Olá, Meninas!

Cá estou eu – um pouco atrasada, mas, enfim, com o bendito cap 06, ne?

Antes de mais nada, um agradecimento todo especial à:

Blanxe, Tina-chan, Mady-chan, Ayame Yuy,

Lyoko Nitales, e Iva-chan!

Meus amores! Muito obrigada por vocês estarem deixando suas opiniões, quanto ao resultado da enquete "Quem Deve Ficar com Heero" – todas estão sendo devidamente anotas!

Assim sendo, o Cap 06 é especialmente dedicado à vocês!

Recado Maligno da Autora:

CONSEGUIIIIIIIIIIIIII! CONSEGUIIIIIIIIIIIII!

MATEI A ILLY, AHHAAHAHAHAHAH MALIGNA

ORAS... E vocês acham que ela resistiria a um capítulo... DEDICADO ao MORENO DE OLHOS VERDES DELA? HOHOHOHOHOHOHHO

Ae, TROWA!

O capítulo é TEU!


E mais uma vez uma alucinada estava conversando com um personagem fictício:

Luana: "Latino?"
Trowa: "Latino!"
Luana: "Tem certeza?"
Trowa: "CLARO QUE EU TENHO CERTEZA! Por isso, querida, pare de me chamar em suas fic de europeu: eu sou la-ti-no."
Luana: "Que-ri-da...?"
Wufei: "Foi bom te conhecer, companheiro."
(Uma nuvem negra se forma atrás de Luana tão rápido quanto se desfaz na medida que nasce um sorriso em sua face)
Luana: "Ohohoho, que-ri-do; desculpa, cometi um grave engano: tentarei me redimir – creio que neste capítulo abordarei o máximo a sua pessoa, e assim, tentarei entendê-lo melhor." (se retira sob o olhar apreensivo dos dois G-boys presentes.)
Trowa: "Wufei...? O que ela quis dizer com 'abordar o máximo a minha pessoa'?"
Wufei: "Nada de mais. É só uma maneira delicada de te sugerir para que arrume um bom plano de saúde."


"Por que Seus Olhos Não Me Enganam..."

Capítulo 06 - Como se diz 'Eu te Amo'?


/ Wufei! Cheguei/

Por que a ausência daquelas palavras machucava tanto o coração daquele rapaz de cabelos negros? Palavras ditas por alguém cuja voz nasalada fora só sua por apenas uma semana.

/ Ai, Wufei, me desculpe por não ter voltado com você hoje do colégio... mas você sabe que eu tenho que fazer amizade com aquele cara./

Não era como se nunca mais fosse ouvir aquela voz: agora mesmo, dentro de seu quarto escuro, ele ouvia a voz do japonês a conversar orgulhoso com Trowa sobre como acertara a mão no jantar.

/ Wufeeei, olha só o que eu comprei: o que você vai querer comer de jantar? Peixe ou frango/

Sentia-se tolo, pois percebeu que sua mente se tornara obcecada: o que o incomodava na realidade era a idéia de dividi-lo com os outros, que os outros roubassem seus poucos segundos em sua presença – segundos que antes eram horas, horas apenas dele.

/ Pôxa Wuffy! Você é mau – como assim 'tanto faz'? Eu quero fazer algo que você goste, assim posso te ver sorrir, pra variar./

Sua visão, acostumada com o escuro do quarto, viu o contorno de sua mão erguida no à frente de seu rosto: sentia que mesmo que a esticasse, ela nunca o alcançaria; algo estava, e sempre estaria, levando-o para longe – guiado por aquelas violetas frias, o seu Soldado Imperfeito nunca ficaria ao alcance de suas mãos.

/ Por que voche me olha chempre achim, chinês/

"Estúpido! Por que sempre ouço de você as perguntas de respostas mais óbvias?"

/...Como se eu valeche alguma coisa... Como se valeche a pena me olhar.../

"A questão é, e vale a pena olhar mais alguma coisa além de você?"

/Não pra ele... por favor, não desvie nunca eches olhos de mim.../

"Como poderia fazer tal coisa? Se meus olhos já não pertencem mais a mim?"

/ Duo.../

- Yuy... – sua voz saiu fraca envolvida pela escuridão.

Ainda deitado de lado em sua cama e com sua mão estendida à sua frente, a porta de seu quarto se abre, e dando a errada impressão de seus dedos serem finalmente preenchidos, a imagem de Heero aparece: seu sorriso luminoso quase cega a fraca visão do chinês que já se acostumava com a escuridão de seu quarto e de seus pensamentos.

- Boa noite, Wufei. Espero que durma bem.

Não teve forças de responder, não quando o único motivo de sua mente estar confusa estava bem na sua frente. Rabugento, resmungou algo e se virou repentinamente para longe da luz forte que vinha do corredor e daquele encantador sorriso.

Assim não pode ver quando este ganhou um ar triste, e seu dono fechou a porta do quarto do companheiro, lentamente.

O japonês, já tomando seu caminho para o quarto, se perguntou por que fizera aquilo... Por que parara no quarto de Wufei para lhe desejar boa noite, coisa que não se acostumara a fazer com nenhum outro piloto no esconderijo? Talvez por que não fosse questão de costume... talvez fosse questão de desejo; desejo de ouvir apenas poucas palavras, tão facilmente ditas em uma semana que não sai de sua mente:

- Boa noite, Yuy.


Quatre estava naqueles momentos crucias na vida de um ser humano, em que toda a sua paz interior depende de uma decisão. Talvez para outro, não precisasse de tanto tempo para chegar a uma conclusão, mas diferente de pessoas normais, o árabe enfim escolhe por um artifício que vem evitando à algumas semanas: iria perguntar algo a seu amante – deixaria para matá-lo depois.

- Trowa... Algo o está incomodando?

- Porque pergunta isso?

- Um palpite. – Diz isso tendo em mente que ter metade de seu corpo congelado pela falta de um cobertor, seu braço esquerdo dormente de tanto ser esmagado e algumas joelhadas em áreas nada agradáveis eram ótimos palpites. – E então, o que está havendo?

- ... – Trowa há muito tempo não parecia tanto como seu antigo eu: o silêncio vindo dele era algo raro, nos tempos atuais – Eu só...

Silêncio.

- Se não quer falar sobre isso... - Quatre puxa o cobertor novamente para si e se deita de lado.

"O que estou fazendo? Ele precisa de mim, ele precisa falar algo para mim!" grita dentro de si mesmo.

Mas era inútil: a idéia de que "se fosse algo realmente importante ele falaria" era mais forte – o "não fale mais que o necessário, ele tem que entender seus sentimentos sozinho", dominava sua mente, mas não era o que ele realmente achava: não era isso que ele queria realmente fazer!

"Por que ele tem que passar por alguma coisa que o perturba, sozinho? Por que eu não consigo mais..." aos poucos até mesmo palavras como essas foram se perdendo; estava se tornando frio, ele se questionava, sua mente praticamente enlouquecendo. Não: apenas distante e lógico. "Um piloto tem que aprender a superar seus problemas – se ele não pede ajuda, nada se pode fazer..."

Repentinamente, Trowa sente um calor em seu braço, e quando olha para o lado, consegue ver, por mais escuro que esteja o quarto, uma mão firme o segurando por cima do lençol. Não entendeu no inicio, mas por fim só conseguiu sorrir. As palavras que saem de uma boca não formam uma pessoa, e atos nada mais são do que mensagens fragmentadas de sentimentos que guardamos... mas então... por que aquela mão dizia tanto a ele?

Sentindo-se inesperadamente não tão mais só na escuridão do quarto, cria coragem, respira fundo, e pergunta:

- Quatre, o Heero já te deu boa noite alguma vez?

- Não.

- E ao Duo? Ele já deu ao Duo?

- Não que eu saiba; aonde você quer chegar?

- Eu só... foi estranho quando ouvi ele dizer isso.

- Ele te deu boa noite? Não vejo para que o alarde, ultimamente ele anda tão estranho.

- Não a mim.

O silêncio voltou a ficar entre eles, mas agora era realmente incômodo, pois ambos sabiam o que tornava o ar daquele quarto tão pesado.

- Não se meta. – Foi tudo que Quatre disse.

- Mas não é dele que o Heero gosta de verdade.

- Você não pode ter certeza.

- Mas é claro que eu tenho, e você mesmo antes disso tudo acontecer, tagarelava como esses dois seriam um casal bonitinho se finalmente eles se...

- NÃO SE META! – o loiro praticamente rugiu.

Trowa arregalou os olhos – era a primeira vez que Quatre gritava daquele jeito com ele. A mão em seu braço o apertava fortemente, o loiro estava realmente perturbado.

- Quatre?

- Se você quer realmente minha opinião, eu espero que Wufei ajude a Heero esquecer Duo.

- Isso é horrível! – Num repente, Trowa se levanta indignado da cama, arrancando o lençol de cima de seu amante e amarrando-o na cintura – Não acredito que disse isso! Por Deus, Quatre! Heero gosta de Duo e eu sei que Duo gosta de Heero: você também sabe! Não haja como se não soubesse – não faça eu me decepcionar com você!

Trowa sai do quarto do árabe, batendo a porta. Quatre se encolhe na cama, agora com o corpo inteiro exposto ao frio.

- Não haja como se pudesse simplificar o coração das pessoas, Trowa, as coisas não são tão simples assim: o melhor pro Heero nesse momento não é o Duo. – Resignado, olha para as roupas de seu amante ainda jogadas no chão – Atchim! Bobo... se queria mesmo ir embora, podia ter deixado ao menos o cobertor; duvido que a dramaticidade de sua saída tivesse sido menor se você simplesmente vestisse as suas roupas.

Ainda envolto no frio daquela noite, Quatre abraça fortemente o travesseiro e esfrega seu corpo contra o fino lençol que cobre seu colchão. "Mas será que apenas um simples cobertor aquecerá o frio que sinto nesse momento?"


Fazia tempo que os cinco G-boys não se reuniam sob um ar tão tenso na sala.

Wufei – o único que procurava palavras – andava de um lado para o outro sob o olhar ora apreensivo, ora indiferente de seus companheiros. O que ele dissera despertara o interesse de todos de todas as maneiras que a noticia poderia incitar, o que deixou o chinês feliz: "Ainda acho essa missão absurda, mas ela não é algo fácil de ignorar.", pensou.

Os dois sofás da sala estavam ocupados: Heero e Trowa em um, e Quatre e Duo no outro. Todos esperavam para ver quem iria se manifestar primeiro diante do relatório descrevendo a missão que Wufei acabara de recitar mecanicamente. O piloto 05 não tinha escolha: seria o primeiro a dar sua opinião.

- É meio óbvio o que vou dizer, mas é inevitável dizê-lo em voz alta.

Wufei passa sua mão impaciente em seus cabelos desgrenhados – xingamentos em chinês não haviam sido o bastante para aplacar sua ira de uma hora atrás, quando Dr J o acordara às duas da madrugada lhe passando o relatório da missão, e tecendo alguns comentários irônicos sobre a missão anterior que tinha sido abortada. Apesar de saber que fizera a coisa certa, Wufei tinha ainda alguma dificuldade de encarar Heero. Mas assuntos mais importantes estavam em pauta no momento:

- Essa missão não requer mais do que um piloto Gundam, em minha opinião, mas o vel... digo, o Dr J falou que era essencial que pelo menos dois pilotos Gundam estejam em campo. Por motivos lógicos eu sou um desses pilotos; como o caso não requer especificadamente um de nós, um outro nome foi indicado, caso mais ninguém mostre interesse.

- Interesse? – Duo finalmente encara Wufei pela primeira vez desde que o assunto começara a ser tratado: – Somos pilotos e terroristas: não temos que ter interesses.

