Capítulo XXIII – O Pôr-do-sol

O Cavaleiro do Dragão correu na direcção da jovem, sem se preocupar em destruir os seus oponentes. Por seu lado, ela também abandonou o seu posto, dirigindo-se ao seu amado.

– Maraya! – sussurrou Eragon, docemente.

Estavam muito perto um do outro. Tão perto que o jovem pôde ver duas lágrimas rolarem pela face dela.

– Estás bem? – perguntou ela, num fio de voz.

Os dois aproximaram-se ainda mais. Eragon colocou uma mão trémula na cintura da rapariga, puxando-a mais para si. Juntos, baixaram-se para evitar os golpes enfurecidos de um Urgal.

– Tive tantas saudades tuas! – admitiu Maraya, após esmurrar a criatura que os tinha atacado.

Convocou a sua espada, que jazia aos pés de Tygryve.

– Eu também. – disse o Cavaleiro, numa voz rouca. – Eu amo-te… não te quero perder de vista nunca mais.

Beijaram-se docemente, como se não estivessem em plena batalha.

– Eragon, … eu tenho de te dizer uma coisa. – afirmou a rapariga, sorrindo timidamente, assim que o beijo findou.

O rapaz obrigou-a a rodar, para poder atacar um outro inimigo.

– Eu estou grávida. – confessou, num murmúrio, colocando a mão livre do namorado na sua barriga.

O coração do Cavaleiro adquiriu um ritmo ainda mais acelerado, algo que ele nunca julgara que fosse possível. Como é ele pôde não reparar nas dimensões consideráveis da barriga dela?

– Eu vou ser pai? – inquiriu, pedindo, assim, uma confirmação.

Antes de responder, Maraya decapitou mais um Urgal.

– Sim. – confirmou. – Quem pensavas que era o pai do meu filho?

Inconscientemente, o olhar de Eragon procurou Tygryve. Ao seguir o seu olhar, a jovem apressou-se a dizer:

– O quê? Como é que tu alguma vez pudeste pensar que eu amaria outra pessoa, sem seres tu? – inquiriu, indignada.

Magoada, a jovem afastou-se do Cavaleiro. Rapidamente, aniquilou mais inimigos, canalizando a sua dor para a espada, que usava furiosamente.

– Não me podes culpar por estar com ciúmes! Eu ouvi o que ele te disse… Vi a maneira como olha para ti. Senti a vossa intimidade!

– Isso é porque ele é o meu melhor amigo. – guinchou a Dama do Dragão. – E isso não te dá o direito de duvidares de mim!

Eragon baixou a cabeça, envergonhado. Agarrou o pulso da namorada, sem força mas com firmeza.

– Estivemos separados durante sete meses… E, durante esse tempo, não consegui deixar de pensar em ti. Tens de compreender o que eu senti no instante em que ouvi o que ele te estava a propor! – justificou-se o Cavaleiro.

O olhar de Maraya perdeu dureza, no entanto, manteve a sua posição.

– Já te esqueceste do que eu te disse, antes de me ir embora? – inquiriu, amuada. – Eu disse que não me tinha esquecido do teu pedido. E espero que tu também não.

Os lábios do rapaz abriram-se num sorriso ténue, enquanto a sua expressão se iluminava. Aproximou o rosto do da namorada.

– Isso quer dizer que aceitas?

– Aceitei no momento em que me pediste. – admitiu ela, sorrindo também. – Como pudeste achar que eu seria capaz de aceitar dois pedidos de casamento? Eu já estava comprometida contigo! És…

Porém, Eragon não chegou a saber o que era, uma vez que os seus lábios se fundiram, novamente, num beijo apaixonado e demorado.

– Hei, não quero interromper, mas não é o melhor momento para isso! – advertiu Galandy, numa voz aguda.

Os jovens separaram-se, a custo. Lado a lado, encaminharam-se em direcção a um grupo de elfos, cercados pelos seus inimigos. Conjugando os seus esforços, derrubaram-nos num ápice.

Tygryve observava aquela cena de longe, interrompendo-se, apenas, para trespassar os seus inimigos com a espada.

Teve de concordar que aqueles dois faziam um par perfeito. Se já separados, eram guerreiros destemidos, juntos eram imbatíveis. Os seus movimentos eram suaves e coordenados, mas poderosos. Eram ambos ágeis, mesmo tendo em conta a gravidez avançada de Maraya. Parece que estão destinados um para o outro…

Sentiu uma pontada no peito. Galandy tivera sempre razão, quando lhe dissera que a humana estava apaixonada por outro. Se estava a sofrer, a culpa era dele, e só dele! Porque não dera ouvidos à amiga?

