Capítulo XVIII – Caminhos Separados

O Cavaleiro e o seu Dragão viajaram horas a fio, sem rumo definido. Não tinham a menor ideia do que deviam fazer.

Sempre que o seu pensamento recaía sobre a (ex)namorada, Eragon não conseguia deixar de pensar se tinha sido uma boa ideia deixá-la transportar o ovo. Era nesses momentos que Saphira intervinha, chamando-o à razão. Ambos sabiam que Maraya, mesmo estando doente, conseguiria atingir o seu objectivo.

O jovem suspirou, pela centésima vez.

Temos de fazer algo. Não consigo continuar neste estado de inércia! Preciso de acção!

Não sei como fizeste, mas o teu desejo realizou-se. Saphira rugiu, inclinando o focinho em direcção ao solo. Parece que aqueles agricultores estão com problemas.

Eragon sorriu tristemente. Contudo, o seu sorriso não durou mais do que uns instantes, sendo logo substituído por uma expressão determinada.

Vamos!

Maraya, envergando uma capa escura, comprida e muito remendada, vagueava por aquela povoação. Ninguém a reconheceu, embora houvesse uma série de cartazes com a sua cara espalhada, dizendo que era procurada pelo Império. Tal não era de admirar, visto que as suas vestes estavam cheias de lama; o cabelo e os olhos tinham-se tornado baços e estava totalmente coberta de pó.

Tinha deixado os outros há uma semana, sem nunca olhar para trás. No início, entrara num estado de apatia difícil de ultrapassar. No entanto, quando, ao chegar a uma vila com poucos habitantes, vira a sua cara a cobrir as paredes de todos edifícios, despertara, por fim. Decidira vender a sua velha montada, optando por adquirir aquela capa e alguma comida.

A rua estava completamente deserta, à excepção de um homem de aspecto rico, que andava rapidamente na sua direcção.

Quando este se desviou ligeiramente para o lado, de modo a evitar tocar naquela pobre mulher, Maraya fingiu cambalear, embatendo naquele indivíduo.

– O que pensa que está a fazer, mendiga? Tenha cuidado por onde anda! Que vergonha; devia estar a trabalhar, em vez de mendigar o que os outros têm!

E afastou-se, enfurecido e aborrecido.

Entretanto, a jovem, nada afectada com o discurso do outro, virou costas e continuam a caminhar na rua. Escondeu rapidamente o saco de moedas que acabara de roubar ao homem, reprimindo um sorriso irónico. Agora sim, sou uma criminosa.

Dirigiu-se a um velho celeiro, abandonado há anos. Após verificar que não estava a ser seguida, entrou e aconchegou-se a um canto, junto de um monte de palha velha. Tirou a capa e estendeu-a no solo, a seu lado. Depositou, sobre ela, o saco de moedas roubadas, um pão velho que uma alma caridosa lhe atirara e um ovo de dragão. Combinação invulgar, não há dúvida.

Comeu, avidamente, o pão, sem deixar de estar alerta. Fora a melhor refeição que tivera, desde que empreendera aquela viagem.

Voltou a guardar os seus parcos pertences numa velha saca que trazia a tiracolo e, seguidamente, estendeu a capa sobre si, ao mesmo tempo que se enroscava, pronta para dormir.

Fechou os olhos. Uma avalanche de imagens veio-lhe à cabeça, confundindo-a. Fechou os olhos com mais força e as imagens desapareceram.

Tentou adormecer, sem sucesso. Em vez disso, não parava de pensar no que iria fazer a seguir.

Até Ellesméra, são mais dez dias, a caminhar doze horas por dia, a pé. Se conseguir arranjar um cavalo bem rápido, sou capaz de chegar lá em quatro dias… Quanto mais depressa melhor.

Abriu os olhos, totalmente desperta. Não conseguiu conter um suspiro profundo e amargurado, ao pensar naquilo em que se tornara: uma reles ladra e mendiga.

Mas isso vai mudar. Não voltarei a ser a pobre Maraya, que não se consegue defender de ninguém e que depende de todos. Aquela que tem capacidades para ser melhor e não as aproveita. Aquela que, quando tem problemas, só sabe fugir delas. Aquela estúpida…

Finalmente, adormeceu, decidida a modificar aquilo a que ela chamara, certa vez, vida.

A jovem cavalgava desenfreadamente, fugindo dos seus perseguidores. O cavalo recém-roubado era rápido, o que contribuiu para que os homens que a perseguiam acabassem por desistir, ao cabo de alguns quilómetros. No entanto, ela não parou até que o animal começou a dar sinais de cansaço.

Refugiou-se num pequeno bosque, deixando o cavalo livre para se alimentar e descansar. Por seu lado, Maraya limitou-se a sentar-se à sombra, aproveitando para limpar o espírito de todos os pensamentos.

Seguidamente, tentou usar alguns feitiços simples, que consumissem pouca energia. Pouco surpreendida, constatou que não conseguia. Não me estou a esforçar suficientemente.

Tirou um pequeno punhal de dentro da bota e, distraidamente, começou a fazer pequenos desenhos na terra, com a ponta da faca. Fechou os olhos e inspirou suavemente. Sentiu-se muito mais calma.

Guardou a pequena arma e preparou-se para voltar a tentar. Virou a sua atenção para um ramo partido, que jazia no solo a poucos centímetros dela. Concentrou-se ao máximo, imaginando-o a arder. Pronunciou, então, na língua antiga: brisingr!

Imediatamente, o pau incendiou-se.

Reprimindo um sorriso de triunfo, a jovem levantou-se. Continuaria a praticar quando voltasse a parar. Montou o seu cavalo, a que chamara Brise, e prosseguiu o seu caminho.

A um dia de viagem de Ellesméra, Maraya acampou numa gruta pouco profunda. Estava a comer uma maçã que surripiara, quando um piar a alertou. Levantou-se de um salto, ao mesmo tempo que desembainhava a espada que comprara a um vendedor ambulante.

Aproximou-se cautelosamente da entrada da gruta, procurando alguém. Como não viu nada de anormal, decidiu voltar para o seu canto, sem, contudo, deixar de estar alerta.

Mal se sentou, ouviu, de novo, aquele som. Deixou-se estar quieta, sem fazer qualquer ruído ou movimento. A sua espera foi recompensada com mais um piar.

Desta feita, conseguiu distinguir claramente a proveniência do som. Ergueu-se, apanhou a sua velha mochila e abriu-a. Surpreendentemente, encontrou um pequeno pássaro branco.

– O que te aconteceu, pequenino? Como vieste aqui parar?

O animal respondeu com uma série de "pius", fazendo com que a jovem sorrisse verdadeiramente, pela primeira vez em tantos dias.

– Deves ter fome…

Com a mão esquerda, tacteou a sua capa e retirou um pedaço de pão. Simultaneamente, aproximou a mão direita do pássaro. Este, sem mostrar qualquer receio, subiu-lhe para o dedo estendido.

Enternecida, Maraya ofereceu pequenas porções de pão ao pequeno ser, que comeu avidamente. No final, soltou um pio agradecido.

– Vá, agora já podes ir.

E colocou o passarinho no chão. Este saltitou durante uns instantes, voltando, de seguida, para junto da jovem.

– Não queres ir embora?

Quase podia jurar que o pássaro concordara com um movimento de cabeça.

– Como queiras.

Como se tivesse compreendido o que a rapariga dissera, o passarinho branco voou para cima da saca dela e aninhou-se, adormecendo de seguida. Maraya sorriu tenuemente, antes de o imitar.