Olá a todas, novamente! (Luana chegando, toda sorridente.)

Estou enviando a fic para a Illy betar – novamente, heehh - e espero que todas vocês gostem XD.

42 páginas, viu, Illy? XD Luana Maligna

Eu mesma estou me animando tanto, nessa fic, que a cada cap que passa, parece que meu computador tem é uma GOTEIRA, de tanta lágrima que sai da tela!

Luana preocupada... Porque será?

Eu ainda vou eleger 'Qual Piloto Foi o Mais Chorão" ! (ok, ok, eu não devia me orgulhar disso), e digamos que eu machuquei... um pouquinho demais, o casal principal desta vez... ( OK, OK! NÃO DEVIA ME ORGULHAR MUITO MENOS DISSO, também !), mas... reta final é reta final, e esse capítulo está CHEIO de revelações, reviravoltas, novos vilões. E BANANAS!

Illy, amor! Eu tentei, tentei, e tentei ver um meio de amenizar o ritmo, mas fazer isso me tiraria do rumo que eu estava traçando, e as chances de piorar o que pode ser um final apressado seria grande.

Espero que se divirtam com o que estou mandando – eu fui meio cruel! Lágrimas de crocodilo

... e se vocês concordarem comigo, vão se surpreender com o que planejo no 8!

Uma boa notícia! Estou começando a me acostumar com cenas de luta, e em boa hora, pois está na hora da grande invasão e resgate! (Lu em sd, em seu MS de Gundânium)

SALVEM NOSSO HEE-CHAN, VALENTES G-BOYS!

Wufei: "E quem vai nos salvar de você?"
Luana: "Cala a boca, chinês!"

OBS.: Esse cap vai em homenagem a todas as leitoras que me mandaram reviews -e as que não mandaram e acompanham a série, fico feliz que até agora não recebi nenhuma reclamação (com exceção da minha falta de apego a ménage-a-troa ) ou ameaças de morte, caso pare de escrever.

E é claro, também ofereço essa fic a nossa boa amiga... a banana! He he he.


Wufei: "Mas afinal, o que você fez com o Yu... Hum? Onna? O que você está fazendo escondida debaixo da cadeira do computador?"
Luana: "Shhhh! Tem um árabe furioso armado até os dentes atrás de mim!"
Wufei: "Bem feito – quem manda começar lemons e não terminá-los?"
Luana: "Deixa de ser despeitado e me diz se o loiro tá na área!"
Wufei: "Não." – revira os olhos: -"Ele não está na área."
Luana: "Ufa!" – saindo do esconderijo – "Obrigada, eu estava tão preocupada que..."
(BAM! - uma bala passa raspando pela orelha da escritora)
Luana: "Chinês Desgraçado! Você não disse que ele não tava na área?" – e sai correndo.
Wufei: "Ops." – olhar malignamente 'inocente' – "Era nesta área? Foi mal, onna..."


Lembranças de pensamentos em Itálico e em Negrito, dentro de //

"Por que Seus Olhos Não Me Enganam..."

Capítulo 7 Aquele que devia estar ao meu lado


Tudo havia sido dito.

Foi com surpresa que ele se viu botando para fora todas aquelas palavras: a dor que sentia diminuía, à medida que seus sentimentos ganhavam forma, e o fato de não ter que encarar aqueles olhos negros, que tanto o atormentavam, só ajudava.

Mas enfim acabou. Sentia-se vazio e preenchido ao mesmo tempo: exagerara em algumas partes de seu discurso, fora precipitado em outras... mas no geral, nada poderia retratar melhor o seu íntimo. Já estava pronto: tendo dito tudo aquilo, já podia suportar a idéia de Wufei partir.

O silêncio às suas costas era um sinal de que o chinês já havia saído. Menos mal: não sabia por quanto tempo poderia manter a compostura, ou melhor, sabia – só pudera mantê-la até sentir aqueles braços enlaçarem sua cintura, a língua brincar com seu pescoço, o beijo... e aquela voz inebriante soando ao seu ouvido:

- Boa sorte – A voz determinada dele diz palavras docemente sussurradas: - Lute o quanto puder: não se desanime por poucas palavras... e tente pegar o Maxwell para você; mas quando eu voltar, não me importa se vocês estarão juntos ou não: EU não vou desistir de você – cansei de apenas te olhar; te farei desejar mais do que apenas meus olhos sobre você.

Sua mão ainda vacilou, diante da idéia de manter os braços que envolviam tão ternamente sua cintura contra aquele corpo quente, mas nada fez, a não ser esperar o inevitável: não só os braços, mas Wufei inteiro se afastou, e o som de porta abrindo e fechando lhe disse que o chinês enfim havia ido embora... e junto com ele, todo o apoio que impedia seus joelhos de ficarem trêmulos, deixando-o para trás com a pergunta "Quem lhe disse que eu já não desejo?"

O que faria agora? Ir atrás dele? Não; não seria prudente estender mais esse assunto: Wufei estava para enfrentar uma missão, e ele...

Desculpas.

Sempre desculpas. Mesmo antes de isso tudo acontecer, já se via escondido atrás de desculpas.

/"Então o nome dele é Duo Maxwell? Ele é tão lindo... está sempre tão alegre. Não consigo sorrir como ele – sei ser intimidador, cínico... por que me incomoda tanto não sorrir como ele? Não sorrir com ele? Por que algo tão simples parece tão importante/ Contenha-se Heero Yuy, como soldado seus deveres se resumem a ter em mente sempre as colônias como prioridade, a proteção de milhares de vidas as quais você nunca verá o sorriso"./

Sem ânimo, se rendeu aos movimentos mecânicos de seu corpo – ia em direção ao corredor.

/"Estamos sozinhos por horas, pensamentos estranhos passam por minha cabeça, sinto que ele também me busca com os olhos nesse quarto escuro. Será/ Estamos em meio a uma missão, seria impróprio, fora que a chance dessa impressão estar correta é muito improvável"./

Seus passos eram suaves – não queria acordar ninguém, ainda deviam ser umas quatro horas da madrugada. Maldito J, maldita missão, maldita Sally! Se não fosse por eles, ainda estaria em sua cama, sonhando... Mas sonhando com quem?

"Suas mãos tocaram com as minhas, segundos atrás, por que não as segurei forte e o puxei contra meu corpo? Duo... por que não pude sentir o calor de seu corpo por mais um segundo/ Ele apenas me entregou uma lata de refrigerante, as possibilidades que esse ato escondam segundas intenções são as mesmas de um anjo amar um soldado de gelo".

Wufei?

Seria ele o dono de seus sonhos aquela noite? Suas palavras de conforto, seus olhos decididos, seu corpo receptivo?

/"Depois de me autodestruir, ele deve estar preocupado comigo; será que não tem como entrar em contato com aquele americano tagarela/ por que ele se importaria com a sua vida? Quem um dia sequer já ligou?"./

Duo?

Seria ele a tomá-lo nos braços? O embalaria calmamente, mantendo-o sob aqueles olhos violetas, sua voz sempre alegre e dona de um calor único?

/"Teremos uma missão juntos depois de tanto tempo, finalmente irei revê-lo - teremos que destruir uma máquina com funções irreais, mas não importa: irei finalmente vê-lo. / De que adianta revê-lo? Nunca ele irá compartilhar da mesma euforia que você, seu idiota!"/

Como pudera ser tão tolo? Duo Maxwell? Por que insistia em pensar nele? Suas mãos, olhos, palavras... Sempre tão distantes. Aquele não era mais Duo, e talvez nunca mais fosse outra vez – seria esse um motivo suficiente para esquecê-lo? Seria mesmo impossível amar esse Duo?

/"Ele falou comigo: piadas cobertas de sarcasmo, mas... eram suas palavras, ditas por aquela voz melodiosa, mesmo eu tendo o tratado tão rudemente alguns minutos atrás... mas como poderia perder a chance de tocá-lo? De mantê-lo tão junto a meu corpo/ E como resposta recebeu uma mordida na mão! Há há há! Acho que esse será o máximo de resposta aos seus sentimentos que você receberá!" /

Estava parado na frente do quarto do americano. Mesmo não falando mais com ele, nos últimos tempos vinha passando bastante tempo parado na frente daquela porta – não tinha coragem de abri-la, se lembrava bem da última vez que o fizera. "A esta hora ele já deve ter voltado a dormir.", Talvez esse fosse o único momento em que ele voltasse a ser seu anjo. Seu? Desde quando ele fora seu?

"Ele acabou de se declarar a você: por que então não diz que você o ama também? SEU IDIOTA, DIGA ALGUMA COISA/ Eu vou dizer, eu vou dizer que o am... Espere, um dos soldados vai atingi-lo pelas costas! Maldição! Esse baka não pode ser tão incompetente para não notar... Não viu! Terei eu mesmo que me livrar do bastardo, mas tarde digo..."

- Mas o que eu estou fazendo aqui?

Heero mantinha seus dedos colados contra aquela porta, sua mente nebulosa pela primeira vez recebia fulgidios raios de razão, e se viu completamente hipnotizado a olhar a madeira a sua frente.

- Eu não estava pensando em Wufei? Por que minha linha de pensamento sempre acaba em Duo?

Não conseguia mais manter as palavras apenas em sua mente: desnorteado, as deixava saírem de sua boca; mas isso não as tornavam menos verdadeiras: desde quando se tornara tão instável? Soldado perfeito? Que piada, desde quando esse título não lhe servia mais? Desde quando esse apelido - no mínimo infantil - não se fazia mais presente? Talvez desde o mesmo dia em que vira, pela primeira vez aquelas profundas violetas.

Tornara-se patético desde então: reprimido, paranóico, arredio... Talvez essas não fossem palavras lidas em um livro de romance barato para descrever o estado de um rapaz, adolescente ainda, fatalmente ferido pelo primeiro amor, mas que palavras mais poderia usar? Ah, sim. Faltara apenas uma: falso.

Rejeitara cada demonstração de afeto do americano, o insultara e o machucara o máximo possível; tudo que pudesse fazer para afastá-lo seria feito, não queria aceitá-lo em sua vida – amor não era um sentimento aceitável. Não queria ter nada para se apegar, nada que se tornasse importante o suficiente para lhe dar um sentido de vida maior do que a da defesa das colônias.

Ledo engano. Nada mais podia ser feito. No momento em que cruzara com aquele americano, se afeiçoara àquelas incomparáveis violetas e viu a si mesmo, dirigida a voz daquele anjo negro... Foi naquele momento que o inevitável aconteceu, seu destino fora fortemente enlaçado no dele. Talvez na hora a palavra 'amor' ainda não pudesse ser dita, mas com o tempo, nenhuma mais poderia se empregar a tão terno sentimento.

Um sorriso totalmente desprovido de humor se desenhou em seu rosto - era tudo tão irônico... Depois de tanto tempo o afastando, quando finalmente se vira em uma situação para confessar o que sempre lhe fora tão claro, agora era ele... era ele quem era rejeitado.

- Wufei...

Sentia-se culpado pelo chinês: seus sentimentos por Duo não podiam ser mais claros, mas o que sentia toda vez que cruzava com o piloto 05 ainda era um mistério, o qual não sabia se gostaria de desvendar. Já os sentimentos do chinês por ele... Não era algo que saberia como corresponder no momento – não sem se sentir o pior ser humano da terra.

Heero tocou novamente a porta que encarava há tanto tempo; era fria, mas imaginava que, se a abrisse, seria recepcionado por um olhar ainda mais frio... Não: ele estava dormindo – ele não o expulsaria, se entrasse agora. Por quanto tempo poderia ficar perto dele sem ser expulso?

"-Sentimentos, Yuy? Não me lembro de sentir sentimento algum por você." – e virando a cabeça levemente de lado, continua – "... e para ser sincero, se fosse o caso, eu teria que eliminar a fonte de tamanha fraqueza. Hn, para que um piloto teria sentimentos?"

Afasta a mão da porta – lembranças de palavras duras o afastavam da única barreira que o separava de seu anjo negro.

"- Fique longe de mim. Não fale mais comigo, não respire o mesmo ar que eu... E se por acaso eu não pude deixar isto claro antes, me desculpe: pensei que fosse óbvio".

Palavras que ele, seu anjo, havia dito. Não sabia o que fazer, não sabia o que pensar; seu peito apertava, e o ar sumia cada vez mais rápido.

Dor. Dor. Dor. Não restava nele nada além de dor.

Em sua mente, só havia uma cura possível: "Wufei!"

Não era mais dono de seus passos: seu corpo se movia de maneira automática. Dando as costas para a porta do quarto aonde Duo se encontrava, ele voltou a cruzar o corredor o mais rápido que conseguia – talvez ainda pudesse alcançá-lo, talvez ainda pudesse ouvir a sua voz, sentir o seu toque...!

- Oh, sei lá! – uma voz o impediu de entrar na sala.

Parado então na entrada do corredor, Heero começou a ouvir uma conversa entre seus companheiros: – Como eu disse, o melhor para o Heero nesse momento não é o Duo, e como você está levando o Wufei para longe do nosso amado Soldado Imperfeito... Não vejo muitas opções; alguém vai ter que seduzi-lo, na ausência de nosso amabilíssimo chinês. – um sorriso irônico se desenhou no rosto do loirinho.

O conflito entre lembranças, pensamentos e sentimentos à porta do quarto de Duo, ao que parecia, fora rápido o bastante para o japonês voltar a tempo de ouvir uma pequena discussão entre o casal 20 do grupo... uma discussão na qual, aparentemente, o tema central da discussão era ele:

- Qua... tre? Você está brincando, não está? Você não faria...

- Eu? Imagine.

- Quatre, por favor...

Heero pôde ver, ainda que distante, um sorriso realmente maligno tomar conta do rosto do jovem piloto do Sandrock.

O rosto bonito do moreno demonstrava a agonia sentida pelas palavras enigmáticas do companheiro:

- QUATRE...! – ouviu Trowa esbravejar.

- Quatre...? – Heero sussurrou para si mesmo, quando se pôs ciente das intenções do loiro.

Do lugar onde estava, Heero podia ver o árabe sentado confortavelmente no sofá, observando, munido de um olhar divertido, o namorado tremer da cabeça aos pés de raiva. Trowa não seria o tipo de pessoa que Heero gostaria de ter na frente no momento, e algo lhe dizia que o sentimento era recíproco quanto ao latino.

- Amor? Não é melhor você ir, não? O seu parceiro já foi.

Foi dizendo essas palavras que o árabe mostrou toda sua capacidade em piorar uma situação aparentemente já em seu limite caótico. Foi também quando Heero e Trowa aprenderam a nunca subestimar aqueles serenos olhos azuis.

Trowa teve que engolir todo e qualquer orgulho que dispunha no momento – a missão já havia começado no momento que Wufei cruzara aquela porta. O japonês sabia que doía-lhe fazer isso, mas que ele tinha plena noção de que teria que deixar seu anjo para trás, e infelizmente não sozinho: Quatre teria como companhia o americano... e Heero – a quem ele nunca, até o presente momento, tinha visto como ameaça ao seu relacionamento.

Sem escolha, o moreno saiu, então – batendo a porta com toda a força que tinha.

Heero não sabia como processar todas aquelas informações, fora totalmente pego de surpresa: Quatre não parecia realmente interessado nele, pelo pouco que pudera ouvir; o real intento de uma provável investida sobre ele seria apenas para afastá-lo de Duo, mas... por quê? Será que o americano havia pedido? Será que a vontade de se ver livre do japonês fora tão grande que superara seu recente desejo de solidão e se prestara a pedir a ajuda dos companheiros para afastá-lo de si? Será que Wufei também estava naquilo?

- Não é muito educado ficar ouvindo a conversa dos outros escondido.

- Ahh!...

Heero se assusta ao ser tirado de seus devaneios: estava tão concentrado em seus próprios pensamentos, que nem notara a aproximação de Quatre. O loiro o observava sem qualquer tipo de aborrecimento que a frase anterior pudesse ter empregado. Calado, parecia apenas o analisar. "O quanto ele ouviu de nossa conversa?".

- Qua... Quatre... eu... eu cheguei agora, e... bem... vai querer café da manhã?... Digo, ainda é de madrugada, mas eu posso...

"E esse é o futuro salvador das colônias... parece que eu tive um espectador bem atento.", pensou Quatre. Uma pontada de raiva e aborrecimento se desenhou em seus lábios tão rápido quanto desapareceu, dando lugar então a um grande sorriso coberto de malícia: "Creio que ele mereça um show completo, então."

Quatre passa a mão pelo cabelo loiro, jogando alguns poucos fios rebeldes para trás, e avançando na direção de Heero, faz o mesmo com o cabelo do japonês. Suas mãos hágeis massageiam o couro cabeludo do outro, fazendo a cabeça ceder um pouco para trás, enquanto a outra mão o empurra contra a parede, prensando-o com seu corpo.

- Qua... tre?

- Estamos bem dispostos essa madrugada, não? – pergunta. A mão que deslizava pelo cabelo castanho-escuro desce pelo pescoço e lá fica, massageando de maneira carinhosa, enquanto a mão que o empurrara percorre do peito até o quadril de maneira insinuante. – Será que vou conseguir voltar a dormir, depois de tanto alvoroço?

