Disclaimer: Inuyasha não me pertence, faço este fic sem fins lucrativos, apenas por diversão.
The Roses' Sound
(O Som das Rosas)
Capítulo Dois: Olhares
Dedicado à Palas Lis, por que Mitz-chan a ama muito! - e por que é um presente de dia das crianças!
Também como uma singela homenagem a uma amiga que já não está mais conosco…
Quando Sesshoumaru abriu os olhos por conta da iluminação matinal em seu quarto, ficou parcialmente feliz em saber que era sábado. O dia estava bem ensolarado. Só não tinha muito que fazer num fim de semana. Começaria a trabalhar de verdade na empresa e nos negócios deixados por seu pai apenas na segunda-feira, mas entre estar trabalhando e não ter nada o que fazer, definitivamente ficava com a primeira opção.
Levantou-se, bocejando demoradamente, abriu as portas da sacada para que entrasse ar em seu quarto. Tinha que mandar trocar urgentemente aquelas cortinas claras por cortinas de verdade, escuras e que evitassem a entrada da luz do sol em seu aposento, acordando-o eventualmente. Quando ia para o banheiro em seu quarto, parou ao perceber que Rin parecia estar muito bem acordada. Ela estava naquele mesmo jardim de rosas, mas não parecia estar cuidando das rosas e sim procurando alguma coisa entre elas.
Ele parou por um minuto, observando o que ela estava fazendo, e de tanto mexer naquelas roseiras, sem se ferir, finalmente pareceu encontrar o que queria. Um pequeno gato branco saiu correndo por entre as plantas, e ela seguiu-o. Parecia um pequeno filhote, mas bem energético. Depois de correr por alguns segundos em círculos atrás do pequeno animal, Rin finalmente conseguiu segurá-lo. Sentou-se no chão, de costas para a sacada de Sesshoumaru, com o pequeno gato em seu colo.
Sesshoumaru estava se perguntando como alguém em sã consciência poderia estar acordado àquela hora da manhã – por volta das oito horas –, num dia de sábado e ainda por cima, perseguindo um gato?
Perdido em seus pensamentos, não percebeu quando o pequeno animal olhou para ele, nem mesmo se quisesse o teria percebido por conta da distância e do tamanho do bicho, mas aquele ato do gato pareceu avisar Rin sobre estar sendo observada, pois ela levantou-se e virou-se para o lugar onde Sesshoumaru estava, encarando-o direto nos olhos. Ele continuou sem mover-se, encarando-a tal como ela o fazia. Uns dois minutos depois, ela sorriu para ele, como se apenas ver a sua figura fosse algo extremamente feliz.
Viu quando ela vez uns movimentos breves com as mãos para ele, seria um "bom dia" talvez? Ele não fazia a mínima idéia. Ela poderia estar xingando-o e ele nunca desconfiaria, mas nem teria por que desconfiar… não entrava em sua cabeça aquela associação. Sem saber o que fazer ou responder, ele ficou apenas inerte do mesmo modo como estava. Totalmente alheio às palavras dela.
Mesmo sem resposta alguma, ela lhe sorriu e acenou – um gesto que ele finalmente reconhecia –, despedindo-se e virando-se para entrar em casa mais uma vez, agora com o pequeno animal de estimação nos braços.
Ele ainda permaneceu parado por alguns minutos, até que ouviu o bater da porta, indicando que alguém estava do lado de fora.
– Entre. – ele disse simplesmente, voltando para dentro do quarto e deixando as portas da sacada abertas, como pretendia desde o começo.
Uma das empregadas abriu a porta e curvou-se num sinal de respeito.
– Sesshoumaru-sama, sua mãe, Izayoi-san, pergunta se quer se juntar a ela no café da manhã. Será servido dentro de quinze minutos. – a mulher falou sem encará-lo nos olhos.
– Hai. – ele respondeu, virando-se para seguir até a porta do banheiro.
– Sumimasen. – foi a última coisa que ele ouviu da empregada quando a porta se fechou mais uma vez.
Sesshoumaru entrou no banheiro e tomou seu banho, trocou de roupa e apenas vinte minutos depois desceu para o café da manhã, chegando à sala de jantar, descobriu que Izayoi não o tinha esperado por muito tempo, estava começando a sua refeição naquele instante.
– Oh, ohayou Sesshoumaru. – Izayoi cumprimentou-o educadamente. – Dormiu bem?
– Hai. – ele respondeu, sentando-se num dos lugares vazios da mesa, diante de Izayoi.
– Hm, você está planejando alguma coisa para hoje? – Izayoi perguntou, levandoo copo de suco até os lábios logo em seguida.
– Iie. – Sesshoumaru disse mais uma vez produzindo um simples monólogo… como era costume.
