Capítulo 11 – Nosso Sentimento Imortal (SongCap)
Música: My Immortal (Evanescence)
Que som há para se ouvir quando se encerram as batidas de seu próprio coração?
Que dor há para se sentir quando a sua alma já foi tão despedaçada?
Que esperança há para se ter quando os fragmentos dessa alma se tornam tão pequenos, que parece não mais ser possível reuni-los novamente?
I'm so tired of being here
(Estou tão cansada de estar aqui)
Suppressed by all of my childish fears
(Reprimida por todos os meus medos infantis)
And if you have to leave
(E se você tem que ir)
I wish that you would just leave
(Eu desejo que você apenas parta)
Because your presence still lingers here
(Porque a sua presença ainda persiste aqui)
And it won't leave me alone
(E isso jamais vai me deixar em paz)
"Estou tranqüila porque sei que você ainda tem alguém, alguém que você ama, mesmo que eu não esteja por perto... Isso me conforta... Eu quero que você viva feliz..." Ela já não conseguia mais sentir seu corpo, já estava congelado pelo frio e entorpecido pela dor. Apenas se deixava levar, não tinha mais forças para lutar.
These wounds won't seem to heal
(Parece que essas feridas não irão cicatrizar)
This pain is just too real
(Essa dor é real demais)
There's just too much that time cannot erase
(Há muita coisa que o tempo não pode apagar)
O youkai interrompeu seus passos abruptamente. O servo réptil e a menina que vinham logo atrás dele nada entenderam. Foi como se ele houvesse sentido uma força chamando por ele. A espada em sua cintura, a espada da vida, pulsou, dando-lhe a certeza de que algo estava acontecendo. "Tenseiga..." Seus dourados olhos ficaram como que procurando uma nova direção a seguir. "Inu-Yasha... O que está acontecendo com você?..."
When you cried I'd wipe away all of your tears
(Quando você chorasse, eu limparia todas as suas lágrimas)
When you'd scream I'd fight away all of your fears
(Quando você gritasse, eu lutaria contra todos os seus medos)
And I've held your hand through all of these years
(E eu tenho segurado a sua mão por todos esses anos)
But you still have all of me
(Mas você ainda tem tudo de mim)
A sacerdotisa caminhava a ermo, apenas queria manter-se em movimento, esquecer-se do que passara, mas era demais. O aperto em seu peito era demais. "Por que sinto isso se apenas quero vê-lo morto?... Mas..." Deixou-se cair sobre os joelhos e sussurrou para si mesma, enquanto lágrimas desciam por seu rosto.
– Não quero que você morra, Inu-Yasha...
You used to captivate me
(Você conseguiu me cativar)
By your resonating light
(Com sua vida ressonante)
But now I'm bound by the life you left behind
(Mas agora eu estou limitado pela vida que você deixou para trás)
Your face, it haunts my once pleasant dreams
(Seu rosto, ele assombra meus sonhos outrora agradáveis)
Your voice, it chased away all the sanity in me
(Sua voz, ela persegue toda a sanidade em mim)
"Por que você não vem me buscar, Inu-Yasha?"
"Você não está zangada comigo?"
"Eu te amo..."
"Se amor é querer estar sempre com ela e protegê-la, então... Eu daria minha vida por ela... Sim, eu a amo..."
Algo em seu espírito despertou. Não o sangue de youkai que antes o estivera dominando, mas uma vontade renovada. "Não vou deixar você morrer!" Fez um esforço para abrir os olhos e identificar onde estava. Ainda estava dentro do rio, sendo arrastado por aquelas águas geladas. E com as últimas forças que tinha, fez um esforço para retornar a superfície, lutando contra a correnteza. O que o movia era a esperança de poder ver aquele rosto alegre novamente.
These wounds won't seem to heal
(Parece que essas feridas não irão cicatrizar)
This pain is just too real
(Essa dor é real demais)
There's just too much that time cannot erase
(Há muita coisa que o tempo não pode apagar)
Pode um laço há tanto tempo perdido ser reatado? Talvez os laços jamais se percam, apenas são enterrados pela saudade, pela culpa, pela tristeza e pela dor. Há laços que não podem ser simplesmente desfeitos e, por mais negras que sejam as trevas na qual se perca uma alma, eles estarão eternamente presentes. Laços de amor, laços de sangue... O que os une é algo muito mais forte do que a própria efêmera vida. Uma união além da morte.