Heero não sabia como reagir – era a primeira vez que alguém o tocava dessa maneira: mordeu o lábio inferior ao sentir a mão mais abaixo começar a massagear sua coxa por cima do jeans, e a mais acima, descer por seu peito e adentrar sua camisa. Sua mente estava turva e seus sentidos anestesiados: só conseguia distinguir uma coisa como real, naquele quadro abstrato que se tornara seu cérebro – o prazer que aquelas mãos lhe trazia.

- Humm...

- Mas sabe? Eu não estou com muita fome. – afastando suas mãos, e apoiando-as ambas na parede, Quatre cola seu corpo completamente contra o de Heero e coloca propositalmente uma de suas pernas entre as do japonês – Acho que vou direto para cama, so-zi-nho... – essa última palavra ele sussurra no ouvido do outro, antes de morder delicadamente o lóbulo de sua orelha – Mas... – sua boca desliza do lóbulo pela pele macia do pescoço de Heero – ...se você quiser... – desce um pouco mais, acariciando-o com a língua – ...você pode... – sobe novamente, chegando ao rosto – ...me servir... – sua boca se aproxima da de Heero – ...alguma coisa... – mordisca o lábio inferior do japonês – ... mais tarde. – e contornando os lábios do oriental, roçando-os contra os seus, Quatre beija rapidamente apenas o canto da boca de sua "vítima".

Afastando o seu rosto do de Heero, Quatre observou com certa maldade o resultado de seu serviço: Heero estava estático contra a parede. Mal conseguia formar uma palavra.

Dando dois tapinhas de leve no rosto do Soldado Imperfeito, Quatre se afasta sorrindo, sentindo-se vitorioso por dentro.

Não foi seguido – mas também não esperava que o japonês o fizesse. Chegando em seu quarto, pôs a mão na cabeça. "O que diabos estou fazendo?". Um sorriso que zombava de si mesmo apareceu em seu rosto à medida que se lembrava de cada passo que dera, desde que representara a cena ridícula de minutos atrás, no corredor.

Não fizera aquilo para fazer ciúmes a Trowa – o latino nem estava mais lá. Apenas o prazer de ver a expressão pasma de Heero o movera, um forte instinto infantil de feri-lo, de magoá-lo de qualquer forma, o incitara... Mas agora só conseguia sentir pena de Heero: devia estar até agora constrangido; devia estar sem reação, até esse exato momento.

Não havia razão para os atos de momentos atrás, talvez... talvez um motivo fosse...

/"- Piloto 04, está sozinho?..."./

- NÃO! NÃO FOI POR CAUSA DISSO! – grita.

Esmurra a parede, para logo depois gemer de dor... mas é graças a ela que enfim recobra o controle: respirando com mais calma, começou a andar pelo próprio quarto como um animal ferido, massageando o próprio punho.

/"Boa sorte. Vvai precisar. Afinal, se falhar, creio que sabe o que vai acontecer"./

"Não. Não foi por causa disso, não foi por causa dele... daquele... daquele velho... Não. Foi por motivos mais baixos."

Motivos baixos, para Quatre, poderiam se traduzir por vingança.

Uma raiva incontida se formara no momento em que seus olhos cruzaram com os dele: os olhos de Heero, de um azul cobalto tão límpido... e totalmente ignorante de todos os problemas que causava para ele, e Trowa. Agira por impulso: queria machucar como pudesse o japonês. Mas por fim, que ferida maior poderia causar, se não em seu próprio estado de espírito, já totalmente esfarrapado?

Fora decerto cruel, mas a dor de não poder mais falar com Trowa já era tão grande, que na hora de botar o que sentia para fora, escolhera o jeito mais intenso que suas palavras contidas encontraram para descarregar tanta frustração. Pobre daquele que recebera de frente, toda a intensidade de uma raiva contida a mais de um mês... e pobre daquele que, na intenção de ferir a primeira pessoa que encontrasse pela frente, só conseguira ferir mais ainda... a si mesmo.

Prova disso eram as lágrimas que começavam a cortar seu rosto.

- Viu, seu velho estúpido? Eu não preciso da sua ajuda para ser um babaca!

Não falava sozinho – em verdade, não havia mais ninguém naquele quarto – mas suas palavras eram todas direcionadas à lembrança de uma noite não muito distante.

- Patético, Quatre... Você é patético. – se auto-diagnostica ao se jogar em uma poltrona.

Tendo uma mesinha na sua frente, olha com frio desdém alguns relatórios que recebera a alguns poucos dias atrás. Logo, porém, o desdém vira fúria e com um potente chute, vira o móvel, espalhando folhas de papel por todo o lado.

"Calma, Quatre – CALMA!" – Se ordena mentalmente, massageando as têmporas: - "Você é um dos poucos aqui que sabe aonde pode levar qualquer acesso de fúria.". Passando as mãos suadas pelo rosto, tentava se acalmar e respirar com calma: estabilidade, em seu estado, significava muito. Olha para o criado mudo perto da cama onde deixava o computador: "Maldito J! Velho nojento... Mas com certeza não é tolo: mesmo com Wufei tendo cancelado a missão, continua o empurrando para o Heero... Seu desgraçado, por que não parou por aí? Por que você tinha que..."

4x4 Flashback 4x4

Quatre estava analisando a ultima missão de Heero em L3, quando recebeu uma mensagem de J por e-mail:

"Piloto 04 - Certifique-se de que está sozinho. Te contatarei em uma freqüência segura em alguns minutos, para as instruções da próxima missão."

De princípio, sua primeira reação foi a de estranheza: afinal, a pessoa a quem J reportava as missões, desde que tudo aquilo tinha começado, era sempre Wufei – boa coisa então não estava por vir. Olhando para o lado, viu Trowa adormecido, na cama. O latino adquirira o adorável hábito de 'acampar' em seu quarto, e com toda certeza, Quatre não tinha nada contra. Antes desse acidente, apesar de estarem namorando, só se encontravam em meio a missões ou mesmo em raras coincidências: morarem juntos, apesar de todos os pesares, era como um sonho.

- Piloto 04 – uma pequena janela se abriu no canto do computador de Quatre – Está sozinho?

- Sim. – mentiu, mas decerto Trowa não acordaria tão cedo: havia... cuidado disso deliciosamente, algumas horas atrás – O que deseja?

- Apenas lhe passar a nova missão. Todos os dados necessários eu já estou mandando via fax. Proponho que os pegue na sala antes que outro piloto o faça.

- Algo errado sobre meus companheiros saberem sobre esta missão? – Quatre estreitou os olhos azuis-claros, desconfiado.

- Oh, nenhum. – um sorriso malicioso se desenhou no velho rosto de J – Só acho que seu sucesso nesta missão poderá ser maior, se alguns moradores desse esconderijo ficarem... na ignorância da mesma.

- É mesmo? – não estava gostando do rumo da conversa – E qual seria a missão?

- Estou lhe passando a missão que o piloto 05 recusou: seduzir o piloto 01.

- O q...! – o loiro arregala os olhos e quase pula da cadeira, indignado.

- "Boa sorte. Vai precisar. Afinal, se falhar, creio que sabe o que vai acontecer." – e a janela de comunicação se fechou.

- Como assim eu sei o que... – afastando os olhos arregalados do computador, Quatre olha para o rapaz adormecido em sua cama – Trowa...? – seus olhos se fecham em meio ao ato de engolir as amargas palavras que o cientista dissera. Mais amargas ainda, foram as palavras que enfim pronunciou: - Missão aceita.

4x4 Fim do Flashback 4x4

"Quando Wufei disse que o piloto indicado para esta missão hoje de madrugada era o 01, eu fiquei mais aliviado: aquele velho não é burro, ele sabe que a pessoa mais indicada nessa base para finalizar essa 'missão' é Wufei; mas mesmo assim, J se viu obrigado a me colocar no lugar dele quando este recusou, ainda na missão anterior. O que não o impediu de ainda jogar Wufei para cima de Heero, mais uma vez, hoje. Isso é o que eu chamo de atacar por todos os lados."

Com seu auto-controle renovado, Quatre se levanta da poltrona e se joga de qualquer jeito na cama. Seu rosto afundou no travesseiro, e o perfume de Trowa, nele, o obrigou a deitar de barriga para cima – não queria sentir aquele perfume: se sentia culpado de mais para tanto.

"J sabia que eu não poderia recusar a missão – não só por que é minha obrigação cumprir as missões que me forem designadas – mas pelo o que significaria DESISTIR dela:Trowa... Wufei se safou fácil, por que, com certeza, J sabia que mesmo ele recusando a missão, ainda poderia manipulá-lo, mas eu..." – fechou os olhos, contrariado: "...Contra mim, ele tem outro trunfoclaro: afinal, qual seria o procedimento mais lógico no momento que eu recusasse a missão? Escalação do próximo piloto." - Quatre sente os punhos cerrarem-se, a raiva de momentos antes o dominando. Sem querer, o medo e a insegurança mesclam-se e tomaram forma: "Qual seria a atitude de Trowa depois de receber uma missão dessas? Ele sempre foi tão sério diante das outras... me dizia que eram sua razão de viver, que haviam sido elas que lhe haviam dado um nome."

- Trowa, seu idiota! – falava para si mesmo – Porque você se meteu? O plano era perfeito: Heero ia com Wufei, eles teriam mais um tempo juntos, e eu teria mais tempo para pensar em como sair dessa, e, quem sabe, eles até voltassem... O que estou dizendo? Trowa, será que no final sou eu que estou agindo como se pudesse simplificar o coração das pessoas? – os olhos azuis-claros reabrem-se, determinados de uma maneira que teria assustado muitos dos que julgavam conhece-lo: - Mas não importa: desde que não te envolvam em toda essa lama, eu não preciso me preocupar com mais ninguém.

Quatre adormeceu com o pensamento e as lágrimas que agora o embalavam nessas ultimas noites. Ele evitara o japonês nos últimos dias – desde que este retornara com Wufei – contornara essa missão da melhor maneira possível, mas se ela mesmo era inevitável, se Wufei não podia dar conta do recado, e se Trowa - no alto de sua teimosia o levava a isso – ele se viu esmagado pela realidade: era apenas um piloto preso ao peso de mais uma missão.

"Quanto mais terei que lutar para que as Colônias tenham a paz? Quanto mais terei de lutar para virar sua única razão de viver?" – se perguntava, seus pensamentos recusando-se a parar de remoer o mesmo dilema, apesar de quase mergulhando em um conturbado sono. – "Patético, Quatre... você é patético: desde quando você tem ciúmes daquilo que, acima de tudo, deveria proteger? Patético..."


"7:15 7:15 7:15 -. Seu tempo preso à hora indefesa do sono vai até às 7:15 da manh...!"

PRAFT!

- Você está 4.5 segundos, atrasado com relação ao meu relógio biológico.

Duo Maxwell – apesar de manter uma expressão fria – não podia esconder de seus sentidos, assim como disfarçava para o exterior, a dor que sentia em sua mão direita.

Em seu criado mudo, quase vazio, só se podia ver os restos mortais de um rádio relógio. Já era o quinto, aquele mês – talvez por falta de sorte em escolhê-los, paranóia, ou sua própria incompetência em programá-los: o fato é que os perdia, todos, em desnecessários atos de violência. Em sua atual situação, mais que necessários, afinal... "Para que deixar existir, algo que não consegue servir a seu propósito?"

Depois de alguns segundos massageando a mão machucada, simplesmente a ignorou completamente. Dentro daquelas quatro paredes, apenas sua mente deturpada poderia julgar o que era relevante ou não; assim, a dor não existia – se assim ele o quisesse.

A mente do americano atingira um ponto de nebulosidade profunda nesses últimos dias, uma obscuridade que passara despercebida de seus colegas, que o julgavam apenas um amargurado piloto recluso em seus próprios sentimentos e dores.

Sua memória era outro fator que preocuparia seus companheiros, se seu estado chegasse a seu conhecimento: haviam dias em que esquecia completamente quem era uma das pessoas com quem convivia, dias que esqueci de todas, ou então, quase todas... Lidava com esta nova realidade escondendo-se em seu quarto – protegendo-se desses estranhos que decerto serviam apenas como apoio, em uma missão futura.

Missões.

Estas eram suas pontes para a realidade – ou ao menos a sobriedade, aceitando-as e executando, com outro soldado ao seu lado. Mas então... por que apenas um nome nunca sumia de sua mente? Heero Yuy.

"Maldito Yuy, quem é você?" - Um vulto, que habitava aquele esconderijo quase invisível em sua mente... uma figura sólida que insistia em tocá-lo... um fantasma preso a lembranças passadas, uma voz que o fazia hora abraçar a razão... apenas para, em seguida, fazê-lo mergulhar na mais profunda insanidade – insanidade que agora era sua vida... um objeto de desejo que só lhe trazia frustração, ao ver ser enlaçado por outros braços.

Ele tinha tantas formas, tantas cores... mas despertava apenas um sentimento: o de extrema agonia.

"Seus olhos... verdes... não! Azuis!... azuis cobalto, seus cabelos castanho-escuros... sua voz... o que ela me diz?... Sempre tenho a impressão de que você me chama, Yuy: o que quer comigo?"

Fragmentos desesperados, de dúvidas aniquilantes, povovam sua mente, sempre quando tentava formar o quebra-cabeça que era Yuy.

Mas o Shinigami Perfeito sempre tomava o controle, quando uma palavra, há muito perdida, estava prestes a se formar.

"O que quer de mim? O que sinto por você é algo tão mau? O que sente por mim é algo tão repugnante, que eu não possa tolerar? Afinal, seria isso amo.." /CLIC./ "Piloto 01 – Heero Yuy: contato apenas o necessário – afastar esse fator de erro o mais rápido possível. Meios: qualquer um."

... e era assim – de modo simples e prático, que a mente de Duo conseguia o que nem a Oz lograra de conseguir até hoje: pôr de joelhos o famoso 01... fazer o que fora o mais frio dos soldados, chorar.

Preso a uma expressão fria, Duo se levantou de sua cama. Uma pequena careta – um dos seus últimos traços de humanidade – se desenhou em seu rosto quando pôs os pés no chão, mas não demorou em encobri-la com sua comum máscara de indiferença: o que era, afinal, a sensação de seus pés – já profundamente feridos – indo de encontro a vidros, pedaços de plástico e madeira, e metais retorcidos? Sim, por que era a isso que se resumia o chão de seu quarto. De início ainda se dava ao trabalho de recolher os corpos de suas "vítimas" eletroeletrônicas, mas agora nem mesmo evitá-los, ao andar pelo quarto, o faz: apenas enfaixa os pés de qualquer forma. Nem o cheiro de seu próprio sangue o incomodava mais.

Indo até sua escrivaninha, instintivamente se apóia nas duas mãos, jogando todo o peso de seu corpo para frente. Respira fundo... Não sentia dor em sua mão, nem em seus pés: era uma dor mais profunda, prova de que não se perdera de todo, naquela escuridão que chamava de mente... uma dor aguda sempre o trazia para cima.

Abrindo a gaveta da direita, ele pega um livro. Não o lia há muito tempo. Não achava mais tempo, entre as missões, os acessos de loucura e o desejo insuportável por algo que não sabia ao certo que era.

O abrindo de qualquer jeito, deixa cair sobre a superfície da escrivaninha um pequeno pingente. Caindo dolorosamente de joelhos no chão, Duo acomoda o queixo no móvel e observa a delicada jóia em sua superfície... não se lembrava mais como ela viera parar em suas mãos; só sabia que, de tudo o que tocava, aquela era a única coisa que não conseguia quebrar. Se fosse vidro, era só estraçalhar; se fosse madeira, era só partir ou serrar; se fosse plástico, era só derreter; e se fosse metal era só torcer, mas aquilo... Não sabia que material era aquele... que nem ao menos tocar, conseguia. "Por que não consegui quebrar algo de aparência tão delicada?"

/"-Eu... eu achei que era a coisa mais próxima que simbolizasse a nossa união"./

- Arghhh! – Duo aperta a cabeça, quando essa é atacada por uma súbita dor.

Levantando-se num rompante, Maxwell, com apenas um movimento de braço, derruba tudo de cima da escrivaninha no chão. Ou quase tudo. Solitário, e na beirada do móvel, o camafeu continuava a encarar Duo de maneira acusadora. Ainda com uma das mãos na cabeça, Duo pega o camafeu... e esse nunca lhe pareceu tão pesado. Sem ter como suportar seu peso, o deixa cair de qualquer jeito dentro da gaveta, e a fecha.

A dor em sua cabeça passa... e com ela, qualquer dúvida. Existe agora, apenas uma meta: pegar sua toalha e tomar banho. Teria um dia calmo – o vulto havia saído em missão; decerto demoraria. Então... por que não se sentia feliz?

- Devo estar com fome, não devo me deixar levar tão fácil por devaneios.

Mal sabia Duo que o alimento que precisava não era o que ele imaginava, mas sim algo que a muito lhe faltava... Algo que ele deixara esquecido em sua gaveta, e alguém que ainda não havia desistido dele: alguém que ainda o esperava, e que sempre estaria esperando – afinal, aquele que um dia chegara a ver o sorriso do Shinigami, não deixaria de se apegar a ele, até o dia de sua morte.


Nunca aquele esconderijo estivera tão silencioso pela manhã, foi o que Duo pensou quando saiu do banheiro. Usava roupas folgadas e confortáveis, e suas bandagens já estavam devidamente trocadas.

"Decerto o... o... aquele cara da franja deve estar dormindo, e o Yuy... onde está Yuy? Ah, é... Chang... missão... eles... sozinhos..." /CLIC/ "Comida. Você está com fome: precisa comer."