Olhou para o Cavaleiro que, naquele instante, puxara a jovem para si, de modo a protegê-la de um Urgal. Não conseguiu evitar sentir ciúmes e um ódio repugnante por ele. Calma, Tygryve. Ele não tem culpa. Tu é que te meteste no meio deles…

Magoava-o saber que Maraya estava apaixonada por Eragon. Só lhe apetecia esquecer que eles existiam! No entanto, não queria perder a amizade dela.

Claramente dividido, o elfo permaneceu quieto, longos minutos. Por sorte, nenhum dos seus adversários o atacou, caso contrário, teria morrido. Contudo, não se teria importado. Não conseguia desviar o olhar deles, muito menos o pensamento.

Ainda naquele estado de apatia e impasse, ouviu um bater de asas, vindo do céu. Virou-se rapidamente, dando de caras com um dragão negro, montado por Galbatorix. Este murmurava qualquer coisa, apontando a espada para o par.

Já desperto, o elfo começou a correr o mais depressa que pôde, rumo aos dois jovens, que não se tinham apercebido da chegada do Cavaleiro, nem do perigo que corriam.

Faltavam cinco metros para os alcançar, quando o feitiço foi lançado. Aumentou a velocidade da corrida. Tentou avisá-los, dizer-lhes para se protegerem, contudo, não conseguiu emitir um único som. Sem outra alternativa, fez algo que, há dois minutos atrás, tinha a certeza de que nunca faria: saltar para a frente de Eragon, que, por sua vez, se tinha colocado diante de Maraya, protegendo-a com o seu corpo.

Um clarão envolveu-os aos três, no momento em que o feitiço atingiu Tygryve no peito. Este deixou-se cair no chão, com uma pancada surda.

Os segundos que antecederam o desaparecimento do clarão foram demasiado longos, agonizantes e silenciosos. Não se escutava qualquer ruído, como se os combatentes tivessem parado de lutar. E, efectivamente, fora isso que ocorrera.

Assim que a luz voltou à normalidade, Galandy foi encontrar três pessoas prostradas no chão. Preocupada, aproximou-se o mais depressa que pôde, ajoelhando-se de seguida. Com alívio, constatou que a amiga e o Cavaleiro estavam bem, embora estando cobertos de sangue vermelho e negro. No entanto, Tygryve não tivera a mesma sorte.

A elfo reprimiu um grito, ao observar o amigo. A sua cor natural tinha desaparecido, sendo substituída por um verde de aspecto venenoso. Da sua boca escancarada brotavam finos fios de sangue, ao contrário do seu peito que, estranhamente, permanecia intocável. E, alarmantemente, não realizava qualquer movimento que indicasse que o elfo estava a respirar.

Temendo o pior, a elfo verificou se ele tinha pulso. Com o horror espelhado na face, compreendeu que o amigo estava morto.

– Não! – gritou, descontrolada.

As lágrimas brotavam-lhe dos olhos aos pares, rolando com rapidez. Estava pálida e trémula, como Maraya nunca a tinha visto. Esta última, por sua vez, permanecia quieta e silenciosa, sem reagir. Não chorava, no entanto, engolia em seco freneticamente.

– Eu odeio-te, Galbatorix! – berrou, irada, Galandy, dirigindo-se ao céu.

E ergueu-se, pronta a vingar a morte do amigo. Percebendo as suas intenções, Eragon apressou-se a agarrá-la, impedindo-a de se aproximar do Imperador.

– Larga-me!

– Não! Não vais conseguir derrotá-lo! Se combateres com ele, a única coisa que vais encontrar é a morte! – disse o Cavaleiro, debatendo-se para a imobilizar.

– Ele tem razão, Galandy. – afirmou Maraya, que, entretanto, já tinha voltado à realidade.

A elfo baixou a cabeça, derrotada. Assim que o rapaz a largou, correu de encontro ao corpo do seu melhor amigo. Carinhosamente, colocou a cabeça dele no seu colo e, com uma tira rasgada das suas roupas, limpou-lhe o sangue.

– Tu não podes fazer nada. Mas nós podemos! – exclamou a Dama do Dragão.

– Ouviste, Galbatorix? – indagou o namorado. – Prepara-te! Agora, despertaste a nossa ira!

Lá no cimo, sentado no seu dragão, o maléfico Cavaleiro observava a cena, rindo, especialmente das ameaças proferidas.

– Saphira! – chamou o seu Cavaleiro.

De imediato, a criatura surgiu do nada, aterrando ao lado dos amigos. Rapidamente, tanto Eragon como Maraya montaram, prontos para a luta. O dragão voltou a elevar-se nos céus, pairando frente-a-frente aos seus oponentes.

– Onde está Murtagh? – perguntou a jovem, preocupada, não com o aliado de Galbatorix, mas sim com o namorado.