When you cried I'd wipe away all of your tears
(Quando você chorasse, eu limparia todas as suas lágrimas)
When you'd scream I'd fight away all of your fears
(Quando você gritasse, eu lutaria contra todos os seus medos)
And I've held your hand through all of these years
(E eu tenho segurado a sua mão através de todos esses anos)
But you still have all of me
(Mas você ainda tem tudo de mim)
Ao suplantar a força das águas e sentir o ar novamente em seus pulmões, sentiu uma dor aguda no peito. Arrastou-se até a margem e tossiu parte da água que havia engolido e, ao mesmo tempo, buscava pelo ar do qual fora privado alguns momentos atrás. Mas não havia tempo para isso. Direcionou seu ansioso olhar para o rio, a procura dela.
– Kagome! Kagome!
A dor na garganta não o impedia de chamar por ela. "Tenho que encontra-la!" E, decidido, seguiu mais alguns metros o leito do rio, para depois mergulhar em uma busca desesperada.
I've tried so hard to tell myself that you're gone
(Eu tenho tentado arduamente dizer a mim mesmo que você se foi)
But though you're still with me
(Mas embora você ainda esteja comigo)
I've been alone all along
(Eu tenho estado sozinho todo esse tempo)
Inúmeras vezes mergulhou procurando por ela, mas em vão. Aos poucos se dava conta de que a havia perdido, talvez para sempre.
– Como foi que eu deixei isso acontecer?...
Seus olhos encheram-se de lágrimas, que rolaram por sua face compulsoriamente. E, em um último lampejo de esperança, percorreu novamente as margens com seus olhos. Foi quando o destino o surpreendeu.
– Kagome!
Parte de seu corpo ainda estava dentro d'água, inerte, e o que a impedia de ser arrastada de vez era uma enorme pedra na qual ficara presa.
When you cried I'd wipe away all of your tears
(Quando você chorasse, eu limparia todas as suas lágrimas)
When you'd scream I'd fight away all of your fears
(Quando você gritasse, eu lutaria contra todos os seus medos)
And I've held your hand through all of these years
(E eu tenho segurado a sua mão através de todos esses anos)
But you still have all of me
(Mas você ainda tem tudo de mim)
Ele, que tanto havia corrido para chegar até ela, agora receava aproximar-se, apenas para constatar o que mais temia. Lentamente, afastou os cabelos do rosto dela. Ela parecia apenas dormir, mas ele sabia que daquele sono ela não despertaria. "Eu... falhei..." A mesma mão que usara para acariciar aquele rosto pálido e sem vida, fechou-se, com tamanha força, que as garras feriram a carne, gotejando sangue. Seu corpo tremia, invadido pela miscelânea de sentimentos que ele mal podia controlar. Dor, ódio, tristeza, frustração... Tudo, de uma única vez. Mas ainda tinha o desejo de abraça-la e assim o fez. A envolveu com seus braços e com sua alma, aos soluços. Talvez imaginasse que, com aquele abraço, pudesse doar parte de sua própria vida para reavivar a jovem em seus braços. Seu coração doía, sua alma doía...
"Não adianta lamentar agora... Talvez..."
Ele ergueu-se com ela nos braços e começou a se afastar do rio. Uma idéia insana lhe passara pela cabeça, mas, àquela altura, o que tinha a perder?
-x-x-x-x-x-
Passos solitários através de ruas cobertas por uma fina camada de neve. Passos apressados e desesperados, em busca de algo que pudesse confortar o dono daqueles passos. Por quanto tempo estivera correndo? Não se lembrava, mas aos pés daquela enorme escadaria do templo para o qual se dirigia, parou um pouco para tomar fôlego. Em sua cintura, duas espadas poderosas, uma que trazia a morte e outra que trazia a vida. Começou a subida meio que inseguro, pois, além das espadas, também trazia consigo um objeto mais poderoso, centro de tanta má sorte no passado. Má sorte? Será que isso existe? Talvez tudo estivesse escrito para acontecer do jeito que aconteceu desde o princípio. Mas ela não. Ele não a deixaria morrer.