– Oh, vai ficar em casa o dia todo? – Izayoi perguntou não querendo acreditar. – Poderia sair e dar uma volta, rever a sua cidade natal…
– Não estou com disposição. – aquela era só uma outra palavra para a sua falta de vontade de sair de casa… realmente não conseguia pensar em nada de interessante para fazer visitando a cidade.
– Oh, tudo bem então. – Izayoi concordou. – Eu marquei de sair com Nayako. Provavelmente Rin-chan deverá vir para cá hoje… vocês podem se fazer companhia.
– Ela não vai com vocês? – Sesshoumaru perguntou de maneira curiosa.
– Rin-chan não é o tipo de garotas que gosta de sair nos fins de semana para fazer compras e ir a salões de beleza. – Izayoi disse balançando a mão num sinal de irrelevância. Sesshoumaru ergueu uma sobrancelha diante do que Izayoi dissera. – Não que eu e Nayako saiamos para fazer isso… mas estou especificando. De qualquer jeito, vamos para um chá com velhas amigas, uma reunião, assim digamos… apenas para lembrar os velhos tempos. Acho que Rin não se sentiria à vontade, ninguém da idade dela.
– E por que acha que ela virá? – Sesshoumaru perguntou, depois de tomar um gole de seu chá.
– Ora, por que ela sempre vem. – Izayoi falou como se aquilo fosse algo óbvio demais para ser perguntado. – Ela adora ficar com Kaede. E ajudá-la no jardim. Além do mais, odeia ficar sozinha em casa, e como Nayako sairá hoje, ela virá com toda a certeza.
– Eu pensei que Kaede trabalhasse na cozinha. – Sesshoumaru falou, lembrando-se do dia anterior quando encontrara a velha senhora.
– Também. – Izayoi falou. – Ela é como a governanta da casa. Você não lembra mesmo das pessoas não é? Ela que cuida da ordem aqui dentro, assim digamos. Mas ela sempre dá um pouco mais de cuidado ao jardim de sakura's.
Sesshoumaru não respondeu mais nada, mas foi Izayoi quem voltou a falar, mudando completamente de assunto.
– Ah, eu falei com o seu irmão hoje, ele ligou, disse que está tudo bem por lá, e que nas férias ele virá para nos visitar. – Izayoi disse parecendo empolgada com a idéia.
– Nos visitar? – Sesshoumaru questionou. Era tão óbvio, assim como a água é transparente, que Inuyasha não estava nem aí para o irmão mais velho, iria apenas por consideração à sua mãe.
– Não seja bobo, Sesshoumaru. – Izayoi repreendeu como se ele ainda fosse alguma criança.
– Estou sendo apenas realista. – Sesshoumaru ratificou.
– Claro que está, se fosse desse modo, sempre estaria. – Izayoi zombou do comentário. – Bom, de qualquer jeito eu vou terminar logo o café da manhã para passar na casa de Nayako. Você tem mesmo certeza de que vai ficar em casa?
Como resposta àquela pergunta, Sesshoumaru apenas lançou um olhar de soslaio para a madrasta, o que respondeu a pergunta e servia de resposta para as perguntas que viessem a se seguir também.
– Tudo bem, já entendi tudo. – Izayoi disse. – De qualquer jeito, divirta-se no seu ócio aqui dentro desta casa.
– Não se preocupe quanto a isso. – Sesshoumaru respondeu simplesmente.
– Você não tem jeito mesmo. – Izayoi disse balançando a cabeça de maneira pesarosa.
Eles continuaram a sua refeição calados durante o resto do tempo. Vez ou outra, comentavam sobre algum assunto da empresa, ou então sobre Inuyasha que ficara na Europa, mas claro que apenas Izayoi comentava realmente o assunto. Assim que ela terminou de comer, e foi a primeira a fazê-lo, levantou-se da mesa, virando-se para o filho.
– Bom, está na minha hora. – Izayoi disse após se levantar. – Eu vejo você no jantar.
– Hai. – Sesshoumaru respondeu juntando todas as respostas que precisaria dar em apenas uma palavra, como era o seu costume.
– Ja matta ne. – Izayoi despediu-se mais uma vez e saiu pelo portal que dava na sala de estar para seguir até o hall de entrada, passar no quarto que ficava no primeiro andar e descer com a bolsa até o carro que já esperava na porta.
Diferente de Izayoi, que se apressara para terminar a refeição e que comia menos, ele demorou-se por mais uns minutos até terminar o seu café da manhã e ordenar aos empregados que retirassem a mesa. Ele simplesmente voltou para o seu quarto, e num impulso que nem ele mesmo soube explicar, a primeira coisa que fez foi dirigir-se à sacada e observar o jardim da casa vizinha.
