Durante a Guerra do Anel, as mulheres de Harad foram perdidas para sempre. Revelada a traição de Sauron, os haradrim propuseram casamento às filhas de Minas Tirith: pelas que aceitaram, foi pago o peso em ouro ao Tesouro de Gondor ... agora ambos seguem para o deserto, e todos têm cinco anos para aprender a enfrentar o desafio de uma convivência entre culturas tão díspares.
DAROR E MÍRIELCapítulo I – Rumo ao Harad
A PRIMEIRA NOITE
Suas costas doíam, sua cabeça doía, Míriel estava exausta e profundamente enjoada após dias viajando sobre aquela criatura monstruosa. Do final de tarde em que as mulheres de Gondor chegaram ao acampamento dos haradrim até a partida para o sul nem 48 horas haviam se passado, e desde então estiveram viajando...
Naquela primeira noite observaram de longe a princesa de Harad ser conduzida ao casamento nos ombros de vários homens.
Tal imagem assombrara Míriel! A mulher era linda, majestosa, mas, à exceção da cobertura proporcionada pelas inúmeras jóias, todo o seu corpo estava exposto.
A noiva parecera não se importar com isso, enquanto avançava em direção à colina por entre fileiras de haradrim, até escapar do campo de visão das mulheres de Gondor. Ao imaginar o mesmo acontecendo consigo, entretanto, Míriel decidiu retornar a Minas Tirith – suplicaria a sua mãe o lugar de guardadora de porcos na fazenda mais distante – porém, desde que aquele gigante a desapeara, tinha sido apartada de seu cavalo, e não encontrou outro meio de fugir dali.
Seu temor revelou-se o mesmo de muitas das tímidas gondolim, defrontadas tão subitamente com os costumes bárbaros dos homens a que vinham se oferecer para desposar. E o temor aumentou ainda mais com o alarido que começou a se propagar do topo da colina pelas fileiras de homens que a circundavam até sua base.
Então os homens desceram em direção a elas com música e vinho, e levaram seus pares para as fogueiras em que animais inteiros assavam no espeto - enquanto outros ajudavam os soldados de Gondor a carregar a grande carroça com as arcas repletas do ouro do dote entregue por Harad em suas noivas.
Junto às arcas, escribas de Minas Tirith preenchiam folhas e folhas de anotações, próximo a eles o Rei Elessar. Míriel chegara a caminhar em direção ao soberano, quando se dera conta de que aquele homem enorme estava de pé ao lado dele, e que conversavam.
Pelos Valar! Por que justo aquele...aquela coisa a escolhera? Era enorme; os descendentes de Númenor não eram baixos, mas aquele era o homem mais alto e forte que jamais vira, parecia-lhe quase um troll! E, como que para acentuar ainda mais aquele aspecto grotesco, trazia a cabeça totalmente raspada, reluzente, e Míriel pudera notar nos breves momentos em que se aproximara dela e lhe falara que era coberto de cicatrizes.
Muitos dos haradrim que as cercavam agora eram até bonitos: homens de bastas cabeleiras negras, pele morena, lábios vermelhos e densos olhos negros; mas o que se dispusera a desposá-la era um monstro, arrepiava-se.
Míriel quedara-se só e incerta, sem saber o que fazer, até que o retorno de algumas das companheiras a acalmara parcialmente. A mulher morena era a mais nobre de seu povo e a última de suas princesas, irmã do grande Daror, por isso fora casada de conformidade com um ritual antigo.
Os demais casamentos daquela noite se processariam de uma forma mais simples: a entrega do dote já os sacramentara...e a consumação de muitos já começara nas tendas disponíveis. Entre expressões de receio e risos nervosos, muitas noivas aguardavam sua vez bebendo da mesma taça dos maridos que haviam acabado de conhecer.
Antes de se retirar, o Rei Elessar dirigira-se às mulheres, garantindo que Gondor olharia pelo cumprimento da promessa do Senhor de Harad, de que todas retornariam aos limites do Pelennor dali a cinco anos, para declarar se era sua vontade permanecer entre os haradrim ou não; e que até aquela data seu dote ficaria sob a guarda do Tesouro Real.
Então ELE viera a ela novamente, e lhe fizera beber de sua taça também, a segurara pelo braço e conduzira à maior das tendas:
- Já é quase manhã, pode dormir aqui, descansar para a longa viagem de amanhã – disse-lhe o Grande Daror, Rei de Harad, na língua comum.
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Só quando a claridade fora da tenda já ia alta Míriel conseguira dormir; tensa, atemorizada, exausta.
Fazia-se escuro quando acordou novamente, a dor percorrendo seu peito, o vômito subindo à boca. Míriel correu para fora da tenda e despejou sua bile sobre as botas de Daror, que retornava.
Míriel levantou os olhos para o rosto acima do seu e quedou petrificada.
Daror encarou a figura toda torta em sua frente, os homens com quem estivera reunido voltando-se para observar a cena; olhou para suas botas encharcadas...e soltou uma gargalhada.
