Capítulo XX – As Recordações de Galandy
Galandy observou a amiga, que dormia profundamente no seu quarto. Estava com uma aparência muito mais saudável. O tratamento levado a cabo durante cinco meses surtira o efeito desejado: não só estava totalmente recuperada psicologicamente, como também melhorara as suas aptidões físicas e mágicas.
Ainda sem deixar de olhar para Maraya, a elfo deixou o seu pensamento voar livremente, recordando alguns acontecimentos passados durante a estadia da jovem.
Recordou-se de ver, muitas vezes, um brilho de loucura nos olhos da amiga. Aparecia quando ela estava mais desesperada e carente de afecto e atenção. E tardou alguns meses a desaparecer. No início, pensara que era uma maldição, contudo, agora, sabia perfeitamente que não fora nada disso.
Suspirou. O único culpado pela doença de Maraya fora o destino. Benevolente para uns; mau para outros; horrível e devastador para uma minoria, à qual a jovem pertencia, sem sombra de dúvida.
Felizmente, a jovem arranjara coragem e força para ultrapassar a sua doença. Agora, parecia estar mais jovem, a cada dia que passava. E, consequentemente, mais bela. Era cobiçada, em segredo, por alguns elfos que se deixaram deslumbrar pela sua beleza. Tontos, pensou. Ela nunca olhará duas vezes para eles. Mesmo longe, só pensa Nele.
Levantou-se e sentou-se no parapeito de uma janela. Observou a paisagem que rodeava a sua casa. Detectou a presença de uma jovem elfo, que prontamente reconheceu como sendo Arya.
Subitamente, uma desagradável memória surgiu na sua mente: o primeiro encontro entre Arya e Maraya, um mês após a chegada da humana a Ellesméra.
A jovem humana tratara-a com toda a cortesia, respeitando a posição hierárquica da elfo. Contudo, não pode esconder o seu sofrimento, que se espelhou no rosto, prontamente.
Ainda se lembrava da reacção da Princesa: olhara interrogativamente para a jovem, esperando uma justificação. O pior foi que Maraya estava decidida a explicar-se! De um só fôlego, ela dissera o que sentia por Eragon e, ainda que inconsciente e indirectamente, acabou por culpar Arya pelas suas desgraças.
A elfo ouviu tudo sem interromper e, no final, alegou apenas que nunca dera esperanças ao Cavaleiro, antes de virar costas.
Maraya ficou sem ar e deixou-se cair, com estrondo, no chão. A elfo olhou por cima do ombro, esperando vê-la a chorar ou algo do género. No entanto, o que viu gelou-lhe o sangue: a jovem jazia inanimada, junto às raízes de uma árvore.
Galandy lembrou-se de ter saltado para junto da amiga, sendo rapidamente imitada pela outra elfo. Juntas, uniram esforços para transportar a humana.
A sorte estivera do lado da Dama do Dragão, que recuperou depressa, não tendo havido qualquer consequência nefasta para a sua saúde. Apenas tivera uma quebra de tensão, originada pelo choque, provocado, por sua vez, pela revelação de Arya.
Galandy não pôde deixar de relembrar que, assim que pôde sair de casa, a primeiro coisa que Maraya fizera fora encontrar-se com a elfo. Pediu-lhe desculpa pelas suas acusações e lamentou o incómodo provocado. No entanto, Arya cortou-lhe a palavra, ao dizer:
– Não tens de te desculpar. Eu é que não devia ter agido daquela maneira. As minhas palavras poderiam ter-te colocado num perigo maior.
– Mas… o que queres dizer com isso? – indagara Maraya, incrédula.
– Eu senti a grandeza do sentimento que nutres por Eragon. Não o respeitei. Peço desculpa. Ainda para mais, eu poderia ter infligido graves danos no bebé.
A jovem humana adoptou um esgar de incompreensão, que completou ao inquirir:
– Bebé? Que bebé?
A Princesa dos elfos suspirou, antes de apontar para o ventre da rapariga.
– Esse que tens dentro de ti.
Foi nesse momento que Maraya percebeu que estava grávida.
Galandy voltou a suspirar. Ainda se lembrava da promessa que a jovem exigira que fizesse: não contar a ninguém quem era o pai da criança. Fez o mesmo com Arya, embora de um modo mais educado. Ambas as elfos concordaram em manter em segredo aquele assunto.
A barriga da jovem só começou a ser notada por volta dos quatro meses. E, nessa altura, choveram perguntas um tanto indiscretas, por parte daqueles que tinham uma certa intimidade com a Dama do Dragão. Os outros limitaram-se a comentar o facto, com uma certa curiosidade.
