Capítulo XIX – A Entrega do Ovo

Maraya observava a lua calmamente. Estava sentada contra o tronco de uma árvore, com Albus, o passarinho branco, no ombro. Não muito longe de si, um corvo observava-a atentamente.

Acabara de chegar a Ellesméra. Sabia que tinha de se encontrar com Islanzadí, a rainha, o mais rapidamente possível, contudo, estava demasiado cansada. Além disso, não seria de bom-tom incomodar a rainha àquela hora da noite.

Lentamente, levantou-se e encaminhou-se em direcção à habitação de uma elfo, Galandy, que conhecera numa das suas anteriores viagens. Ela oferecera-lhe estadia, sempre que precisasse.

Dez minutos depois, estava sentada, juntamente com a amiga e Albus. As duas mulheres conversavam alegremente, enquanto Maraya comia alguns bolos secos.

– Estou feliz por te ver.

– Também eu. – retorquiu a jovem. – Estás com um óptimo aspecto!

Galandy sorriu, agradecida, antes de replicar:

– O mesmo não posso dizer de ti, querida amiga. Pareces uma mendiga! O que é que aconteceu?

Maraya baixou a cabeça, mas a elfo pode reparar que o seu rosto escurecera.

– É uma longa história. Amanhã, conto-te. – disse, apenas. – O que interessa, neste momento, é que eu encontrei Eragon, o Cavaleiro do Dragão, e, juntos, conseguimos recuperar o ovo que estava em poder de Galbatorix.

Os olhos de Galandy abriram-se de espanto.

– Preciso de falar com Islanzadí, com urgência. – concluiu a jovem.

– Concordo plenamente contigo. Contudo, agora não é o melhor momento. Prometo-te que, amanhã, falarei com a rainha sobre este assunto. Ah, e precisas urgentemente de um banho!

Ambas riram com gosto.

– Anda, vou-te preparar um banho.

Maraya seguiu a amiga, agradecida. Há muito que ansiava por um bom banho!

Assim que sentiu o contacto do seu corpo com a água quente e perfumada, uma avalanche de sentimentos e emoções invadiu-a, avassaladoramente. Sem qualquer controlo, desatou a chorar e contou tudo o que se passara à amiga, sem omitir nada.

Galandy, por seu lado, era uma excelente ouvinte. Escutou o relato da outra, sem nunca a interromper. Apesar disso, não conseguiu esconder algumas expressões faciais e, no fim, duas lágrimas teimosas escorreram-lhe pela cara.

A elfo olhou, preocupada, para a amiga. Como é que uma criatura tão pequena e frágil conseguira suportar tantas provações?

A resposta surgiu logo a seguir, quando as duas se olharam, olhos nos olhos.

Galandy engoliu em seco, ao descobrir um brilho de loucura nos olhos de Maraya. Ela não aguentou. Está louca…

Como se tivesse adivinhado os pensamentos da elfo, a jovem, após vestir umas roupas emprestadas, apressou-se a confirmar:

– Sim, eu estou perdida. Não aguento mais! Eu sei que estou louca… – acrescentou, num discurso um pouco incoerente.

A amiga abraçou-a, ternamente.

Maraya não está tão louca assim. Ela tem consciência do seu estado de fragilidade. Ainda há esperança!

– Amiga, nem tudo está perdido. – afirmou, suspirando. – É verdade que estás à beira da loucura, mas ainda podes recuar. Eu vou ajudar-te. Agora, vai dormir.

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Apresentou-se diante da rainha, seguindo todas as regras de etiqueta e cortesia dos elfos. Estava linda, nas vestes élficas que a amiga lhe emprestara.

Contou a sua história, sem vacilar uma única vez. Não chorou, desta feita. De facto, não se parecia nada com a rapariga fraca que demonstrara ser perante Galandy.

Islanzadí provou ser uma ouvinte atenta, tal como a elfo fora, no dia anterior. Mostrou o seu agradecimento de uma forma controlada, mas verdadeira. Insistira em preparar uma cerimónia, de modo a celebrar aquele momento, não obstante as educadas recusas da jovem.

Meses depois daquele evento, tudo o que Maraya conseguia recordar com nitidez fora o instante em que ela própria entregara o ovo à rainha dos Elfos, após um breve discurso da mesma.

Tudo o resto fora esquecido, como se tivesse sido apagado do cérebro da rapariga. No entanto, todos os outros pareciam ter muita dificuldade em esquecer o sucedido. De um momento para o outro, todos passaram a tratá-la de forma diferente, como se ela fosse muito mais importante do que era, na realidade.

Maraya, a Dama do Dragão (como insistiam em chamá-la, apesar dos seus protestos) tornou-se rapidamente numa personalidade querida de todos. Especialmente, para as poucas crianças existentes. Estas deliravam sempre que a viam e imploravam-lhe, frequentemente, que lhes contasse as suas aventuras. A jovem acedia sempre aos seus pedidos, com um sorriso nos lábios, omitindo certos pormenores mais dolorosos e desagradáveis.

Entretanto, começara um programa de tratamento psicológico com Galandy e um outro elfo, Tygryve. Era muito duro e havia alturas em que pensou em desistir, simplesmente. No entanto, sentia que algo dentro dela lhe dava forças para continuar. E então, todos os dias, enfrentava longas horas de suplício.

Tygryve mostrou ser um curandeiro excepcional, além de um verdadeiro amigo. Nas suas horas livres, conversava muito com a jovem, sobre todo o género de assuntos; treinava-a no manuseamento da espada e do arco e ensinou-a a controlar a sua magia.

Às vezes, Maraya dava por si a confundi-lo com Eragon. Eram ambos atenciosos e queridos, mas poderosos. Tudo o que estava a aprender com o elfo poderia ter sido ensinado pelo Cavaleiro do Dragão.

Acorda, rapariga. Eragon não está aqui, agora. Com estes pensamentos, a rapariga forçava-se a esquecer o Cavaleiro e a seguir em frente.

Nota da Autora: Capítulo muito pequeno, mas teve de ser assim. O próximo vai ser muito maior, prometo!

Ah, obrigada pela reviews.