E qual não foi sua surpresa quando entrou na cozinha e deu de cara exatamente com Heero, de costas, preparando o café da manhã. Algo por instantes reviveu em seu peito, um sentimento que o mais rápido que pode expulsou de sua mente – mas não rápido o bastante para deixar de identificá-lo: era, sem dúvida, alívio.

- Bom dia! – um rosto sorridente o cumprimenta, enquanto cuidava das frituras na frigideira – Eu sei que bacon não faz muito bem ao seu cabelo... afinal, fritura faz bem a que, ne? Mas eu sei que você não é de dispensar um bom bacon com ovos. – o cozinheiro ri de seu próprio comentário como se risse pelos dois, e antes de se virar de novo para cuidar da comida, diz, apontando para o lado, com a espátula: – Mas tem que me prometer comer as frutas que eu cortei para vocês.

Sem dirigir uma palavra ao nutricionista perfeito, Duo termina de entrar na cozinha e se senta na mesa. Observando as costas daquele rapaz alegre, ele percebe que fazia séculos que não ouvia aquela voz se dirigir a ele. Fora um curto espaço de tempo reconfortante. Agora, ele podia se esconder na escuridão de sua alma novamente. "Por que mesmo ele não falava mais comigo? Quem sabe se eu o ignorá-lo ele se manca e volta a me deixar em paz."

- Ficou surpreso, né? – Heero fala sem se virar – Aposto que pensou que iria achar o Quatre, aqui.

- ... – "Quatre? A quem pertence esse nome? Não me é estranho... ah, sim, deve ser aquele moreno."

- Não sei do que o povo tanto reclama: minha comida está muito melhor.

- ...

- Obrigada! Eu estou realmente me esforçando, mas de todos os horários, eu prefiro fazer o café da manha.

- ...

- Por que? Ah, por que é a refeição mais prática; não acho tão complicado quanto o almoço, pelo menos.

- ...

E assim se seguiu por alguns minutos: Heero conversando alegremente como se Duo respondesse as suas perguntas. O americano ficava cada vez mais irritado com a ousadia do japonês, enquanto o outro tagarelava na sua frente. Já se preparava para soltar uma farpa que o calaria até o próximo século, quando...

- Olha aqui, seu... ARGH!

Mas antes que pudesse completar a frase, Heero fora mais rápido, tirando a frigideira do fogo, roda o corpo agilmente, coloca-a em cima da pia, e rapidamente chega a onde Duo estava sentado – repentinamente então se senta no colo do outro rapaz, e já segurando uma cumbuca com frutas cortadas, serve uma rodela de banana na boca à sua frente. Mas dos dois dedos que serviram a fruta, um deles ficou dentro da boca.

Pasmo, Duo travou completamente. Olhava assustado para o outro rapaz sentado, pesado, em seu colo. Este lhe olhava completamente nos olhos e sorria maliciosamente, mas ainda falava como se nada estivesse acontecendo.

- Eu realmente gosto de frutas, mas como os suprimentos chegam aqui com espaços de tempo muito longos, raramente eles ficam frescos por muito tempo, como estes estão agora.

A rodela jazia esquecida em cima da língua do americano... já o dedo de Heero, brincava naquela boca quente, vasculhando cada canto daquele lugar aconchegante.

- Você não tem comido muitas frutas ultimamente, isso não é bom... – faz beicinho enquanto seu dedo sobe e desce rapidamente, brincando com a língua de Duo. – Não há muito que se fazer com frutas: talvez uma salada, ou cobri-las com alguma cobertura... – tirando o dedo da boca, agora ligeiramente entreaberta à sua frente, ele contorna aqueles belos lábios - ...mas o fato é que... – aproxima seu rosto se aproxima do outro como se ele fosse contar um segredo –... não importa qual receita eu escolha... – dá um selinho rápido e sem resposta, naquela boquinha linda – ... eu conheço algo muito mais doce.

Levantando-se subitamente do colo do americano como quem se levanta de qualquer cadeira, Heero volta a sua atenção para a frigideira que deixou na pia.

- Olha só, pelo menos ainda não está frio, ainda vai querer?

Vira-se para receber sua resposta, mas a cadeira onde estava, Duo agora está vazia.

- Noooossa...! Espero que não tenha sido por minha causa. – seu sorriso podia ser qualquer coisa neste mundo. Menos inocente.

Satisfeito consigo mesmo, ele se vira para pia novamente para cuidar do resto do café da manhã.

Pensara em muitas coisas de madrugada. Não chegara a dormir – como poderia? Todas as palavras que ouvira horas atrás, os toques, os olhares que sofrera... Mas de alguma forma, aquilo valera a pena: muitas de algumas perguntas que o atormentavam, antes, pareciam ter lógica, agora, e com isso em mente, não se via mais no direito de vacilar – se as palavras de Duo o feriam, as enfrentariam até o dia em que voltassem ao normal. Para que, afinal, daria importância a elas? Aquele não era o seu Duo, mesmo.

"O único que merece o título de 'meu' um dia vai voltar, e quando isso acontecer, eu finalmente vou poder dizer com todas as palavras, aquilo que devia ter dito há muito tempo... mas agora, para a pessoa certa." Esse era o pensamento que o fazia sorrir tão ternamente para as cascas de ovo dentro da lixeira.

- Não se deixe intimidar por poucas palavras, né? – Heero olha para o teto com os olhos perdidos – Wufei... Acho que o tipo de pessoa que luta pelo o que quer, é esse tipo de pessoa que merece o amor de Duo. E que também é merecedora do amor de um certo chinês... – considera, falando em voz alta, sentindo-se satisfeito por ter chegado àquela conclusão, após tudo.

- Humm, mas e o MEU amor? – mãos subitamente o abraçam por trás. Por um segundo, Heero foi tomado pelo mesmo sentimento de horas atrás: a onda de excitação sexual o envolve, quase que furiosa, sem controle: – Não acho que você vai ter que se esforçar muito para merecê-lo. – a boca do árabe cobre o pescoço do japonês com desejo.

- Quatre... o que está fazendo? – a voz de Heero praticamente sumira.

- Ah, eu fiquei muito chateado, mas já que o serviço de quarto não veio me servir, eu resolvi fazer uma... boquinha na cozinha.

Quatre estava morrendo por dentro: aquelas palavras, os toques... Tudo aquilo deveria pertencer apenas a Trowa, e de certa forma pertenciam, mas aquilo tudo... aquele show de mau gosto era apenas para não envolvê-lo em algo mais complicado. Se antes não se deixara manipular pelo velho, agora não via muitas opções: iria seduzir o japonês.

Enquanto uma de suas mãos descia para a coxa, a outra se apoiava contra a pia, ao mesmo tempo em que fazia seu corpo forçar-se contra o de Heero, colando-se às costas e quadris do japonês. Heero não apresentava muita resistência... talvez fosse mais fácil do que imaginara.

Essa certeza só cresceu quando sentiu o corpo a sua frente se virando. Com certeza, ele iria procurar por sua boca, e certamente Quatre não iria decepcioná-lo.

O árabe deixou os olhos semi-serrados, e avançando a cabeça um pouco para frente, prosseguiu em seu papel: Heero nem havia se virado completamente, e Quatre já avançava atrás de seus lábios – mas não foi bem isso, o que encontrou.

Heero, com o olhar mais calmo do mundo, simplesmente empurrou por aqueles lábios entreabertos... Uma rodela de banana.

Sentindo a fruta entrar inesperadamente em sua boca, Quatre arregala os olhos, assustado, afrouxando assim o abraço que prendia Heero, e este se afasta do árabe. O Soldado Imperfeito caminha calmamente até a cadeira mais próxima e se senta, para observar seu amigo – ainda sem palavras, escorado na pia.

- As pessoas deste esconderijo não têm comido muitas frutas, realmente. – Diz, seco – Mas eu não preciso ser um gênio para perceber que seu problema não é carência de potássio.

Depois de algum tempo com ambos se encarando firme e teimosamente, Quatre se dá por vencido. Mastiga a fruta em sua boca demoradamente enquanto se encaminha para outra cadeira.

- Eu não sei o que está acontecendo aqui. – Heero recomeça. Sua postura firme e distante só aumenta ainda mais, à vista dos frios olhos azuis cobalto, e dos braços cruzados à altura do peito – ... E para ser sincero, pouco me importa. Mas não sou estúpido, ou convencido o suficiente, para supor que de uma hora para outra você começou a nutrir uma paixão irresistível por mim. Então, se não quer me contar o que te levou a tudo isso, peço que pelo menos, me poupe desse espetáculo de 5ª, pois eu tenho mais com o que me preocupar.

Os olhos de Heero faiscavam, ao fim de suas palavras: era um olhar que poderia facilmente afastar qualquer dúvida quanto ao seu estado físico ou mental. Era novamente o Soldado Perfeito. Quatre o observa por alguns segundos antes de voltar a falar; as palavras, a partir desse ponto, deviam ser muito bem escolhidas.

- Espetáculo de 5ª? Assim não há moral que agüente...! – cruza os olhos azuis claros com os de cobalto: - Fui tão mal assim?

- Tudo bem... - o rosto de Heero enrubesce, de pronto.

Dando um sorrisinho malicioso, o loiro exala fortemente a respiração que estivera retendo, sem perceber, e baixa a cabeça olhando para a superfície da mesa, preparado-se: não levara a sério o "pouco me importa" de Heero – jurava que o interrogatório que viria a seguir seria extenso e agonizante: uma vingança nada inesperada vindo do Soldado Perfeito, mas já o Soldado Imperfeito...

- Sabe... – Heero corta o pequeno momento de silêncio que dividiam – Quando eu via você e Trowa juntos, antes disso tudo acontecer, nas raras missões que nossos caminhos se cruzaram, eu pensava o quão patéticos vocês eram.

Quatre encarou Heero, curioso – aonde ele queria chegar?

- Quantos minutos vocês tinham, juntos? Ou melhor, quantos segundos vocês tinham realmente juntos sem terem que disputar a atenção de seu parceiro com seu alvo, ou meta?

Um sorriso se desenhou no rosto de Quatre: "Creio que você nunca ouviu falar das centenas de propriedades da família Winner espalhadas por este mundo afora..." Mas sabia o que Heero queria dizer.

- Para mim, o relacionamento de vocês nada mais era do que uma desculpa um trepada ocasional – sexo, e nada mais, entre uma bala ou outra: uma ilusão ridícula de que vocês podiam, em meio a todo esse inferno em que vivemos, ter uma vida normal. – os olhos azuis cobalto não notaram modificação alguma no rosto angelical à sua frente... mas deles não escapou também o movimento sorrateiro de uma mão de Quatre a se envolver ao redor do cabo de uma faca. Continuou, então: - Mas na verdade, quem estava sendo patético era eu, já que esses pensamentos nada mais eram que inveja, uma vez que esses poucos momentos de felicidade não eram meus. – Heero dizia aquilo como se não fosse nada, simplesmente, algo simples que não poderia ser mais óbvio. Fechando o olhar no do rapaz à sua frente, termina: – Eu não sei por que você me tocou daquele jeito, Quatre, mas não sou ingênuo o suficiente para negar que me senti excitado.

Quatre, que começara a comer o que seria o bacon de Duo, engasgou: o Heero à sua frente dizia as palavras sem medir seu peso, ou as media... e ria por dentro da cara do seu ouvinte.

- E acredito que se fossemos até o fim, você teria me feito gemer mais alto do que já gemi em toda minha vida, suas mãos e boca me levariam a loucura em instantes e suas palavras, ditas em voz naquele tom rouco, me deixariam totalmente desarmado. – os olhos de Quatre, aqui, já estavam mais arregalados que pires, e o rosto, miseravelmente vermelho: – O ponto é que... eu sinto te dizer isso, meu amigo, mas talvez metade da população mundial com um décimo da sua sensualidade e beleza, poderia fazer isso com um cara adolescente sem um mínimo de experiência nessa área, como eu.

Quatre acompanhava o restante com um semblante mais sério. Se sentiu, por alguns segundos, orgulhoso; mas teve que no fim conter o riso – era impressão sua, ou o Soldado Perfeito acabara de, por meio de trocentas palavras, chamar a si próprio de "seco"?

- Mas quando nossos corpos se cansassem, quando todo e qualquer desejo fosse saciado, e tudo o que sobrasse fosse o contato do meu corpo contra o seu, quem você acha que – pelo menos você - iria preferir ter ao seu lado?

Pontaria Perfeita.

O loiro não precisou pensar muito para responder essa pergunta.

- Trowa.

- E por mais excitado que eu estivesse, você acha que eu levaria a sério o toque de uma pessoa que me daria essa resposta? Eu também sei quem EU gostaria de ter a meu lado, por isso, por mais que você insista nessa idéia, eu nunca vou corresponder a algo tão infantil.

Heero se levanta da mesa e estava pronto para sair da cozinha.

- Wufei também sabe quem ele gostaria de ter do lado, Heero. O que você vai fazer quanto a isso?

O jovem japonês para no meio do caminho e analisa a pergunta.

- Não posso me responsabilizar pelos sentimentos de Wufei, só iria magoá-lo mais. Mas isso me lembrou de uma coisa. – Heero se vira para Quatre – Obrigado. Graças à sua encenação do corredor, eu entendi o que sinto por Wufei.

- Mesmo? – Quatre realmente ficou surpreso.

- Quando você me achou no corredor, eu estava a ponto de correr atrás dele... me sentia triste, e precisava desesperadamente de ao menos, senti-lo por perto. Mas aí quem eu achei foi você. Por segundos, em seus braços, eu me senti aquecido, confortável... Foi quase a mesma coisa quando Wufei me abraçara, minutos antes. Quatre, eu percebi que o que Wufei me passava, era segurança: ele saciava a minha carência, e eu, inexperiente, o queria por perto, por que ninguém mais me queria – quem eu queria, me empurrava para o mais longe que suas forças conseguia. Wufei é um amigo muito especial, mas deixar que algo mais sério aconteça entre nós só me faria usá-lo e isso não seria justo. Me faria mentir três vezes: para ele, para Duo, e para mim mesmo.

- E eu só precisei quase te estuprar contra a parede para você perceber isso? – foi a resposta em tom de escárnio que escapou de Quatre. – Realmente, algumas pessoas gostam de aprender as coisas das maneiras mais difíceis.

- Acho que eu... já sabia disso. – Heero ignora o comentário desnecessariamente maldoso – Apenas... não queria aceitar; afinal, era tão cômodo me iludir, acreditar em um amor mais simples, mais... fácil de corresponder.

- Nenhum amor é fácil. Acredite em mim. – Quatre desvia então sua visão para a comida a sua frente, propositadamente, dando um fim à conversa de ambos.

Heero se escora no batente da porta e volta a encarar o outro. Desde que o dia começara (bem cedo, diga-se de passagem) ele vira faces daquele loiro que nunca imaginara ver antes: ele fizera coisas que mesmo naquele... estado incomum não teria feito. Decerto não ele, Heero, não era o único com os sentimentos confusos naquele esconderijo.

- Nós temos uma missão. – Quatre ergue seus olhos ao ouvir o que Heero dizia, em voz baixa – Temos que trazer enfim, paz às colônias. Mas de que adianta existir um lugar pacífico, se nele não posso viver com a única pessoa com quem consigo imaginar dividir a minha vida?

Quatre se assusta com tal comentário, algo tão contrário a tudo o que formava o rapaz que um dia tentara se auto-destruir em nome de seus ideais; mas aquele não era mais o mesmo rapaz... Talvez qualquer um dos pilotos gundam em seu lugar tivesse feito ato idêntico, mas aquele garoto à sua frente, tão diferente de um mês atrás, provava que seria exceção.

- Hahahahahaha! – Heero ri da cara do amigo – Que foi, Quatre? Assustou-se? Acho que eu nunca disse nada tão egoísta em toda minha vida, e, por certo, se eu continuar com isso em mente, não sei se sobreviverei por muito tempo... Às vezes, é essa coragem desprendida que faz a diferença, mas não sei por que - de todos os nomes os quais eu posso chamar de sentimento – esse, o egoísmo, é o que mais parece forte em mim, agora. Acho que é por que antes... eu nunca tive algo que pudesse chamar de 'meu'.

- Garoto mimado. – Quatre sorri.

- He, acho que sou, sim. – Heero responde com outro sorriso. Logo depois, porém, vendo o outro ainda apresentar um ar estranho, ainda sentado na mesma cadeira, e intuindo o que poderia ser, sugere:– Trowa pareceu bem... alterado, quando saiu daqui. Vocês deviam conversar, quando ele voltar.

- Não é só isso... – Quatre sente seu corpo todo estremecer, novamente. – Não é só isso.

A angústia horrenda que o tomava desde o sono turbulento pela madrugada, voltava a fustigá-lo outra vez. "Se acalme..." pensava. Esse sentimento... "Não é nada..." Como podia defini-lo? "Não pode ser nada." Um aperto no peito... uma sensação de perda. Quatre se envolve com seus próprios braços procurando se acalmar, mas era forte demais, uma profunda ferida estava se abrindo, algo que ele não conseguia conter.

Afastando-se da porta, Heero volta o mais rápido possível para junto de seu companheiro: ele definitivamente não parecia bem.

- Quatre? Quatre, o que foi? – põe a mão nos ombros do adolescente sentado a sua frente.

- Na... nada. – vacila nas palavras, mas mantêm o olhar firme, mesmo que apenas conseguisse encarar – fixamente – a mesa.