– Tss, lamento informá-la, cara Dama do Dragão, mas esse traidor já está, a esta hora, a fazer companhia àquele elfo. – atirou o do dragão negro, numa voz de falsa cortesia.

A jovem sentiu a raiva do namorado, perante tal notícia. Colocou uma das mãos à volta da cintura dele, como se estivesse a tentar dizer que estava solidária com a sua dor. Em vez disso, aproximou-se mais e sussurrou-lhe:

– Não o oiças. Ele está apenas a tentar irritar-te! Para dizer a verdade, nem sei se hei-de acreditar nele… Afinal, o que se passou?

Eragon não respondeu, mas permitiu que a Dama do Dragão visse, na mente dele, o que aconteceu. No final, ela mantinha a sua opinião.

Murtagh é um osso duro de roer. Vais ver que está bem.

O seu rival mostrava-se vitorioso, certo de que iria ganhar. Ao fim de algum tempo de silêncio, anunciou, sarcasticamente, que gostaria de combater com o Destruidor de Espectros antes do final do dia.

Se é luta que queres, é luta que vais ter, pensou Saphira, zangada.

Maraya, vou-te deixar em segurança, enquanto luto com este palhaço. Eragon agarrou a mão da jovem, que ainda rodeava a sua cintura.

Não! Nem penses nisso! Esta luta não é só tua!

A minha decisão está tomada! Eu não quero que tu estejas em perigo. Para além do mais, o nosso filho vive dentro de ti; temos de o proteger! Apreensivamente, o rapaz argumentava com firmeza.

Além disso, eu não aguento muito tempo com tanto peso! Saphira rugiu, lançando fumo pelas narinas.

Está bem, está bem, concordou a rapariga, amuada.

Após deixar a namorada a salvo, em terra, o Cavaleiro e a sua montada prepararam-se para enfrentar os seus adversários, sem mostrar qualquer espécie de medo.

Os outros combates tinham cessado, definitivamente. A maior parte do exército do Império jazia por terra e os poucos sobreviventes aproveitaram o facto de os rebeldes estarem concentrados nos Cavaleiros do Dragão para fugir.

Maraya olhou em volta, procurando Galandy. Como esperava, a elfo continuava no mesmo local, acariciando o cadáver do seu melhor amigo. Já não estava a chorar e, apesar de continuar consternada, a sua face exprimia um sentimento de aceitação do destino.

Todos os outros guerreiros mantinham os olhos presos no céu, à espera do início do confronto. Este não tardou muito: com movimentos rápidos e um tanto graciosos, os dois rivais trocaram feitiços, após dos quais as suas espadas embateram, com ruído, sucessivas vezes.

Os minutos passavam, arrastando-se. Ambos os combatentes não apresentavam, ainda, sinais de cansaço, nem tinham a intenção de acelerar o ritmo da contenda. Poucas feridas tinham sido infligidas, o que contribuía para que a batalha permanecesse pouco interessante. Não obstante, as centenas de espectadores observavam-na fixamente, como se não conseguissem desviar o olhar, excepto a Dama do Dragão, que se encontrava de costas para Eragon e Galbatorix.

Não sabia muito bem porquê, mas sentiu uma intensa necessidade de fitar o Sol. Calculou que faltariam cerca de cinco minutos para o pôr-do-sol. Era espantosa a velocidade a que os acontecimentos tinham decorrido! Meia hora antes, ainda não se tinha encontrado com Eragon e Tygryve continuava vivo…

Subitamente, ouviu um murmúrio, apenas audível para ela:

– Ao pôr-do-sol, só um de nós continuará de pé. E esse, sim, será o vencedor.

Por momentos, pensou tratar-se de uma memória de Eragon, a que ela tivera acesso há pouco tempo. Contudo, sentindo uma presença estranha nas suas costas, virou-se. Com o susto, saltou para trás, tropeçando num cadáver. Teria caído, se não fosse pela intervenção do Cavaleiro que estava à sua frente: Murtagh.

– Estás vivo. – constatou, estupidamente, a jovem.

– Acho que sim. – confirmou o moreno, sorrindo.

A ruiva reparou no aspecto do rapaz: estava imundo, como se tivesse caído numa poça de lama. Provavelmente, até caiu, não conseguiu deixar de pensar maliciosamente. Estava ferido em várias partes do corpo, com uma certa gravidade. No seu rosto, estava reflectida uma grande dose de dor, mas também determinação.

– Tens razão. – disse ela, evasivamente.

– Sobre o quê?

– Sinto que, ao pôr-do-sol, tudo isto irá terminar.

– Hum. – fez o Cavaleiro. – Espero bem que sim, contudo, acho que isso só vai ser possível se Eragon receber uma ajudinha externa.

– De que estás a falar? – inquiriu, incrédula, a rapariga.