Ela não estava lá naquele momento. Claro que era de se esperar. Ela não poderia ficar lá o dia inteiro, então teriam horas que certamente ele não poderia observá-la. Afastou-se da sacada fechando as portas desta e saiu do quarto. Andou até o escritório, não tinha nada para fazer, então nada melhor que sentar-se e observar os negócios de família.
Voltar a trabalhar só na segunda-feira estava se tornando algo tedioso. Ele não era o tipo de pessoa que sabia aproveitar as horas vagas, que tinha algo para fazer… como Izayoi mencionara, ele iria ter que divertir-se com o ócio, algo que parecia realmente sem futuro.
Por um momento, apenas repousou a cabeça no encosto da poltrona de couro, do mesmo modo que seu pai gostava de fazer. Mas não se demorou muito tempo ali, vagando em sua própria mente e seus próprios pensamentos confusos.
Cansado de ficar sem fazer nada, desceu as escadas e parou quando passou perto da porta da cozinha. Ouviu umas breves risadas vindas de lá, de alguém já idoso, com certeza. Seguiu até esta e parou no portal ao ver Kaede a conversar com aquela garota de longos cabelos negros e olhos chocolate. A sua vizinha que cuidava das rosas.
– Oh sim, as flores estão ficando lindas. – Kaede dizia diante do sorriso de Rin.
Ela ia fazer alguns gestos para continuar o seu assunto com Kaede, mas pareceu ter percebido a presença de Sesshoumaru e virou-se para observá-lo antes de gesticular qualquer palavra. Kaede fez o mesmo ao notar o movimento de Rin.
– Ah, Sesshoumaru-sama, não sabia que estava aí. Deseja alguma coisa? – Kaede perguntou.
– Iie. – ele respondeu simplesmente, visando sair logo do lugar para que as duas voltassem à sua conversa habitual. Mas antes que desse um passo sequer, observou que Rin fez uma seqüência de gestos com as mãos, uma seqüência que parecia direcionada a ele.
Sesshoumaru parou e ficou observando, assim como kaede. Mas ele não conseguia entender nenhum dos poucos movimentos desenhados por ela. Aquilo parecia realmente frustrante… não conseguia entender alguém que estava bem ao seu lado, mas que embora não use simples palavras. Ficou calado por uns segundos até que ouviu uma voz, certamente que não era a de Rin.
– Ela está lhe dando bom dia, Sesshoumaru-sama. – a velha senhora falou, traduzindo os gestos da mulher que continuava parada ao seu lado.
Rin ainda sorria e Sesshoumaru sentia-se ainda mais incomodado por não entendê-la. Realmente estava se achando um completo idiota, não exatamente por não compreender os movimentos, mas por ainda não ter respondido a pergunta.
Sem que percebesse, ela fez mais uma seqüência de gestos, dessa vez dirigidos à Kaede. A senhora sorriu quando ela terminou.
– Iie, Rin-chan. – Kaede falou. – Não tem nada de errado com Sesshoumaru-sama. Ele só não gosta de falar.
Rin mantinha um semblante interrogativo em seu rosto, fez mais uma seqüência de gestos e mais uma vez Kaede sorriu.
– Oh sim, Sesshoumaru-sama falava mais quando criança. – Kaede confirmou. – Isso mostra que os dois mudaram do mesmo jeito.
Pela primeira vez naquela manhã, Sesshoumaru entendeu o simples menear de cabeça positivo dela. E mais uma vez as duas mulheres presentes na sala o encaravam. Ele virou o rosto e retirou-se do lugar, queria ficar perto dela e ao mesmo tempo não queria. Não gostava da sensação de não poder entendê-la, mas quando a sós, como da última vez no jardim, parecia que conseguia entendê-la mesmo sem saber o significado de seus gestos.
Andou por toda a casa, tentando encontrar um lugar do qual se agradasse… onde se sentisse bem e sozinho. Abriu uma porta no primeiro andar a qual ainda não tinha dado atenção. Reconheceu o lugar de cara, era uma sala de jogos montada por seu próprio pai. Tinha uma dezena de jogos ocidentais, uma mesa de sinuca, um tabuleiro de xadrez, tabuleiros de damas, mesa de pôquer e alguns jogos orientais, como não devia deixar de ser. Os que mais se destacavam no momento eram os dados de apostas, muito comuns e ilegais no período feudal, e também o tabuleiro de go, outro jogo muito tradicional. Todos pareciam simplesmente intocáveis durante aqueles anos que se passaram. Ele sentou-se na poltrona da mesa de xadrez, aprendera a jogar com seu próprio pai enquanto viviam na Europa. Era um jogo ocidental que muito lhe agradava, um jogo de raciocínio rápido e estratégia, características que ele se orgulhava de ter, mas claro que as mesmas se aplicavam ao jogo de go, o que ele aprendera bem antes, mas lamentava ter esquecido como jogar.