- Isso quer dizer que você vai? – Wufei disse com uma voz seca.

- É ridículo: não confunda interesses com metas; e a dessa missão está totalmente fora do nosso padrão – o que aquele homem tem na cabeça?

- Contestando ordens, Duo? – Trowa não podia soar mais sarcástico: – Não vejo promoções em seu futuro.

- Hn.

- Tão articulado... Mas dessa vez tenho que concordar com o Shinigami de Gelo. – Trowa toma um ar mais sério: – Não é de praxe darmos apoio a pequenos grupos rebeldes. Nosso alvo não é apenas a proteção das Colônias e a queda da OZ? Ou será que o orçamento daqueles cientistas malucos finalmente acabou, e agora temos que fazer bicos de guarda-costas?

- Cuidado com o que diz, Barton. – Wufei diz ao amigo que começava a se alterar, coisa nada incomum nos últimos dias: o motivo parecia bem claro, diante das noites estranhamente silenciosas que embalavam recentemente o esconderijo – Mas se isso alivia o coração de vocês, nossa prioridade verdadeira não é defender o grupo rebelde em questão, mas o que eles protegem. Sally Po, líder desse grupo, será nosso contato. Ela e seus companheiros estão se escondendo em uma pequena vila na China, mais dados sobre a localização já foram instalados no meu Gundam.

- Quem foi o piloto indicado por Dr J? – Quatre pergunta algo que já suspeitava a resposta.

- Piloto 01.

Mais uma vez a sala ficou em silêncio. Quatre virou um pouco a cabeça para tentar ver a reação de Heero. "Dr J... homem esperto, pois pelo visto também chegou à mesma conclusão que eu. Trowa, por que você não entende, Trowa...?".

Duo mantinha uma pose indiferente. "Hn, então o Yuy vai a mais uma missão sozinho com o Chang. Grande coisa, grande coisa, grande coisa, gran... "

- Grande coisa. – murmurou levantando e saindo da sala deixando para trás um Quatre que discretamente segurava o peito, uma pontada inesperada passou tão rapidamente quanto veio.

Heero apenas o olhou ir embora, não lhe era permitido pelo americano trocar mais palavras com ele. "Espere um pouco... Sally Po?" seu cérebro enfim registrara a informação.

- Sally Po? Aquela Sally Po? A ex-Major Sally Po? – seus olhos brilharam enquanto levantava do sofá e agarrava a manga da blusa de Wufei.

- Si... sim. Você a conhece, Yuy?

- Digamos que em uma época em que eu não era muito sociável, eu não pude agradecer devidamente uma mão que ela me deu, envolvendo uns mísseis. (1)

- Yuy isso não é um passeio escolar! Tropas Touro e Libra foram identificadas nas proximidades – nossa missão é...

- Tá tá, eu já entendi! Poxa, Wuffy... depois daquele tempo morando comigo, eu pensei que você confiasse mais em mim.

- Wuf-fy? – Trowa se interessou.

- Ops – Heero agora estava sob o olhar mais maligno de Wufei – Des... culpa, foi o hábito!

- Humpf. – Wufei suspira conformado, bagunçando os cabelos já naturalmente rebeldes de Heero – Esquece, parceiro. – essa ultima palavra nunca soara tão agradável na boca do chinês.

Foi assistindo a essa cena ao lado do sorriso vitorioso de Quatre, que Trowa – ao olhar de cara feia para o namorado – só teve um pensamento: "Nem vem!"

- Tempo! Pode ir tirando o cavalinho da chuva, japonês.

- O quê?

- He he, acho que já esta na minha vez de entrar na brincadeira – ainda estou muito magoado de você ter pego a missão de L3, no meu lugar.

- Barton , que parte do "isso não é um passeio escolar"você não entendeu?

- Assim você me magoa, WUF-FY! – o moreno petulante cantou o apelido - E convenhamos, sejamos claros: estamos falando de uma retaliação, aqui, e em uma situação em que o alvo é algo inanimado, protegido por vidas humanas. Quanto menos ligações tivermos com essas vidas humanas, mais fácil será proteger o "algo inanimado".

- O que você está querendo dizer com isso, Trowa? – Heero olha furioso o latino – Acha que sou incapaz? Eu continuo sendo tão piloto quanto você.

- Calma Hee-chan! Só estou dizendo que dentre nós EU sou o único que não conheceu a amabilíssima Sally Po (2) – até nosso estimado Wuffy me confidenciou, outro dia, que passou uma inesquecível... temporada com a ex-Major.

- Wufei?

Mas Wufei não olhava para Heero: encarava firmemente Trowa, e esse retribuía – não era apenas sarcasmo o que havia naqueles olhos verdes, mas malícia: apenas ele e Wufei pareciam entender exatamente o significado daquelas palavras; elas camuflavam uma antiga confissão que o chinês deixara escapar para o latino.

Não havia dúvidas: aquilo era chantagem!

- A missão deve ser iniciada o mais rápido possível, Trowa: vá aonde escondeu seu HeavyArms – nos encontraremos no espaço-porto Mustang. Lá já terei providenciado dois cargueiros; te darei as coordenadas do nosso alvo no local de partida. Boa sorte.

Wufei disse isso tão rápido que não deu tempo de mais ninguém contestar, e quando a última palavra saiu de sua boca, Heero precisou de alguns minutos para registrar tudo – não muitos, mas o suficiente para seu campo de visão ser preenchido apenas pelas costas de Wufei, que já partia para a missão.

- Espera! – ele segurou o ombro do piloto 05 – Mas pensei que eu é que iria com você!

- Barton tem razão: ele é a escolha mais qualificada para essa missão.

- Mais segura, você quer dizer.

- E existe diferença? – não ousava virar para trás.

- Eu pensei que... eu pensei que não fosse mais tirar seus olhos de mim.

- O quê?

Quanto tempo foi necessário para Wufei se virar, guiado por aquelas palavras?

Não havia relógios capazes de registrar, afinal, o que seriam segundos: na mente do chinês representavam décadas, tempo o suficiente para se afundar em suas próprias lembranças:

Palavras... As que tinha acabado de ouvir do japonês, as que gostaria de ter ouvido... e, principalmente, as que gostaria de ter dito.

Será que todo aquele tempo havia sido suficiente para também criar coragem de dizê-las? Não sabia: a única coisa que teve certeza foi que algo foi entalhado em seu espírito naquele momento – as palavras "Esperança, afinal."

Tendo novamente Heero à sua frente, Wufei respirou aliviado ao perceber que seus outros companheiros já haviam saído da sala – coincidência mais que bem vinda. O piloto 01 não parecia ser o dono da voz alterada que dissera as palavras às suas costas momentos atrás: trazendo aquele sorriso que por algum tempo fora só seu, Heero tinha nos olhos o brilho das pessoas que finalmente tinha achado um rumo depois de tanto vagar.

- Não pensei que lembrasse. – Wufei disse ainda analisando aquele olhar.

- Apenas não queria te incomodar; durante os últimos dias você esteve tão... distante.

- Desculpe. – sussurrou.

-Não se desculpe. Quem deve se desculpar sou eu. Eu ando tão dependente; acabei me apoiando totalmente em você.

- Eu não me importo. – Wufei fez um movimento de desdém com a mão – Somos companheiros de causa, se não nos apoiarmos uns nos outros, em quem nos...

- Mas eu me importo! – a voz de Heero saiu trêmula, mas ao mesmo tempo determinada, algo realmente confuso de entender: – E eu não quero mais sentir isso. – apertou o próprio peito.

- Isso?

- Eu não quero mais me apoiar em você, não quero mais sentir essa... solidão, toda vez que você não está por perto, essa falta de... chão. Eu não quero buscar seus olhos em cada cômodo dessa casa, e sentir tanta euforia quando os percebo sobre mim.

- Yuy... do que você esta falando? – Wufei dá alguns passos para frente, quase sem acreditar. Não era tonto, sabia aonde o Japonês queria chegar. Por Nataku, será que...

- Wufei, eu quero o Duo acima de tudo e qualquer coisa no mundo. – Wufei parou seus passos – ... mas eu sinto que toda vez que fico perto de você, eu me distancio cada vez mais dele, e mesmo me afastando de você, ele ainda não pára de se afastar de mim, e me sinto mais sozinho ainda. – Não havia lágrimas em seus olhos: era como se Heero finalmente conseguisse botar para fora um relatório do estado crítico em que se encontravam sua mente e coração: – Wufei... eu não sei o que fazer!

O piloto 01 tremia da cabeça aos pés; tentava manter seu rosto impassível, mas era muito mais difícil manter a calma diante de seu novo modo de ser.

Wufei não sabia o que fazer... queria abraçá-lo, beijá-lo e afastar toda a dor que estava sendo exposta – nem que para isso tivesse que arrancar fora o sentimento que mais parecia ferir o peito do outro: o amor que ele parecia começar a nutrir pelo chinês.

- Eu me senti mal, quando Trowa tomou meu lugar na missão, agora: me perguntava o por que dele querer tanto te acompanhar. E por fim descobri que era ciúme... eu não entendo! – o jovem japonês coloca a mão na cabeça – Por que eu estou sentindo ciúmes de você? Por que eu apenas não aceitei os fatos e fui sonhar com o Duo, como faço toda noite? – Sua voz começava a se alterar: - Talvez por que nesses mesmos sonhos, onde acho paz, por mais que ele apareça... no final é com você que eu sempre termino?

- Yuy, eu...

- Não importa. – o primeiro sinal de lágrimas começou a aparecer, logo ele se virou para disfarçá-las inutilmente. – Eu já sei o que tenho que fazer: eu vou me esforçar ao máximo; eu vou conquistar o Duo. Talvez eu já o tenha em meus braços antes mesmo de você e Trowa voltarem da missão... e assim, eu não terei mais que incomodá-lo com meus sentimentos.

Pronto. Tinha botado tudo para fora... estava mais leve, apesar da certeza de saber que sua relação com Wufei nunca mais seria a mesma; e apenas mais uma coisa confirmou sua suposição: a sensação de ser repentina abraçado por trás.

O hálito suave que acariciava sua orelha guiou os lábios que beijaram seu pescoço. Heero ficou paralisado diante do maremoto de sensações que apenas esse ato causou em todo seu corpo.

- Boa sorte. – Uma voz sussurrada veio a seu ouvido – Lute o quanto puder: não se desanime por poucas palavras... e tente pegar o Maxwell para você; mas quando eu voltar, não me importa se vocês estarão juntos ou não: EU não vou desistir de você – cansei de apenas te olhar; te farei desejar mais do que apenas meus olhos sobre você.

Soltou então a cintura de Heero, sendo que este não se virou para trás.

Wufei passou a mão em seus cabelos ainda desarrumados e finalmente saiu do esconderijo com passos firmes, deixando para trás um japonês com pernas bambas, mas com um único pensamento firme em sua mente: "Quem lhe disse que eu já não desejo?"


- Eu não te falei? – disse o dono dos olhos azuis aqua-marinhos que espiavam no buraco de fechadura da porta da cozinha – Eu sabia que eles iam se entender no final!

- A única coisa que eu vi foi um tremendo de um "fora". - Trowa diz isso ao lado do namorado com os braços cruzados – Desista, loiro: isso é só fogo de palha. E o japonês deixou bem claro que ia correr atrás do Max durante este tempo que eu estiver fora com o outro, em missão. Que coincidência não? – um sorriso irônico nasceu no rosto do piloto 03.

- Humpf. – Quatre se afasta da porta – Você é muito cara de pau, isso sim: só estava procurando desculpa para separar o Heero do Wufei.

- Eeeeeeu? Que é isso! Só é uma pena que, com o Wufei longe, você não poderá empurrar o Heero pra cima dele. Tsc, tsc... – suspira falsamente decepcionado.