– De nós.

A ruiva adoptou uma expressão céptica, enquanto mirava o outro. Com surpresa, não encontrou qualquer réstia de maldade nos seus olhos, como dantes.

– O que se passou contigo? – perguntou, curiosa.

– É uma longa história. Resumindo, desde aquela batalha aérea, tenho estado a pensar na minha vida e nas minhas opções. Decidi que não quero continuar a ser manipulado por Galbatorix, mesmo que isso signifique morrer. – explicou, com o olhar perdido. – Ou seja, quando o Sol desaparecer do horizonte, eu estarei morto, por ter quebrado a minha promessa na língua antiga.

Maraya, pela primeira vez, sentiu pena de Murtagh. Desde o momento em que nascera, estivera condenado a uma vida de suplício e sofrimento. E, agora que sabia que a sua hora estava próxima, não mostrava medo, mas sim uma grande determinação. Surpresa consigo própria, a jovem deu por si a admirá-lo. Descobriu, ainda, que já não tinha medo dele, nem era invadida por uma sensação de nojo.

– E o que pretendes fazer? – perguntou, assim que se recompôs.

– Um Cavaleiro tem uma força sobre-humana. Dois Cavaleiros têm o dobro. Mas se juntarmos uma Dama do Dragão, esse poder aumenta ainda mais. Ou seja, proponho que nos aliemos a Eragon e, juntos, destruamos Galbatorix.

A ruiva hesitou, durante uns escassos segundos, antes de concordar. Procurou o dragão vermelho do seu ex-inimigo, com o olhar. Como não o encontrou, decidiu inquirir o Cavaleiro sobre o paradeiro da sua montada.

O olhar de Murtagh endureceu, dando uma resposta clara à jovem: Thorn morrera.

– Sinto muito…

– Não sintas. Em breve, eu juntar-me-ei a ele. – afirmou ele, convictamente.

Pegando na mão de Maraya firmemente, fechou os olhos, concentrando a sua energia. No momento seguinte, um dragão semitransparente surgiu à frente deles. Prontamente, montaram-no, desembainhando as espadas em simultâneo.

A estranha criatura levantou voo e dirigiu-se, silenciosamente, aos dois combatentes.

Reprimindo um grito, a ruiva constatou que Eragon apresentava um ferimento grave no ombro, dificultando-lhe a tarefa de manejar a espada.

Eragon! Não olhes para mim, caso contrário, atrairás a atenção de Galbatorix. Eu estou por trás dele, com Murtagh. Juntos, vamos destruí-lo.

O Cavaleiro de Saphira obedeceu às ordens da namorada, continuando a distrair o seu adversário, dando tempo aos outros de se aproximarem.

Nervosamente, Murtagh fitou o Sol, calculando os minutos de vida que ainda lhe sobravam. Sussurrou à sua "companheira de viagem" que tinham de agir em dois minutos, logo só tinham uma oportunidade, que não podiam desperdiçar.

Colocaram-se mesmo atrás do malvado rei, antes de Maraya o chamar, numa voz trocista:

– Hei, cabeça de peru!

Como desejava, Galbatorix virou-se para trás, buscando a dona daquela voz. No entanto, unindo esforços com o moreno, a ruiva tinha-os tornado invisíveis, contribuindo para a confusão do seu inimigo.

Eragon aproveitou a distracção do seu adversário para investir, empunhando a espada à sua frente. Simultaneamente, os outros dois imitaram-no, mas do lado contrário.

Indeciso entre algo que não podia ver e o Destruidor de Espectros, o governador do Império hesitou uns preciosos segundos, antes de voltar a sua atenção para o Cavaleiro de Saphira. Este já estava muito perto. Demasiado perto…

Num segundo, três espadas perfuraram o corpo do ditador, provocando um arrepio indescritível nos três aliados. Galbatorix fechou os olhos com força, certamente devido às atrozes dores que sentia. Simultaneamente, o seu dragão negro começou contorcer-se, soltando gemidos horríveis, que gelaram o sangue de Saphira.

Eragon, Maraya e Murtagh (já visíveis) retiraram as suas espadas, um a seguir ao outro, com uma expressão determinada e um pouco triunfante. Assim que a última espada deixou o corpo do maléfico Cavaleiro, este e o seu dragão começaram a perder altitude, acabando por cair por terra.

Os três vencedores também regressaram ao solo. Inconscientemente, todos olharam para o Sol que desaparecia no horizonte. O moreno avançou, decidido, em direcção a um espaço vazio, onde se sentou de olhos fechados. A sua respiração era ofegante, apesar de ele estar exteriormente calmo.

Um último raio de Sol iluminou-o, antes de o astro desaparecer. E, com ele, um dos últimos Cavaleiros do Dragão.