Depois de algum tempo apenas observando as peças, já posicionadas para o início do jogo, moveu o cavalo, como se estivesse prestes a começar uma partida, mas não havia nenhum oponente em vista, pelo menos não até aquele momento.
Escutou o barulho da porta abrir, mas não se deu ao trabalho de virar para ver quem era, devia ser um dos empregados que viera limpar e assim que o vissem pediriam licença e se retirariam. Mas enganou-se quando a pessoa sentou-se na cadeira diante da dele, observando o tabuleiro de maneira pensativa. Parecia até querer montar uma jogada.
– Rin? – ele questionou ao vê-la diante de si.
A mulher ergueu a cabeça ao ouvir seu nome e sorriu para ele, confirmando a sua presença e se nome num simples menear de cabeça, como se ele já tivesse esperando por aquilo.
Ela passou alguns minutos apenas observando o jogo, agora de maneira confusa. Sesshoumaru encarava-a também com uma indagação em mente. Será que ela sabia jogar aquele tipo de jogo? Suas questões foram respondidas quando ela começou a reposicionar todas as peças sem nenhuma exceção, até mesmo as dele.
– O que está fazendo? – Sesshoumaru perguntou depois que ela começou a movê-las, como se ela fosse responder de algum modo que ele entendesse afinal.
Claro que não obteve respostas, ela apenas parou de mover as peças quando todas estavam rearmadas como num tabuleiro de damas. Então ela moveu um dos peões como se movia uma peça de damas. Ergueu a cabeça até ele e sorriu.
– Por que fez isso? – Sesshoumaru questionou e ela respondeu com seus gestos.
Ele ainda tentou entender algo, mas foi impossível. Ela repetiu a mesma seqüência, como se esperasse que ele entendesse o que queria dizer, mas ele não respondeu nada. Ficou calado por um momento e finalmente voltou a falar.
– Eu… não entendo o que quer dizer. – ele confessou finalmente.
Ela ficou parada por um momento depois que ele falou, apenas observando-o. Sorriu e levantou-se, procurando alguma coisa na sala, Sesshoumaru acompanhou-a com o olhar. Ela correu até um gabinete perto da mesa de pôquer, abriu algumas gavetas até finalmente encontrar o que queria. Uma pequena caderneta com uma caneta. Voltou para a poltrona diante de Sesshoumaru e sentou-se, apoiando a caderneta nas pernas e começando a escrever. Sesshoumaru esperou até que ela terminasse de escrever e estendesse o objeto para ele.
"Você não precisa entender meus gestos para entender o que quero dizer… só precisa sentir… você pode fazer isso?"
Sesshoumaru encarou-a depois de ver o que tinha escrito na pequena folha. Ela sorriu para ele. Antes mesmo que ele dissesse ou respondesse algo sobre o que tinha acabado de ler, ela voltou a olhar o tabuleiro e moveu mais uma vez a peça que tinha movido no começo, colocou-a em seu lugar, e em seguida, fez um outro movimento, resultado de sua mudança de idéia e talvez de estratégia também.
Sesshoumaru dobrou o pequeno papel e fitou o tabuleiro, parecia que ela não sabia jogar xadrez então arrumara a opção de jogarem damas, mesmo que com as peças de xadrez.
Estendeu o braço e fez o movimento com uma de suas peças também, observando a posição quase que infantil em que ela estava. A garota apoiava o queixo nas mãos e os braços nos joelhos, observando o tabuleiro de maneira atenta. Vê-la daquele jeito despertou nele uma imensa vontade de rir. Não sabia porque… mas fazia muito tempo que não ria… e com um simples movimento dela, aquela vontade voltava de muito longe no tempo.
Tão entretido que estava em seus pensamentos que não percebeu quando ela fez a própria jogada e permaneceu a fitá-lo, como que o avisando para continuar o jogo. Ele estendeu o braço para fazer mais um movimento e enquanto isso, observando-a, uma pergunta fluiu quase que naturalmente de seus lábios.
– Você gosta de damas? – ele perguntou, depois que fez o movimento com a peça.
Ela ergueu o rosto para ele – que até então estivera fixo no tabuleiro – e meneou a cabeça negativamente, voltando a atenção para o tabuleiro mais uma vez e analisando-o para fazer o seu movimento.
Sesshoumaru arqueou uma sobrancelha diante do que ela lhe respondera… ela não gostava de damas? Então por que o estava jogando naquele momento?