Ele não aceitava – queria desesperadamente ignorar a esta dor. Já a sentira mais cedo, em meio à reunião de emergência, no início daquela madrugada. Fora rápida, mas com certeza, era a mesma que nesse instante corroía seu peito.

Algo lhe era sussurrado... um pedido, uma súplica... por que não ouvira antes? Por que agora era mais forte, e acima de tudo... por que, por mais que tentasse negar, ele simplesmente sabia a quem pertencia essa voz?

- Trowa...

Heero ouviu o que Quatre disse em um sussurro, não sabia o motivo necessariamente, mas conhecia muito bem aquele tom, era o tom de alguém que busca algo que não pode alcançar: quantas vezes já não ouvira esse mesmo tom sair pela própria boca?

- Wufei disse que apenas ele e Trowa eram necessários, para essa missão. – Disse Heero enquanto ia mais uma vez em direção a porta.

- Eu sei. – ele fechou os olhos, sentindo uma onda gelada encobri-lo.

- E Dr J não gostaria nada de saber que um de seus pilotos debilitados saiu sozinho em missão.

- EU SEI DISSO, tá bom? – gritou, exasperado. Porque aquela maldita dor...

- Então por que ainda está aqui?

- O quê?

Quatre olha na direção de Heero, mas esse já saiu da cozinha. Levantando-se o mais rápido que pode, e saindo da cozinha, ainda conseguiu ver o japonês cruzando a sala, em direção ao corredor.

- Como assim? Não acredito que pode ser tão irresponsável, como pode me sugerir tal coisa, sabendo de nossa situação?

- Exatamente por ser irresponsável que digo isso: não sei bem o que está acontecendo, mas eu não posso me responsabilizar pela dor que você está sentindo no momento, não posso curá-la. Nem mesmo Dr J ou Wufei podem curá-la; então, por que ouvi-los? Até onde eu sei, e posso entender de sua situação, apenas uma pessoa pode curá-la, e ela não está aqui. – vira-se para Quatre, decidido. - Então eu lhe pergunto: por que ainda está aqui?

A lógica de cada palavra dita por Heero era indubitavelmente a mais distorcida que ele já ouvira, mas Quatre não podia negar: nunca se sentira mais tentado a se deixar levar – parecia tão simples, por que complicar? Pra que procurar atalhos, no que poderia ser um caminho reto? Um caminho até Trowa.

- Eles não vão demorar a chegar... – tenta argumentar, ainda. As palavras indiferentes, tão prontas a saírem de seus lábios desde que absorvera a personalidade de Trowa, inesperadamente mostravam-se tão... inseguras? Incontroláveis? – Por que eu deveria, do nada, correr atrás de alguém que vai chegar antes do anoitecer? – Vazias?

- Está certo. Mas a questão é, você realmente quer esperar?

"Por que ele faz isso?" Questionava-se "Como ele podia ser tão cruel?". Jogar em sua cara o quão ele era passivo...? Quatre se sentiu desarmado. Só então percebeu, pasmo, que nunca ele próprio quisera resistir. "Ser honesto com meus sentimentos, não é?" Pois bem, o seria então.

Dando as costas para Heero, Quatre vai em direção à saída do esconderijo. O japonês nem se deu ao trabalho de perguntar para onde ia. Era algo tão óbvio.

Quatre chegou ao batente, e hesitou – não em sua determinação – mas não podia partir assim; sabia o que passar por aquela porta significava: deixaria sozinhas duas pessoas que NÃO DEVERIAM ficar a sós, pelo próprio bem deles. Em certos casos, por mais curto que pareça o trajeto, o melhor a se pegar é um atalho; alguns espinhos no percursos devem ser evitados.

- Heero, e se nosso contato só trouxer sofrimento à pessoa que escolhemos para ter ao nosso lado? – perguntou.

- Como assim?

– ... – hesitou. Trincando os dentes, termina: – Antes de tomar qualquer atitude, tem algo que eu quero que você leia, primeiro. Assim que eu sair, vá até meu quarto. Tem alguns... papéis jogados no chão. Leia todos sem exceção, e meça, a partir deles, seus atos.

E assim ele saiu.

Heero balançou a cabeça para a porta fechada. Nada que lesse mudaria sua decisão: não tardaria mais, iria ter Duo; nada poderia lhe parecer mais certo. Mas por respeito a Quatre, leria os tais papéis.

Já no quarto de Quatre, Heero estranhou a nova decoração do loirinho. Apesar de ser apenas uma mesinha virada e alguns papéis espalhados, deixar o quarto naquele estado não parecia ser, decididamente, seu estilo. Incomodado com a bagunça, Heero recolhe as folhas, lamentando mentalmente por saber que seria um custo ler aquilo sem estarem em uma certa ordem, e coloca a mesa novamente em pé, de frente a uma cadeira. Senta-se então... e se põe a ler.

Uma página. Duas páginas, três páginas. "Que bom, agora eu notei que as estão numeradas. Hum, isso parece uma requisição de missão..."

Quatro páginas, cinco... seis páginas. "Como se alguém em seu juízo perfeito fosse aceitar uma missão tola dessas. Por que ele sugeriu isso? E por que ele aceitou isso? Wufei... você... apenas por isso, você...".

Sete páginas, oito páginas, nove páginas. "Parece tudo normal... Mas o que é isso? Condição médica dos pilotos?".

Dez páginas. "Se Quatre é o dono do melhor quadro... qual é o pior?".

Onze páginas. "Trowa tem como apoio Quatre...? Mas então... quem o está apoiando nesse momento, sozinho com Wufei? Espero que eles estejam bem".

Doze páginas. "Internação? Depressão? Hunf. Como se eu fosse me abater tão facilmente. Não. Não enquanto alguém precisar de mim, não enquanto ele viver".

Treze páginas. "...!".

- Isso... isso... não, não, não, não...! – frustração e fúria o fazem arremessar os papéis por todo quarto – BESTEIRA! O QUE ELES QUEREM DIZER COM ISSO? – levanta da cadeira jogando-a para trás – QUE NÃO POSSO MAIS VÊ-LO? NÃO POSSO MAIS TOCÁ-LO? NUNCA! EU NÃO... EU NÃO POSSO ME... VOCÊS... vocês não podem me... não me tirem...! Ele não, por favor, não me tirem. Não tirem Duo de mim...!

Lágrimas.

Sim, elas já haviam se tornado visitantes freqüentes. Não podia acreditar, não queria acreditar, não podia ser verdade: não deixaria ser verdade.

TUDO em sua vida podia se resumir em seguir ordens: onde dormiria, aonde acordaria, o que comeria, se comeria... Podia se ver pegando seu Gundam e percorrendo metade do espaço retaliando contra qualquer MS que se pusesse em seu caminho, se assim o ordenassem... mas por tudo o que acreditava ser real, ele não seguiria essa ordem, ele não se afastaria de Duo! Não podiam fazer isso, não podiam tirar dele a única coisa que realmente desejara, a única que realmente...

- AAAARGH!– uma pressão em sua cabeça o fez cair de joelhos.

Bagunçando os seus já revoltos cabelos castanho-escuros, Heero se senta de vez no chão e coloca a cabeça entre os joelhos, arfando. Não sabia ao certo o que estava acontecendo, mas sabia o do "por que" estava acontecendo - ele mesmo estava se ferindo. Só lhe restava uma alternativa.

- Calma... – tentava com sucesso controlar a própria respiração – Então é por isso que... não passaram essa missão diretamente para mim. HAHAHAHAHAH! – ria sem emoção – ... por que não perdemos apenas a nós mesmos... NÓS PERDEMOS A DROGA DO CONTROLE sobre nós mesmos!

Largar Duo não era uma decisão que Heero poderia acatar calado, não na situação em que estava – mandar que ele fizesse isso seria inútil: ou ele se negaria, ou enlouqueceria.

Pois bem, ele não demorou muito para escolher uma dessas opções. Tentando recobrar o próprio controle, Heero respira novamente fundo. A dor havia parado, mas mais uma vez seu egoísmo venceu: não largaria Duo, não sem uma boa razão. Ah, não – que esperassem o nova Era de Gelo, na terra... ou mesmo, que o sol explodisse. Isso teria mais chance de acontecer, com certeza.

/"Péssima aceitação da personalidade do piloto 01"/

Se levantando, ele dizia para si mesmo que o caso não podia ser tão grave, sua presença ao lado de quem ele amava não poderia ser tão prejudicial.

/"Sua maior fonte de estresse."/

Sai do quarto de Quatre - ele que arrumasse a bagunça.

Não aceitaria. Lutaria o quanto fosse possível.

/"Crises de raiva, delírios e grandes danos no sistema nervoso."/

Ele é meu.

/"Um futuro coma não descartável."/

Não podia mais suportar sustentar tanta falsa confiança, a quem queria enganar?

- Ele vai morrer.

Se Duo sofria, era por causa de sua presença. Quatre, no fim, tinha razão; J tinha razão.

- Ele vai morrer...!

Um gritou de negação ao chegar à constatação final calou-se em sua garganta, pois em desespero, tapara a boca com ambas as mãos para não ser ouvido.

"Não, não, não... NÃO... NÃO... NÃONÃO NÃO!"

Heero sentia como se algo o rasgasse por dentro... Uma besta louca, ensandencida... Desespero por finalmente perder o que viera a amar, era o seu nome.

/"E se nosso contato só trouxer sofrimento à pessoa que escolhemos para ter ao nosso lado?"/

"Sou eu?"

Em meio ao caos e à dor que o sufocavam, sua mente brincou com uma hipótese – "Simples..." – sim, analítica e racional, sua mente não podia negar que ele era apenas... ele, e nem negar como verdadeiramente o era, em sua essência: – "Tão simples. É só... é só eu me afastar... É só... eu não machucá-lo mais."

Não seria difícil... ele já o evitava, e de uns tempos para cá mal saía do quarto. E um dia, curados ou não, seus estados se estabilizariam, e todos eles poderiam voltar a morar sozinhos – e ele, Heero... principalmente. Sim, esse era seu ponto de partida e de chegada: uma corrida que nunca ganharia, um prêmio que nunca iria parar em suas mãos. Todos o seu passos só serviram para que aprendesse que sempre existiria algo que nunca alcançaria... Duo.

Finalmente vencido, Heero equilibra-se em meio ao corredor, e toma o rumo de seu quarto – trancaria-se nele e não sairia de lá até a hora que seus companheiros voltassem. Precisava, urgentemente, conversar com Wufei; apesar de estar mais carente do que nunca, sabia qual era a coisa certa a se fazer, e esta era deixar claro sua posição quanto aos sentimentos do chinês. Se é que eles existiam.

- ARGHHH!

Um grito – entre sons de coisas se quebrando – o tirou de seu transe. Estava passando pelo quarto de Duo. Seu corpo parou, resistindo a se movimentar.

Ao que parecia, mais uma seção de demolição. Era impressionante como ele sempre arranjava algo para quebrar... parecia que tinha um estoque infinito de quinquilharias.

Heero respirou fundo. Não iria se meter – sua voz, seu toque... tudo dele poderia causar uma crise ainda mais forte em Duo... Ele iria se acalmar sozinho, se assim fosse deixado.

Repetiu isso mentalmente mil vezes.

"Deixe-o sozinho que ele se cure sozinho. Deixe-o sozinho que ele se cure sozinho. Deixe-o sozinho que ele se cure sozinho." Esmagou os dedos, ao cerrar os punhos, nervosamente. Repetiu mais vezes a palavra 'sozinho' do que poderia, um dia, contar. Inconscientemente, não conseguia ordernar-se a andar. Não poderia ficar. Não poderia! Só causaria mais dor, só o colocaria mais perto de um quadro médico mais grave... Se continuasse teimando, se continuasse egoísta... Seria ele, quem traria a morte ao famoso Shinigami, seria ele, que...

Num rompante de energia e força, Heero livrou-se de toda a razão de sua mente e amarras auto-impostas, e adentrou o quarto como um furacão.


Duo estava no meio do quarto segurando um livro que rasgava, raivoso. Seus olhos fuzilaram seu visitante.

Não dando-lhe tempo de palavras duras ou mais atos violentos, Heero cruzou o quarto e segurou os pulsos de Duo, impedindo-o de continuar a dar frente de liberação ao seu novo surto de fúria. Seus olhos se prenderam um no outro, a respiração de ambos estava descompassada. Heero não sabia ao certo o que fazer: só queria pará-lo; não suportava ver a figura que tanto amava em uma cena tão... sem controle, humilhante. Por Deus, ele só queria tocá-lo... ao mesmo tempo em que queria sair correndo dali, para não feri-lo mais; queria abraçá-lo o mais forte possível... e então, arremessá-lo a uma distância a qual seus braços não mais o alcançassem; queria beijá-lo... pois com ampla certeza, ao invés de retribuir, Duo morderia seu lábio, e essa dor o guiaria para fora do quarto do americano. Queria...

- Por que está chorando?

Foi tudo o que disse. Heero nem havia percebido que novamente as lágrimas caiam por seu rosto; Duo perguntara isso de modo tão trivial, como se a dor que aquelas gotas pudessem conter não pudessem ser menos desprezíveis. Heero desejou mil vezes ter seu lábio mordido.

- Eu...

- Por que está sempre chorando perto de mim? Por que sempre me ronda carregando tanta emoção?

Heero não largava os pulsos do americano, nem ele fazia esforço de se desvencilhar; no momento, Duo se satisfazia em fazer perguntas dignas de uma criança inocente em tom mecânico.

- Se sou eu quem sinto essa dor toda vez que te vejo, por que você é o que chora?

- Talvez... por que eu também sinta dor...

- Então por que ainda vem atrás de mim? Por que se impõe a esta dor... por que me impõe essa dor?

Aquilo lhe cortou o coração.

- Talvez por que, às vezes, precisemos de dor para saber que estamos vivos.

- Então eu não quero estar...

- NÃO DIGA ISSO! – Heero soltou um dos pulsos para calar Duo, tapando-lhe firmemente a boca: – Não se preocupe: sua dor logo vai se curar; eu não vou mais incomodá-lo, não vou mais feri-lo... – relutantemente, desce a mão, libertando os lábios de Duo, dizendo: – J... J pode reclamar no começo, mas é definitivo: vou me mudar desse esconderijo.

Não poderia ficar mais lá: sempre arranjaria uma desculpa para espreitá-lo, tocá-lo, magoá-lo... às vezes se precisa de um pouco de dor para se saber que está vivo, é verdade - ou então o ser humano morrerá na ignorância, afundado em seus próprios sentimentos frustrados.

Duo, agora assustadoramente calmo, observa Heero se aproximar da porta: "O vulto vai embora... a voz... a voz prometeu que iria se calar!" uma sensação aguda de euforia estranha o toma – "Pela primeira vez, o fantasma me deu sua palavra que nunca mais iria me assombrar! Nunca mais sentirei seu toque, ou seus olhos sobre mim...! Para sempre, para sempre, me livrei dessa dor, me livrei desse encosto..." – uma pontada indefinida de solidão o acerta, repentinamente. - "Então... por que a dor está aumentando? Por que eu sinto que algo que não faço a muito tempo está a ponto de..."

Duo sente sua bochecha úmida.

Há quanto tempo não sentia tal coisa? Era relaxante e angustiante ao mesmo tempo, mas a medida que elas caíam, Duo sentia como se sufocasse, o ar entrava mas não queria sair, tão óbvio – estava engasgado: algo queria sair, algo queria se forçar a sair... de dentro de sua boca, de sua alma, de seu coração... de sua prisão.

- Na... não...! NÃO VÁ! – estoura num grito de agonia.

Heero se vira e vê Duo com uma de suas mãos estendida para frente e seu rosto coberto de lagrimas. Era dor o que via em seus olhos. Não era algo que fosse admitir, mas se sentiu bem em vê-la lá; ver algo além de indiferença em seus olhos era muito bom. Finalmente seus sentimentos se encontraram.

- Duo, eu... DUO!

Foi muito rápido, não teve tempo de reagir – o americano nem por um segundo tirou os olhos de Heero, nem mesmo quando vacilou alguns passos para frente, ou quando apertou o próprio peito como se tentasse tirar algo de lá.. ou mesmo quando caiu no chão.

Heero só pode correr para seu lado: Duo se contorcia no chão, ora apertando o peito, ora apertando a cabeça. Louco de desespero, Heero já não conseguia mais se sentir feliz diante daquela dor, o americano parecia lutar contra si mesmo, pior, o americano parecia estar perdendo para si mesmo.

Heero não perdeu mais tempo – não havia nada que pudesse fazer por Duo, e no pé em que estavam as coisas, deixá-lo sozinho não era opção: apenas uma pessoa poderia fazer alguma coisa.

Colocando um pedaço de pano na boca de Duo para este não morder a própria língua ou machucar os dentes, Heero corre para o criado mudo de Duo e pega seu laptop. Hackeando-o o mais rápido que pôde, invadiu seu sistema de segurança e usou a freqüência do americano para contatar dr J.

- Heero? Por que está falando na freqüência de Duo?

- J, Duo está tendo uma forte crise!

- Crise?

Heero liga uma Webcan e mostra o estado de Duo, se contorcendo no chão.

- Não posso dizer nada concreto tendo apenas isso, mas só posso garantir que o caso é grave.

