FUGA
O estratagema fora por água abaixo, tudo em vão. O Comensal não estava mais no decadente quarto de hotel. Outra vez, os aurores precisariam se mobilizar para uma nova caçada. Não fora nada fácil, mas já haviam esquematizado o plano. Uma coruja trouxe a notícia à casa de Harry. Tonks a recebera e a deixara sobre a mesa na manhã seguinte, depois de cumprimentar seu companheiro, que respondera um bom-dia mal e parcamente sem nem sequer lançar um olhar a ela.
Snape, parado diante da vidraça imunda, tentando enxergar o movimento na estrada de barro, matutava sobre o que responder a Potter. Já havia começado o cabeçalho da carta, Caro Senhor Potter, mas não o agradava agora, depois de recitar inúmeras vezes a palavra "senhor" antes do sobrenome do garoto. Amassou o pergaminho, e em outro pedaço, escreveu: Harry Potter. Voltou a amassá-lo quase que instantaneamente. Escreveu: Potter. Parou. Olhou o papel. Encarou novamente a janela suja e deu início ao conteúdo da carta.
Tonks saiu antes sem se despedir. Não havia motivo para tal, Harry mal a olhara, mas mesmo assim sentia-se culpada por não fazê-lo. Olhou uma última vez para a cozinha, onde avistou Potter olhando para o nada, e saiu sem arriscar uma despedida. Assim que a porta bateu, Harry fechou os olhos, respirando fundo e dando graças por Tonks não tem iniciado uma conversa. Não estava com humor para ouvir os conselhos da companheira. E conhecendo-a, sabia que ela não tardaria a descobrir todo aquele plano maluco. Não queria que lhe lançassem olhares piedosos e repulsivos. Mas o pior não seriam as palavras dela e, sim, a mulher em si e no que fazia com ela: o mesmo que fizera com Snape. E foi pensando naquilo, que perdeu a noção das horas e de lugar; perambulou por ruas que mal conhecia até suas pernas doerem e endureceram, e somente então ouviu, ao longe, um relógio dar onze badaladas. Por um breve momento pensou em sumir daquela cidade, daquele mundo. Tomou o rumo de casa, sabia que fugir nunca fora uma grande solução para os problemas, no entanto, Harry caminhava como se esperasse o tempo passar muito rápido, como se esperasse ser transportado para uma realidade completamente diferente.
Entrou no apartamento. Tonks estava de pé, diante da porta.
― Não sei por onde andou ou o quem tem feito, Harry, mas gostaria de saber o que se passa na sua cabeça. Você tem responsabilidades!
Harry soltou a respiração, bufando, fechou os olhos e caminhou para a cozinha. Tonks o seguiu.
― É aquela história de vingança que você disse ter colocado em andamento? É isso?
― Eu não estou a fim de conversar, Dora.
― Hum. Sei - foi ela quem bufou desta vez.
― Estou cansado, está bem? Vou me deitar.
― Tudo bem - ela respondeu, sentindo pena dele, e lhe estendeu a mão: - Vem que eu preparo um banho para...
― Não precisa, obrigado. Vou comer alguma coisa e depois dormir.
― Na sala? - Os dois se encararam. Harry pressionava os dentes. Tonks percebeu que não haveria explicações e muito menos acertos naquela noite, então deu as costas a Harry e foi dormir.
Na manhã seguinte, Harry acordou com o cheiro adocicado de bolinho de chocolate que se misturavam ao delicioso cheiro de café passado na hora. Olhou para a cozinha e viu Tonks saboreando algo. Foi até lá, pegou uma xícara e tomou um café com leite. Sentou diante de Tonks, mas não olhou nos olhos dela.
― Harry - ela deu início à conversa -, eu não sei o que está acontecendo com você... mas você tem um emprego, sabia?! Um emprego onde é muito respeitado e admirado, Harry! Pelo amor de Merlin...
Potter levantou a mão no ar, pedindo para que ela desse um basta nas perguntas.
― Oras... você não está nem aí? É seu emprego. Um dos melhores empregos no mundo bruxo...