Era essa a sensação que tinha, que ela estava morta. E se ela realmente tivesse que morrer? "Não!" Afastou tal pensamento da mente. Isso não deveria acontecer, não poderia. E, diante do pequeno templo fechado do poço Hone Kui, lembrou-se das palavras de seu pai. "Não cometa o mesmo erro que ele. Proteja a sacerdotisa, mas não se apaixone por ela." Como poderia ele dar ouvidos àquele conselho se o seu próprio coração já estava nas mãos dela? Tirou do bolso uma pequena bolsa de couro. Dentro dela estava o objeto que o levaria de volta ao passado, através daquele lugar. Isso fora algo que aprendera nos escritos de Miroku, que o poço era uma porta entre os mundos de Kagome e Inu-Yasha e a chave era um fragmento ou a própria Jóia Shikon.
Mas o que então o estaria prendendo ali, na porta? Por que não entrar logo naquele lugar, afinal, fora para isso que até ali viera, não fora? Seu coração parecia querer saltar pela boca, talvez por causa da corrida, talvez por causa da enorme aflição que sentia. Despistar Shippou e sair sem ser notado havia sido difícil, mas finalmente ele estava ali. Só então parou para pensar. "Como vou encontra-la? Ela pode estar em qualquer lugar..." Escorou a cabeça na porta do templo e pensou um pouco. Mas qualquer que fosse o empecilho que procurasse para não passar daquele ponto, o sentimento de que algo estava errado o motivava a seguir em frente.
– Bem, é melhor fazer isso de uma vez.
Abriu lentamente a porta do templo, mas antes que pudesse vislumbrar seu interior, sentiu uma mão em seu ombro. Uma mão calorosa e firme que ele conhecia muito bem. "Mas como?..." E, incrédulo, virou-se para encarar ninguém menos que seu próprio pai.
– Houjou, eu lhe disse para não agir sem pensar, não foi?
– Papai? O senhor não deveria estar na fábrica?
– Sim, mas algo me fez voltar do aeroporto. Tive o pressentimento de que acharia você neste lugar e dirigi até aqui. – Notou a bolsa de couro que Houjou tinha em mãos. – É perigoso andar com isto por aí.
– O senhor mesmo me disse. 'Proteja a sacerdotisa.' Não foi? É o que estou fazendo, estou indo protegê-la!
– Você não pode interromper o fluxo do passado, meu filho.
– Mas ele vai mata-la quando estiver na forma demoníaca!
– Ela já está morta.
As palavras lhe escaparam. O jovem não podia acreditar no que acabara de ouvir. Então essa era a verdade que seu pai tanto escondia dele? Ele escorou-se ao lado da porta do templo. Fora golpeado em pleno peito e sentia que, assim como as palavras, suas forças lhe escapavam.
– O quê? – Foi o que pôde sussurrar.
– Mas isso não quer dizer que seja o fim. Vamos para casa, meu filho. Nós temos que conversar...
E, amparado pelo pai, ele saiu daquele lugar, sem ao menos questionar. Não conseguia assimilar direito ainda a notícia que recebera. "Não pode ser..."
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– O que estamos esperando, senhor Sesshoumaru?
O impaciente servo questionava ao seu mestre algo que nem mesmo ele poderia responder. Sesshoumaru não sabia ao certo o que estava por vir, seguiu apenas seu instinto até onde pôde, guiado pela espada em sua cintura, Tenseiga. Notou o alvorecer se revelar por entre as árvores, assim como o vulto de alguém conhecido. Inu-Yasha vinha aproximando-se, trazendo o corpo de Kagome nos braços. Ele nunca fora intimamente ligado ao irmão mais novo, mas algo naquele momento o atingiu. Como se algo houvesse ultrapassado seu coração. O olhar do hanyou era diferente naquela manhã e fora aquele olhar que o atravessara. Ele parecia disposto a tudo, como se nada, nem mesmo ele próprio importasse.
– O que quer aqui, Inu-Yasha?
– Eu acho que você já sabe...
O hanyou abaixou-se e colocou o corpo da jovem aos pés do irmão mais velho. E observando as marcas nela, Sesshoumaru pôde entender parte do que havia acontecido.
– Você a matou. Irônico, não acha?
– Eu não vim aqui para ficar filosofando com você. Daquela vez, impediu que eu continuasse transformado e derramasse mais sangue.
– Eu não fiz aquilo...
– Não quero saber a razão de ter aparecido naquela hora, muito menos o que o levou a estar aqui agora. Mas a verdade é que você está aqui e é o único que pode salva-la.