- É mesmo? Bem, então terei que mudar a minha abordagem. – Quatre abre a porta indo em direção a sala, agora vazia, mas não sem antes lançar um sorrisinho maléfico para Trowa, fazendo-o engolir em seco.

- O q... o que você quer dizer com isso? – Trowa segue o namorado para a sala. Este agora se sentara já confortavelmente, no sofá. Aí vinha coisa

- Oh, sei lá! – os olhos de Quatre reviraram, misteriosos – Como eu disse, o melhor para o Heero nesse momento não é o Duo, e como você esta levando o Wufei para longe do nosso amado Soldado Imperfeito... Não vejo muitas opções; alguém vai ter que seduzi-lo, na ausência de nosso amabilíssimo chinês. – um sorriso irônico se desenhou no rosto do loirinho.

O mundo de Trowa deu uma reviravolta de 360 graus.

- Qua... tre? Você está brincando, não está? Você não faria...

- Eu? Imagine.

- Quatre, por favor...

Um sorriso realmente maligno tomara conta do rosto do jovem piloto do Sandrock.

O coração do moreno pareceu querer explodir.

- QUATRE...!

- Amor? Não é melhor você ir, não? O seu parceiro já foi.

-

Sem escolha, o latino dá as costas para o namorado e se vai.

Desta vez o árabe tinha sido cruel... apesar de ultimamente se mostrar calado, sabia muito bem usar as palavras quando necessário: e mais do que nunca, naquele momento, ele quis atormentar aquele moreno abusado – não só por ter se metido na relação dos outros, mas também por deixá-lo com uma pontinha de ciúmes com aquele seu desespero em ter aquela missão.

Mas por mais palavras bem pensadas e articuladas que pudesse dizer, por que não conseguira dizer exatamente as mais simples e que mais gostaria de ter conseguido fazer saírem, enfim, de sua boca?

"Tenha cuidado e volte para mim."


"Por que eu disse aquilo? Porque?" a mente de Wufei ainda pulsava com aquelas palavras – se mordia por dentro, se lembrando de tudo o que tinha dito ao japonês. Não, não se arrependia de nenhuma palavra: eram todas verdadeiras; mais do que nunca ele estava decidido a lutar pelo seu amado, e não seria por que alguém lhe ordenara fazer aquilo ou por que seria o melhor para o próprio japonês: Não – ele faria isso por que, acima de tudo, sabia que era o que mais desejava no momento.
" a mente de Wufei ainda pulsava com aquelas palavras – se mordia por dentro, se lembrando de tudo o que tinha dito ao japonês. Não, não se arrependia de nenhuma palavra: eram todas verdadeiras; mais do que nunca ele estava decidido a lutar pelo seu amado, e não seria por que alguém lhe ordenara fazer aquilo ou por que seria o melhor para o próprio japonês: Não – ele faria isso por que, acima de tudo, sabia que era o que mais desejava no momento.

Em seu cargueiro, Wufei já havia contatado Trowa. Estavam a algumas horas em viagem quando os sinais de MS começaram a aparecer em grande quantidade no radar, sem dúvida ambos estavam chegando ao seu local bem em meio a uma batalha.

- Wufei. – o rádio-comunicador de Nataku estala, trazendo a voz agora metalizada de Trowa: – Chegamos ao local onde as nossas coordenadas apontam. Quais são as ordens?

- Nossa prioridade é proteger a carga que aquele grupo rebelde protege: como não sabemos a localização exata do local onde eles a guardam, devemos ajudá-los, e quando chegarmos na base deles, decidimos o melhor rumo a tomar.

- Resumindo... 'BORA PRA PORRAAAAADAAAAAA!

Cada piloto em seu Cockpit explode quase que de forma sincronizada as respectivas portas de seus cargueiros, e com os devidos dispositivos instalados em seus Gundans, descem para o campo de batalha. Ainda em pleno ar, se livram de alguns Leões em terra que tentavam acertá-los, desviavam das investidas dos poucos Áries que viam em seu encontro com exímia habilidade.

Por segundos Wufei se permitiu observar Trowa em combate, coisa que não via a muito tempo: estava impressionado à medida que percebia os movimentos do moreno, era como se seu Gundam fosse a extensão de seu corpo – as Gatlings em seu peito e braços cantavam, à medida que seus inimigos caiam, agora não mais que sucatas no chão.

- Hei, chinês! Acorde!

Wufei que havia entrado no modo automático, precisou piscar algumas vezes para notar que já haviam chegado no meio do campo de combate terrestre e que seu parceiro o estava contatando.

- O que você disse?

- Pois bem chefe: chegamos! Mas só tenho uma perguntinha... a quem vamos ajudar, mesmo?

Wufei já ia ralhar com o latino abusado quando olhou melhor para o cenário de batalha. A única coisa que pôde ver foi dezenas de Áries e Leões batalhando entre si, o que significava que o grupo rebelde fora descoberto tentando se infriltar nas linhas inimigas. Mas que ótimo. E agora, infernos? ...Como diferenciar quem era do grupo rebelde e quem era da OZ, no meio daquela confusão?

- Wufeeeeeeei! – Trowa chamava seu companheiro enquanto usava seu escudo para apartar um ataque de sabre usando logo em seguida seu rifle do braço fulminando seu inimigo – Eu odeio te atrapalhar, e devo admitir que eu seria o primeiro a achar uma boa desculpa para sair do meio desse inferno e tomar uma água de coco numa praia paradisíaca com o meu loiro... mas pode, por gentileza, ACORDAR E ME DIZER O QUE RAIOS DEVEMOS FAZER?

Wufei também não estava necessariamente no paraíso, se resumindo a apenas a contra atacar os poucos idiotas que ainda tentavam sair no braço com um Gundam em perfeito estado.

O piloto do Nataku se sentia pressionado, os segundos correndo: "Droga! E agora? Eu poderia usar o comunicador e falar para os rebeldes darem um sinal para se identificarem, mas como garantir que o inimigo não fará a mesma coisa? Velho inútil, se ao menos tivesse me dado a freqüência para contatar a Sally... Sally... É isso! Se conheço aquela onna, ela com certeza está no campo de combate – já sei o que fazer!"

Wufei com custo se afasta dos MS em combate e de uma distância razoável, gritou em plenos pulmões para todo o campo de batalha, usando seu comunicador:

- ONNAAAAA! O QUE OS FRACOS FAZEM, QUANDO OS FORTES CHEGAM AO CAMPO DE BATALHA? (3)

- Wu...Wufei... você está bem? Ai meu Deus, eu pressionei tanto a cabeça do chinês que ela acabou fundindo! O Quatre vai me matar!

- Cale a boca, Barton! Observe!

As vibrações do grito de Wufei ainda percorriam o campo de batalha, e já alguns poucos Leões e Áries tentavam desesperadamente se distanciar de seus respectivos inimigos, alguns pilotos mais livres de movimentos, conseguiam até mesmo sair de seus cockpits, e abandonando seus MS, corriam para se esconder em meio á uma linha de árvores, mais ao fundo do terreno.

- FOGEM! Saquei! – Foi tudo que Trowa disse antes de soltar toda sua artilharia em cima dos MS que insistiam no combate, atacando pelas costas os que tentavam fugir... e dando de cara com o HeavyArms poupando os que tentavam se afastar.

O mesmo fez Wufei – que sem dó nem piedade, iniciou movimentos ágeis e belos em meio ao fogo e balas, fossem dele ou de seus inimigos. Olhos ainda inocentes, menos corrompidos pela guerra e até certo ponto românticos, achariam aquilo uma bela dança, digna do deus Nataku.

Pouco mais de uma hora depois, foi em meio à sucata que se transformaram todos os MS inimigos, que Wufei e Trowa desceram de seus Gundans e foram de encontro a Sally.

Trowa em especial parecia muito interessado em analisar a ex-major, já que este, como dissera antes, fora o único que ainda não conhecera a famosa Sally Po. Ainda assim, não tinham muito tempo a perder: camuflaram os Gundans e os MS restantes em meio às árvores, e tiveram que conversar enquanto andavam para a tão falada base rebelde.

Sally e Wufei lado a lado, Trowa um pouco atrás, e os demais rebeldes um pouco a frente ou mesmo bem mais atrás do grupo principal.

- A quanto tempo, Wufei. – Sally se permitiu olhar demoradamente para o belo rapaz de cabelos negros ao seu lado.

- Sim, muito tempo... – um pequeno sorriso não concedido à maioria dos mortais se desenhou em seu rosto: - Vejo que você ainda não aprendeu a deixar o campo de batalha para quem pode lutar.

- Não sei se percebeu, mas nós agora temos brinquedinhos novos. – não deixou barato Sally, piscando.

- Notei, por isso fui obrigado a sair de meu esconderijo e vir até aqui. Achou mesmo que daria conta daquele grupo com tão poucos Leões?

- Eu fiquei surpresa, quando Dr J falou que mandaria pilotos Gundam para receber a mercadoria. Eu esperava ver qualquer um... – visivelmente desconversou, o que irritou um pouco o piloto 05 - ...Só não imaginei que um deles seria você. Pensei que ainda trabalhasse sozinho.

- Muitas coisas aconteceram. E mudaram.

- Mundo pequeno...

- Não o bastante – disse ele, com uma voz ressentida.

- "You must remember this, a Kiss still a Kiss..." – Trowa cantarolava "inocentemente", logo atrás do casal aquela musica de um filme chamado 'Casablanca', quando só o que pôde sentir foi o punho de um certo chinês em sua cabeça, o fazendo parar – Credo, eu SEI que estamos em guerra, mas não se pode mais nem cantar em paz? – Aproveitou a deixa para dar uns passos a frente e se colocar no meio dos dois.

- Estamos em guerra, Barton, por isso não abuse da sorte – um defunto a mais ou a menos no meio desse campo de combate não vai me fazer diferença.

- Hu hu... – Sally tentava conter o riso diante dos dois jovens pilotos Gundam à sua frente, mas era realmente difícil: – Você mudou, Wufei.

- Decerto então, antes ele devia ser mais educado. – Trowa massageia a cabeça, decidido a provocar: – A-hem...não vai nem me apresentar à moça, Wuf-fy?

- Wuffy? Pufr...– aquilo foi de mais: foi debaixo de um olhar mortal do chinês, que a ex-major desatou a rir: – HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ! Oh, Céus! Ai... Desculpe, eu... bem, eu suponho que você seja o piloto 03.

- Como sabe?

- Não foi muito difícil – já faz algum tempo que as plantas dos seus Gundans passaram por minhas mãos, pode-se dizer que conheço as... particularidades de cada um. – piscou, charmosa: - Sabe como é: privilégios de saber me relacionar com as pessoas certas.

Trowa não se conteve:

- Nossa...! Mais velha, bonita, inteligente, corajosa e cheia de contatos. Te pediria a mão em casamento, se já não conhecesse uma dessas pessoas que você se relaciona tãaaao bem.

A farpa coberta de veneno que Trowa lançou passou raspando por Sally, que apenas ergueu uma sobrancelha tentando entender o comentário – mas ainda conseguiu acertar em cheio Wufei, que agora andava a alguns passos atrás dos seus dois novos ex-melhores amigos.

- De qualquer forma, meu nome é Trowa. Prazer – sorriu sedutoramente o moreno de olhos verdes.

- Prazer. – Sally devolveu o sorriso que foi lançado pelo dono das belas esmeraldas.

Mais alguns minutos de conversa agonizante para o pobre Wufei, e chegaram finalmente a uma clareira, onde no centro dela Sally afastou um grande tapete de grama artificial revelando um alçapão. Depois de abri-lo, e de todos descerem por uma longa escada seguindo enfim o percurso reto de um túnel, finalmente Wufei pergunta:

- Não acha que uma clareira é um local muito exposto para colocar uma entrada? Com um pouco de empenho, qualquer grupo de busca mais avançado acharia esse lugar.