– Então por que está jogando? – ele perguntou no exato momento em que ela moveu a sua peça.
Rin ergueu o rosto para ele, encarando-o de maneira interrogativa, parecia pensar na resposta que daria para ele. Sesshoumaru encarou a expressão confusa dela, esperando talvez por uma seqüência de gestos que ele não entenderia ou algo do gênero, mas na verdade, a única resposta que teve foi vê-la dando de ombros… parecia que nem ela mesma sabia por que estava jogando.
Dessa vez ele arqueou ambas as sobrancelhas, ela também não fazia a mínima idéia do porquê de estar jogando com ele, simplesmente estava jogando um jogo que não gostava por sinal. Mais uma vez teve vontade de rir… rir dela? Como alguém poderia ser daquele jeito, tão natural? Espontâneo… fazer as coisas apenas por fazer? Parecia tão surreal para ele, sem sentido… parecia infantil demais. Era como ele lembrava-se vagamente da Rin criança.
Balançou a cabeça para os lados para poder tirar aqueles pensamentos de lá… ela não gostava do jogo, mas estava jogando-o – sabia-se lá porquê –, então ele simplesmente continuaria também.
Quando estendeu o braço para mais uma vez movimentar uma das peças, sentiu seu pulso ser detido no meio do caminho. Rin o segurara pelo punho e o olhava sorridente. O que estava acontecendo com ela dessa vez?
– Mas o que…? – antes que pudesse completar a frase, Rin estava puxando-o pelo braço para fora daquela sala, a passos rápidos e largos. Se ela apressasse o passo um pouco mais certamente começaria a saltitar no meio da casa. – O que…
Antes de completar a frase mais uma vez, Rin simplesmente olhou para ele e sorriu, continuando a andar apressadamente ao longo do corredor. Ele não viu outra saída a não ser acompanhá-la e descobrir o que aconteceria ao final da toca do coelho, não era mesmo?
Desceram as escadas, quase pulando de dois em dois degraus. Ele tinha certeza que mais um pouco e ela provavelmente se despedaçaria contra o chão. Talvez, mais uma vez, por instinto ele segurou a mão dela de volta, como que para assegurar que ela não acabaria caindo.
Rin pareceu hesitar por um minuto, diante do toque dele, mas não o deixou transparecer e continuou a correr, logo ela terminara de percorrer os degraus e por pouco não esbarrava em Kaede que passava na direção da sala.
– Oh! Por que a pressa, Rin-chan?! – Kaede dirigiu a palavra à menina, parecia ignorar completamente a presença de Sesshoumaru, exceto por um discreto olhar que lançou às mãos dadas dos dois.
Em resposta, Rin fez a sua usual seqüência de gestos, mas dessa vez apenas com a mão livre, era como se não quisesse deixar Sesshoumaru escapar de si.
Naquele momento, o sentimento que tinha com relação à Rin voltou a aflorar, ele queria e ao mesmo tempo não queria ficar perto dela, não a entendia, mas sentia-se bem de estar ao seu lado, era frustrante e ao mesmo tempo, reconfortante.
Apenas deu-se conta que ela terminara de responder à Kaede por ter ouvido a voz da senhora.
– Oh, vocês vão passear então? – ela falou e Sesshoumaru imediatamente arqueou as sobrancelhas. Como assim passear? Ele não tinha concordado com aquilo, que história era aquela? Mas Rin confirmou a indagação de Kaede com um menear de cabeça positivo. – E devo esperá-los para o almoço?
Kaede falava diretamente com Rin, era como se Sesshoumaru fosse invisível, ou como se a opinião do dono da casa simplesmente não contasse em nada. Mais uma vez Rin respondeu e Kaede abriu mais o sorriso.
– Então, divirtam-se. – ela disse, dando espaço para que Rin passasse acompanhada de Sesshoumaru. – Até mais tarde.
Kaede continuou o seu caminho para a sala de estar enquanto Rin voltou a puxar Sesshoumaru pelo braço, agora eles estavam de mãos dadas, literalmente, embora Sesshoumaru parecesse não ter percebido.
Ele ainda estava perdido em pensamentos sobre não ter concordado com aquela idéia de sair para um passeio. Mas ainda assim, era uma boa idéia… sair para um passeio com uma companhia agradável. Há quanto tempo não se distraía assim? Não havia nada mais que pudesse fazer naquele lugar, de qualquer jeito.
Deixou-se levar ao longo do caminho até sair da casa enorme e começarem a percorrer a calçada, olhando os vários transeuntes ao longo desta. Agora ela não mais o puxava consigo, apenas andava lado a lado com ele, olhando diretamente para frente, nunca o encarando.
