente.
– Quando estiveres mais calma e lúcida, solto-te. – disse ele, sem desviar o olhar dela.
– Quem é que tu pensas que és? Se estou doida, a culpa é toda tua! Farias melhor em deixar-me morrer…
Uma lágrima solitária desprendeu-se, rolando pela face de Eragon.
– Eu consigo viver, sabendo que te magoei e que, provavelmente, me odeias. Porém, não o consigo fazer se tu estiveres morta!
Desta feita, foi a vez de Maraya começar a chorar.
– Eu menti-te! Eu não tive prazer nenhum em acabar a nossa relação! Só o fiz, para te proteger, mas já percebi que errei. Ao querer proteger-te, fiz exactamente o contrário e sinto-me responsável pela tua vida!
Nessa altura, as lágrimas corriam, sem qualquer controlo, pelas faces dos dois. Fechando os olhos, como se quisesse esquecer o que se estava a passar, a rapariga interrogou, temerosa:
– O que queres dizer?
– Eu amo-te… amo-te como nunca amei ninguém. Desculpa por tudo…
Foi interrompido por Maraya, que o beijou apaixonadamente. Prontamente, ele soltou-a, para a abraçar ternamente.
Assim que o beijo findou, os jovens olharam-se, frente-a-frente. O contacto visual estabelecido parecia nunca mais acabar, até que, com um ruído sonoro, a mão dela estalou na cara de Eragon.
Aparvalhado com tal comportamento, o Cavaleiro exibiu um olhar magoado, que logo se dissolveu, perante as palavras e as acções da rapariga.
– Tens de concordar comigo: tu mereceste! – disse ela, com um enorme sorriso.
Voltaram a beijar-se, sem qualquer controlo. Juntos, dirigiram-se para a margem, onde consumaram o acto que estabeleceria um importante ele físico, tão forte como a magia que os ligava.