- A floresta em que lutamos não é muito freqüentada, por isso não podíamos deixar nenhum inimigo fugir: esse lugar é o único jeito que achamos para entrar na vila. – Sally vê na má iluminação do percurso uma das sobrancelhas de Wufei se erguer. – É que se nós entrarmos logo pela frente, podemos envolver as pessoas inocentes do vilarejo, por isso escondemos nossos MS na floresta e apenas vamos para base através dessa passagem.

- Major Sally. – um rapaz que desde que os pilotos Gundam haviam chegado não parecia muito satisfeito, finalmente falou: – Não acha que a senhora esta dando informações de mais para esses caras?

- Primeiro, eu não sou mais major; segundo, não estou dizendo nada que eles mesmos não poderiam constatar sozinhos com o tempo. Não sei como pode desconfiar tanto de pessoas que acabaram de salvar sua vida.

- Inocente como sempre. – Wufei disse entre dentes. – Não devia confiar tão fácil nas pessoas, onna: eu poderia ter te matado vinte vezes durante todo o percurso com exatas vinte maneiras diferentes... e ainda conseguir escapar ileso.

- Meu amável companheiro quis dizer... – Trowa apóia seu braço no pescoço do companheiro abrindo um sorriso contagiante: – "...Obrigado pela confiança".

- De nada, Wufei. – Sally diz entre risos, enquanto via a divertida cena de Wufei tentando se livrar do braço de Trowa: – Mas eu não sou tão ingênua, quanto acredita. Eu apenas sei em quem confiar, e acho que você se encaixa nesse caso.

- Pois não deveria mudar de opinião tão rápido: pessoas assim são detestáveis. – diz o chinês misterioso.

Trowa não entendeu o que ele quis dizer, mas Sally encolheu os ombros e desfez o sorriso. Boa parte do percurso foi silenciosa então, até a mulher se pronunciar novamente.

- Eu... senti saudades.

- Não é hora para isso. – Wufei tentou desconversar.

- Pensei que não fosse mais voltar.

- E não voltaria: me tiraram todos os motivos para voltar.

- Você mesmo tirou os motivos, ou eu não ficaria te esperando.

- Não precisaria esperar se não tivesse... deixa pra lá.

- "You must remem…"

CLIC.

Não precisou mais do que isso para o latino se calar – como naquele exato momento estava a poucos passos atrás do casal, ele só precisou ver Wufei mexer um pouco a mão direita na frente de onde ficaria seu cinto... e ouvir o som de uma arma sendo destravada, para perceber que não seria muito inteligente continuar perturbando o chinês.

O percurso que se seguiu em linha reta foi silencioso por todas as partes, ou quase todas; Trowa ainda fazia alguns comentários cada vez mais inconvenientes, isso estava começando a perturbar o piloto 05. Está certo que Trowa estivera se revelando um "Shinigami" ainda mais insuportável que Duo, durante as últimas semanas, mas hoje ele estava extrapolando; algo parecia perturbar o 'Senhor Franja': algo que Wufei não sabia se era melhor fazê-lo botar para fora ou manter para si mesmo... vindo do piloto 03, e levando em conta que estavam bem no meio de uma missão...

"Ai ai, isso não acontecia quando éramos apenas eu e Nataku." Wufei suspirou, mas olhando para o lado e vendo a bela onna que caminhava com os olhos distantes não pode evitar de sorrir, lembrando da breve temporada em que Nataku não havia sido sua única companhia.

- Senhores... – os lábios que o chinês no momento observava se pronunciaram, o tirando do transe – ...chegamos.

Diante de uma imensa porta de ferro, finalmente o grupo se viu no fim do longo túnel em que caminhavam. Sem mais palavras, Sally destranca a porta deixando os primeiro homens entrarem antes de acompanharem seus convidados. Um grande salão se revelou na frente dos pilotos gundam; dentro dele se viam várias pessoas de todas as formas, idades e nacionalidades. Não esperava que houvesse tantas pessoas apesar de essa ser uma das bases principais do grupo a que Sally nos dias de hoje liderava. O local tinha espalhado por toda sua extensão sete mesas grandes, uma bem distante da outra e os itens em cima das mesmas variavam entre armas, computadores, mapas e os equipamentos e armamentos mais diversos. Saindo do salão havia cinco corredores. Sally explicou que três levavam para os dormitórios, um para o depósito de armazenamento de suprimentos e o outro para a sala de conferencia e ginásios de treinamento.

- Vocês estão muito bem equipados aqui. – Diz Wufei analisando um dos computadores – Da ultima vez que a vi, vocês e seus companheiros dificilmente seriam diferenciados de ratos de rua.

- Gentil como sempre. – Sally sorri com deboche – Mas vamos aos negócios, creio que vocês vieram pela "encomenda" que estamos cuidando. – Wufei apenas concordou com a cabeça – Bem, sigam-me.

Sally tomou o rumo para um dos corredores, e Trowa ia segui-la quando Wufei o parou.

- Aonde pensa que vai? – Wufei perguntou frio.

- Normalmente quando uma bela dama nos pede para segui-la, é de praxe que...

- Você vai se retirar para o seu dormitório.

- O QUÊ? – suas esmeraldas se encheram de descrença – Escuta aqui, Wufei, eu sei que você está levando muito a sério esse negocio de bancar a mamãe, mas se for para o senhor escolher o meu horário de ir para cama dormir, leve ao menos em consideração que ainda são onze da manhã.

- A única coisa que vou levar em consideração aqui é que você é um piloto e até a segunda ordem está sob o meu comando e responsabilidade, e se EU estou dizendo para você se retirar para o dormitório para descansar, você vai se retirar para o dormitório para descansar. Isto é uma o.r.d.e.m., Barton.

Os olhares que se cruzaram – para não dizer fuzilaram – assustava qualquer alma que ousasse se aproximar: Wufei segurava perigosamente a arma que mantinha presa ao cinto, e Trowa dançava com uma mão perto de um fuzil que descansava numa mesa próxima. Aquilo comprovava a tese de que pilotos gundans não haviam sido originariamente feitos para trabalhos em grupo.

Com um suspiro, Trowa sorri, ainda que com um ar contrariado: não seria prudente, nem lógico, desacatar Wufei a essa altura do campeonato, e também não tinha certeza se alcançaria o fuzil a tempo de destravá-lo e acertar o chinês antes que ele fizesse o mesmo consigo... Apesar da idéia em geral, no momento, lhe parecer bem atraente.

Passando sem trocar sequer mais uma palavra com seu companheiro, Trowa bate no ombro de um dos rebeldes daquela imensa sala e diz em tom divertido:

- Ok bonitão, me leve para o meu quarto.

E assim sumiu das vistas de Wufei.

Não foram muitos os soldados rebeldes que haviam tido coragem de encarar o olhar assassino do chinês desde a chegada, e não foram poucos os que se surpreenderam ao ver que a discussão entre os "fedelhos" não terminara em sangue.

Os olhos de Wufei só saíram do transe de assistir a partida de Trowa, quando sentiu seus cabelos serem afagados. Ciente da única pessoa em toda aquela base que teria coragem de tal ato, ele suspira e se vira, seguindo-a silenciosamente por um dos corredores.

- O que foi aquilo? – Sally pergunta ao jovem que caminha ao seu lado - Por um segundo, até pensei que fosse mesmo atirar nele

- E não ia? – Wufei observa os olhos de Sally se encherem de perplexidade – em circunstâncias normais talvez nada disso aconteceria, mas tanta coisa aconteceu, nos últimos quase dois meses, que ultimamente a palavra normal está quase se tornando uma utopia para mim... – Wufei passa a mão em seus cabelos e se lembra o quão desgrenhados estão – Nós não estamos acostumados em trabalhar em equipe, Sally... pelo menos não entre nós, mas ainda somos soldados: então, se a ordem for "dêem-se as mãos e atravessem a rua" nós daremos as mãos e atravessaremos a rua.

E fechando os olhos aborrecido, Wufei dá fim à curta conversa.

Apesar de não se considerar uma pessoa muito vaidosa, ele se viu preso em uma batalha épica contra seus fios tão negros quanto o ébano, no momento terrivelmente rebeldes. Pouco mais de uma hora atrás, enquanto dividia o campo de batalha com Nataku, não pudera perceber o que no momento era óbvio – apesar de belo, seu cabelo tinha a irritante propensão de lhe cair sobre os olhos.

Sorrindo diante o desconforto do orgulhoso piloto 05, Sally põem a mão em um dos bolsos de seu grosso casaco e tira uma fina liga.

- Espero que isso ajude. – oferece estendendo a mão.

- Obrigado.

Quando o chinês estende a mão para receber a liga, tem seu pulso preso pela ex-major, e sem reação, ele se deixa puxar para a frente dela e fica paralisado ao sentir seus cabelos serem alisados e puxados para trás. Ficou preso naquela constrangedora posição apenas por aquela doce carícia.

Enfim, seu cabelo é preso e a responsável pelo feito se afasta, passando por ele calmamente como se nada tivesse acontecido, voltando a guiá-lo, agora a alguns passos à frente.

- Os Doutores nos contataram algumas semanas atrás, e... – Sally corta novamente o silêncio – ... nos incumbiram de proteger uma carga que vinha de L1. O máximo que nos confidenciaram é que é uma peça importante para a reconstrução de uma máquina de que atualmente é de vital importância para os famosos pilotos Gundans.

- Não entendo por que ele não pediu para que nós cuidássemos da encomenda desde o começo. – Wufei diz pensativo – Por que tiveram que envolvê-los nisso?

- Parece que vocês estavam em missão na época.

- Sim, mas somos cinco, algum de nós podia... – se calou, lembrando das atuais circunstâncias em que se encontravam – ...Deixa pra lá. E quatno a esse material que estão protegendo; você já chegou a analisá-lo?

- Eu deixei nas mãos de alguns engenheiros, tudo o que puderam dizer é que é tecnologia muito avançada, e que a máquina, em si, deve trabalhar diretamente com o sistema nervoso.

- Sistema nervoso? – Wufei já começava a especular do que se ratava.

- Chegamos.

Assim como havia explicado antes, no fim do corredor havia duas portas, uma a esquerda e uma a direita, passando pela da esquerda chegara na sala de conferencia, uma longa mesa ladeada por varias cadeiras se estendia pela sala, as paredes eram nuas com exceção do enorme telão no fundo. No meio da mesa descansava uma caixa de madeira.

- Está aqui? – Wufei pergunta já do lado da mesa e tocando na caixa .

- Sim – Sally responde a alguns passos do piloto 05 – já tem sua encomenda.

- É o que parece. – diz isso pegando a caixa sem muita dificuldade; esta tinha no mínimo o amanho de uma bola de boliche.

- Então você já vai?

Wufei que já havia passado por ela e estava prestes a sair da sala se recusava a se virar e encará-la. Sally não se movia, há muito tempo não ouvia aquela voz e a idéia de não ouví-la de novo a corroía por dentro.

- Se o que carrego aqui for o que estou pensando, quanto mais cedo deixar esse lugar melhor. – suas mãos apertaram mais forte a caixa – ...Mas creio que descansar um pouco antes de voltar ao esconderijo não fará muito mal. – volta a andar, saindo das vistas de Sally.

- Wufei. – Os passos que ouviu atrás de si diziam que a ex-major saira da sala, mas não o seguia – Você ainda não o esqueceu não é? Você ainda prefere ele a mi...