Apenas no momento em que ela parou para andar ao seu lado, ele percebeu que estavam de mãos dadas. Olhou para as mãos entrelaçadas e pensou em soltá-la, mas Rin parecia não estar incomodada com aquilo, e fazê-lo poderia soar como uma grosseria. Mas havia outra questão em sua mente… por que soltar a mão dela se aquilo não lhe incomodava nem um pouco?
Olhou tanto para as próprias mãos que nem percebeu o quanto eles já tinham andado. Era incrível como ela tinha o dom de prender toda a sua atenção, fazendo-o desligar-se do mundo a sua volta. Apenas voltou a si quando ela parou de súbito e repentinamente voltou a correr. Ele precisou olhar para frente para não esbarrar em nada.
Rin havia parado diante de um parque de crianças, cheio de brinquedos infantis como gangorras, balanços, escorregadores, caixas de areia… havia um número consideravelmente grande de garotos que eram vigiados por seus responsáveis. Mas o que exatamente Rin estava fazendo com ele no meio daquele monte de crianças, era uma coisa que ele queria mesmo descobrir.
Ela continuou a guiá-lo até parar diante dos balanços. Haviam três enfileirados, mas nenhum deles estava ocupado. Parecia que as crianças estavam ocupadas demais correndo por todos os lados para pararem um pouco e sentarem-se. O objetivo dela agora parecia mais que claro, ela agia realmente como uma criança… Sesshoumaru pensou naquele momento se ela tinha mesmo ou não seus 26 anos de idade.
Rin soltou a mão dele apenas para sentar-se num dos balanços e começar a impulsionar com os pés. O sorriso dela se alargava impressionantemente a cada ida e volta do brinquedo. Era como se fosse a primeira vez que se divertisse tanto daquele jeito. Aos poucos, aquela mesma cena se repetia… era como o movimento pendular do balanço. A cena se repetia, mas em suas memórias… Rin balançava de lá para cá, mas ela era menor, era uma criança… sorria do mesmo jeito embora naquela época, houvesse vozes.
– Sesshoumaru! Venha, vamos brincar no balanço que otou-san colocou no jardim! – era uma voz infantil, vinda de uma criança sorridente, que saltitava bem diante de seus olhos inexpressivos.
– Hai… – assentia com um simples movimento de cabeça e um monossílabo. Era o suficiente para que ela lhe tomasse as mãos e o guiasse para onde quer que fosse… ele sempre ia.
– Vamos, você me balança? Hein? Eu ainda não brinquei lá, poderíamos brincar todo dia, você quer que eu te balance também? Você nunca gosta de brincar… você precisa fazer mais coisas…
As palavras continuavam de maneira quase que desenfreada. Ela falava tanto… era tão diferente de agora.
– Ei! – ele escutou uma voz infantil invadir seus ouvidos. Por um momento, surpreendeu-se, pensando que ela tivesse vindo de Rin, mas ao prestar mais atenção, era apenas mais um garoto que passava correndo pelo parque atrás de algum amigo.
Rin ainda estava sentada no balanço, mas tinha parado de se balançar, estava apenas segurando as correntes e olhando para os pés enquanto movia os dedos dos pés, agora descalços – havia deixado as sandálias rasteiras ao lado do balanço.
Ele aproximou-se dela, com as mãos nos bolsos.
– Cansada? – ele perguntou, fazendo-a olhar para si de maneira interrogativa.
Logo a expressão neutra dela tornou-se num sorriso largo, quando ela balançou a cabeça de maneira positiva, levantando os pés para que não tocassem no chão. A garota ficou a fitar os próprios pés e apenas percebeu o movimento de Sesshoumaru quando sentiu as mãos dele quase tocarem as suas por trás, quando o homem segurou as correntes do brinquedo, começando a balançá-la levemente.
Rin impressionou-se, observou-o nos olhos, não conseguindo definir alguma expressão em seu rosto, como sempre, estava simplesmente impassível. Mas ainda assim, algo lhe dizia que o antigo Sesshoumaru estava ali, de volta, pelo menos naquele simples momento, repleto de boas lembranças. Por um momento ela ficou em dúvida sobre que expressão lhe retribuir, ele a encarava também, os olhares se cruzavam, mas ela não tinha idéia do que fazer, era como um sonho, não? Mas dessa vez ela não lhe pedia para balançar mais rápido. Não podia…
Antes que ele percebesse o seu semblante mais entristecido, ela sorriu, como sempre fazia, simplesmente sorriu e a cada movimento do brinquedo, ela sorria mais largamente.