― Pare, Dora - ele disse com voz forte. Ela se assustou com o tom. Nunca o vira nem ouvira daquela forma. Encararam-se por alguns instantes até Potter baixar os olhos e se levantar da mesa sem terminar o café.
― Aonde vai?
Harry deu de ombros.
― Espero que vá ao ministério, estão procurando você feito loucos! - Mas Harry não respondeu, deixou o apartamento ao som do eco da porta batendo.
Passava das duas da manhã quando Harry voltou ao apartamento. Jogou-se no sofá e olhou para a porta do quarto. Por baixo dela, pela greta entre a mesma e o chão, Harry viu a luz acender por um breve momento e se apagar em seguida. Deu as costas para lá e adormeceu. A manhã mal havia raiado e Harry acordou sobressaltado, uma grande coruja bicava incansável o vidro da janela. Ela tinha na pata direita uma carta. Todo e qualquer sentimento de frustração ou perda, até de desânimo, se dissipou quando Harry leu as iniciais garranchosas no pergaminho. Harry se virou bruscamente em direção ao quarto, a porta continuava fechada; olhou para o balcão próximo a porta de entrada, a bolsa vermelha de Tonks estava sobre ela e o casaco violeta pendia no cabide. Enfiou rapidamente o pergaminho no bolso, pegou seu sobretudo e saiu de casa num risco. Foi parar somente num boteco, numa esquina muito movimentada, a três ou quatro quarteirões de casa. Sentou a um canto mais reservado dos olhares de algum curioso, olhou em volta, conferindo e checando o lugar, e retirou o pergaminho do bolso, abrindo-o rapidamente.
Potter,
É evidente que não só você esteja surpreso com os acontecimentos. Durante os últimos dias só no que pensei foi no que ocorreu. Admito que qualquer fiapo de entendimento me escape por entre os dedos. Não acredito que nos vejamos novamente, primeiro porque não nos vejo juntos, cara a cara, para uma conversa, e segundo, porque não pretendo ser capturado e atirado em Azkaban. Sinto pela situação ter saído do controle, a de agora e a de cinco anos atrás. No entanto, a vida continua para quem permanece nesse mundo.
Snape.
Harry ficou o dia todo fora, não sabia o que fazer. As palavras de Snape ficaram gravadas em sua mente. Um misto de fúria e nojo o preencheu. Era certo que não seguia plano algum, apenas esboços de uma idéia, entrara naquele jogo de supetão; a palavra vingança era a única imagem que tinha em sua mente, no momento da escolha e agora. Não queria continuar com aquilo, estava perdendo muito, estava se perdendo, mas era obrigado, era obrigado porque fizera a escolha e não queria dar o braço a torcer, nem poderia reiniciar outra vingança. Era uma situação irritante, constrangedora, desgastante e deprimente. Desistir até seria a melhor tacada, livrar-se de tudo e tocar a vida como sempre pensara em fazer, sem esses grandes sentimentos conflitantes, sem essas grandes transições... no entanto, desistir era abraçar o fracasso; era deixar Snape vencer e sair gargalhando, embaraçando-o ainda mais do que já estava embaraçado... era mais: não conquistar a grande vitória sobre o pior homem na face da terra.
Tonks estava decepcionada com o Harry que surgira do nada há poucas semanas. Não reconhecia mais o jovem meigo e atencioso naquele homem que vivia com ela. Também não sabia mais o que fazer para trazê-lo de volta. Já havia tentado várias vezes descobrir o que ele sentia, pelo que ele estava passando. Tudo em vão. Ele se apresentava, a cada momento, mais rabugento e inatingível. Tonks pensava seriamente em resolver a situação de uma vez por todas tomando uma atitude drástica. Pesarosa, mas muito drástica. O Ministério estava recrutando mais aurores, e por ser muito eficiente em seu trabalho, Tonks era uma das pessoas encarregadas pela escolha dos candidatos. Com Harry se afundando em pensamentos de desforra, Tonks decidiu dar a ele uma última chance: voltaria ao covil de Snape no intuito de encontrar alguma evidência mágica que os aurores talvez tivessem esquecido por estarem cegos de raiva, empolgação e pressão. Se encontrasse algo, falaria com Harry e exigiria que os dois juntos fossem atrás do Comensal desaparecido.