- Sally. – o chinês não parou mesmo com a voz chorosa da mulher que deixava para trás – Acho que é a terceira vez que eu digo isso hoje, mas eu vou me repetir novamente: muitas coisas aconteceram; se antes eu te deixei sem um motivo, apenas por suas palavras de desconfiança, agora... – O rosto de um certo japonês veio a sua mente: – Agora, sim, eu tenho um motivo.

- É ele, não é? Só me diga que eu estava certa, que você vai me deixar por causa de um ... – sua voz se encheu de nojo – ...homem!

- ... – aquele tom por segundos o enfureceu: ela não tinha o direito de falar daquele jeito! – Pois então fique feliz. – Wufei se vira com um sorriso sarcástico batendo palmas – Parabéns Sally Pó: você não poderia estar mais certa – assim que eu sair daqui, eu vou atrás de um homem, um macho... um perfeito representante do sexo mas-cu-li-no mas, acima de tudo... – Seus olhos foram tomados por chamas que incendiavam até hoje os pesadelos de seus inimigos - ...eu vou atrás de alguém que eu amo e aparentemente precisa e confia mais em mim do que certas pessoas.

- Pois seja feliz! Finalmente aquele desgraçado vai poder te ouvir à noite chamando por ele!

- Adeus, Sally.

Wufei se vira para ir embora, guardando em sua mente o rosto coberto de lágrimas da ex-major – aquele era um adeus definitivo entre os dois.


O percurso de volta pelos corredores foi mais rápido que o de ida.

Alguns minutos depois de deixar sua guia para trás, Wufei já havia voltado para o enorme salão que estivera antes. Foi recebido por vários olhares desconfiados por ter voltado sem a companhia de Sally. Ignorando a "atenção" dada por seus anfitriões, Wufei ia pedir ajuda para chegar ao dormitório quando o rebelde que guiou Trowa voltou pelo corredor que haviam seguido antes, o rapaz estava cheio de hematomas, coberto de sangue, e decerto não era o sangue do latino.

- Tomaz! – seus companheiros foram acudi-lo – O que aconteceu?

- Ele ele ele ele... – foi deitado no chão onde começou a receber tratamento – ele...

- O que aconteceu com o piloto que o acompanhou? – Wufei tentou se aproximar, mas desconfiados, os homens mais próximos apontaram para ele suas armas.

- Ele ... ficou louco. – foi o sussurro do outro rebelde.

- Barton? - os olhos negros de Wufei arregalaram-se – Onde ele está agora?

- Está no quarto – eu só consegui fugir por um milagre, mas está muito transtornado.

- MERDA! – desde que saíram do esconderijo, Wufei já esperava o pior do latino, mas mesmo assim tudo estava acontecendo muito rápido, algo tinha que ter acontecido! - O que você fez com ele, seu...?

- Na...nada. Nada!

- Barton se encontra em um quadro psicologicamente instável, mas não ia estourar dessa maneira sem algo a incitá-lo.

- Olha aqui cara, se o Tomaz aqui disse que não fez nada, então ele não fez NADA! – um outro rapaz se pôs entre Wufei e o ferido – Agora, é melhor você e o seu amiguinho psicótico saírem da nossa base, antes de nós mesmos resolvamos colocar o lixo para fora.

Wufei cerrou os punhos, contrariado; aquilo era humilhante, mas de fato ele e Trowa não tinham muitas opções, teriam que sair da base, "Barton... espero que me acompanhe por bem; não torne mais tentadora a idéia de deixar o Heavyarms sem seu piloto". Nunca o piloto 05 sentiu sua arma tão pesada.


Diferente de antes, Wufei não teve um guia, não só pelo fato de ninguém querer acompanhá-lo, temerosos depois de ver o estado de Tomaz, ou mesmo pela má vontade do chinês em ter companhia naquele momento, mas por ser algo totalmente desnecessário: afinal, não poderia pedir melhor guia do que a trilha de sangue que aquele rapaz tinha deixado.

A cada passo que dava, percebia que o silêncio era quebrado... primeiro por sussurros, que viraram gemidos, e que enfim, com a maior proximidade, se tornaram gritos. Parado na frente da porta do quarto em que supostamente seu companheiro estava, e de onde vinham os gritos, Wufei tinha a impressão de que alguém estava morrendo, ou melhor, que alguém estava matando, já que cada brado que ouvia não tinha nem um pingo de dor, apenas fúria.

Foi ao levantar a mão para abrir a porta, que percebeu que inconscientemente já havia empunhado a arma – e, olhando para aquele metal, e em seguida mirando a porta a sua frente, fechou os olhos, embalado pelos gritos do piloto 03.

Sua prioridade na missão era 'observar, apoiar, e garantir a volta do piloto' sob sua supervisão, e por último, se não houvesse mais escolha, se livrar dele. Resumindo: antes de qualquer coisa, ele deveria pensar na segurança do latino – entrar em um quarto tendo isso em mente, e a arma em mãos, poderia colocá-lo em uma situação perigosa, sua própria vida estaria mais em risco que a de Trowa.

Sentindo mais alivio do que esperava, Wufei joga a arma no chão, e determinado, segura a maçaneta. Foi quando notou: os gritos tinham cessado.

Algo estava errado!

Quase arrancando a porta, Wufei entra de uma maneira nada recomendável em um cômodo que tinha como habitante a pessoa supostamente mais perigosa de toda a base, e talvez essa idéia até lhe passasse pela mente, se seus sentidos não estivessem anestesiados de preocupação, para depois quase derreterem de alívio – Trowa estava sentado na cama.

Aparentemente, bem.

Seu olhar era sereno, e mirava o chinês sem muita emoção... suas roupas e mãos, cobertos de sangue. Tudo o que aparentemente podia ser quebrável ou de fácil acesso, para aquelas mãos demolidoras, formava agora um colorido e imenso quebra-cabeça de cacos no chão.

Tomaz decerto fora pego em meio à aquele rompante de raiva. Mas agora tudo parecia bem, com a exceção de um pequeno detalhe: o olhar que o fitava desde o momento que entrara no quarto – um olhar sério e contido – não era o olhar do sarcástico latino que o acompanhara até aquela base... mas o do piloto a quem um dia fora confiado o Gundam Heavyarms.

- Barton, você está be...

- Eu sabia que você viria. – sua voz saiu seca e sem emoção.

"Ao menos me reconhece... Será que conseguiu voltar ao normal sozinho? Se for verdade, um problema a menos." pensou o chinês. Ainda sem ousar quebrar o contato visual com o moreno, Wufei continuou, perguntando de maneira clara e concisa: – "O que houve aqui?"

- Eu disse a ele que você viria. – Trowa se mexia nervoso na cama; seus pés calçados fugiam dos cacos a alguns centímetros, em uma brincadeira que era a única coisa que quebrava o ar sério do latino. – Ele não quis ouvir, mas eu disse que você viria; é sempre assim não é? É sempre assim, por isso eu sabia que você viria.

Desconfiado, Wufei olhou para o rapaz à sua frente com mais atenção – apesar de sua aparência de uma normalidade rara, suas palavras eram impregnadas de insanidade; Wufei suspirou resignado: "Esse dia promete; o melhor é fazê-lo falar, talvez isso o acalme."

Talvez este possa vir a ser o maior de todos os erros que o chinês já cometeu.

- Desculpe-me pela demora. – Wufei começou a atravessar o quarto - Mas como você sabe, eu tinha negócios a tratar com Sally.

- Eu disse para ele que você não ia gostar... – Trowa ainda o encarava, mas não parecia ter ouvido uma única palavra que fora dita a ele. – ...mas ele quis continuar, achou... Há há há há! – Soltou uma inesperada gargalhada, jogando seu corpo para trás, porém logo voltou a sua posição anterior, ao ver que Wufei ainda o observava, voltou a sua expressão séria: – ...ele achou realmente que eu trocaria o meu anjo por ele, o meu beeeeelo anjo.

Wufei já estava na frente da cama. Não sabia o que fazer, estava completamente imobilizado por aquelas esmeraldas opacas e sem expressão, mas de uma força intensa; não podia abandonar seu amigo.

- Trowa...

- Mas você veio: eu sabia que você viria, é seeeempre assim. – Trowa segura o braço de Wufei e o puxa para seu lado na cama – Eu sabia que você viria: primeiro eu gritei, gritei bem alto, e assustei o idiota que não acreditou em mim, mas... você está aqui então eu estava certo. – seu semblante sério tomou um ar infantil com traços mais leves – Por isso, gritei gritei, gritei, só que você não vinha, então... eu me lembrei: você não vem quando eu não me comporto, então eu parei de gritar e finalmente você veio, você veio... eu sabia que você viria, por isso me calei.

Lentamente, durante seu terrificante monólogo, calma e vagarosamente, Trowa deita sua cabeça no colo de Wufei, e este não sabia o que fazer: não encontrava nexo algum no que o moreno dizia; apenas entendeu que o patife do Tomaz decerto havia tentado 'alguma coisa' com Barton, e esse surtou, para azar do otário. E agora Trowa o confundia com Quatre.

- Trowa... O Tomaz tentou algo com você?

- Você o conhece, meu anjo? – seus braços se erguem para alcançar o rosto de Wufei – Aquela idiota não acreditou, mas eu sabia, era só me comportar direitinho, que você viria...

Wufei suspirou na expectativa de ouvir de novo a mesma ladainha, mas o que veio foi a boca do latino contra a sua.

Erguendo seu tronco e com um de seus braços enlaçando a cintura de Wufei e o outro o pescoço, do rapaz mais alto primeiro veio uma leve carícia: sua língua contornou a pele trêmula e macia dos lábios do chinês de forma convidativa para que cedesse passagem para entrar, e quando essa teve uma abertura, Trowa vasculhou com sua língua de maneira faminta a boca do perplexo piloto 05, que não retribuiu – detalhe que passou despercebido pelo piloto 03, no mundo que estava no momento. Apenas o que ele queria era real.

Satisfeita, enfim sua boca se afastou da de Wufei, mas seus braços apenas se enlaçaram mais firmemente no corpo à sua frente, enquanto repousava, confiante, a cabeça no peito de Wufei.

- Finalmente eu entendi, ou melhor, eu sempre soube... sempre que eu me comporto, você vem. Mas você não tem vindo para mim ultimamente... eu já não sabia mais o que fazer para você vir para mim. – afastando seu rosto do peito que o acolhia, Trowa encara fundo as íris negras, jurando que eram azuis. – ...meu anjo, nunca mais se afaste de mim, nunca mais.

As mãos de Trowa, desesperadas por contato, apertavam cada vez mais fortes as costas de Wufei, começando a machucá-lo. O piloto 05 sentiu seu corpo ser abaixado delicadamente sobre o colchão, e o latino se mover sobre seu corpo de maneira que suas pernas o imobilizassem. No meio do processo, sua mente formulou cinco maneiras diferentes de se livrar da "prisão", mas nenhuma delas garantia que seu companheiro saísse sem alguma contusão, e atordoado do jeito que ele estava, a dor poderia apenas transtorná-lo mais.

Perdendo a paciência ao sentir seu pescoço ser acariciado por uma língua atrevida, Wufei não viu opção – já deixara aquele imbecil falar de mais; era a sua vez de ter a palavra.

- Sua mente está turva, Barton: as palavras que diz não são para mim; o anjo de que fala não está aqui – ele está te esperando, ele e nossos outros companheiros, todos no esconderijo.

- Meu anjo, do que está falando? Você está aqui.

Subindo pelo queixo do chinês, Trowa alcança a boca de seu "anjo", suas mãos começam a explorar o resto do corpo a baixo do seu. Pescoço, peito, cintura... aquelas mãos não viam limites, e no prazer que podiam empregar, os limites não se empregavam aquelas mãos. Wufei – que começava a se levar pelas carícias – recobrou a consciência e se enfureceu: por Nataku, aquilo tinha que parar!