- E VOCÊ ACHA QUE EU TE CHAMEI POR QUE? POR DEUS, O QUE INFERNO EU FAÇO PARA AJUDÁ-LO!

- Está alterado, 01. Pelo visto não é só por que está preocupado; se sente culpado, não? – se pudesse ver os olhos daquele velho desgraçado, Heero poderia jurar que eles o analisavam - Parece que alguém não conseguiu ficar...

- Eu não preciso de sermão! Depois que ajudar o Duo eu sairei dessa base, vou para bem longe, mas agora eu te peço... imploro, ajude o Duo!

- O caso de Duo é mais grave do que você pensa, todos vocês estão em um grave quadro, voc...

- Eu já li os relatórios médicos! – Heero o interrompeu, bruscamente – Só me diga, rápido! O que eu tenho de fazer?

- Humm – J olha mais uma vez para Duo – toda e qualquer medicação usada em vocês deve ser desenvolvida por mim; até mesmo quando vocês precisaram de lavagem estomacal, fui eu que ministrei as substancias necessárias. Mas isso vai mais alem do que eu esperava, não pensei que fosse ter que usar tão cedo.

- Usar o que?

- Heero, vocês estão mais sensíveis do que o normal – qualquer alteração de humor, contradição, os põem expostos a crises, e elas varia de nível e grau, e quanto à de Duo... ela é a mais grave, então eu já estava desenvolvendo a algum tempo uma droga que o ajudasse a estabilizar seu estado nervoso

- Não é só dar um tranqüilizante?

- Não parece que você está ouvindo – Heero, toda e qualquer substância que vocês forem usar deve ser "totalmente" desenvolvida por mim; muitas coisas se alteraram no corpo de vocês. Antes de aplicar, teríamos que fazer testes e mais testes que comprovassem que não haveria chances de rejeição e... Esquece, só me escute, ta bom? Essa droga ainda está em fase de testes, há apenas 40 de chances de ele sobreviver depois de injetá-la, e mesmo assim, ele terá vários efeitos colaterais.

- E POR QUE RAIOS EU APLICARIA ESSA PORCARIA NEL...

- Por que se não ele vai morrer.

Isso calou Heero.

- Na melhor das hipóteses, ele entrará em coma. – inesperadamente, ao ver o sofrimento estampado nos olhos de Heero, J suaviza o tom frio da voz – Entenda garoto, ele chegou em um ponto em que não poderá mais voltar ileso.

- Por minha causa...?

- Esta começando a entender o enredo. – J sorri – Agora, só falta saber o seu lugar nessa peça.

- O mais longe possível de Duo. – Heero olha desolado o americano se contorcendo, no chão.

Então... era até esse ponto que poderia se aproximar de Duo? Nunca poderia nem mesmo segurar a mão que estivera estendida para ele minutos atrás? Como pudera se tão tolo, como pudera acreditar que, em meio a tanta guerra, algo como amor poderia tão facilmente acontecer? Deveria ter deixado esse tipo de ilusão para sonhadores como Quatre.

- Ótimo, então vamos ao que interessa. Como não queria deixar um medicamento de resultado tão instável próximo a mãos de mentes mais instáveis ainda, sua existência não é de conhecimento nem de Wufei. A cada progresso, eu o envio para um colaborador, que a cada novo esconderijo se infiltra na farmácia mais próxima de vocês.

- Sua confiança em nós é louvável. – Heero diz seco e com os olhos opacos de conformismo.

- Graças a ela me mantive vivo até hoje. Vá ao atendente chamado Chad. Ele é ruivo, tem por volta dos quarenta anos. Diga que J o mandou – peça por 2D33. Ele saberá o que entregar.

- Certo.

- Deixe 02 aos cuidados de 04, e vá o mais rápido possível.

- De... Quatre? Ah, claro... Ele não sairá do lado de Duo.

E a tela se apagou sozinha.

O som do fax entre os grunhidos de dor de Duo, o tirou do meio de suas recriminações.

"Valeu J".

Heero estava para sair quando viu algo brilhar entre as tranqueiras no chão, se abaixando para pegar, ele ergueu-se com uma pequena jóia na mão. O camafeu. "Será que foi isso que fez ele surtar? Já faz tanto tempo que eu o dei para ele, que eu pensei que já tinha jogado fora". Olha para o lado e Duo ainda se contorcia.

- Não se preocupe, eu vou fazer essa dor parar. – aperta o camafeu em sua mão – Para sempre.


Mais uma vez Duo ficou sozinho em seu quarto – a dor era insuportável, não sabia mais o quanto poderia agüentar. Entre os restos mortais do que antes fora seu quarto, viu um pote de creme de papaia que a muito tempo fora entornado no chão.

- Hee... ro.

Mais uma vez o fantasma o atormentava – só isso podia explicar essa dor. Mas assim que o vulto deixou o quarto, sua voz sumiu, dando lugar a outra voz: ela vinha aparecendo com freqüência, e por mais que tentasse ela não desaparecia... era mais forte que o fantasma, era mais forte que o próprio Duo, e mesmo assim, ele não se lembrava do nome de seu dono. Mas assim que ela desse uma brecha, já sabia muito bem como curá-la. Curaria a dor. Faria aquilo que até hoje não tivera coragem... e afastaria uma pequena voz, uma voz de mulher, uma doce mulher.

- Cale-se... calem-se... CALEM-SE TODOS, DROGA!


Heero, com a ajuda de um pequeno mapa correu o mais rápido que pode ate a farmácia, e não foi surpreso que a viu lotada, aquele realmente não estava sendo o seu dia.

Aproximando-se do balcão, tentou encontrar o tal Chad.

Decepcionado, não conseguiu avistar ninguém ruivo. Já não tinha mais escolha: teria que estabelecer contato com algum civil. Tinha que achar o mais rápido possível o seu contato, não tinha mais tempo a perder.

- Senhora... – se aproximou de uma mulher que usava o uniforme da drogaria e já tinha uma boa quantidade de cabelos grisalhos – ...poderia me informar se Chad trabalha aqui?

- Claro, rapaz – a senhora sorriu de maneira gentil – Ele começou recentemente, deve estar no estoque agora. Talvez eu possa ajudar.

- Desculpe, o assunto que eu tenho é meio pessoal.

- Há é? – em um passe de mágica o sorriso da doce senhora se transformou em uma carranca nada amigável – Pois o horário de almoço dos funcionários é só daqui a 3 horas, se tem algo pessoal a tratar espere por ele, de preferência fora daqui.

- Entendo.

O sorriso de Heero não condizia com a sua mão que segurava fortemente a empunhadura de sua arma nas costas, escondida pelo blusão que jogara às pressas, em cima de si, ao sair. "Uma bala... apenas uma... dias de guerra, são dias de guerra... ninguém vai estranhar..." suas possibilidades eram infinitas, não só as de falar com Chad, mas como as de se livrar dessa velha maldita – mas nenhuma delas pareciam rápidas o bastante, e o tempo corria. Não via outra opção: só viu um meio pacifico e rápido o suficiente para pegar a encomenda. Bem, pacifico era... porém, discreto...!

- Não, eu entendo, afinal, é assim mesmo. – Heero tomou fôlego, abriu a boca... e caiu no berreiro – ELES SEMPRE FAZEM ISSO! PRIMEIRO NOS SEDUZEM, E DEPOIS NOS JOGAM FORA, MAS O JHON DISSE QUE ELE ERA DIFERENTE, O JHON ME DISSE QUE ELE ME DARIA O QUE EU PRECISAVA! POR QUE VOCÊ FEZ ISSO COMIGO, CHAD? POR AMOR? OU SÓ POR QUE EU SOU DE MENOR? PENSEI QUE ME AMASSE...! NAS 2D33 VEZES QUE EU TENTEI IR EMBORA, VOCÊ DISSE QUE MINHA IDADE NÃO ERA IMPORTANTE, E AGORA IMPORTA? COMO VOCÊ PODE SER TAO CRUEL? VOCÊ MENTIU PARA MIM NESSAS 2D33 VEZES? POIS SAIBA QUE EU ACREDITEI NESSAS 2D33 VEZES...

- Tá MALUCO, moleque? – voando por cima do balcão, Heero só vi um vulto vermelho mergulhando em cima dele e calando sua boca – TOMA! Tá aqui a porcaria que J te prometeu, agora CAI FORA DAQUI! – o homem ruivo empurra para o bolso do jeans de Heero uma ampola com a droga

- Tá certo, amor! – Heero sorriu para o homem mais velho – ...estarei te esperando na nossa cama.

- ...!

Heero sai correndo, deixando para trás um tremendo alvoroço, mas não julgou ser realmente um problema: afinal, depois de tanta movimentação, o mais certo seria eles se mudarem daquele esconderijo. Teria que se lembrar de no próximo esconderijo procurar o Chad, para se desculpar. Foi quando se lembrou... não haveria próximo esconderijo para ele – pelo menos não perto dos outros; mas isso não foi suficiente para diminuir seu passo, tinha que chegar rápido para ajudar Duo, não gostava da idéia de tê-lo deixado sozinho.

Ainda perto da farmácia, em uma sorveteria, um homem que pareceu muito interessado no tumulto de agora a pouco, via com olhos frios o pivô daquela confusão se afastar.

Abaixando discretamente a cabeça, falou bem próximo ao que parecia ser apenas a gola de seu casaco.

- Movimentação de um dos cinco suspeitos confirmada. Mandar coordenadas para a base. Vou seguir o elemento até o esconderijo - quando confirmar o alvo, chamarei pelo reforço. Aguardar sinal. Repito: aguardar sinal.


- DUO, CHEGUEI!

Quase derrubando a porta, Heero irrompe dentro do esconderijo. Nunca amaldiçoara tanto estar em um apartamento, mesmo estando apenas no segundo andar, subir as escadas lhe dera um tempo mais que agonizante de pensar em todos os erros que cometera para chegar à situação em se encontrava.

Recuperando o fôlego, o japonês tranca a porta atrás de si e ia em direção ao corredor, quando viu na parede uma fina rachadura, e seguindo-a com os olhos, percebeu que ela saia do corredor e ia em direção à cozinha.

Já temendo o que podia vir, Heero, seguiu a rachadura, e diferente do que esperava, até que a cozinha estava em ordem, com exceção de um detalhe: o faqueiro esparramado no chão.

- PUTA QUE O PARIU! DUO!

Chegando a conclusão mais lógica que poderia ter, Heero sai correndo da cozinha, afinal, a rachadura que vira não estava saindo do corredor e indo para a cozinha: ela estava saindo da cozinha... e indo para o corredor.

Entrando no corredor e seguindo o percurso que lhe fora deixado, Heero foi até o banheiro, e lá estava ele: Duo segurava com uma mão a trança e com a outra uma faca, parecia estar nessa posição a algum tempo.

Tendo uma idéia do que o americano pretendia, e não querendo assisti-lo ir até o final, Heero avança sobre ele para tirar a faca. Tropeçando no meio do "salvamento" por causa da água no piso, Heero consegue tirar a faca da mão de Duo, mas também se estatela no chão.

- Ufa, essa foi por pouco. – diz, rindo para si mesmo.

Sentado no chão do banheiro, e escorado na parede, Heero ergue os olhos para o americano, e antes que pudesse entender o que estava acontecendo, sentiu a gola de sua camisa ser pega com ferocidade, ser levantado bruscamente, e suas costas serem jogadas com força contra a outra parede. Sentiu a cabeça explodir numa nuvem de dor, ao batê-la contra a parede, mas não se permitiu ficar tonto por muito tempo, não seria saudável enquanto ainda estava preso em um dos acessos de fúria de Duo.

- VOCÊ ESTÁ COM ELA, NÃO ESTÁ? VOCÊ ESTÁ COM ELA! AQUELA DESGRAÇADA TE MANDOU AQUI, FOI ELA QUE TE DISSE PARA ME IMPEDIR, MAS NÃO DESSA VEZ: DESSA VEZ EU VOU ATÉ O FIM!

- Dessa vez?

- EU VOU FAZÊ-LO! – sacudindo o corpo do japonês, Duo continuava – DESSA VEZ ELA NÃO VAI ME IMPEDIR – ELA É DESNECESSÁRIA, TOTALMENTE DESNECESSÁRIA! NÃO IMPORTA O QUE ESSA VOZ DIGA, ELA É ...

- A voz é desnecessária?

- NÃO SE FAÇA DE DESENTENDIDO! VOCÊ TAMBEM É CUMPLICE! SE NÃO FOSSE, NÃO ME DARIA AQUELA DROGA DE CREME DE PAPAIA – MAS NÃO ADIANTA: NÃO IMPORTA O QUE VOCÊ, E AQUELA VOZ ESTÚPIDA DIGAM, ELA É DESNECESSARIA, ESTÁ ME OUVINDO!

- Creme... de papaia? O que... um creme de cabelo tem haver com... desnecessária... – A compreensão das palavras loucas que Duo estava lhe jogando o acertou como um murro no estômago: - A trança!

Nunca a vontade de se chutar diante de tanta lerdeza assolou tanto o Soldado Imperfeito: se Duo estava para cortar "algo inútil", só podia ser ela! Agora só faltava saber, que raio de voz era a qual que ele estava reclamando.

- VIU COMO VOCÊ SABIA? VIU? CLARO QUE SABIA! VOCÊ TAMBEM É UMA VOZ: É IGUAL A ELA, AQUELA DESGRAÇADA, MAS VOCÊS NÃO VÃO MAIS ME MACHUCAR, NÃO VÃO MAIS ME...

- Pois faça o que quiser. – Heero disse em sua voz mais seca possível.

- O... que? POIS EU FAREI MESMO, E VOCÊ NÃO VAI ME...

- Eu não vou te impedir, Duo. – aproveitando-se do estado de surpresa do outro, Heero solta-se de seus punhos de aço. Continuou, porém, usando o mesmo tom de voz – Não importa se você vai cortar seu cabelo ou não. Eu não queria que você o fizesse apenas por causa de um simples acesso de fúria, mas se ele te machuca tanto...

- E é o que farei, ouviu? – Duo parara de gritar, mas ainda mantinha uma linguagem corporal bastante desconfiada - Não importa se você e ela me...

- Eu te apoiarei. – Lenta e cuidadosamente, Heero consegue aproximar uma de suas mãos para acariciar o rosto de Duo – Eu te apoiarei, por que... porque mesmo que você fique careca, você será o sempre meu Duo, pois o amor de Shinigami é m...

E antes de completar a frase, Heero sente seu corpo sendo arremessado no chão, sua arma cai e desliza para perto da privada. A ampola que guardava o remédio caiu também de seu bolso. Foi com alívio que viu que não quebrou, e foi em pânico que viu o pé de Duo esmagá-la.

- NÃO!

Quase como um sussurro a voz de Heero saiu rouca ao ver o líquido âmbar se esparramar pelo ladrilho entre cacos de vidro. O Shinigami Perfeito gemeu baixinho com o contato com os estilhaços, mas logo se recuperou.

Duo se agacha para ficar cara a cara com ele, mais uma vez o assunto voltou para algo que pelo menos o japonês pode entender: não que isso o tenha deixado mais feliz, na verdade, já estava ficando exausto... sem energias, já podia até imaginar como começaria o discurso do "por que você...".

Heero cerrou os dentes, e respirou fundo "O remédio... eu corri feito um doido, expus mais que nunca o nosso esconderijo... e fiz a maior cena por causa dessa porcaria de remédio...!" O ar voltava lentamente aos seus pulmões, e o que o guiava era um dos sentimentos mais básicos: Heero estava, naquele minutos, facilmente aprendendo reconhecer – a raiva.

- POR QUE VOCÊ NÃO ENTENDE? FIQUE LONGE DE MIM! NÃO ME TOQUE, EU TENHO NOJO DE VOCÊ! QUANTAS VEZES VOU TER QUE DIZER? QUANTOS HEMATOMAS, EU VOU TER QUE FAZER EM VOCÊ? QUANTAR PERNAS VOU TER QUE QUEBRAR? QUANTOS DEDOS SEUS, EU VOU PRECISAR QUE...

Estendendo sua mão esquerda para o alto, deixando-a no mesmo nível do olhar de Duo, Heero perguntou – Sabe o que é isso, Duo?

Os olhos violetas estreitaram-se, desconfiados – Uma mão. Porq...

Heero abre a dita mão esquerda, interrompendo-o novamente, espalmando-a no ar, bem em frente aos seus olhos. – Sabe quantos dedos uma tem?

Com os olhos estreitos feito fendas, Duo responde, irritando-se: – É claro que sei, imbecil! Cinco!

- Pois é. Só cinco – Heero murmurou baixinho, enquanto que, ainda de olhos fechados, e desapercebidamente, estalava os dedos da mão direita, ainda repousada sobre o chão. – Sabe para que servem? (1)

- Como? – Duo perguntou, com cara de playmobil, sua atenção brilhantemente distraída.

- Para isto.

E em resposta, Heero fecha seu punho direito e acerta a cara do americano em cheio – com um potente murro.

Duo caiu para trás, por causa da força do impacto... e diferente da previsão de suas ameaças gritadas para o japonês, nenhum dos dedos do seu agressor quebrou – mas em compensação, pelo som que ambos ouviram, o nariz de alguém quebrou.

... e não foi o do jovem de olhos azul cobalto em chamas, uma vez que este subiu em cima do corpo de um americano desnorteado.