– O preço pode ser alto demais...
– Se é a minha vida que quer, Sesshoumaru, eu a darei com prazer a você se puder trazer a vida da Kagome de volta. – Levantou o olhar e encarou o irmão. – Já houve algo que lhe fosse tão importante, que até mesmo a sua própria vida parecesse insignificante? Eu imploro a você que a salve, não me importo com que vai fazer comigo, só quero que ela viva...
O youkai cerrou os olhos por um momento e respirou profundamente. Ao abri-los, lentamente sacou sua espada, observando o corpo da jovem a sua frente. Uma luz forte começou a emanar do corpo dela, como se sua alma estivesse em turbilhão. Um brilho que era tão intenso que quase o impedia de vê-la. Rapidamente desceu a Tenseiga sobre ela, mesmo não tendo visto os mensageiros do outro mundo. Nada como aquilo havia acontecido antes. O brilho se desprendeu do corpo dela e começou a envolvê-lo por completo. Ele largou a espada e tentou lutar inutilmente para afastar aquela luz estranha de si. Só que aquela luz não lhe trazia dor ou sofrimento. Quanto mais se envolvia com ela, mais em paz se sentia. Era um sentimento puro e único que o invadia. E, diante dos olhos surpresos dele, surgiu um rostinho doce e sorridente. "Rin..." Logo o clarão se desfez e Inu-Yasha ainda estava ajoelhado diante dele, o corpo de Kagome ainda estava inerte. A Tenseiga ainda estava em sua mão.
– E então, Sesshoumaru? – Perguntou o hanyou.
– O quê? – Ele estava confuso. "Será que foi apenas uma ilusão?" Olhou para sua espada, a Tenseiga. "O que você está querendo me dizer?" Notou a doce Rin ao lado de Jyaken, com grandes olhos suplicantes.
– Por favor, senhor Sesshoumaru. Não pode salvá-la como o senhor fez comigo?
A espada em sua mão voltou a pulsar e ele observou-a curioso. "Você quer salvá-la, não é mesmo, Tenseiga?" Os mensageiros do outro mundo surgiram sobre o corpo diante dele. Deferiu um golpe certeiro sobre eles, despedaçando-os e, o coração daquela jovem que antes estivera parado, agora pulsava novamente. Inu-Yasha a pegou nos braços, com tanta força e sentimento, com tanto desespero, que Sesshoumaru virou o rosto. "Por que isso me incomoda tanto?" Notou seu irmão levantar-se com a jovem nos braços, ainda inconsciente.
– E como ficamos agora?...
– O que eu sempre quis de você nunca foi a Tessaiga ou a sua vida... Só fique longe de mim, Inu-Yasha...
O hanyou assentiu com a cabeça e virou-se para ir embora. Porém, deteve-se alguns metros depois e, apesar da pergunta que fez, manteve-se de costas.
– Será que tudo poderia ter sido diferente, Sesshoumaru?
– Nós nascemos para sermos inimigos, não irmãos. Jamais se esqueça disso. O que eu fiz hoje, não foi por você. Vá embora antes que eu mude de idéia.
Inu-Yasha respirou fundo e seguiu adiante, carregando Kagome. Tê-la viva já era o suficiente. Enquanto observava-os se afastarem, Sesshoumaru notou Rin dando um tchauzinho. Ela estava sorridente, apesar de ninguém estar retribuindo o gesto dela. Inu-Yasha não havia percebido. Sesshoumaru então se abaixou e a encarou. Ela também o encarou com certa curiosidade.
– O que foi, senhor Sesshoumaru? – Perguntou ela, inocentemente.
– Não é nada...
Para a surpresa de Jyaken, Sesshoumaru ergueu sua mão e lentamente a colocou sobre a cabeça da menina, fazendo um gesto que parecia um carinho nos cabelos dela. "O que está acontecendo com o senhor Sesshoumaru?" O servo ficou boquiaberto observando aquela cena, que não durou mais do que dois ou três segundos. Sesshoumaru não esboçou qualquer sorriso, mas aquele fora um gesto peculiar. Depois ele se levantou e saiu andando como se nada tivesse acontecido.
– Vamos andando.
– Sim, senhor Sesshoumaru! – Rin saiu saltitando atrás dele.