Parecendo pela primeira vez tomar consciência que tinha controle de seus braços, os usa para afastar o latino de sua boca e fazê-lo encará-lo diretamente no olhos – mas tudo o que Trowa via eram dois belos olhos azuis-claros, calorosos e receptivos como sempre.

Vendo que ainda não havia sido reconhecido, Wufei consegue inverter a situação – Trowa solta um pequeno gemido com o movimento repentino que pôs agora Wufei sobre seu corpo, surpreso com os atos bruscos de seu "anjo". A imagem na sua frente começava a se tornar turva.

- Tro.wa.Bar.ton! – Wufei rugiu, em tom sério e controlado por um fio: – Eu NÃO sou Quatre Raberba Winner. Controle-se homem, estamos em meio a uma missão! Agora volte a si e se apronte! Partiremos em cinco minutos – vamos pegar nossos Gundans, voltar para a base e você fará um relatório enquanto eu for entregar a encomenda para doutor J., está me entendendo?

Soltando os ombros de Trowa, que segurara fortemente enquanto falava, Wufei se levanta da cama, e se afasta alguns passos pelo quarto, sempre se mantendo de costas para o latino. Sua pouca paciência estava se esgotando cada vez mais só de olhar para aquelas esmeraldas alucinadas.

Desorientado, Trowa se senta novamente na cama e encara a pessoa que lhe dava as costas – ele era dona de olhos negros... e não azuis! E aquele cabelo? Não tinha fios dourados... e aonde estava a voz doce que nas manhãs mais felizes o acordava? Suas mãos apertam fortemente o lençol em que estava em cima.

- Vo... você não é meu anjo. – uma voz sentida dizia às costas de Wufei.

- Muito bem! Vejo que está bem melhor, então se recomponha e vamos logo sair daq...

Mas era pedir de mais que Wufei completasse a frase, já que sentiu uma dor horrível na nuca - alguma coisa, que no momento não tinha muita importância de saber o que, se estraçalhara violenta e inesperadamente contra seu pescoço, e agora além da dor, algo quente e de cheiro já muito familiar se espalhava na área.

Tonto com o impacto, Wufei pensa em se aproximar de uma parede para se apoiar, mas seus instintos foram mais fortes, e ainda no meio do quarto, ele se virou para onde sabia ter vindo o ataque. Trowa, respirando pesadamente, estava de pé, e vindo em sua direção: seu olhar era de puro ódio – agora sim o chinês reconhecia o dono dos gritos que ouvira do lado de fora.

- Onde está meu anjo? – o tom que usou combinava mais com uma ameaça do que com uma pergunta – Você o está escondendo, não está? VOCÊ LEVOU MEU ANJO PARA LONGE DE MIM!

A pessoa que se postava a sua frente não era ninguém que o jovem vindo da colônia L3 reconhecesse: era apenas o desgraçado que havia lhe tirado o que tinha de mais precioso em meio a toda aquela guerra, um ser que não tinha olhos azuis ou cabelos loiros. Momentaneamente levado para seu passado de sombras e dor, para Trowa, aquele era uma encarnação de um dos algozes... Alguém que merecia a morte.

Wufei tentou se desviar da investida, mas seus reflexos estavam lentos, só pode sentir as duas mãos indo de encontro a seu pescoço e suas costas caindo de encontro ao tapete de destroços no chão. Suas costas foram violentamente feridas com o impacto, e isso o fez urrar de dor.

Trowa se pôs novamente sobre ele, mas agora não tinha boas intenções: suas mãos forçavam a cabeça de Wufei para os destroços no chão, e a vítima, com o que ainda tinha de força, ainda conseguia evitar esse impacto.

O último representante do Clã Shenlong desistiu de falar – se antes a mente do latino ouvira alguma das palavras que dissera antes, agora aquela mente completamente insana e injetada de fúria nunca o ouviria. Mas isso não impedia Trowa de falar.

- POR QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO ISSO? POR QUE ? JÁ NÃO BASTA AQUELE MALDITO AMERICANO? NÓS QUEREMOS FICAR JUNTOS! SERÁ QUE NINGUÉM ENTENDE ISSO? – não apenas fúria; ao dizer isso, os olhos do latino ganham um sinistro ar de entendimento: – É isso, não é? Ninguém quer que fiquemos juntos: meu anjo não está aqui por que não querem deixar que ele venha. Tudo bem. – um sorriso alucinado se desenhou sombriamente no rosto bonito – EU irei até ele, e matarei quem se pôr no meu caminho: essa base estúpida, a Oz, o diabo; mas antes... – seu sorriso se alargou – ...antes vou matar você.

Não iria resistir por muito tempo – se não fosse estrangulado, sua cabeça seria esmagada contra cacos. Wufei já estava ficando com a vista turva, sua cabeça cedia cada vez mais para baixo; nada mais podia ser feito, além de pensar da maneira estúpida que ia morrer.

- SEGUREM-NO!

Uma voz imponente preencheu o quarto, um milésimo de segundo após no qual a porta era aberta com tanta violência que foi jogada contra a parede.

Aquilo despertou Wufei de seu estupor, mas a visão continuava cada vez mais turva. E quando finalmente tudo o que restou foi escuridão, só teve tempo de sentir um peso ser tirado revoltado de cima dele, e uma mão delicada aparar o que seria a queda de sua cabeça contra os objetos pontiagudos.


Um cheiro forte o trouxe de volta à realidade, e assim ele abriu os olhos aos poucos. Estava escorado em uma parede de um quarto diferente do que Trowa havia destruído, esse não tinha móveis como o outro, apenas uma cama a alguns poucos metros dele, parece que a chance de mostrar seus dotes de decoração não seria dado uma segunda vez a Trowa. Levando a mão à testa, ele encara um rosto que horas atrás jurava que nunca mais iria rever.

- Obrigado por me salvar. – disse sem jeito – e por... – Põe as mãos no peito descoberto, e depois nos curativos nas costas – Cuidar de meus ferimentos.

- Sem problemas, Wufei. – Sally sorri – Os ferimento foram um pouco graves, mas nada que eu não pudesse dar conta.

E ambos ficaram em silêncio, muita coisa havia sido dita para agora simplesmente ignorarem.

- Desculpe-me... – Sally disse primeiro – Eu fiquei fora de mim, não devia ter dito aquelas coisas.

- Tudo bem. – Wufei apenas se recostou mais contra a parede, queria dar fim ao assunto.

- Não, não está tudo bem: ainda não aceito você me deixar, mas se é com ele que você quer ficar... Não posso fazer nada.

- Sally... – a voz de Wufei saiu doce enquanto se inclinava ligeiramente para a frente e afagava o rosto molhado de lágrimas de Sally – ...por que você não entende? Desde a época em que estávamos juntos, eu lhe disse: "Eu não amo aquele homem"(4). E eu juro que nem antes, nem agora, eu vou me encontrar com ele; e que se este for o caso, haverá duas armas entre nós.

- Ah, Wufei! – Sally se joga nos braços de Wufei ignorando os ferimento em suas costas –Você não sabe o quanto eu sofri... no começo você falava o tempo todo nele, depois, mesmo quando parou, comecei a te ouvir de noite chamando seu nome, como quer que eu acredite?

- Agora eu não faço mais questão. – sua voz saiu mais seca do que desejava, via isso nos olhos da mulher a sua frente. – Acredite no que quiser.

- Você... – Sally afasta seu corpo do dele – ...tem... outra pessoa, agora?

- Mais ou menos. Muitas coisas têm que se resolver antes, para eu poder afirmar isso.

- Então, se por acaso não der certo, você podia voltar para mim: eu nunca te esqueci.

- Sally. – Wufei se levanta do chão com custo – Não daria certo. – de pé, pôde ver que tinha alguém deitado na cama. – Como ele está?

- Quando o tiramos de cima de você, pensei que ele havia te matado. – ambos se aproximam cautelosamente da cama. - Para compensar nossa interrupção, seu parceiro fez questão de quase matar metade dos homens que eu trouxe. Depois ele foi devidamente amarrado na cama.

- Seus métodos de tratamento não mudaram desde que deixou a OZ. – disse Wufei sarcástico, afastando levemente a franja do rapaz adormecido e vendo completamente a face tranqüila do latino enquanto dormia. Disse baixo para si mesmo – Nem parece a mesma pessoa. – estremece, ao lembrar a imagem demoníaca deste mesmo jovem poucos minutos antes, atacando-o.

- Não tivemos escolha. Por fim, os batimentos cardíacos dele estavam muito acelerados: para evitar um infarto agudo no miocárdio, tivemos que medicá-lo. Depois de algum tempo monitorando os batimentos cardíacos dele, eu agora acredito que ele esteja fora de perigo, nesse ponto.

- Hn? – Wufei desvia os olhos de Trowa e volta a encarar a doutora. – O que você disse?

- Não sabemos como ele estará quando acordar. – Sally encara o piloto de volta – Wufei, serei franca: pelo que vi a pouco, ele não é a pessoa que eu recomendaria para pilotar um MS do potencial de um Gundam – se ele não estiver tão capacitado quanto estava, quando entrou aqui, eu serei forçada a...

- Você não será forçada a nada, Sally.– os olhos de Wufei nunca estiveram tão perigosos – Até aonde sei, onna, sua missão acabou no momento em que assumi a responsabilidade da encomenda dos Doutores – e com ela, qualquer relação sua com os pilotos Gundam. A responsabilidade pelos atos do piloto 03 é minha, e a decisão de queima de arquivo é totalmente minha também. Em nome de meus superiores eu agradeço sua colaboração.

Cada palavra dita por Wufei não podia ter sido mais fria ou mecânica, e a posição de Sally não podia ser mais certa: Trowa sob as vistas de qualquer olhar são, era um elemento totalmente instável dentro de uma arma altamente perigosa. "Mas eu sei que Barton não estava em seu estado normal! Ele não poderia ser julgado; não seria justo, mas não tenho permissão para liberar informação do atual estado dos pilotos Gundam, não poderiam dar brechas para o vazamento de informação."

Sally piscou algumas vezes após ouvir cada palavra de Wufei, e diante do olhar determinado do chinês não pode evitar sorrir – ele podia usar qualquer desculpa que quiser, mas para ela estava claro que acima de qualquer coisa ele estava preocupado com o bem estar do piloto 03, e acima de tudo o bem estar do seu amigo.

Se afastando da cama do paciente, Sally diz antes de deixar o quarto, sem nem olhar para o chinês que nem por um minuto deixou de fuzilá-la com o olhar.

- Você realmente mudou muito, Wufei, não sei se fico feliz ou triste. – e complementou baixinho para si mesma – Afinal, eu sei que não fui eu a responsável por essa mudança. - Sally sai do quarto, fecha a porta atrás de si e enfim deixa sozinhos os dois pilotos.

Wufei sentou na cama ao lado de seu companheiro e voltou a admirar o jovem a dormir – não o deixaria sozinho, não quando as palavras ditas por aquele latino enfim começavam a fazer sentido, e uma frase em especial não saia de sua cabeça. "Trowa, nem mesmo agora você consegue; parece que em seu estado atual o ferimento só se alargou mais".

Seus ferimentos latejavam e a posição depois de um tempo se tornou incômoda, mas horas se passaram, e Wufei não se moveu de onde havia se sentado, até os olhos a sua frente se abrirem, cautelosos.

- Wu... fei...? – a voz de Trowa saiu fraca – O que... fui eu que ...? como eu...?

- Acho que qualquer um de nós tem treinamento suficiente para fazer esses ferimentos em alguém. – Wufei sorri – Fico feliz que me reconheça, e reconheça o que fez; é um começo.