Heero o prendeu ferozmente entre suas pernas, e quando seu prisioneiro tentou escapar, sem nenhuma delicadeza, prendeu-lhe os braços, e cruelmente, esticou uma mão e recolocou o nariz no lugar. Filetes de sangue saíam pelas narinas do americano o fizeram berrar como se estivem matando-o. Ao fim do berro, Duo ficou lá, deitado com o outro com as pernas em cada lado do seu quadril, e a prender-lhe as pernas e braços com tenazes de aço. Com o olhar pasmo, enfim calou-se, e Heero, com o máximo de imponência que aquela posição poderia dar, disse:

- Agora cala essa MALDITA BOCA, e vê se me escuta! – seu tom era seco e potente, sua voz naquela hora era competente o suficiente: tanto que não precisava apelar a gritos para se fazer ouvir: – Faz mais de um mês que eu quero dizer isso, e não vai ser a droga de um pití seu, que vai me impedir. Eu tô me lixando, se você vai me bater, gritar ou espernear: se você não notou, seu idiota, eu sou a droga de um soldado, não uma patricinha qualquer, que depois de levar um fora, se entope de chocolate, e vai chorar enquanto escreve no diário! Você não está pronto para me aceitar, tudo bem – mas saiba de uma coisa, e ouça bem: eu posso até ir embora, eu posso até sumir da sua vida, posso enganar o J, posso te enganar e até enganar a mim mesmo, dizendo essa ladainha de separação. Mas EU sei, VOCÊ sabe, e até o DESGRAÇADO do J sabe: que não importa em que planeta, colônia, em que merda de sistema solar você se esconda, eu sempre vou te achar, e sabe por que? Por que a droga do amor do Shinigami é meu!

Heero olhou ainda mais um pouco aquelas violetas assustadas – não tivera nem um pingo de pena. Quem sabe, aquele medo mantivesse aquele maluco paralisado alguns segundos a mais, enquanto ele voltava correndo para a drogaria para pegar mais um pouco da droga – isso se o tal Chad já não tivesse sido preso, por aliciamento de menores.

Levantando-se de cima de Duo, o japonês estava para se afastar, quando sente uma mão prender seu tornozelo. Fechou os olhos esperando ser puxado dolorosamente para o chão, mas tudo o que ouviu foi um choro baixo... Duo, vencido, prostrado de exaustão, deitado no chão não dizia nada, apenas soluçava.

- Duo...

- Eu não agüento mais... faz parar, por favor, faz parar...

Era óbvio para Heero o que acontecia, e isso não quer dizer que o agradava, Duo tentava trazê-lo para si o máximo que seu corpo podia, mas depois de se desgastar tanto, lutando antes, agora só lhe sobravam forças para suplicar: seu tom de voz diminuíra, mas sua dor só parecia aumentar. A voz de Heero não alcançava mais o americano, apenas sua presença conseguia... seu corpo – exatamente aquele que feria tanto sua mente, mas que também curava sua alma; até o momento em que ambas as forças se calariam, pondo fim à aquele combate que travavam, e com a frágil vida de Duo.

- Duo, eu vou pegar o remédio, e prometo que isso vai passar.

- Não sai. – ele ergue seu rosto para encarar Heero, com os olhos vermelhos e assustados - ... só faz parar: eu não agüento mais, Heerooo.

Sua voz chorosa pronunciara o nome do japonês – e apenas isso fez as pernas do piloto 01 virarem água, e ele quase fraquejar. Há quanto tempo não ouvia seu primeiro nome dito por aquela voz?

Não sabia mais se ia ou se ficava: a mão que o segurava poderia ser facilmente afastada, mas o peso daquela voz soava suplicante a seus pés, prendia-o como se estivesse coberto de cimento. Mas a solução no final veio rápida.

Se abaixando novamente no chão, Heero abraçou Duo o mais forte o que pôde, os braços desesperados do americano o apertavam em busca de uma cura inexistente, e a cabeça de Heero se encaixou na curva do pescoço do outro, onde se perdeu no perfume único que formava o suor daquele americano... Também ele começava a entrar em desespero: imaginara que no final, era mais fácil acreditar que simplesmente se afastando, tudo podia melhorar, mas até essa opção lhe fora tirada – era agora obrigado a presenciar toda a dor de seu amado, mas não o faria passivamente.

- Eu não sei como te curar, Duo. – dizia isso mais para si mesmo do que para o americano, já que este não ouvia mais, preso ao choro e à dor – Mas se até mesmo minha ausência lhe causa dor, então eu nunca mais vou me afastar: se por acaso você quiser quebrar algo, me quebre; se for gritar, eu gritarei mais alto que você; se chorar, beberei todas as suas lágrimas... mas nunca mais te deixarei sozinho – dividirei sua dor em duas, até o dia em que meu corpo não suportar mais, e mesmo assim, farei um pacto com o próprio Shinigami, e assim manterei minha alma sempre próxima a você.

Duo não ouvia seu discurso apaixonado, apenas balbuciava pedidos de que não o deixasse, o que arrancou mais lágrimas de Heero. Tentou afastar os braços de Duo, o que só fez o americano apertá-lo contra si mais e mais forte com os dele, quase fazendo Heero perder o ar. O jovem japonês coloca as mãos no rosto de Duo e o faz encará-lo. Olhos vazios foi o que viu: eles não fitavam mais nada.

- Não me deixe, não me deixe, ela me deixou, ela fez minha trança e me deixou, você também gosta da trança, não me deixe...

Sem esperar por um consentimento que nunca viria, Heero toma os lábios de Duo contra os seus.

Não havia resposta da pessoa abaixo de si, e, mesmo sabendo que não teria uma, se sentiu meio decepcionado quando percebeu.

Aqueles braços que o apertavam cada vez mais forte, foram lentamente se afrouxando, até quase caírem ao chão... e foi então que sentiu que os lábios entre os seus se moviam por si próprios – percebeu isso quando sentiu uma delicada mordiscada em seu lábio inferior. Feliz, Heero não teve coragem de interromper o beijo – sentir o mesmo desejo em Duo era algo maravilhoso!

Depois de analisar um pouco a situação, ainda que sem se afastar do americano, Heero conseguiu imaginar o que provavelmente acontecera para a crise de Duo ter sido interrompida. Os pilotos, assim como J explicara, se encontravam em um quadro psicologicamente grave, onde qualquer alteração mais extrema poderia causar crises nervosas, sendo que, de quatro deles, apenas três conseguiam ficar presos a uma mínima capacidade de controle - Duo Maxwell era o pior quadro entre todos, sendo ele o único, em meio à insanidade em que se encontrava, que não conseguia retomar o pouco controle que os outros tinham sobre si mesmos.

Nunca passou pela cabeça de J que esse controle poderia se reavido por meio de ajuda externa... e foi o que aconteceu – os lábios de Heero tocaram de maneira gentil os de Duo, enquanto este ainda estava submerso em meio aos delírios criados pela exposição ao próprio Heero... aquilo o assustou: o contato repentino, a língua que invadia devagarinho sua boca, o sabor salgado de suas próprias lágrimas... ele ia começar a espernear, quando seus olhos voltaram a focalizar no mundo real, e se encontraram com os de Heero – estes estavam abertos e diziam claramente "Não fuja de mim: não quando eu finalmente decidi não fugir mais de você." e com isso, o surto se perdeu; a profundidade daqueles olhos, os movimentos de seus lábios, o toque carinhoso e meigamente exploratório de sua língua... a conturbada mente de Duo ficou branca, e tudo o que existia era apenas aquela boca que o desejava, aquele corpo quente e pesado por cima do seu, contra o seu: sua mente depois de tanto tempo, enfim se esvaziava, não havia mais nada que o machucasse ou perseguisse.

Seus rostos se separaram, Heero olhou com expectativa para Duo, esperava a reação do americano. Este sorria.

Sorria de maneira doce, como a muito não sorria – sua mente não mais latejava: ele se sentia leve, e disposto, e preparado para dizer o que não se deixara dizer por muito tempo.

- Heero, eu te am... – /Clic/ – Yuy? O que nós estamos fazendo no chão?

Embasbacado, Heero encarou a pessoa deitada no chão abaixo de si: a face séria e sem vida usada nas últimas semanas pelo americano voltara. Heero sentiu-se tão triste que imaginou suas esperanças caindo por terra. Talvez... Talvez fosse pedir muito que tudo se resolvesse com apenas um beijo, é verdade, mas - não podia reclamar: afinal, pelo menos Duo não estava mais sofrendo com uma crise.

Á sua revelia, porém, teve que conter o riso, quando pensou que talvez fosse bom... tentar dar mais um beijo, para ver se o americano pegava no tranco. Mas achou melhor não arriscar: apenas se levantou, e ajudou Duo a fazer o mesmo.

- Nada. Houve um problema na pia, mas quando você veio me ajudar a resolver, eu já tinha acabado.

- Entendo. – Duo o encarou. – E que cara estranha é essa?

Heero não pode deixar de sorrir, era algo realmente inevitável – Duo quase morrera, agora há pouco; ele fora de novo, obrigado a ver, sentir e sofrer um dos ataques de fúria dele... e mesmo assim, ainda sorria como um bobo... afinal, as palavras de Duo poderiam ter ficado incompletas, mas aquelas violetas não o enganavam: era mais que óbvia a última palavra que ele iria dizer, antes de voltar ao normal.

Uma palavra que mais do que nunca provava que seu lugar era ao lado daquele americano.

BAM!

- Que barulho foi esse? – Duo pergunta, surpreso frente ao som súbito e inesperado.

Heero sente uma sensação de urgência e andrenalina dispararem seu coração: - Parece que foi na porta de frente... e eu duvido que seja apenas o Quatre, que tenha esquecido as chaves.

- Alguém do grupo deixou a base? – Duo pergunta em meio a sua eterna falta de memória.

- Três: só tem nós dois aqui. – sem tempo para maiores informações, Heero procurava sua arma que tinha caído no meio daquela confusão, até que a encontra e a empunha, perguntando: – Duo, você ainda se lembra do procedimento padrão?

- Queima de arquivo. – responde prontamente, também sentindo o jorro de andrenalina.

- Isso! – Heero confirma, enquanto engata a arma, atravessando o banheiro para sair. – Eu vou segurar nossos visitantes o máximo possível – livre-se do máximo de material que a gente tiver nos quartos, acione os...

- Eu conheço o procedimento pad...! – Duo é calado pelos lábios de Heero, que, em um estouro de impulsividade, volta e toma os seus num beijo roubado... e quase imediatamente se afasta, indo em direção à porta, outra vez. O estupor do americano não tem tamanho. – Mas... O que diabos foi isso? – pergunta, a voz uma oitava mais alta.

- Te dando algo para lembrar. – Heero lança uma picadela cúmplice e sai do banheiro.

Duo saiu logo em seguida, mas antes de entrar no quarto de Quatre, ainda pode ouvir a voz de Heero:

- Bem vindos, rapazes. Mas creio que terão de passar por mim, primeiro.


Duo não perdeu tempo – rasgou todos os relatórios e fichas em que conseguiu por as mãos, e virou a mesinha do computador, afastando-se um pouco da pequena explosão.

Saiu do quarto e ouviu o som de tiros e gritos, comando de superiores frustrados – Uma coisa era certa... Heero sabia dar trabalho.

No quarto de Trowa não havia muita coisa, apenas alguns projetos do Heavyarms e relatórios de missões passadas, tudo sendo devidamente rasgado e queimado. Próximo quarto.

No corredor, por entre os sons de tiros, podia ainda ouvir os gritos de algumas pessoas, e para sua surpresa, se sentiu aflito quando ouviu gemidos de Heero também. "Ele está apenas cumprindo a própria missão. Cumpra a sua!"

No quarto de Wufei, assim como no de Trowa, só haviam plantas sobre Shenlong e relatórios, mas esses eram em maior quantidade: o chinês estava afundado em papéis ultimamente. Heero tinha que começar a emprestar seu laptop para algumas pessoas.

Saindo novamente para o corredor, notou que os tiros haviam parado, apenas se ouviam gemidos, e barulho de luta corporal. Heero devia estar em grande desvantagem, era melhor se apressar para poder ajudá-lo. "Ajudá-lo? Não, quero dizer, devo seguir o procedimento /Clic/ Não posso! /Clic/ Digo, não vou ajudá-lo!"

No quarto de Heero, seguiu a mesma rotina – rasgou os papéis e estava a ponto de arremessar o laptop no chão, quando o olhou em suas mãos. Não sabia explicar o repentino peso que aquilo aparentemente tinha naquele momento. Pensou por alguns segundos e o firmou debaixo do braço.

- Eu apenas... acho que existe informação que pode ser necessária futuramente – dizia para si mesmo ruborizando, algo estava mudando nele – ...apenas isso...

Queimando os papéis no chão, Duo volta-se para o corredor, mas apesar de que aquele viesse a ser o desfecho mais lógico, não pode evitar de entrar em choque, quando ouviu, ainda fora do corredor uma voz dando ordens, vindo da sala.

- Esse deu trabalho, mas já era. Vasculhem a cozinha, e vocês o corredor e o resto do apartamento! Pode haver mais deles por aí, Gardini disse que apenas três deles deixaram o esconderijo.

Seus pés estancaram no meio do caminho.

"Esse deu trabalho, mas já era. Esse deu trabalho, mas já era. Esse deu trabalho, mas já era..." por que esse receio? Aquelas palavras o afetavam tanto... por que? Queria saber o que aquelas palavras significavam, o quão grave seria seu sentido sobre a vida de Yuy, não, sobre a vida de...

- Heero...?

Sua voz saiu sôfrega e fraca. Lutava contra si mesmo. Queria atravessar todo aquele corredor e ir de encontro ao fantasma, mas algo – não: ele mesmo se impedia, afinal, além do dever, sua mente estava atada pela lógica, pois as suas chances de sobrevivência seriam curtas, e as de Heero estar vivo, menores ainda.

- Senhor! Mais um deles no final do corredor!

Descoberto!

Apertando fortemente o punho, Duo não tinha mais escolha, dando as costas aos homens que começaram a correr em sua direção, ele entrou no próprio quarto e trancou a porta. Teria pouco tempo para muita coisa a fazer! Teria que estabelecer prioridades – e em sua mente turva, Heero Yuy não era uma delas.

Ligando o laptop, Duo faz duas coisas ao mesmo tempo: enquanto prepara o programa para mandar uma mensagem codificada para seus companheiros, procura em seu criado mudo o dispositivo para conectar em seu computador e acionar o temporizador de autodestruição dos Gundans.

Com gestos rápidos e precisos, entre o som de seus inimigos engatilhando suas armas e atirando contra a fechadura da porta, Duo termina de programar o temporizador – deveria ser tempo o suficiente para Wufei e os outros salvarem os próprios Gundans.

Mas ele próprio não tinha mais tempo: a porta se abriu e vários homens invadiram os quarto.

Duo fecha o aparelho e se prepara para levá-lo consigo, quando olha para o laptop de Heero sob o mesmo criado mudo, colocado lá por ele próprio, ao entrar em seu quarto. Maldição, não teria como levar a ambos!

Não pensou muito: arremessou o seu próprio em cima dos soldados. Os da frente desviaram por reflexo, dando espaço para o aparelho se espatifar no chão e Duo pegar impulso. Com uma voadora giratória – apesar de já estarem recuperados do susto diante da reação do Shinigami Perfeito – Duo já estava com o pé em suas caras quando deram por si. Jogando alguns deles contra a parede, depois de uma calculada aterrissagem, Duo se agacha, e sem dar brecha para seus adversários, dá uma rasteira violenta, mandando ao chão outros poucos que ainda estavam em seu caminho. (2)

Tomando impulso e levantando-se, seu cotovelo foi direto na jugular do homem que tentou ir em sua direção, e no tempo que esse caía, Duo gira seu corpo ágil e desvia de outros três que avançavam sobre ele.

Parecia que eles não acabavam, e sem opção, Duo consegue atravessar um pouco o corredor e chegar ao quarto de Heero. Pondo uma cadeira para travar a maçaneta, ele abre o laptop de Heero, digita desesperado, e abrindo o programa que procurava, diz – apesar das vozes de seus algozes soarem aos gritos, logo atrás da porta:

- Acionei o dispositivo para detonar os Gundans, temporizador ativado para explodir em 600 segundos. Situação de piloto 01 incerta. Não venham, esconderijo dominado. Tenho poucas chances de fuga, mas ainda tenho uma alternativa – me encontrem nas coordenadas que vou enviar, mas detalhes lá. – Duo se cala por alguns segundos toca o sangue abaixo de sue nariz – Hee... chan...

Aquele apelido saiu queimando por sua garganta, mas tinha que dizê-lo, mesmo que sua voz saísse carregada de tristeza, e seus olhos já estivessem começado a se marejar... algo estava prestes a explodir dentro de si, mas não importava, queria se prender naquele doce martírio.

Salvou a mensagem, e quando estava preste a enviar se lembrou de um detalhe, onde os outros estavam, afinal? Devem ter saído em missão, mas aonde? Não se manteve muito tempo em duvida, o som dos soldados tentando arrombar a porta não deixava. Enviou a mensagem para J – ele haveria de saber para onde encaminhar.

Quando a porta daquele quarto se abriu, desabando no chão, não havia nada mais que papel queimado no piso... e a vidraça da janela estraçalhada.

Correndo para a mesma, os soldados ainda puderam ver um jovem de longos cabelos rolar pela escada de incêndio. E caindo de modo felino no chão, ele se ergue, apertando o que devia ser algum ferimento causado pelos estilhaços de vidro.