Snape vestiu o capuz, fechou a capa, segurando-a para que não abrisse, pois o vento talhava aos poucos, e saiu noite adentro. Dirigiu-se a um parque público trouxa, próximo a um conjunto de prédios de cor terra-cota que formavam um condomínio fechado, e a uma padaria, que dali do banco onde sentara mostrava-se muito movimentada por mulheres e crianças. O frio aumentava rápido, mas as pessoas continuavam num corre-corre frenético, atarefadas, e Snape as observava, atento, esperando a pessoa certa aparecer. Contudo, a noite caiu, a madrugada chegou, e Snape voltou ao seu quarto chulo de hotel.
A ida de Tonks ao antigo esconderijo de Snape foi infrutífera. Não havia nada que pudesse servir de ajuda na busca do Comensal fugitivo. Voltava para o apartamento quando viu Harry adentrando o portal do prédio em que moravam. Respirou fundo, apertou o passo e atravessou a rua.
Harry chegou em casa exausto por nada fazer, por não estar empenhado, junto aos aurores, na busca por Snape, o homem que abalou o mundo matando Alvo Dumbledore. E com a penseira do falecido Diretor de Hogwarts quebrada, foi o fim de qualquer explicação, de qualquer eliminação de culpa ou aplicação de sentença e pena. Ambos perderam com aquilo: Harry Potter e Severo Snape.
Tonks entrou, pendurou o sobretudo e passou por Harry, cumprimentando-o com um breve olá. O rapaz respondeu, mas sem muito entusiasmo, e Tonks percebeu claramente o alívio que era para Harry que ela permanecesse longe. Prendeu o choro e saiu da presença dele, trancando-se no quarto.
Outra manhã despontava nublada, outro dia entediante sem perspectiva ou vingança sendo executada. Eram seis horas, logo Tonks levantaria, ele tornou a fechar os olhos e esperou que ela levantasse, tomasse o café e saísse para o trabalho. Mas isso não aconteceu. Eram seis e quinze e nem ao menos a luz do quarto se acendera. Harry esperou mais alguns minutos, nada. Olhou para o relógio e ele marcava seis e trinta. Lançou o olhar para a porta de saída e se surpreendeu. Nem o sobretudo, nem a bolsa de Tonks estavam no costumeiro lugar. Levantou-se e seguiu até o quarto. A porta se abriu quase que sozinha, rangendo um pouco, e Harry percebeu que o cômodo estava vazio... completamente vazio. As portas do guarda-roupa estavam abertas, as gavetas também, mostrando o interior desocupado. Harry caminhou até o banheiro e o balcão diante do espelho não guardava nada além de um pente fino, envelhecido, que provavelmente estava enfiado numa das gavetas ao invés de ter sido jogado na lata de lixo. Foi a vez de Harry respirar fundo. Ele estava sozinho, Tonks o havia deixado sem lhe dar um por quê.
Snape entrou no prédio de luxo nada parecido com o moquiço que habitava, e subiu até o quinto andar, parando diante do número 512. Ergueu a mão no ar, o punho fechado, e hesitou ao bater. Que, diabos, estava fazendo naquele lugar afinal? Baixou os olhos, bufou e voltou pelo caminho por onde viera. Mas então uma mão segurou seu ombro esquerdo, fazendo-o se voltar para ver quem era.
― Queria fala comigo? - Harry foi certeiro.
― Não sabia se me receberia - respondeu Snape. Não estava com vergonha, mas agora se sentia tolo por não ter batido na porta.
― E então? Vamos conversar? - insistiu Harry.
Os dois se encararam, Harry sorriu falsamente e estendeu o braço para que Snape passasse na frente. Subiram em silêncio pelo elevador; entraram no apartamento de Harry e sentaram-se um diante do outro, encarando-se novamente.
― Falou na carta que não nos encontraríamos...