Maraya não confiara a mais ninguém a identidade do pai da criança. Nem mesmo a Tygryve. Ele nunca lhe falou no assunto, mas Galandy sabia que ele gostaria de saber quem tinha sido o homem a quem a jovem se entregara.
Quase gargalhou, ao pensar em Tygryve. Nunca o vira assim tão interessado numa paciente. Aproveitava todos os seus momentos livres para estar com ela. Mas a elfo sabia quais as verdadeiras razões do rapaz. Mais do que uma vez, pudera confirmar as suas suspeitas, ao apanhá-lo a olhar timidamente e de soslaio para a jovem humana.
Confrontara-o, claro. Recordava-se perfeitamente daquela conversa, que tivera lugar há um mês.
"– Tygryve… Eu sei o que sentes. – interpelara-o ela, directamente.
– De que estás a falar? – o elfo fizera-se de desentendido.
– Tu sabes muito bem a que me estou a referir. – volveu Galandy. – Maraya.
O elfo baixou os olhos, envergonhado.
– Como…?
– Tu não és propriamente discreto! Eu bem vi como olhas para ela. E, quando ela te sorri, ficas todo corado!
Tygryve sorriu tenuemente. Como pudera ter-se descontrolado ao ponto da elfo ter percebido o que se passava? Será que a humana também se tinha apercebido dos seus sentimentos?
– Não, ela não sabe o que sentes por ela. – respondeu a elfo, após o amigo ter revelado os seus pensamentos. – Podes estar descansado; eu não lhe vou dizer.
– Obrigado.
– Mas tenho de te dar um conselho: desiste.
– Porquê? – inquiriu, confuso. – Pensei que fosses a sua melhor amiga. E minha também. Não nos queres ver felizes?
Galandy suspirou de um modo inaudível, antes de prosseguir:
– É por isso mesmo que te digo para desistires. Vocês não poderão ser felizes, juntos. Lembra-te que ela está grávida de outro…
– Eu não me importo! Não me importo de assumir a criança como sendo minha!
– Não estás a perceber. Não é esse o problema. Maraya está apaixonada pelo verdadeiro pai do bebé.
Tygryve respirou fundo. Permaneceu em silêncio durante minutos a fio, antes de se decidir. Por fim, afirmou, com uma calma controlada:
– Tu sabes quem é ele.
– Sim. – admitiu Galandy, sem mentir.
– Quem…?
– Não te vou dizer quem é. – disse a elfo.
– Porquê? Porque não me dizes quem foi o anormal que a abandonou naquele estado?! Que espécie de homem é capaz de deixar uma jovem grávida, após tê-la enlouquecido quase até à morte?
Estava furioso. Agarrou a amiga pelos ombros e, abanando-a ao de leve, repetiu a pergunta.
Galandy fitou-o, olhos nos olhos, antes de responder:
– Não te vou dizer quem é. Eu prometi! Apenas precisas de saber que ele não é quem tu pensas. Não foi ele que abandonou Maraya, mas sim o contrário. Ela soube que estava doente e partiu, para se recuperar. Não conseguia suportar saber que o estava a magoar.
– A culpa é dele! Ele enlouqueceu-a! – replicou, desvairado, o elfo.
– Acreditas mesmo no que estás a dizer? Os teus olhos dizem-me que não. – disse a amiga. – Não, não foi ele que lhe fez aquilo. O passado dela esconde muitos desgostos e horrores, que se conjugaram até se converterem em loucura.
Tygryve afastou-se, praticamente derrotado. No entanto, insistia em arranjar razões para odiar a pessoa que Maraya amava.
– E a gravidez?
– Ele não sabia. Nem a própria Maraya alguma vez desconfiou disso. – respondeu Galandy. – Não vale a pena tentares arranjar motivos para o odiar. Acho que deves seguir o meu conselho.
– Mas eu amo-a…
A elfo suspirou.
– Então, vai à luta. Pode ser que tenhas sorte. – afirmou, nada convicta.
– Podes crer que vou lutar por ela."
Até agora, o elfo não arranjara coragem para confessar o seu amor por Maraya. Nem sei se alguma vez o fará…
Antes de abandonar o quarto onde a jovem repousava, olhou uma última vez para ela. Estava deitada de barriga para cima, com Albus a zelar por ela. A sua mão direita repousava sobre o ventre, enquanto que a esquerda agarrava o cabo da sua espada.
Sinto que vêm aí problemas.
Nota da Autora: O prometido é devido! Eis um capítulo bem maiorzinho que o anterior. Espero que gostem.
Obrigado pelos reviews, Lyra e FLP.
Jokas.