Com o coração enlouquecido dentro do peito, Duo corre em direção ao trânsito. Tiros não demoraram a se fazer ouvir, fazendo o piloto aumentar a velocidade, e os poucos pedestres – que andavam normalmente pela rua – correrem para dentro de qualquer abrigo.

Duo sentiu ser atingido de raspão na barriga. Não poderia deixar essa perseguição durar mais tempo naquele terreno aberto – merda, como se ele tivesse opção...! E no fim das contas, tinha. Aproveitando um sinal vermelho, pula na carroceria de um caminhão que transportava animais e rezou para o que aconteceu logo em seguida – o sinal verde abrir, e se afastar o máximo possível daquele lugar.

As ovelhas com quem dividia a agradabilíssima acomodação, se sentiram um pouco incomodadas a princípio, com o intruso, mas logo que ele se encolheu em seu canto, elas se acalmaram. Duo sentia seu sangue escorrer enquanto sua visão ficava turva. (3)

- Não... não posso dormir...

Perder a consciência naquela situação, não era aconselhável, assim que conseguisse distância o suficiente de seus algozes, ele sairia da carroceria e procuraria um meio de ir para onde se encontraria com os outros pilotos, mas... Seu corpo foi se tornando pesado.

- Não dói... não dói... Não dói...

Dizia para si mesmo, mas até essa simples psicologia parecia lhe faltar no momento, pois confuso, uma imagem vinha à sua mente toda vez que estava prestes a se recompor: uma imagem doce, a sensação de seus lábios macios e quentes contra os dele, uma voz...

/"Te dando algo para lembrar."/

A dor foi dando lugar à uma paz anestesiada, e perigosa. Não conseguia mais manter as pálpebras abertas; por diversas vezes bateu violentamente a mão esquerda contra a madeira em que estava deitado, mas a dor logo passava. Como a queria no momento. (4)

- Heero...

Aos poucos já não se mexia mais, preso a uma consciência distante, e a um mundo já sem sons. Sua visão já havia escurecido, o único contato com a realidade era aquela máquina fria e cada vez mais pesada – à despeito de seu peso leve – que mantinha apertada contra seu peito, e que nem por um minuto largou. Apenas para necessidades futuras, repetia mentalmente, mas sua última palavra antes de desmaiar não era muito condizente com essa tese:

- Hee-chan...


Quatre entrou naquele prédio velho sozinho. Aquele local há muito tempo atrás já fora um hospital de prestígio – agora, estava a três semanas de ser demolido. Mas para aquele rapaz era apenas o local onde reencontraria aqueles que seriam seus aliados em busca da paz das colônias e do povo da Terra, entre eles, a pessoa que escolhera como "sua".

Esfregando as mãos uma contra a outra, o loiro pensava o quanto estava frio naquela época do ano. Era um pensamento bem comum que usou para disfarçar sua real preocupação, afinal, fazia dez dias que não via seus companheiros, depois de uma temporada de um mês e meio onde nem por um segundo se vira sozinho.

Andando pelos corredores empoeirados, repentinamente ele sente dedos envolverem seu pescoço de forma firme, mas sem machucá-lo. Suspirando, Quatre estende o braço para trás, e puxa o braço de quem o prendia antes, esse veio docemente, apesar do pequeno bico que fazia:

- Você nunca se assusta quando eu faço esse tipo de coisa...! Hunfs... Um namorado descente fingiria ficar arrepiado, ao menos.

- Tão infantil... – Ainda andando, Quatre enlaçara a cintura de Trowa, o mantendo do seu lado – Mas tem outras formas de fazer o seu namorado ficar arrepiado... – diz isso parando de frente a ele no corredor, e passando os dedos de sua outra mão pelo pescoço de Trowa, subindo até os lábios e os contornando: – ...sabia?

- Ok. – Trowa diz, sentindo um frio na espinha – 1x0 para você.

Indo para frente de seu amante, Trowa não é tão suave ao apertar o corpo de Quatre contra o seu, deslizando os braços por de baixo da camisa do outro, aquecendo suas mãos geladas naquele corpo quente e macio. E tomando a boca rosada à sua frente, o beija cheio furor e desejo. Com uma pequena mordiscada, afasta sua boca da outra, e encara os olhos azuis aqua marinhos que não via por um longo curto período.

- Fazia tempo que não me recebia de maneira tão ardente. – Quatre retoma o percurso, levando-o com o braço ainda à cintura, enquanto observava os corredores à sua volta.

- Não tenho culpa se me acostumaram mal... Além disso, tanto tempo longe me deixou doido.

Quatre ouvia as queixas do namorado calado, tanta obsessividade o deixava meio excitado, mas também o preocupava: tinha medo que isso pudesse levar o namorado a uma depressão, pois não sabiam se depois desse encontro eles poderiam voltar a morar juntos. Muitas coisas haviam acontecido a dez dias atrás, muitas coisas.

- Mas ele foi bem frio, não? – Trowa muda de assunto repentinamente. – Digo, quando vi Wufei sair daquele jeito da base de Sally, eu jurava que ele ia correndo atrás de Heero, digo... – bate na boca com falsa inocência – ...eu jurava que ele ia atrás do ponto de encontro.

- Como pode brincar até numa situação dessas? – Quatre, incrédulo, revira os olhos – De qualquer forma, vai me dizer que você também não sentiu seu coração parar, quando ouviu a palavra 'temporizador'? Ora, por Alá...! Wufei tinha que agir rápido para desativar o programa – Duo tinha ativado os de todos os Gundans!

- É... e no final das contas, nem o próprio Duo estava no ponto de encontro, mesmo.

Quatre se cala diante do comentário do namorado. Há muito que essa situação o aborrecia. Duo mandara aquela mensagem há dez dias atrás, e depois... A situação dos pilotos Gundans que agora se resumiam a apenas três, era cada vez mais desesperadora.

- Você acha que ele já o encontrou? – Trowa o tira de seus devaneios.

-Hã? Ah, claro, se não, não teria nos chamado. Não imagino aonde ele possa tê-lo encontrado: eu sinceramente já estava achando que o pior tinha acontecido.

- Vira essa boca pra lá! – o moreno de olhos verdes abana a mão, impaciente: – Só por que achá-lo foi mais difícil que achar o 'outro', não quer dizer que já podemos escrever o epitáfio dele, fora que, heheheehe... – Trowa tenta sem muita vontade prender o riso – Temos que admitir que resgatar o primeiro foi até divertido, afinal... quantas vezes eu posso te ver vestido de enfermeira?(5)

- EnfermeirO, Trowa! EnfermeirO! – Quatre contrai o rosto como se lembrasse de algo ruim.

- Não foi o que aqueles velhinhos e suas mais novas fãs disseram.

Atacado daquela maneira infame em sua masculinidade, o loiro não deixa por menos:

- Pelo menos NÃO FUI EU quem quase pôs a missão a perder, só porque, do nada, resolveu sair no tapa com a máquina de doces!

- Mas ela...!

- Eu não acredito que vocês ainda estão brigando por causa disso! – uma voz vem da porta do quarto no qual a dupla acabava de entrar, discutindo. – O importante é que conseguimos resgatá-lo, e ponto final.

Wufei estava sentado em uma cadeira ao lado de Duo, e este, apoiado na cabeceira da cama com suas pernas cobertas por um lençol branco.

- Ele não disse nada, ainda?

- Nada, Quatre. – Wufei diz sério.

Depois que Duo mandara aquela mensagem, os três pilotos gundam tiveram que correr contra o tempo para elucidarem – e salvarem a situação, a partir dos poucos fios soltos que Duo deixara para trás naquela mensagem defeituosa. Primeiro Wufei desativara o temporizador – por poucos segundos os cinco Gundans não explodiram. Depois, partiram para o local de encontro; esse seria o esconderijo para o qual eles haveriam de mudariam no final de uma missão que porventura, desse errado. Mas ao chegarem lá, Duo não estava. Pior: nem ele, nem Heero.

Não fora muito difícil achar o americano. Depois de uma pequena busca, o acharam internado em um hospital público. E melhor ainda: não só eles, como também a OZ.

Por isso, para... tirá-lo vivo lá de dentro fora necessário uma certa... ahem... sutileza. Após resgatarem-no de lá – com a ajuda de J – eles o acomodaram em um antigo hospital, há muito fechado, equipando-o superficialmente para abrigar o piloto do Deathscythte, em seu estado já não tão grave.

Após acordar, Duo respondia apenas a J, e apenas o essencial, com exceção, é claro, de quando eles disseram que o laptop que ele protegera por tanto tempo havia ficado para trás no hospital. Neste momento em especial, tiveram que sedá-lo para ele se acalmar.

Depois disso, os únicos três pilotos disponíveis se dispersaram em direções diferentes atrás do único companheiro desaparecido. E por dez dias não haviam se visto, até hoje.

- Quando afinal vocês vão limpar esse lugar? – Trowa pergunta vendo a expressão de agonia do calado namorado, em um ato que Quatre não pode ver como nada menos que carinhoso.

Trowa e Quatre se sentam na beira da cama onde Duo estava. Duo nem ao menos os acompanhou com os olhos – apesar de mais sereno, o americano não parecia ter melhorado muito em seu atual estado de ausência.

- Isso no momento é irrelevante. – Wufei se manifesta de novo – Logo vamos estar deixando este lugar, de qualquer jeito.

- Então o Max já pode se levantar? – Trowa pergunta – Foi por isso que nos chamou? Beleza! Agora, temos mais um para procurar.

- Não precisamos mais procurar, Trowa. – Dr J aparece na porta – Eu já o achei, ou melhor, Wufei o detectou. – o chinês desvia o rosto da visão dos demais, encarando a parede, mudo.

- É verdade, isso? – Quatre pergunta desconfiado, diante do semblante imutavelmente sério de Wufei – E onde ele está?

- Ele está...

- Heero Yuy está vivo?- Duo fala espontaneamente pela primeira vez.

- Sim, Duo. – J responde – Ele está vivo.

- Entendo. – ele vira seus olhos violetas para J, enquanto elucida o próprio raciocínio: - E a se basear em fatos passados, ele deve estar em mãos inimigas.

- Não poderia ter dito melhor. – foi a resposta recebida pelo velho.

A notícia de que Heero estava vivo poderia ter aliviado mais os presentes naquela sala... se não fosse o fato de ele ser agora um prisioneiro de guerra – e todos lá saberem o que aquilo significava.

Heero, vivo ou não, fora alguém que nem por um segundo saíra dos pensamentos daqueles quatro pilotos, mas neste instante, tudo o que lhes prendia a atenção – ou de pelo menos três deles – era cada movimento de Duo. E se eles esperavam alguma reação, não seria Duo Maxwell quem iria decepcioná-los.

-Entendido. – Duo joga displicentemente o cobertor para o lado – Missão confirmada, e aceita: eliminar 01.

- O QUÊ? - todos da sala quase caem para trás.

- Wufei, o que diabos vocês deram para esse cara? – Trowa é o primeiro a se recuperar do choque, levantando-se da cama, pronto para intervir.

- 01 sabe muito sobre nossos esquemas de ataque, lugares estratégicos dos Rebeldes, os esconderijos, nossos Gundans e sobre nós mesmos. – Duo se levanta da cama, decidido: – Procedimento padrão: eliminar possível fonte de informação inimiga.

Duo tenta avançar, e todos – menos Wufei – tentam detê-lo. Quatre e Trowa rapidamente puseram-se à sua frente, e o seguravam por seus braços. Mesmo parcialmente recuperado, ele ainda não tinha forças o suficiente para ir contra os dois rapazes, mas isso não o impediu de tentar. E J mantinha uma distância segura, mas sempre tentando restabelecer o controle.

- Por Alá, Duo! Você ainda nem ouviu aonde ele está preso! – Quatre tentava levá-lo a razão.

- Tenho de matá-lo. – o rapaz de trança movimenta seus ombros com violência e teimosia.

- Não sabe nem quantos guardas o estão vigiando! – Trowa tenta puxá-lo para trás, sem muito resultado – É da OZ que estamos falando, cara!

- Tenho de matá-lo!

- Ainda podemos achar outra saída, não temos que ser radicais – Quatre se junta ao namorado na tentativa de arrastar o outro para trás de volta à cama, agora com mais sucesso.

- Tenho de matá-lo! – pequenas lágrimas começavam a se formar, seus braços doíam... mais não mais que sua mente obstinada.

- Ele é um dos pontos essenciais da Operação Meteoro...! – Trowa se assusta com a arrancada repentina que Duo dá, mas logo recupera o controle.

- TENHO DE MATÁ-LO!

- Piloto 02! Está dispensado desta missão – eu o PROÍBO de ir! – J se manifesta.

Aos poucos, os movimentos de Duo cessam.

Lentamente, mas sempre alertas, Trowa e Quatre afrouxaram suas mãos, até largarem totalmente seus braços, agora avermelhados.

Todos os três pilotos, em pé, respiravam pesadamente, e Wufei continuava em sua eterna posição indiferente, sentado à cadeira ao outro lado da pequena cama. Duo leva a mão à cabeça e em uma briga interna, se encolhe um pouco, as lágrimas agora corriam soltas, e o desespero crescia, não podia mais agüentar.

- Eu tenho de matá-lo, tenho de matá-lo! – sem as mãos que o segurava antes, ele se joga para a frente, com tudo, num súbito repente.

Pegos de surpresa, Quatre e Trowa não o seguram a tempo: Duo desobedecera a uma ordem direta de um superior!

Uma situação que, apesar de completamente inesperada, não cancelou a reação do árabe: Quatre, com movimentos rápidos, se coloca às costas de Duo, o segura pela cintura e golpeia-o na parte de trás de seu pescoço, fazendo-o desabar no chão, inconsciente.

- Caraaaalho! – Trowa se aproxima para ajudar o namorado com o peso – ...Ele foi contra até uma ordem direta do J.! – Assovia, admirado: – Tenho pena do Hee-chan se caísse nas mãos dele: ele seria mesmo capaz de matá-lo!

- Mataria mesmo? – pergunta Quatre sério – Tudo o que vi, Tro, foi um cara tão desesperado, que enganou os seus próprios ferimentos, a todos e até a si mesmo, só para ir encontrar aquele que ama.

Ainda atordoado pelo que vira acontecer a meros segundos atrás, Trowa pisca os olhos verdes, pasmo com o que ouvira:

- Seria uma teoria muito bonita, essa sua, se o cara em questão não dissesse no melhor estilo Robocop, "tenho de matá-lo", a cada cinco segundos.

Impaciente, Quatre tenta fazer o namorado seguir sua linha de raciocínio:

- Amor, escute: se dizer "tenho de matá-lo", fosse o suficiente para fazer o meu corpo me levar até você, eu diria isso até minha boca secar, e minha garganta rasgar. Trowa, você não é ingênuo: sabe que nem sempre o que dizemos é o que realmente queremos, e no caso do Duo, nem se fala.

Chegando perto da cama novamente, os dois colocam delicadamente o piloto instável deitado. Suspirando contrariado, Trowa olha para Wufei.

- E você nem para ajudar, né?

- Lamento. Apenas sinto que... – ele diz, com uma expressão inalterável – ...se eu levantar daqui, nem vocês poderiam me segurar.

- Pelo jeito, Wufei não ficou muito feliz ao descobrir o local do cativeiro de Heero. – Quatre olha interrogativamente para J.

- Correto. Não enrolarei: Heero está há quatro dias sendo mantido no centro bio-tecnológico da base central de Luxemburgo.

Silêncio.

- Mentira. – Quatre se senta na cama com medo que as pernas falhassem.

- Qual é? – Trowa leva a mão à cabeça e se apóia na parede. – Esse é o principal estabelecimento de experiências da OZ! Se o Heero foi mandado para lá, ele deve estar sendo tratado pior que um hamster!

- E vocês... – Quatre vacilava em dizer aquelas palavras – ...têm certeza de que ele está vivo?

Wufei joga a cadeira para trás e empurra o corpo de Quatre contra a cama e se deita em cima dele, segurando seu pescoço com um olhar ameaçador.

- O que você quer dizer com isso?

- WUFEI! SOLTE-O! – Trowa grita.

Os olhos azuis aqua-marinhos de Quatre enfrentaram, sem hesitar, os negros:

- O que todo mundo deve ter pensado, mas não teve coragem de falar! – Quatre diz, mantendo força em sua voz – Que, se ele está mesmo lá há quatro dias, seria mais clemente desejar que estivesse morto!

O rosto completamente lívido de Wufei mostrava o quanto ele desejava quebrar o rosto de anjo à sua frente, mas se conteve, ainda mais diante da veracidade das palavras que também estavam povoando sua mente a algum tempo.

- Calma, Wufei! – Trowa levanta o piloto de cima de seu namorado – Isso não quer dizer que vamos ignorar que ele está lá, claro que vamos atrás dele, mas... É sempre bom ter o pior em mente.

- Se planejam mesmo resgatá-lo... – J finalmente interfere – Creio que deviam se preocupar mais com vocês mesmos: as instalações de Luxemburgo são as mais seguras da OZ, como bem sabem.

- Como poderemos salvar alguma coisa, se para protegê-la, nos preocupamos mais com as nossas vidas? – Trowa sorri de maneira irônica – No fim, em me preocupo mais com o Heero sim, afinal, desde que ele passou por aquela máquina estranha, a personalidade de Quatre só fez ele dar pití, e aprender a fazer um ensopado mortalmente nocivo a qualquer ser vivo.

