Capítulo XXII – A Tenda dos Feridos
O Sol adquirira um tom alaranjado. Dentro de cerca de meia hora, desapareceria no horizonte.
Os dois Cavaleiros ainda lutavam no espaço aéreo de Gil'ead. Aparentavam estar bastante cansados, não obstante, continuavam a combater com ferocidade.
Por vezes, um deles observava o que se passava ao nível do solo, avaliando, assim, o estado da batalha. Eragon, além disso, procurava caras conhecidas. Com alívio, constatou que o seu primo Roran continuava vivo, infligindo graves danos nas tropas inimigas.
O seu coração começou a bater desenfreadamente, no instante em que julgou ver uma jovem de cabelos ruivos, muito brilhantes. Contudo, nunca mais a viu. Acabou por concluir que fora uma ilusão, originada pelo cansaço extremo.
– Viste-a? – indagou, de repente, o outro.
– Quem?
– Maraya. Não sabias? Ela está aqui, a combater ao lado dos elfos.
Os dois irmãos estavam parados em pleno ar. Olhavam-se mutuamente, esquecidos do que tinham estado a fazer, segundos antes. Talvez por essa razão, não repararam numa figura escura que surgia ao longe.
De súbito, ambos os Cavaleiros tiveram de se segurar firmemente aos seus dragões, quando uma onda de fogo os obrigou a realizar uma complicada pirueta. Confusos, olharam em volta, procurando quem os tinha atacado.
Um terceiro Cavaleiro estava montado num dragão negro. Prontamente, foi reconhecido como sendo Galbatorix, o responsável por aquela guerra.
– Eragon, Destruidor de Espectros, saudações! Nem sabes quanto tempo é que eu esperei por este momento!
– O desejo é mútuo! – atirou o jovem. – Finalmente, deste a cara! Agora, terei a oportunidade de te vencer!
O dirigente do Império riu às gargalhadas. Quando se acalmou, observou o seu adversário que, intrigado, esperava que os risos terminassem.
– Pensas, jovem ingénuo, que me podes vencer? Oh, rapaz, pensei que fosses mais esperto! Brom não te ensinou a contar? Nós somos dois, e tu um. Ainda achas que tens alguma hipótese?
Eragon ia reagir, mas Murtagh foi mais rápido. Empunhou a espada em direcção ao irmão, murmurando um feitiço. A arma ficou logo incandescente.
Por momentos, as probabilidades de sobrevivência do mais jovem ficaram quase reduzidas a zero. Os seus rivais ladearam-no, impedindo-o de fugir. Ambos empunhavam as espadas, prontos a atacar.
Subitamente, uma presença estranha infiltrou-se na sua mente. Não parecia ter a intenção de o enfeitiçar; em vez disso, a voz de Murtagh sussurrou-lhe, como se tivesse receio de ser ouvido:
Prepara-te para fugir. Ao sinal de Thorn, voa o mais alto que puderes!
O quê? O que estás a dizer?
Não vou deixar que ele te mate, aqui, à minha frente! Ele já não precisa de ti, nem de Saphira. Penso que arranjou uma outra maneira de manter a espécie viva. Agora, não faças mais perguntas, caso contrário, Galbatorix pode desconfiar.
Mas tu juraste na língua antiga!
Eu receberei o castigo por ter quebrado esse juramento, de braços abertos.
Porquê?
Murtagh terminou a ligação telepática, sem responder.
Os acontecimentos seguintes decorreram a uma velocidade alucinante, no entanto, para o Destruidor de Espectros, demoraram uma eternidade.
Inicialmente, nada se passou. Os oponentes de Eragon continuavam a ladeá-lo, voando à sua volta. Então, Thorn expeliu fumo pelas narinas, num claro sinal. Rapidamente, Saphira voou em espiral, aproximando-se das nuvens, enquanto Murtagh avançava para Galbatorix. Olhando por cima do ombro, o seu irmão viu-o desferir um valente golpe sobre o chefe.
Não conseguiu distinguir o que se passou a seguir. Saphira voava a toda a velocidade, para longe dos outros Cavaleiros.
Onde vais?
Deixa-os, Eragon. Murtagh sabe o que está a fazer. Vamos ajudar Roran e os outros.
Sim, tens razão.
Sobrevoaram o campo de batalha, utilizando a apurada visão de dragão para procurar o seu primo. Encontraram-no prontamente, a comandar um grupo de Varden. Parecia praticamente ileso e incansável. Vendo que ele não precisava de ajuda, decidiram continuar a sua busca.
De repente, o Cavaleiro viu-a. Só podia ser ela. O seu cabelo ruivo era inconfundível. Lutava contra três Urgals, sozinha, junto das tendas destinadas aos feridos.
Imediatamente, o dragão começou a perder altitude, acabando por aterrar, perto do local. O seu Cavaleiro saltou da sela e correu na direcção de Maraya, derrubando e matando todos os inimigos que se colocassem no seu caminho.
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Galandy estava a aliviar as dores de uma Feiticeira, quando ouviu demasiado ruído, no exterior das tendas. Com a garganta seca, aproximou-se da entrada. Com uma preocupação crescente, viu dezenas de Urgals a correr na sua direcção. Os poucos rebeldes que defendiam aquela zona tentavam travá-los, sem sucesso.
– Maraya! Temos problemas!
