Capítulo XVII – Reflexões ao Luar

"Coragem não é ausência de medo, mas sim a capacidade de o vencer."

Saphira aterrou, finalmente, após dois dias de viagem. Desta vez, não cometeriam os mesmos erros. Não depois do que acontecera.

Durante horas a fio, nenhum dos viajantes ousara falar, reinando um silêncio quase opressivo, apenas quebrado pelas asas do dragão.

Cada um deles estava concentrado nos seus pensamentos, sem invadir os dos outros. Os humanos não se sentiam com muita vontade de falar do que acontecera; Saphira, por seu lado, queria dar-lhes espaço e tempo para reflectir. Não queria que eles voltassem a fazer o mesmo…

Refugiaram-se numa densa floresta, para aí passarem a noite. Tanto Eragon como Maraya desmontaram das suas montadas (Saphira e um velho cavalo que tinham encontrado, respectivamente), ainda sem falar. Estenderam algumas mantas no solo e, após terem verificado se o ovo se encontrava seguro, afastaram-se em direcções opostas.

A criatura ficou sozinha, estendida sob uma árvore. Olhou para a lua que, envolvida por uma névoa suave, parecia mais misteriosa do que nunca. Emitiu um som, semelhante a um suspiro.

A atitude de Maraya, naquele dia, afligira-a muito. Agora, via claramente que não fora estúpida de todo. Antes pelo contrário; demonstrara uma coragem e força de vontade impressionante. Apenas não compreendia como é que ela pudera pensar que iria morrer… Aquele ferimento era grave, mas o Cavaleiro tinha capacidades mais do que suficientes para o tratar!

Suspirou novamente, resignada. Concluiu que a jovem não pensara muito no assunto. Tinha agido instintivamente. Por outro lado, via-se que estava dominada pelo medo… Murtagh infligira-lhe graves danos psicológicos, não havia dúvida.

Espero que ela recupere rapidamente. Caso contrário, levará Eragon à loucura.

Maraya baixou-se para apanhar outro cogumelo. Sistematicamente e sem pensar muito bem no que estava a fazer, repetiu o procedimento, até ter a saia cheia daqueles alimentos.

Ergueu a cabeça, dirigindo o olhar para o céu estrelado. Procurou a lua, sua fonte de consolo nos momentos de tristeza e de desespero.

Sabia que não estava bem. Sofrera fortes e irremediáveis abalos, nos últimos dias: tudo o que suportara para recuperar o ovo, o sentimento de nojo que se seguira, as múltiplas tentativas de violação e suicídio, … e todo o mal que fizera a Eragon e Saphira.

A sua visão ficou turva, ao mesmo tempo que a sua face era banhada por uma torrente de lágrimas. Sentou-se numa raiz de uma árvores, escondendo o rosto entre as mãos.

Permaneceu deste modo, quieta e a chorar, durante o que lhe pareceu horas a fio. De facto, quando voltou a sua atenção, de novo, para o firmamento, verificou que a lua já estava bem alta. Estava na altura de voltar.

Durante todo o caminho de regresso, reviu todos os momentos que vivera, desde o momento em que o reencontrara. Sorriu ao constatar que, nos últimos tempos, chorara mais do que uma vida inteira. Estou a fazer figuras patéticas! O que se passa comigo?

Esmurrou um tronco particularmente largo, mordendo a língua para não gritar. Contudo, não sentiu apenas dor, mas também uma clareza de espírito que há muito não experimentava.

Subitamente, soube o que tinha de fazer. Sorriu, mais uma vez, para a lua, imaginando o rosto de Eragon nela. Continuou o seu caminho, segurando a saia, onde nenhum cogumelo restava.

Raios, Maraya, para onde foste? Porque deixaste este fantasma, fraco e pálido, no teu lugar?

Eragon avançou, silenciosamente, na direcção de um jovem veado. Ergueu o arco e fez pontaria, ao mesmo tempo que puxava a corda. Antes de a largar, olhou para a lua.

Nesse instante, uma seta voou. O pobre animal tombou imediatamente, sem sentidos. O seu caçador, sem evitar sentir um misto de pena, pelo animal, e nojo, pelo que fizera, agarrou-o, para o transportar de volta para o acampamento.

Quem me dera não o ter feito…

Não pensava apenas na cruel morte que infligira ao veado. O seu pensamento estava distante, numa rapariga que, certa vez, lhe dissera que ele lhe transmitia segurança.