- Há, obrigada pela parte que me toca. – Quatre cruza os braços.

- Ora... Se é isso o que o preocupa, 03, creio que o que vou dizer agora não será tão mau recebido como pensei. – J prepara terreno.

- Lá vem bomba. – Quatre dava graças a Deus por ainda estar sentado, pois aquele papo prometia.

- Por isso que eu adoro visitar o vovô J, a gente nunca fica entediado! – Trowa revira os olhos, se sentando ao lado do namorado.

- Anda, velho... O que você escondeu da gente dessa vez?

- Ah, nada de mais. Só que, as chances do Heero que vocês irão encontrar depois dessa missão ser o mesmo que foi levado daqui... são mínimas.


Após uma longa viagem de avião, o coronel Treize Kushurenada andava com passos rápidos, mas sem nunca perder a classe, pelos corredores de uma de suas instalações prediletas em Luxemburgo, seguido por um preocupado Zecks

- Finalmente, finalmente eu irei ver de perto o famoso piloto 01.

- Ah... Treize, tem uma coisa que...

- Vocês o medicaram não? Sabe que esses pilotos Gundam são resistentes... Por Deus, esse se auto-explodiu junto com seu Gundam, e ainda está vivo. Mas quero ter certeza de que ele está resistindo aos interrogatórios.

- Sim, ele já recebeu todo o cuidado necessário, e já faz nove dias que está sendo interrogado; mas Treize, me escute, tem algo que...

- É essa a porta, não é ?

Treize e Zecks se aproximam de uma porta de aço maciço, com uma janela a prova de balas, por onde podiam ver a cela por dentro.

- Mas Treize... deixa pra lá. É, melhor você ver por si só.


- Apesar de vocês ficarem chamando de "Máquina que troca os Corpos", esse título foi mais uma brincadeira minha, afinal, a existência de tal máquina seria no mínimo fantasiosa – na realidade, o que ela faz é mais copiar lembranças e pensamentos das pessoas e trocá-las com de outras.

- E no que isso ajuda a OZ?

- Depois de uma troca dessas, um rebelde pensaria ser um soldado da OZ, com todas as sua lembranças e memórias – sendo ele um integrante da OZ ou não, ele acabaria se tornando um espião acima de qualquer suspeita, perfeito em tudo: DNA, impressão digital, não seriam mais problemas.

- Como se trocar as memórias de alguém também não fosse irreal. – Bufa Trowa.

- Cala a boca, Trowa. Continue dr. – Quatre ralha com o namorado – O que quis dizer com "as chances do Heero que a gente encontrar depois dessa missão ser o mesmo são mínimas"?


Mendes não podia estar mais feliz com seu trabalho: prova disso era o sorriso de dentes semi-podres que exibia a cada vez que ouvia os gritos de dor de seus hóspedes, ou sentia o cheiro de carne queimada. Trabalhava para a OZ como Perito em Informação, resumindo: ganhava a vida por número de manchas ou ferimentos no corpo ou danos mentais, que causava em suas vítimas – mas tudo era irrelevante, se no fim, conseguia sua informação. E ele sempre conseguia, pelo menos até agora.

O jovem à sua frente deveria ser interrogado e depois medicado, para em seguida ser levado para os laboratórios e ser usado como cobaia; mas ele não parecia muito disposto a colaborar, assim como a maioria dos prisioneiros que entrava lá.

Permanecera calado nos dois primeiros dias, mesmo depois de uma maratona de descargas elétricas, espancamentos e queimaduras que variavam entre ácido e cigarro.

Era um desafio – no terceiro dia, Mendes o drogou, mas apesar de ter conseguido fazê-lo soltar algumas coisas nada relevantes, o rapazote ainda tinha um certo controle. Após mandá-lo de novo para tratar de suas feridas recentes, ele fez o primeiro esquema de 'arrancar informações' voltar, mas mais forte.

Depois disso, porém, algo mudou.

... o rapaz – seu olhar, seu jeito de falar, de agir... parecia... outra pessoa.


- Pois bem, quando a máquina foi destruída, ela apenas copiou a personalidade de vocês, e ao invés de trocar, ela apenas acoplou as outras três em seus cérebros. Resumindo, o procedimento da máquina foi interrompido – tanto que Quatre não acredita ser Trowa, nem Trowa realmente acredita ser Duo.

- Pois bem, quando a máquina foi destruída, ela apenas a personalidade de vocês, e ao invés de , ela apenas . Resumindo, o procedimento da máquina foi interrompido – tanto que Quatre ser Trowa, nem Trowa acredita ser Duo.

- Mas como foi decidido isso? Quero dizer, Barton com a personalidade de Maxwell, Winner com a de Barton... – Wufei começou a perguntar, querendo chegar a uma conclusão.

- O momento da explosão foi algo realmente de muito impacto – o que poderia ser considerado um gatilho para a troca de personalidades, e o pensamento na pessoa que estivesse na mente de cada um de vocês, no momento do acidente, seria o suficiente para induzir qual das personalidades o cérebro vir a escolher.

Todos os pilotos presentes se puseram sérios, e tentaram se lembrar em que estavam pensando no momento da explosão.

"Eu estava lutando contra alguns soldados... e ... a minha situação com o Trowa não parava de me atrapalhar."

"Já eu, não conseguia para de pensar em como Duo e Quatre não paravam de conversar, atrás de mim, antes de sermos atacados... Como aquela criatura conseguia falar normalmente com Quatre, e eu não? Isso me deixou irritado."

"Eu não estava lá, mas aposto que Duo devia estar pensando em Heero – os rapazes me disseram que ele havia se confessado para ele, um pouco antes."

- Péra aí! – Trowa rompe o silêncio – Então o Heero estava pensando no Quatre?

- Por favor, crise de ciúmes aqui não! – Quatre estava morto de vergonha.

- De qualquer forma, se Heero foi preso, vocês já devem imaginar o que ele passou nesses dias: acho que seria mais do que o suficiente para novamente ativar o gatilho, certo? Pois bem... Agora, qual a personalidade que será induzida para ele, agora?


- E aí, fedelho? Resolveu colaborar?

Sem reação.

- Tá caladinho, hoje. Então aquela atitude toda era só fogo de palha.

Sem reação.

- Ô, pivete! Eu estou falando com você!

Mendes chuta o jovem sem camisa, com ferimentos por todo o corpo que estava sentado no chão e algemado às paredes.

- Hummmm? Já voltou, tio? – um olhar nada condizente a um moribundo veio do jovem de corpo arrebentado – Seguinte... a festa tá boa, mas já que vai me acordar, eu já disse que primeiro vai ter que aprender a não chutar como uma garotinha.

- Olha o respeito, moleque!

- Ugh! – outro chute o faz gemer – Retiro o que disse, cof... cof...! – cospe sangue em meio a uma tosse – Garotinhas... se envergonhariam de chutar assim.

- Desgraçado! – tirando o charuto que carregava na boca, ele o apaga no peito do prisioneiro. – E agora, miserável? O que tem a dizer?

- Arrrrgh! – Heero se contorcia, com a dor. Num rompante de fúria, consegue-se levantar-se, jogando-se em direção ao homem mais velho, mesmo sem poder fazer nada – a não ser gritar de ódio, enquanto as correntes que prendiam seus pulsos o machucavam: – VELHO DESGRAÇADO, VOCÊ VAI VER QUANDO EU SAIR DAQUI, VAI VER POR QUE ME CHAMAM DE SOLDADO PERFEITO!

- Um perfeito estúpido, isso sim. – o homem chuta as pernas do jovem o que o bota de joelhos – Agora, vê se colabora.

- Foi maus aí, tio. – Heero sorri com ar de desafio, ajoelhado, mas sempre de cabeça erguida – ...mas a rodinha com que eu ando não aceita dedo-duro.


O som de cadeira se arrastando faz todos se virarem para Wufei.

- Não faça uma pergunta tão imbecil, velho. – Wufei olha de canto de olho para o adolescente adormecido na cama – Pouco me importa quem estará lá quando eu o resgatar: Só sei que ele não ficará lá por nem mais um dia.

- Ele ficara lá por mais cinco! – J ordena.

- O que? – Wufei encara incrédulo o velho – E o que o faz pensar que vou obedecer a essa ordem absurda, já é um milagre ele ainda estar vivo?

- E se for sozinho, vai ser um milagre maior ainda se VOCÊ voltar vivo.

- E quem disse que ele vai sozinho? – Trowa pergunta sério.

- No estado em que vocês dois estão, as chances dele de voltar vivo só diminuem. – foi a resposta cortante. Firmando o olhar em cima do jovem alto, continua: - Eu recebi um relatório de Sally sobre o seu ataque de fúria, Trowa.

Em um único segundo, três mentes pensaram sincronizadamente a mesma coisa: "vaca".

- E também soube que você fez uma visita surpresa ao local da última missão, Quatre. Realmente, desobedecer a ordens não parece estar sendo um privilegio apenas de Duo.

- Já entendi o que quer dizer. – Wufei balança a mão – Por isso mesmo vou sozinho.

- Se acalme, rapaz! Vocês terão que ir juntos.

- Mas você disse...

- Disse que eles não estavam capacitados agora, mas me dê cinco dias e terá o seu reforço.

- Você quer dizer que concertou a máquina?

- Heei, que caras surpresas são essas, o que vocês acham que eu fiquei fazendo por um mês e meio? Coçando o saco? Essa peça que Wufei me entregou alguns dias atrás era tudo o que faltava para completar a máquina – só tem um porem: depois de curá-los, vocês terão que trazer o piloto 01 em caráter de urgência. Terão apenas 15 horas.

- Por que?

- A máquina que está quase pronta ainda não está totalmente estável.

- Alguma coisa que você já projetou ficou totalmente estável? – veio a alfinetada de Trowa.

- Continuando... Depois de usá-la, ela ficará totalmente incapacitada de ser usada de novo.

- Não pode concertá-la?

- As peças que usei encomendadas de L2 são de seu mercado negro, e muito raras de se encontrar, a chances são nulas. Vocês têm que trazê-lo, como já disse, em caráter de urgência.

Wufei, calado, volta a andar em direção à porta.

- Wufei, por favor, não vá...! – chama Quatre.

- Eu só vou cuidar do Sheilong, Quatre. – respira fundo, volta-se ligeiramente para os que estão dentro da sala. - Está bem, J, eu vou esperar por cinco dias... e espero que essa maldita máquina esteja pronta, porque se ela não estiver, ou se por esperarmos demais, ele já estiver morto, meus ancestrais podem me amaldiçoar a cada encarnação que eu voltar, mas eu prometo que para te trazer o inferno em terra, eu me transformarei no demônio que for, e você – VOCÊ, irá me pagar.

- Que medo. – J diz para a porta que se fecha.

- Engraçado... Vovô J não tem medo do perigo. – Trowa deita a cabeça no colo de Quatre.

- Não tenho medo é de pirralhos birrentos! Quem mais se estressaria tanto apenas por saber a resposta de uma pergunta tão lógica? – olha para Duo, adormecido – E você, meu caro 02? Que personalidade você acha que nosso Soldado Perfeito adotou?

- Pelo jeito só podemos esperar também, né Trowa?

- Pois é. Eu só espero que nada demais aconteça com ele, nesse meio tempo.

- Tomara.


Treize ficara calado por todo o espetáculo

- Ele... Parece diferente do garoto que você diz ter encarado naquele campo de batalha, no Àrtico.(6)

- Era isso que eu quis dizer: quando ele veio para cá, também não continha muitos traços da pessoa que eu achei que ele, era quando o vi pela primeira vez.

- E você costuma saber julgar bem uma pessoa. – o coronel se põe pensativo – Seria esse o caso de múltiplas personalidades? Não é algo raro em soldados dentro e fora da ativa.

- Não – ele sabe quem é: Heero Yuy. Este é seu nome, ou, pelo menos, por qual atende, descobrimos isso, com os poucos documentos de um dos quartos que aquele outro soldado não teve tempo de queimar os relatórios.

- Heero Yuy, ha ha, que nome irônico, não? Então o que acha que aconteceu com esse senhor Yuy?

- Pelo pouco que descobrimos analisando os ataques passados dos pilotos gundans, eles adquiriram um padrão: raros são seus ataques individuais, o que vai contra a todos os ataques que eles faziam a mais de um mês e meio atrás; é como se tivessem necessidade de se cobrirem uns aos outros.

- Um mês e meio...! não foi o dia em que...

- Esse mesmo. Pelo menos quatro deles estavam por lá, segundo os autos. Suponho que o piloto 01 também estava entre eles.

- Então você quer dizer que eles trocaram de memórias?

- Não, algo diferente aconteceu; nada próximo ao que almejávamos, mas de certo modo, alterou esses pilotos.

- Entendo.

Treize se vira esvoaçando sua capa para trás, e volta a percorrer os corredores da base com passos rápidos. Zecks suspira e volta a tentar a alcançar o amigo, não foi muito difícil, apesar de sentir um frio na espinha, Treize conservava um sorriso no rosto que de certo traria dias nada tranqüilos para quem se pusesse em seu caminho.

- O que vai fazer agora, Treize? Retomar o projeto de troca de memória?

- Não, tenho outra coisa em mente. – seu sorriso aumentou – Zecks, como foi mesmo que ele disse que o chamavam?

- Acho que... Soldado Perfeito.

- Sei. Zecks, o que você acha de fazermos um verdadeiro Soldado Perfeito?


E... Continua no próximo CAPÍTULO!

Notas da Autora:

(1) Dá-lhe, Illy! Essa sua parte do murro do Heero no Duo, foi TUDO, ehehheeh – e graças a ele, nosso querido Soldado Perfeito pôde, enfim, dizer o que EU queria que ele dissesse desde o começo da Fic "...que não importa em que planeta, colônia, em que merda de sistema solar você se esconda, eu sempre vou te achar, e sabe por que? Por que a droga do amor do Shinigami é meu!" Bem... tirando o 'merda', ehhehehe

(2) AEEEE! Essa parte também foi inspirada em um dos episódios da Série de TV, quando Heero e Quatre são pegos pelos inimigos (após o Quatre, sob influência do Sistema Zero, ter explodido uma Colônia, e o Vaiyete – com o Trowa dentro, matando – SEM QUERER - o moreno. OO ). Eles tentam uma reação, e o nosso japinha dá exatamente esta rasteira nos soldados inimigos!

(3) OVELHINHAS! OVELHINHAS! Este teço foi inspirado em um cap de Full Metal Alchemist, no qual o Alphonse é colocado em vagão de trem, onde só têm... OVELHINHAS! AWWWW... QUE FOFO!

(4) Homenagem à Deusa Sunhawk, em seu MARAVILHOSO Arco "Road Trip", fic 01 - que está sendo traduzido pelas meninas do WingProject!

(5) AWWW... FETICHE SENSUAL, YAOINIANO... E COM O QUATRE! He he, foi mau aí pessoal, quem leu esse teço, não deve ter entendido esse diálogo entre Quatre e Trowa, mas esse dialogo é só uma promessa que faço a vocês: quando chegar ao final da fic, eu vou fazer pelo menos três Side Storys, entre elas "O Resgate do Soldado Maxwell", onde teremos um certo loirinho com crise de identidade vestido de enfermeira! XD

(6) Esta luta entre Zechs e Heero, a qual o Treize se refere, também existe, na Série de TV – é entre os episódios 11 ao 16, mas não lembro direito qual. É uma das partes que a Illy mais gosta, pois a atenção está toda focada em 1x3, heheheeh


Quatre: "ENFERMEIRO! DROGA! EU ESTAVA DE ENFERMEIROOOO!"
Trowa : "Isso é o que você diz..."
Wufei: "Não provoca, Barton!"
Luana: "Hã... De qualquer forma, essas 'Sides Storys' vão ser apenas para complementar mais o roteiro, já que eu decidi fazer esta fic tratando apenas pontos essenciais para o desenvolvimento da trama."
Wufei: "O BARTON PULAR EM CIMA DE MIM DE UM LUSTRE É ESSENCIAL?"
Luana: (ignorando o chinês) "Por isso, se vocês tiverem alguma dúvida sobre algum ponto da fic (que por sinal já tem seu final pronto, nessa minha mente insana) podem me escrever, que eu terei o maior prazer em responder, e quem sabe me dêem uma idéia para uma outra 'Side Story'. Respondo qualquer pergunta!" (sorriso colgate)
Illy-chan : "Mentira! Você me disse que uma das perguntas da Iva-chan você não sabia responder, e ainda nem me disse qual é!"
Luana: BANG (apontando uma arma) "Omae wo korosu."
Quatre: TToTT (Chegando em meio às lágrimas, na sala) "Snif, snif... Trowaaa... Ela roubou a arma de tranqüilizantes..."
Trowa: "Ahhh, tá. Então ela não morreu."
Quatre: "Quem não morreu...!OO"
Wufei: "Mas deve ter doído!" (sorriso maldoso) "Hehehheh... Desta vez, a Onna vai se arrepender: a Illy não vai deixar barato, e... ué, cadê ela?"

1000km de distância da sala de Reuniões da Fic...

Luana: "É melhor eu começar a fazer o capítulo 8, antes que ela acorde... e procure outra autora para acabar a minha fic! A não ser... a não ser que ela poupe pelo menos os ossos das minhas mãos!" lágrimas de desespero.