A jovem juntou-se à amiga. Apesar de ter ficado sem pinga de sangue, tentou manter a calma. Com rapidez, percorreu todo o perímetro daquela enorme tenda, procurando uma saída segura. Como a sua busca se revelou infrutífera, optou por conversar com os feridos:
– Oiçam todos! As vossas vidas correm perigo. Se não agirmos depressa, nenhum de nós sobreviverá. Por isso, pedia um esforço suplementar a todos. – fez uma pausa para tomar fôlego. – Aqueles que puderem andar devem ajudar os que não podem. Peço-vos que se juntem todos naquele canto. – ordenou, apontando. – Se alguém conseguir combater, deverá juntar-se aos curandeiros.
Obedientemente, todos os doentes seguiram as suas ordens. A maioria encontrava-se a um canto da tenda, enquanto cerca de uma dúzia de guerreiros já recuperados se uniam aos seis curandeiros.
– Agora, eu vou enviar-vos para um local seguro. É uma caverna, do outro lado de Gil'ead. Lá, estarão em segurança.
Fechou os olhos, concentrando-se ao máximo. Já antes transportara animais e objectos magicamente, contudo, nunca experimentara com seres humanos. Não podia, no entanto, falhar.
Despendendo bastante energia, a jovem conseguiu tirar dali os enfermos, mesmo antes de um dos elfos presentes dar o alarme:
– Eles estão a chegar.
Pegando na sua espada, Maraya dirigiu-se para a saída, seguida pelos outros guerreiros. Virando-se para trás, ordenou a Galandy e a uma Feiticeira que arranjassem um esconderijo, algures, donde deveriam arremessar setas e feitiços, respectivamente. Nenhuma delas contestou a ordem dada, como se a Dama do Dragão fosse, efectivamente, a líder.
– Ao ataque!
A jovem movimentou bruscamente a sua espada, decapitando um dos inimigos. Atingiu outro no peito e pontapeou um terceiro. Parou uns segundos para descansar, antes de voltar à carga.
Ouviu as setas de Galandy a cortar o ar, bem como alguns feitiços. A maior parte foi certeira, mas, mesmo assim, os defensores continuavam numa preocupante situação de inferioridade numérica.
Minutos depois, três dos seus já tinham tombado, contrastando com as dezenas de Urgals que jaziam no solo. Todavia, o número de inimigos não parecia diminuir, muito pelo contrário.
Saltando por cima de um machado, Maraya decapitou outro adversário, antes de subir para cima de uns barris. Daí, utilizou a sua magia para atacar os seus oponentes, sem nunca baixar a guarda.
Isto está a complicar-se.
Felizmente, um grupo de elfos, comandados por Tygryve, veio em auxílio dos curandeiros. Após uma rápida troca de palavras entre os dois líderes, a luta recomeçou. Como se alguém tivesse atiçado as brasas de uma fogueira, os defensores ganharam força e, pouco a pouco, iam obrigando os inimigos a recuar.
Entretanto, Galandy tinha-se juntado aos amigos, combatendo no solo, furiosamente. Apresentava um corte profundo no ombro, o que não a impedia de continuar.
Após decapitar mais um Urgal, a jovem humana acorreu à amiga. Rapidamente, sarou-lhe o ferimento, não obstante os protestos da elfo.
– Maraya! – chamou Tygryve.
Ela olhou em redor e, mesmo a tempo, baixou-se, evitando ser degolada por um elemento do exército do Império. Apressou-se a derrubá-lo, aproximando-se, seguidamente, do amigo.
– Obrigada. Devo-te uma.
Matou um Urgal que ameaçava esmagar a cabeça do elfo.
– Agora já não. – retorquiu ele.
Os dois amigos encostaram-se, de costas, um ao outro, desferindo sucessivos golpes nos seus inimigos.
– Eu queria fazer-te uma pergunta. – disse o elfo.
– Força. – arfou a jovem, enquanto se apoiava no outro para pontapear alguém.
– Queres casar comigo?
Maraya sentiu-se corar, perante aquela pergunta. Não teve, contudo, tempo para pensar muito no assunto, já que teve de realizar um enorme esforço para evitar um golpe de espada. Atirou a sua própria espada para a frente, trespassando o seu inimigo.
– O quê?
– Eu amo-te… – exclamou Tygryve. – Aceitas casar comigo? Sei que não é o melhor momento, mas tinha de te dizer isto.
– Eu não… – começou a jovem, amparando um golpe com a espada, em simultâneo.
– Maraya! – gritou uma voz.
A jovem empurrou o seu inimigo e, deixando cair a espada, virou-se para o local donde provinha aquela voz.
– Eragon!
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Eragon estava cada vez mais perto do seu objectivo. Saltou sobre um Urgal meio morto, derrubando-o. Naquele momento, já conseguia ver a jovem, claramente. Lutava costas contra costas com um elfo loiro. Parecia que estavam a conversar.
Aproximou-se o máximo que pôde, subindo para cima daquilo que, outrora, fora um armário de medicamentos. Ia atacando, sem dó nem piedade, todos os que se lhe opunham.
Após matar um homem de Galbatorix, conseguiu ouvir o que o elfo gritava:
– Eu amo-te… – exclamou Tygryve. – Aceitas casar comigo? Sei que não é o melhor momento, mas tinha de te dizer isto.
O sangue do Cavaleiro do Dragão gelou. Por momentos, duvidou daquilo que ouvira. Contudo, a atrapalhação de Maraya confirmo-o.
Não podia ficar ali, a ouvir aquilo. Não aguentava pensar que a sua amada pudesse estar com outro homem.
– Maraya! – gritou, dando um espectacular salto de seguida.