Jyaken continuou estático. Parecia ter sido enfeitiçado. Ainda não acreditava no que tinha acabado de ver. Só despertou do transe quando escutou Sesshoumaru chamar seu nome e saiu correndo atrás dele e de Rin.
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De dentro do carro, Houjou permanecia com o olhar perdido, observando a selva de pedra que os cercavam enquanto avançavam pelas ruas da cidade. Tudo passava tão rapidamente através das janelas daquele veículo dirigido por seu pai... "Por quê?..." A pergunta martelava em sua mente. Por que não fora capaz de protegê-la? Por que não fora capaz de estar com ela quando ela mais precisara dele? Por que ela deveria morrer? Tamanha era a sua confusão que chegou a sentir um pouco de náusea e pediu ao pai que parasse o carro. Assim que isso foi feito, Houjou abriu correndo a porta e tentou buscar um pouco de ar. Precisava respirar, mas seu corpo parecia não assimilar o ar que entrava em seus pulmões.
– Isso vai passar, meu filho... – Disse o pai, saindo do carro.
As palavras secas e sem sentido que seu pai dizia só serviam para inflar ainda mais sua ira. Queria descontar em alguém, mesmo que fosse seu próprio pai.
– Como o senhor pode dizer uma coisa dessas. – Começou o jovem, com a voz embargada pela dor. – Ela está morta, não está?! O senhor já sabia que isso iria acontecer desde o começo, não sabia? E por que então permitiu...
Ele já não conseguia mais falar. A ânsia lhe preencheu a garganta e virou-se para o lado oposto ao carro, colocando para fora o lhe revoltava o organismo. Não havia comido nada ainda, então lhe viera um líquido gástrico boca afora. Um gosto amargo lhe tomou conta da boca; amargo como a dor da morte daquela que ele tanto amava. Depois, virou-se novamente na direção do carro e sentiu uma fraqueza tomar conta de suas pernas. Apoiou-se no veículo para não ir ao chão e não pôde mais impedir que as lágrimas caíssem de seus olhos. Seu pai a tudo assistia, impassível, como que assistindo a um filme qualquer. Houjou o encarou com fúria, limpando a umidade dos lábios com as costas de uma das mãos.
– Que espécie de pai é o senhor que vê a dor do próprio filho e nada faz?!
– Houjou... – Começou o pai, após uma breve tomada de ar. – Não há nada que eu possa fazer. Me desesperar juntamente com você não irá ajudar... É isso o que você quer? Que eu fique chorando com você a morte daquela jovem? Não há motivos para isso. A morte dela é temporária...
– Temporária? – Agora ele ficara mais confuso ainda. – Não existe nada temporário na morte, papai.
– Não mesmo... Exceto para quem souber manejar uma dessas espadas em sua cintura...
Aquela resposta lhe viera como um tapa. Inu-Yasha não sabia usar a Tenseiga, logo, somente outro ser seria capaz de devolver a vida a Kagome, mas...
– Sesshoumaru jamais usaria sua espada para ajudar Inu-Yasha, meu pai. Ele era um youkai de sangue puro, com o coração frio como o gelo.
– O Shippou também é um youkai de sangue puro...
Houjou calou-se e voltou seu olhar para o céu, após um leve suspiro. A noite fria estava terminando, o céu já começava a se mostrar claro. "Shippou é diferente... Mas diferente até que ponto?"
– Shippou foi criado por humanos, meu filho. Apegou-se a nós, isso é natural. Sesshoumaru nunca teve isso, apenas conhecia a luta diária pela vida. Mas a partir de um certo ponto, conheceu a humanidade, através dos olhos de uma criança.
– Você está falando daquela garota que ele salvou? Li sobre ela... Se chamava Rin, não é mesmo? Mas como uma garotinha poderia...
– Eu gostaria que você conhecesse uma pessoa. Ela está em nossa casa agora, conversando com Shippou. Seu nome é Hikari. Conversar com ela ajudaria a esclarecer muitas de suas dúvidas... Você já se sente melhor?
Antes de responder, Houjou afastou um pouco suas mãos da lataria do carro. Sentiu-se um pouco tonto, mas nada grave. Sua curiosidade era maior que seu mal-estar. Seu pai fez um gesto, convidando-o a retornar para dentro do carro e, depois, ambos continuaram seu caminho de volta para casa.