Aos poucos, os impulsos que ele dava no balanço ficavam mais fortes e a garota ia mais alto. Apenas depois de todo aquele tempo mergulhado em pensamentos perdidos, percebeu o que estava fazendo. Sesshoumaru afastou-se dela e sentou-se no balanço ao lado, observando-a divertir-se, sem impulsionar o brinquedo, apenas parado, olhando-a. Estava curioso sobre uma coisa, mas não sabia se deveria perguntar, e também não sabia se teria uma resposta… provavelmente ele não a entenderia, como sempre.
Aos poucos, o balanço foi perdendo o impulso até parar lentamente, apenas nesse momento, Rin olhou para Sesshoumaru e percebeu que ele a observava. Mais uma vez seus olhares se encontraram. Ela sabia, sentia que ele queria lhe falar algo, mas não teria como perguntar… não queria fazê-lo. Apenas continuou a encará-lo por algum tempo, como se aquela simples troca de olhares pudesse responder a todas as perguntas de ambos.
– Por que… por que você não fala? – ele finalmente perguntou, depois daquele silêncio incômodo.
Ela continuou a encará-lo depois de ouvir a pergunta, mas o sorriso não estava mais lá. Como era esperado, a resposta dela veio numa seqüência de gestos. Mesmo sabendo que era inútil tentar entender o que ela queria explicar, ele observou, tentou associar os gestos com palavras, mas a cada movimento das mãos dela, ele se perdia ainda mais, a cada movimento, ficava ainda mais frustrado… por que tinha que ser daquele jeito?
Ele virou o rosto com certa brutalidade, ficando frustrado e enfurecido por não conseguir entendê-la. Será que seria assim para sempre? Seria tão mais fácil se ela falasse… seria tão mais fácil se ele soubesse o porquê dela não usar as palavras… mas nem tudo pode ser tão simples como se deseja.
No momento, não queria voltar a encará-la, não queria voltar a descobrir que não a entenderia de todo o jeito… mas sua vontade foi completamente quebrada, quando alguém lhe puxou pelo pulso, fazendo-o levantar-se de maneira brusca.
– O que…? – ele percebeu que Rin o puxava mais uma vez consigo. De onde diabos ela tirara aquela mania de sair puxando todos, ou talvez apenas ele, para todos os lugares que queria?
Ela apenas parou de correr quando encontrou um canteiro de flores no mesmo parque. Finalmente soltou a mão de Sesshoumaru para sentar-se entre as diversas flores, colhendo-as uma a uma, como se fosse a coisa mais divertida de se fazer.
Sesshoumaru arqueou uma de suas sobrancelhas… ela era uma pessoa tão simples, se importava com coisas tão superficiais… era tão delicada e ao mesmo tempo, tão intrigante. Queria saber por que ela não queria falar… queria poder entendê-la.
A partir daquele momento, o resto do dia foi quase a mesma coisa… Rin sempre puxava Sesshoumaru para todo novo lugar que queria visitar, sempre lugares simples, cheios de flores e de crianças, lugares onde ela pudesse se divertir como uma criança. Algumas vezes sentiu como se estivesse cuidando de alguma garotinha de seis anos, algumas vezes, como se pudesse conversar sem ao menos ouvir suas palavras…
Aos poucos, ele percebeu que a necessidade de usar palavras com ela era quase nula. Ela sabia o que queria e entendia o que ele queria, eles andavam, e algumas poucas vezes ela lhe fazia gestos, para que ele entendesse o significado de cada um deles, como se o estivesse ensinando a ser mais silencioso que o normal, ensinando-o a falar com os gestos.
Mais alguns minutos, e até ele esquecera que queria ter descoberto o porquê de ela não falar. Aquela vontade agora parecia quase nula. Não havia necessidade de palavras entre eles, como ela dissera, de alguma maneira ele poderia apenas… sentir. Ainda assim era algo surreal demais para que ele se desse ao luxo de crer. Então simplesmente queria ter certeza de que ela simplesmente conseguia se comunicar com ele por guiá-lo – ou puxá-lo.
Enquanto eles caminhavam, dessa vez sem rumo, por uma das calçadas, algumas quadras mais longe de suas casas e um pouco mais perto do movimento da cidade, Rin ainda se deliciava com uma barra de chocolate que comprara no meio do caminho, e antes de dar a última mordida, apontou o céu para Sesshoumaru. Por um momento ele não entendeu o que ela quis dizer, até que percebeu que ela estava apontando o sol em particular. E este já estava se pondo. Estava tarde, era hora de voltar para casa.
– Vamos voltar… – Sesshoumaru disse, parando para atravessar a rua, esperando os carros passarem.
Rin simplesmente meneou a cabeça de maneira positiva, sorrindo enquanto mastigava o último pedaço do chocolate.