- Ai, Wuffy... – Trowa massageia a testa – Não sei nem com que cara eu encaro a Sally.

- Essa já tá ótima. – ele não consegue deixar de escapar o comentário mordaz, mas voltando ao seu normal, continua: - No momento, se preocupe em melhorar logo para voltarmos para o esconderijo. Nossa missão está cumprida, e isso basta. Agora, eu tenho outro assunto a tratar com você.

- Wufei, eu ...

- Eu não vou fugir do assunto, Trowa, e se você quer tocar no Heavyarms outra vez, eu espero que você também não fuja. – suas palavras são duras e caem pelo aposento rasgando o silêncio ao redor de si. - Está ciente que, apesar de já termos concluído a missão, você esteve a um passo de ser eliminado por insubordinação em serviço e por ter posto em perigo todo uma base de potenciais aliados?

- Você não entende... – uma agonia incomum tolda a voz rouca do outro rapaz.

- Entendo. Entendo muito bem. "Eu sabia que você viria."

O som de um fôlego sendo retido por um instante soa nitidamente no aposento.

- Wufei, pare...

- " Mas você veio, eu sabia que você viria, é sempre assim."

- Eu disse para parar! – exclama com força, e cobre os ouvidos com as mãos de forma infantil

- "...gritei ,gritei, gritei, mas você não veio, então eu me lembrei: você não vem quando eu não me comporto." – segura as mãos do latino, o obrigando a ouvir.

- Me largue! Você não sabe, você não sabe de nada! – Trowa se agita furiosamente na cama, sob Wufei.

- " Você não tem vindo para mim ultimamente, eu não sabia mais o que fazer para você vir para mim".

- CALA A BOCA, DROGA! – liberta as mãos e esmurra violentamente o chinês o jogando para fora da cama

O piloto 05 não desiste:

- "JÁ NÃO BASTA AQUELE MALDITO AMERICANO?" – grita, limpando o sangue de seu nariz com as costas da mão enquanto levanta.

A respiração de Trowa estava pesada, e suas mãos massageavam as têmporas. Wufei temia que tivesse exagerado e mais uma vez, o latino tivesse saído do controle. Mas sabia que tudo aquilo era necessário.

- Tro...

- Eu não sei mais o que fazer... – Trowa tremia todo o corpo – Eu não sei mais... seu corpo, seus olhos seu cabelo, sua voz! – os belos e agora trágicos olhos verdes fitavam o nada – Tudo nele me excita; eu me apaixonei no primeiro momento que o vi... tão puro, tão forte, tão... correto. Eu o quis, e ainda quero: seu corpo contra o meu, sua voz no meu ouvido, sua vida eternamente entrelaçada na minha... meu ar depende de sua presença, meu sangue só circula se seus olhos consentirem, minha vida só tem sentido se suas mão tocam meu corpo... – esmurra o colchão com violência – DROGA, eu não durmo se sua mão não me tocar confirmando que ele está ali, ou se no dia seguinte eu o terei ao meu lado, e mesmo que nos separemos, só terei certeza que no dia seguinte estarei vivo, se não ouvir em sua voz divina, aquela que foi cedida pelos anjos... se ele não me disser 'adeus'... – sua voz se suaviza - ...mas um esperançoso 'volte logo'.

Imóvel, e ainda um pouco afastado da cama, Wufei observa um dos pilotos mais bem treinados daquela guerra se rasgar por dentro... aceitando curvar-se, para não quebrar.

- Eu o amo... amo, amo, amo! Que inferno, eu o amo mais do que posso suportar, mais do que qualquer coisa nesse mundo, e em qualquer outro! Então... por que diabos eu não consigo dizer isso? Por que minha voz falha, no momento de confirmar o que eu sinto em cada fibra de meu ser? Por que ... eu não... por que ... Por que as palavras que em toda minha vida não poderiam ser mais verdadeiras não podem ser ditas por minha própria boca? – seu rosto volta-se lentamente para o parceiro dentro do quarto: - Eu fiquei feliz, Wufei... Por alguns segundos eu realmente fiquei feliz quando tudo isso aconteceu; aquela era minha chance, eu cheguei a pensar que com a personalidade extrovertida de Duo, eu conseguiria dizer o que sentia... mas toda vez que tentava, eu só conseguia soltar alguma piada ou desconversar com algum comentário sarcástico. Eu me sinto inseguro, eu tenho medo, eu não consigo falar o que sinto com Quatre e ele está se tornando cada vez mais distante, e para piorar estamos brigados: eu tenho medo de perdê-lo! - Trowa abraça as pernas e se encolhe – ...eu tenho, eu tenho... eu tenho medo, Wufei.

Foi assustador de início.

Como um vômito de palavras, cada sentimento do latino foi despejado de uma só vez. Entre lágrimas, soluços e desespero, suas mágoas foram reveladas, cada cadeado de seu espírito foi aberto... só faltava um – algo que perturbava Wufei a algum tempo: aquela bendita frase.

- Trowa, e o que o Duo tem haver com tudo isso? – pergunta, sentando-se ao lado de Trowa.

- Nada. Eu... não tenho o direito de culpá-lo como tenho feito por todo esse tempo, eu... só posso admitir que desde a primeira vez que o vi junto de Quatre, eu morri de ciúmes... e acima de tudo, inveja: seu jeito de se expressar com o meu anjo era sempre tão espontânea, tão aberta, que eu não pude evitar.

Wufei não pode deixar de entender os sentimentos de Trowa: antes mesmo de serem obrigados a conviver na mesma casa, o loirinho e o americano mostravam uma afinidade assombrosa; afinal todos já haviam se passado algum tempo uns com os outros antes daquela missão desastrosa, mas era sempre evidente que tudo não passava de uma amizade. Talvez para Trowa não fosse tão evidente assim, e isso somado à sua insegurança e ao seu estado psicologicamente alterado no momento... Era um milagre que seu surto tivesse demorado tanto para acontecer.

- Wufei, eu... – ele parecia ter recuperado um pouco do controle sobre suas palavras – ...tenho que te pedir desculpas.

- Tudo bem, alguns dias de repouso e não deverá ficar nem marcas.

- Não é isso; é que eu fiz algo realmente... egoísta. O único motivo de impor tanto a minha presença nessa missão é que...

- Eu já sabia.

- Já! – Trowa não poderia parecer mais surpreso. – Então, por que aceitou que eu substituísse o Heero?

- Eu não sou estúpido Barton. Era óbvio que você não queria que Heero ficasse novamente sozinho comigo – e agora entendo por que: você queria que Heero ficasse com Duo e assim, poder respirar mais aliviado quanto a amizade entre Quatre e o idiota de trança. – presenteando o jovem abatido ainda deitado de qualquer jeito na cama com um olhar de momentâneo desprezo e superioridade, Wufei continuou: Realmente você sabe empregar bem as palavras: eu próprio não poderia chamar isso de outra coisa além de egoísmo.

- Des... desculpe...

- Tudo bem. – passado o rápido instante no qual seu temperamento quase levara a melhor, seu olhar não poderia ser mais terno: – Afinal, eu amo o Heero. – a confissão de Wufei foi menos desesperada, mas suas palavras mostravam a mesma intensidade que as de Trowa.

- Wufei! – Trowa se surpreende com a sinceridade do chinês.

- Mas o que eu sinto por ele independe do que ele sente por mim, por isso se esse sentimento vai ser algo que vai me fazer bem ou me corroer amargamente, depende totalmente de mim: vou lutar por ele até onde der e se no fim, não ficarmos juntos, Trowa, não vai ser por que não ficamos juntos por um dia ou dois – se ele vier a escolher o Duo, não será apenas, por terem, os dois, ficado juntos por mais de uma hora sozinhos.

Trowa sentiu vontade de lhe perguntar o que ele faria se Heero o rejeitasse, mas se lembrou das palavras que ele acabara de dizer : "...o que eu sinto por ele independe do que ele sente por mim." Nada poderia ser feito, tudo dependeria da decisão do japonês; tudo o que Wufei podia fazer, e fará, era olhá-lo toda manhã e mostrar tudo o que sentia, a cada toque. Uma luta silenciosa e deprimente, mas que seria lutada, até o fim, com honra.

Ambos estavam exaustos, seus corações tinham descarregado o que havia de neles de mais pesado – seus sentimentos. Fossem eles apenas desencontrados ou rejeitados, o fato é que o alivio para ambos era igual.

Tendo o chinês sentado na cama novamente ao seu lado, Trowa fecha os olhos e deita a cabeça carinhosa e confiante em seu colo, desta vez sem segundas intenções. O conforto do toque suave de Wufei em seus cabelos era o maior conforto que poderia ter no momento; era caloroso, e... familiar.

Sim, aquele toque não lhe era desconhecido – estaria delirando novamente? Não, estava bem lúcido, mas... aquele carinho, e aquele perfume... "Só pode ser!"

Ao abrir repentinamente os olhos não pôde acreditar: ajoelhado no chão junto à cama, e ao lado de Wufei, estava Quatre; seu rosto como sempre era sereno, abrigava nas faces um sorriso que lhe aqueceu o rosto, decerto ruborizara. O colo em que ele, Trowa, estava deitado ainda era o de Wufei, mas a mão que lhe afagava era de seu anjo.

- Winner, você deixou seu posto. – Wufei foi seco. – Exijo uma explicação.

- Enquanto vocês estavam fora, Dr J passou uma missão de emergência: tive que assumir essa responsabilidade; quando a finalizei, recebi uma mensagem de Heero que vocês estavam fora do prazo estabelecido para o retorno.

- Como descobriu nossa posição? – os olhos negros tinham se estreitado.

Tranqüilo, o loiro ergue os olhos aqua-marinhos e responde à dúvida mostrada por seu superior de maneira segura e firme, sem hesitação.

- Esqueceu que desde que aconteceu aquele incidente nós instalamos em nossos Gundans um dispositivo de rastreamento para caso houvesse algum acidente? Bem, por sorte a missão que eu aceitei era para ser efetuada em uma área próxima, dentro da capacidade do meu radar.

- Entendo. – Wufei apenas assentiu com a cabeça.

Se levantando do colo de Wufei, Trowa se senta na cama e o chinês fica livre para se levantar. Wufei sai do quarto deixando os dois para trás.

- Bobo. – Trowa balança a cabeça – Ele disse tudo... menos o que queria dizer.

- E seria...? – perguntou Quatre sem emoção.

- "Winner, você deixou seu posto, exijo uma explicação", deveria ter sido... "Winner, você deixou seu posto, por que você deixou eles sozinhos?". Ele me disse alguns minutos atrás, que mesmo que se aqueles dois ficassem sozinhos uma hora ou mais, nada mudaria; talvez para uma pessoa racional isso seja verdade... mas, quando foi que qualquer um de nós cinco foi verdadeiramente racional, nas últimas semanas? Ah é, esqueci de você, sr. certinho.

Quatre nada respondeu.

Apenas se encaravam, agora. Trowa novamente se via preso na tentativa de dizer seus sentimentos, mas nada saía, nada mudara. De nada adiantara ter quase matado Wufei, então? Em verdade, nada mudou. Era tão simples! Por que não consegue, por que não consegue dizer...

- Eu te amo. – Quatre diz

- O que? – Trowa se surpreende.

- Eu te amo. – repete como se não fosse nada de mais – É isso o que quer dizer, não é? O que você passou os últimos dias... angustiado, querendo me dizer? – um sorriso verdadeiro se desenhou em seu rosto. – É simples... apenas diga.

- Não, NÃO É simples! – Trowa chora, exclamando – Eu já te disse que te amo antes, tantas e tantas vezes, desde o dia que fizemos amor pela primeira vez, na noite em que nos conhecemos. Mas... mas não basta, eu não consigo dizer tudo...! Mas para você parecia ser tão... fácil.