― Eu sei bem o que escrevi, Potter.
― Então...
― Não sou bom com certas palavras, garoto.
― A carta me pareceu razoavelmente bem escrita, você...
― Por favor, Potter.
― Diga simplesmente o que quer. Somente isso, nada mais.
Snape inspirou profundamente e baixou os olhos.
― Eu poderia ficar horas falando - murmurou Snape -, mas somente quero entender o que foi que aconteceu entre nós.
― Entender? O que há para entender? Aconteceu o que deveria acontecer, nosso destino foi unido...
― Destino - Snape, irônico, pausou.
― Minha namorada me deixou. Contei a ela o que aconteceu - mentiu o rapaz, as bochechas avermelharam.
Snape levantou os olhos, cravando-os em Harry.
― Contou a ela? Contou? - Harry pôde ver o espanto nos olhos do outro. - Você me surpreende, Potter, a cada instante.
Harry levantou, observou, por instantes, algo na janela e depois voltou a se sentar, só que desta vez ao lado de Snape.
― Eu não faço idéia de onde estamos indo... a não ser que você esteja armando uma arapuca... mas...
― Também não faço idéia do que estou fazendo, Snape, nem onde vou chegar - Harry balançou a cabeça negativamente.
Snape olhou para a ponta dos sapatos gastos, pigarreou e murmurou:
― Eu jamais pretendi matar Dumbledore.
O sangue de Harry subiu a cabeça. Como o ordinário tinha a ousadia de pronunciar o nome de um bruxo tão bom como aquele sabendo que o matara? As veias do pescoço de Harry saltaram. Mas Snape, absorto, continuava:
― A morte dele foi previsível, inevitável e por conta de um pacto, fui obrigado a executar o plano para parecer estar do lado do mal.
Harry ouvia, as palavras de Snape se misturavam em sua mente.
― A perda da penseira foi o meu fim. E com todos ao meu encalço jamais pude me redimir.
― Pare! - bradou Harry, assustando-se com o seu próprio tom, e logo ajeitou a interjeição. - Não há o que explicar. Não para mim. Não quero mais saber o que é ou o que seria. Eu já nem sei o que eu sou! - Surpreendendo-se ao tomar iniciativa, mas sem interromper o que iniciara, Harry tocou o rosto de Snape ao afastar uma mecha de cabelos que caía sobre os olhos baixos do outro.
Eles se fitaram e Snape se aproximou de Harry, tomando o rosto dele e beijando-o com suavidade. Harry sentiu que iria desmaiar se continuasse, as pernas amoleceram, mas seu cérebro só pensava na maldita vingança. Afastou-se e respirou aliviado, porém percebeu os olhos de Snape sobre si.
― Desculpe. É tudo tão confuso pra mim... eu não sei mais o que sou - disse Harry cabisbaixo.
― Eu entendo, garoto. Sei muito bem como se sente, estar perdido, isolado de todos...
Harry ficou de pé, passou por Snape, mas então se voltou, lançando um olhar pedinte ao outro.
― Realmente preciso de alguém...
― E acha que eu sou essa pessoa? - quis saber Snape desconfiado, levantando-se.
― Não sei - confessou Harry. - Nem sei o que vim fazer aqui, afinal?
― Jamais esperei que nós dois ficássemos frente a frente e saíssem faíscas de nossos... corpos... - Snape parecia constrangido demais para continuar.
― Acha que... nós dois... podemos...
― Eu quero você, Potter - confessou Snape se aproximando. Harry mordeu o lábio inferior, piscou lentamente e voltou para perto de Snape. Fitaram-se e se abraçaram fortemente. Harry passou as mãos das costas de Snape para a cintura e depois parar dentro do paletó, tirando-o com rapidez. Em seguida, acariciou o peito de Snape, os ombros e voltou para as costas, apertando seu corpo contra o do outro. ― Com mais calma, garoto, não vou fugir daqui, não enquanto você não terminar seu servicinho - ironizou Snape, passando a língua nos lábios, depois gemendo baixinho.
CONTINUA...