Sesshoumaru não tinha percebido como o tempo passara rápido. Já estava tarde demais. Não percebera aquela passagem ao lado de Rin, ela sempre estava fazendo alguma coisa para prender a sua atenção, de modo que ele não chegou a se importar com muita coisa mais. Virou o rosto para ela de maneira quase que inconsciente, e ela pareceu perceber os olhos dourados diante de si. Encarou-o tão inexpressiva quanto ele, mas de maneira mais interrogativa, talvez pensando por que ele a olhava tanto. Sorriu, como sempre sorria. Mas antes de moverem um pé sequer para poder atravessar a rua, um barulho estrondoso assolou ambos os ouvidos, fazendo Rin levar ambas as mãos aos ouvidos, rapidamente.
Sesshoumaru virou o rosto na direção do barulho, espantado. Rin fez o mesmo.
– O que foi isso? – ele perguntou, olhando para o mesmo ponto que várias pessoas se dirigiam no momento.
Rin virou o rosto também, mas ao olhar a origem do estrondo, arregalou os olhos, assustada.
Havia acabado de acontecer um acidente de carro, como resultado da batida, um carro estava capotado, o outro estava com a frente amassada e mais alguns carros estavam bagunçados em meio ao trânsito parado abruptamente. No carro que estava capotado, era possível ver o motorista, desacordado e sangrando muito, ainda preso à cadeira pelo cinto de segurança.
Sesshoumaru ouvia murmúrios por todos os lados, de pessoas pedindo por ajuda, outras comentando o que acontecera, ficou com os olhos fixos na imagem… aquele homem estava morto? Sua atenção foi apenas tirada do acidente quando sentiu Rin esbarrar nele antes de passar correndo o mais longe possível daquele lugar.
– Rin…! – chamou-a, mas ela continuou correndo para longe, parecia estar abalada com o que acabara de presenciar.
Correu o máximo que pôde, até alcançar a garota, segurou-a pelo braço para que ela olhasse para si, conseguiu ver que tinham lágrimas em seus olhos… estaria ela lembrando do próprio acidente?
– Rin… – ele chamou mais uma vez, mas ela puxou o braço, desvencilhando de Sesshoumaru, escondendo o rosto com ambas as mãos.
Mas antes que ela pudesse voltar a correr, ele a segurou mais uma vez, puxando-a para si, para evitar que se afastasse mais e acabasse fazendo alguma loucura.
Num impulso que a própria garota desconheceu, abraçou Sesshoumaru e escondeu o seu rosto no peito dele, deixando as lágrimas correrem livremente. Não sabia por que estava fazendo aquilo, mas de algum modo, era como se seu corpo agisse por vontade própria. Permitiu-se chorar entre os braços dele.
Sesshoumaru envolveu-a, sentindo as lágrimas que ela derramava molharem a sua camisa. Ela ainda sentia muito pelo acidente que sofrera, ainda sentia por tudo o que acontecera, era tão frágil como todas aquelas flores que adorava cuidar. Mas o pior daquilo tudo, não era saber que ela estava triste, que estava passando muito mal… o pior de tudo, era saber que não ouviria nada de seus lábios, sequer aqueles soluços de choro, ou seus lamentos, o pior de tudo, era saber que ela continuaria guardando aquelas palavras apenas para si, aquelas palavras de dor e sofrimento.
– "Por que, Rin? Por que não pode simplesmente falar… dizer o que está sentindo? Durante todos estes anos esteve em silêncio…" – Sesshoumaru pensava enquanto a garota apertava ainda mais o abraço em torno de sua cintura.
Por enquanto ela não poderia falar, não poderia dizer que estava sofrendo por um acidente que lhe tirara o seu pai e sua habilidade de dançar… mas palavras ainda não eram necessárias, pelo menos por enquanto, ele podia sentir em seus gestos e perceber em seus olhares, ela precisava de alguém, não poderia continuar guardando tudo para si, não poderia continuar suportando tudo sozinha… percebera isso no mesmo momento em que seus olhos se encontraram enquanto estes estavam cheios de lágrimas. Ele queria ajudá-la.
Final do Capítulo Dois
Bom, dessa vez ninguém pode me bater, terminei esse capítulo rápido e aqui está. Creio que este fic acabará em mais três capítulos que não demorarão a sair - pelo menos eu acho XD.
Então, muito obrigada por todas as reviews, HIME RIN, Raissinha, Hiwatari Satiko, Sah Rebelde, -Nay Black-. Muito obrigada por terem comentado, prometo que responderei assim que tiver tempo... tenho só alguns minutos disponíveis XD
Então, se acharem esse capítulo decente o suficiente para mais um comentário e gasto de seu tempo, ficarei feliz em recebê-lo. Desde já, muito obrigada.
Ja Ne
Próximo capítulo: "The Roses' Sound: Gestos"