Sim, comigo estás muito segura… Sem dúvida nenhuma. Não conseguia evitar ser assolado por estes pensamentos irónicos. E, sobretudo, não conseguia deixar de pensar que tudo o que ela sofrera fora por causa dele.

Ela quase morreu… demasiadas vezes. Por pouco Murtagh não a violou. Isto não pode continuar assim. Já é tempo de acabar com isto. Ela não pode continuar a correr tamanhos riscos.

Deixou cair a peça de caça e encostou-se a uma árvore. Não sabia o que haveria de saber. Não valia a pena mentir-lhe, com o objectivo de a afastar. Então, que mais opções tinha?

Uma voz interior, vinda do nada, sussurrava-lhe: sê verdadeiro. No entanto, ele tinha a certeza de que Maraya não aceitaria.

Suspirou, resignado, voltando a carregar o animal.

Eragon e Saphira estavam juntos, sentados em redor da fogueira que a criatura tinha acendido. O jantar permanecia intacto; nenhum dos dois tinha vontade de comer.

Já tinham rompido o silêncio que se instalara entre os dois. O jovem relatara tudo o que se passara e o que sentia, sem rodeios. Como esperava, obteve a compreensão da amiga, que acrescentou:

Maraya não está bem, psicologicamente. Não estou a dizer que ela é doida. Contudo, penso que não está na totalidade das suas capacidades mentais. Ela sofreu muito… é normal que esteja abalada e confusa.

O que achas que devo fazer?

Só tu saberás responder à tua própria questão. Procura a resposta no teu interior. Podes ter a certeza de que, seja qual for a tua decisão, eu apoiar-te-ei sempre.

Não deves confiar tão cegamente nas minhas escolhas. Eu poderia ter-te conduzido à morte!

E eu enfrentá-la-ia, por ti, pequeno. Não nos vamos separar, nunca.

Nesse instante, ouviram ruídos de passos e ramos a serem pisados. Um minuto depois, viram Maraya surgir do meio da vegetação, com um ar exausto, mas decidido.

Sentou-se ao lado deles, olhando para o fogo. Disse, ainda sem os fitar:

– Tomei uma decisão. Penso que é o mais acertado a fazer. Eu pensei muito… – engoliu em seco, antes de continuar: – Vou-me embora. Já vos causei muitos problemas, sem contar com os danos que infligi a mim própria.

– Maraya…

– Não me interrompas, Eragon! Eu sei que vos magoei e pus em perigo, mas podes ter a certeza de que não é nada comparado com aquilo que eu fiz a mim! Eu consegui destruir, em pouco tempo, toda a minha auto-estima e segurança! Se continuar, vou dar em doida! – acrescentou, levantando-se de um salto. – Eu preciso de ir… já não suporto olhar mais para o vosso olhar preocupado e magoado!

Eragon baixou a cabeça, triste. Sabia como a namorada se sentia, sempre soubera. Todavia, nunca pensara que ela tinha consciência do seu estado de debilidade.

– Eu vou para Ellesméra. Levarei, comigo, o ovo de dragão. Ninguém desconfiará de mim: Murtagh sabe que eu não estou muito boa da cabeça e, quem olhar para mim, vai pensar o mesmo. Sou a pessoa ideal para esta missão. – acrescentou, num fio de voz. – Pelo caminho, terei tempo suficiente para pensar em tudo isto e praticar magia. Ficarei algum tempo na terra dos elfos, onde buscarei ajuda.

O Cavaleiro levantou-se, sem saber o que dizer. A jovem estava convencida daquilo que dizia e o pior era que ele sabia que ela tinha razão. Atreveu-se a agarrar-lhe a mão, enquanto que perguntava:

– Voltaremos a ver-nos?

– Quando eu estiver recuperada, voltarei. Não interessa onde estiveres, demore o tempo que demorar, eu encontrar-te-ei.

E virou costas, agarrando o ovo e montando de seguida. Antes de partir, olhou para trás, dizendo apenas:

– Não me esqueci do pedido que me fizeste. E espero que tu também não.

Partiu a galope, sem voltar a olhar para trás.

Nota da Autora: Maraya não é vegetariana, por isso é que Eragon tem morto animais (com muito pesar, visto ele ser um amante da Natureza).