PÁSSARO NA MIRA
Tonks chegou em casa tarde naquele dia. Os aurores estiveram planejando o ataque surpresa ao Comensal Severo Snape. Harry não aparecera na reunião, Tonks preocupou-se, conhecendo-o bem como o conhecia, sabia que ele poderia ter ido sozinho ao covil de Snape. No entanto, ao entrar na sala de estar sem acender as luzes - porque a lua cheia iluminava de forma bela parte do aposento, fazendo-a recordar de Remo Lupin, que a ensinara a viver -, a silhueta de um homem debruçado sobre o beiral lhe mostrou tristeza à alma. Caminhou até a sacada e seus passos avisaram que se aproximava. O homem a fitou.
― O que aconteceu, querido? - perguntou Tonks, acariciando os cabelos de Harry. - Você foi procurar Snape, não foi?
― Coloquei minha vingança em andamento - respondeu seco.
― O que fez, Harry?
― Não se preocupe, não o matei.
Tonks arregalou os olhos, mas assim que Harry lhe deu as costas, ela soube que nada de mal havia acontecido com o Comensal, porque Harry mostrava-se zangado e cheio de pensamentos.
― Vou tomar banho - ela o abraçou. Quer vir comigo?
Harry, enquanto se livrava dos braços dela, balançou a cabeça negativamente e deixou-a sozinha na sacada, indo atirar-se no sofá. Lá permaneceu até a manhã seguinte.
Quando acordou era quase meio-dia, Snape se sobressaltou. Já era hora de mudar de esconderijo outra vez, antes que o descobrissem ali. Juntou seus poucos pertences, dentre eles importantes pergaminhos, e viu que havia um pedaço de papel dobrado quatro vezes. Enfiou-o no bolso e saiu batido daquele lugar. Aparatou em outro hotel de quinta categoria, hospedando-se com grande facilidade, já que os trouxas adoravam receber pagamento adiantado.
Abriu o bilhete, sentando-se na cama, depois de se arranjar no quarto chulo. Era de Harry Potter.
Snape,
Não há como explicar o que aconteceu entre nós, neste lugar. Era mais do que certa minha vontade em matá-lo. Nunca imaginei que fossemos parecidos em algo. Jamais pensei também que tal coisa pudesse vir a ocorrer comigo, reencontrá-lo e não tomar a atitude que tanto quis tomar: acabar com sua raça. O passado deveria ficar para trás, sempre, e agora ele me persegue mais do que antes, persegue minha mente tentando-a contra o que deveria fazer. Entenderei perfeitamente se não nos virmos novamente, mas ficarei pensando pelo resto de minha vida sobre o porquê do que nos aconteceu.
Harry Potter.
Depois de tudo o que acontecera, Snape se perturbou com o que Potter aspirava, era certo que o garoto o caçara durante anos a fio, jurando vingança. Por vezes ficara cara a cara com o Menino-Que-Sobreviveu, mas sempre se bandeou. Snape jamais conseguira se fazer entender a Potter e ao resto do mundo bruxo, mas também não era homem de se entregar, de se rebaixar; se fosse pego era outra história, e mesmo assim, não imploraria por misericórdia, contaria sua versão dos fatos e se acreditassem seria ótimo, se não, aceitaria as conseqüências. Óbvio que sempre fora bom como espião, mostrara isso nos últimos tempos, já que escapara inúmeras vezes das mãos do Ministério. A explicação talvez fosse a de estar viciado àquelas sensações, eram fortes, o coração acelerava, medo e coragem rebatiam-se dentro do peito tentando sobressaírem uma a outra. E essas mesmas sensações apareciam, agora, quando pensava em Potter. O garoto transformara-se em homem, tinha atitudes de um homem, se mostrara surpreendente há dias atrás. Não havia o que especular, era quase inaceitável o que acontecera, era incompreensível, de fato... no entanto, incrivelmente extraordinário. Pela segunda vez na vida, não entendia o que esta lhe reservava. Duvidava veemente que Potter fosse a pessoa naquele quarto, teria que ser uma armadilha, mas se quisesse provar precisaria enfrentar o garoto face a face; dependendo da atitude, até mesmo da cara de Potter, Snape saberia o que era verdade e o que era mentira.
Porém... estaria pronto a aceitar o que estava por vir? Potter sempre fora tudo o que Snape imensamente odiara na vida: arrogante, desrespeitoso e bem quisto por todos.
CONTINUA...