- Por que era. Só de olhar para você, as palavras se formam com facilidade, e saber que você me ouvia com tanta paciência já me é de grande conforto. – o loiro olha o rosto visivelmente abatido e cansado do amante. Lutando contra a outra personalidade que tão ferrenhamente lhe trancava os sentimentos, Quatre prepara-se para o que vai dizer: - Trowa, eu ouvi o que você disse para o Wufei, alguns minutos atrás. Cada palavra que disse.

- O... o... ouviu?

- Ouvi, e não vou negar que fiquei muito feliz, e até um certo ponto convencido, mas... – Quatre se senta na cama e toma o rosto de Trowa entre suas mãos: – ...apesar de serem palavras bonitas, nada me fará estremecer mais, ou simplesmente ter certeza de que você me ama, do que esse seu lindo olhar, amor. Eu te amo Trowa, e posso repetir isso um milhão de vezes, e você também pode repetir isso um milhão de vezes, mas nada vai mudar o fato de que basta você me olhar uma vez, como está me olhando agora, para eu saber que n.a.d.a. nesse mundo irá nos separar. Porque simplesmente... Nada, absolutamente nada, afinal... NADA seria capaz de me afastar desse seu olhar.

- Quatre...

Quatre não fora de todo sincero – diante do desespero do amante não tivera coragem de confessar, de contar que também estava confuso, e apesar de ter dito tanto, agora, estava tendo dificuldades de se expressar para ele nas últimas semanas. Aquilo o estava machucando, e, se não fosse por umas certas palavras de Heero a algumas horas atrás...

O loiro puxa o rosto de seu amante para um beijo. Quando seus lábios se encontraram, foi como o selamento de uma promessa... mas assim como o laço que os unia, essa promessa não poderia ser traduzida em palavras, mas em apenas um ato, o de jamais se separarem.

- Mas Quatre, diga a verdade... – Trowa separa o beijo – Você é um péssimo mentiroso, amor. NUNCA que o Dr J passaria uma missão, sabendo que Wufei está ocupado com outra; apesar de ter deixado passar, duvido que Wufei tenha acreditado em uma única palavra que você disse.

- Hn... Tá certo. Eu estava preocupado, várias vezes depois que você saiu, eu senti pontadas no peito; no início, eu pensei que era por causa do Duo, ou mesmo o que eu tinha lhe dito antes de você sair, mas por alguma razão, algo me dizia que era por você, e eu fui ficando tão aflito que não agüentei, vim atrás de você.

- E como nos achou sem as nossas coordenadas? – perguntou o outro, surpreso.

- Heehehehe – Quatre brindou-o com um sorriso maroto – Já ouviu falar do meu... Coração do Espaço? (5)

E calando qualquer interrogatório futuro, Quatre avançou novamente contra a boca de Trowa, mas desta vez com mais determinação: havia alguns dias que sequer se tocavam, se perguntava diariamente quanto tempo mais poderia suportar tamanha tortura. Bem, parecia que afinal ele tinha sua resposta.

Já estava deitando o corpo de Trowa sobre o colchão, quando a porta foi aberta com violência. Apesar de pegá-los em uma posição nada cômoda (ou cômoda até demais) Wufei não se abalou com os olhares que gritavam "estraga-prazeres"(6) – o que o trazia ali de volta era importante.

- Sally está decodificando uma mensagem nesse momento, ela veio do nosso esconderijo.

Os olhos de Quatre modificaram-se.

- Pensei que não tivéssemos a freqüência dessa base.

- E não temos. Mas isso não é o mais importante no momento: essa mensagem veio da nossa linha de emergência. Algo de errado está acontecendo no esconderijo!

- Duo... Heero! – Trowa exclama.

Levantando-se imediatamente da cama sem mais perguntas, Quatre e Trowa disparam a seguir Wufei através do corredor, depois pela enorme sala da entrada, e por fim por outro corredor. A mesma sala que havia sido usada para guardar a caixa – a sala de confêrencia: foi nela que os três pilotos resfolegantes entram.

- Wufei, conseguimos decodificar a mensagem, mas... – Sally disse

- Passe na tela. – foi a ordem que recebeu.

- Por favor, se acalme, nada poderá ser resolvido se...

- PASSE LOGO ESSA PORCARIA NA TELA! – Wufei explodiu.

- Certo.

Sally não parecia confortável – decerto já havia assistido a mensagem.

Quatre e Trowa estavam tão nervosos quanto Wufei, mas este não parecia preocupado mais em esconder – sua cota de paciência já havia acabado há muito tempo naquele dia.

A tela foi ligada e a imagem de um rosto apareceu nela. Duo. Atrás dele, o cenário era de um dos quartos e o som de vozes desconhecidas soavam, variando entre frases um pouco atrapalhadas por estática: "Atrás dele!", "...não deve... ar muito longe", "...mostrar resistência, matem-no!" Sua boca estava coberta de sangue e seu nariz parecia quebrado, as primeiras palavras vieram sem nexo, mas o final foi mas fácil de entender.

- ...detonar os Gundans... Temporizador ativado... piloto... não venham... esconderijo dominado... fuga... me encontrem nas coordenadas que vou enviar, mais detalhes lá. – Duo se cala por alguns segundos toca o sangue abaixo de sue nariz e murmura algo... e assim termina a mensagem.

Tudo fica em silêncio. A situação não precisava de maiores explicações. Depois de mais alguns segundos de silêncio chocado, Wufei se vira para Sally.

- Onde estão as coordenadas?

- Aqui – Sally estende um cd.

- Obrigado.

Tomou o cd da mão dela e nada mais foi dito - calados e a passos apressados, os três pilotos Gundans restantes saem da sala. Providências tinham que ser tomadas, assuntos tinham que ser esclarecidos e acidentes tinham que ser reparados.

Wufei era o líder daquele grupo, nomeado por ser nas circunstâncias o mais capacitado, mas mesmo em meio a todo aquela situação desesperadora, apenas uma coisa o movia com tanta determinação e frieza – os olhos de Duo ao tocar o sangue não estavam vazios como o atualmente normal: havia profunda tristeza neles, e aparentemente, ao contrário do outros, parecia ele ter sido o único a entender aquele murmúrio – algo dito cheio de dor:

"Hee-chan".


Continua...

Wufei: "Você planejava me jogar para cima da Sally, não é?"
Luana: (Admitindo a culpa.) "Sim."
Wufei: "Mas você não conseguiu, não é?"
Luana: (Trincando os dentes.) "Não."
Wufei: "Escritora fajuta!" (acusa) "Não sabe nem controlar os personagens da própria fic!"
Luana: "Admita! Você só está bravo por que não fiz você ir até o fim com o Trowa!"
Trowa: "Noooossa, é verdade, Wuffi? Desculpe, eu sei que sou gostoso, mas já tenho dono, viu?"
Wufei: "O... O QUÊ! Que SANDICE é esta? Eu não..."
Luana: "Ih... Leevou um fora, levou um fora! Ei, já é o segundo nesse capítulo, não?"
Wufei: "Como assim, 'levou um fora'? Eu..."
Trowa: "Ai coitado... Também não precisa ser tão má com o bichinho, Luana-Sama! Já sei! Vejamos... O Quatre eu não largo, mas por que você não escreve um 'ménage-a-troa' com ele, Hee-chan e o Max?"
Wufei: "Mé... Mé... Ménage-a-t..." VERMELHO
Luana "EU NÃO ESCREVO MÉNAGE-A-TROA! O que é isso, um complô? Você andou falando com a Illy, seu... Franjudo de uma figa?"
Wufei – "Ménage-a-troa..." (Começando a gostar da idéia.)
Quatre - (...) (mão na cabeça.)
Duo - Hn (...) (olhar seco, mas sem esconder um brilho de malicia.)
Quatre - (...) (massageando as têmporas atrás de paciência.)
Duo: Hn (...) (contando nos dedos.)
Quatre: (...!) (munido de um olhar maligno que não combina nada.nada.nada com um anjo.)

TRADUÇÃO dos PONTINHOS:

Q: - O que raios eu estou fazendo aqui, com todos esses doidos? Se um deles não fosse o amor da minha vida, eu já teria mandado internar todo mundo. Talvez dê pra fazer isso pelo menos com a autora – não seria uma grande perda para o mundo literário.(mão na cabeça.)

D: - Eu tenho uma arma com projéteis tranqüilizantes no meu quarto; se quiser eu posso te emprestar.(olhar seco, mas sem esconder um brilho de malicia.)

Q: - Deixa pro próximo capítulo... Nesse eu estou devendo uma para ela: afinal, finalmente eu me entendi com o Trowa. (massageando as têmporas atrás de paciência.)

D: - Mas ela não completou um único lemon de vocês o capitulo inteiro... e ainda fez o Trowa beijar o Wufei. (contando nos dedos.)

Q: - A onde fica o seu quarto mesmo? (munido de um olhar maligno que não combina nada.nada.nada com um anjo.)


Notas da Autora:

(1) – "...em uma época em que eu não era muito sociável, eu não pude agradecer devidamente uma mão que ela me deu, envolvendo uns mísseis."
Esta cena REALMENTE existe na série de TV de GW – sei disto porque, assim que pude raptar as fitas da Illy, passei 46 horas e 38 minutos assistindo-a e anotando TUDO o que acontecia nos caps para poder usar como referência. Agora, só não me perguntem QUAL o famigerado capítulo, porque eu tô com uma preguiça filha-da-mãe de levantar meu pobre corpo desta cadeira em frente ao computador para ir pegar o caderno que está na estante da sala. XD

(2) – "...que dentre nós EU sou o único que não conheceu a amabilíssima Sally Po!"
Realmente. Só o lindo do nosso moreno não conheceu a fofinha da Sally. Maldade, ne? Afinal, a Sally merecia ter conhecido esse moreno de olhos verdes gostoso!

(3) "ONNAAAAA! O QUE OS FRACOS FAZEM, QUANDO OS FORTES CHEGAM AO CAMPO DE BATALHA?"
Admitam! Admitam! Ele TEM coragem, o nosso Dragão!XD

(4) – "Eu não amo aquele homem."
EITAAAAAAAAAAAA!
Aí, meninas!
Declaração dos fatos apuradíssima! Direto do nosso Amado piloto 05, sua declaração de que ele NÃO AMAVA, e nem ama, no momento, o Treize!
Isso mesmo – é a da eterna suspeita de que o Chang teria uma paixão escondida pelo Treize, que a Sally está falando. XD

(5) – "Já ouviu falar do meu... Coração do Espaço?"
Não lembro ao certo a intensidade e todas as capacidades do famoso Coração do Espaço de Quatre – e lembrem-se... falta-me coragem para ir até a distante sala de estar - mas nessa fic eu resolvi colocá-lo dessa forma: Quatre sentia a angústia de Trowa mesmo de longe e guiado por esse sentimento, o achou. ah, o AMOR!
Ahem... sendo ele pertinente com sua real função e intensidade ou não, era necessário, no capítulo, ohohhohoh

(6) - "...os olhares que gritavam "estraga-prazeres"(6)
AHAHAHAHAHAHAHAAHHAHAAHAHAHAHAH
Minha VINGANÇA com a Illy-chan, por ela ter sido a "Empata-Lemon", entre o Trowa e o Quatre na fic da Aninha-SaganoKai, a "Um Moreno de Olhos Verdes..."! - ou vai dizer que vocês não querem tirar o couro delapor causa disso?
Porque eu vou contar para vocês... Um Quatre MALIGNO como o que a Aninha está fazendo... Tadinho do Trowa, MESMO, Ula-lá!(Evil Luana)