Os homens em volta começaram a rir também. Um riso cruel pareceu à dama de Gondor, que buscava aprumar-se com o resto de sua dignidade. O Senhor de Harad mostrava-se divertidíssimo com a situação, mal conseguindo dirigir-se em sua língua horrenda a um dos homens que se afastava, rindo antes de entrar na tenda.
O homem logo retornou com uma ânfora cheia d'água e uma bacia. Míriel quase vergou ao peso da jarra que lhe foi entregue, mas percebeu que deveria levá-la para o interior da tenda, o que teve de fazer equilibrando a bacia também.
Com apenas uma das mãos Daror segurou o cântaro, e com a outra depositou a bacia no chão, enchendo-a de água e agachando-se para lavar as mãos e o rosto.
Não satisfeito, o gigante mergulhou a cabeça na bacia, jogando água na nuca e no pescoço. A água fazia caminhos na pele empoeirada.
- Passou o dia todo sem comer? Havia fruta e pão aqui – disse Daror na língua comum, servindo-se na bandeja posta a um canto, que só então Míriel percebeu. – Não deve ficar sem alimento – acrescentou servindo-se de vários goles d'água, antes de sentar-se no estrado em que ela estivera dormindo.
- Qual é mesmo o seu nome? – Sim, só agora lhe perguntava propriamente o nome, e o fazia estendendo-lhe as botas para que as tirasse.
- Míriel – respondeu a dama sem encará-lo, lutando para extrair as botas daqueles pés enormes sem sujar o vestido.
- Limpe e deixe do lado de fora para secar, Míriel – ordenara ele. – Acordaremos antes do nascer do sol, quero partir ainda de manhã – falou recostando-se.
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Limpar botas não podia ser pior do que tratar porcos, mas era a primeira vez que Míriel o fazia. O vômito misturara-se com o pó, produzindo uma lama nauseante; fora preciso encontrar um pano para esfregá-las, e ela lutara contra a sujeira durante um bom tempo, com a barriga vazia, enjôo e fraqueza, mas não ousara interromper-se até cumprir a ordem.
Daror dormia profundamente então.
MURDUG
A partida estava demorando mais do que ele previra. As tendas já haviam sido desmontadas e carregadas no pequeno animal que Darai trouxera. O verdadeiro problema, entretanto, começara na hora de fazer as mulheres subirem para as torres do animal grande.
Murdug era um companheiro antigo, nascido em sua casa antes do próprio Raor tornar-se o Pai, acostumado a Daror desde que este não era mais que um menino. Sua obediência aos comandos do condutor mesmo no auge da batalha, crivado de flechas, cercado de inimigos, sob os gritos dos nâzgul, reputavam-no confiável além de toda prova; mas aquelas mulheres não entendiam do animal gigantesco mais que seu porte e suas presas, ferozes ainda que não mais ostentassem seus espinhos ou sua pintura de guerra.
Bem, Daror era o líder e o condutor, afinal de contas, daria o exemplo novamente; e subiu para o animal com a esposa.
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De pé sobre a grande cabeça, Daror acompanhava seu carregamento. Muitos dos homens já haviam coberto os rostos das mulheres com véus. Isso era sábio: mesmo que ainda estivessem longe do sol de Harad, o vento e o mormaço da jornada não poderiam ser desprezados, principalmente em se tratando daquelas peles claras.
Deveria fazer aquilo com a sua mulher também, esclarecê-la dos costumes; eram dos poucos que dispunham de uma língua comum, ela poderia transmitir o conhecimento às outras, estava negligenciando essa sorte.
Estava negligenciando muitas coisas. Estava negligenciando-a por completo, coitada, ainda não a honrara: o maior Senhor simplesmente não tivera tempo de fazer o mesmo que todos os seus. Precisava compensá-la, pensou Daror voltando-se para Míriel.
A mulher tremia, realmente apavorada, quase em choque, em pé junto a ele sobre a cabeça de Murdug. Parecia um passarinho assustado, e Daror puxou-a para si antes que perdesse de vez o equilíbrio com as primeiras passadas do olifante em direção a Harad.
Harad! Harad! Estava indo para casa!
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Na planície verdejante Murdug avançava sem obstáculos, a mulher há muito desmaiada nos braços do condutor. Pelo menos não vomitara em cima dele novamente, refletiu Daror divertido. Que criaturinha frágil! Será que fizera uma escolha sábia? Será que ela sobreviveria ao deserto? Parecera, contudo, mesmo em meio a todo o seu medo, tão palpável, nobre e cheia de iniciativa, liderando a marcha das mulheres em seu belo cavalo.
Bah! Mulheres com iniciativa, eram tudo que ele não queria. Não invejava a sorte do elfo, a quem dera sua irmã.
Invejava, invejava sim.
Mas nem! Tinha uma flor delicada em seus braços agora. Uma flor dourada que cuidaria e guiaria à sua vontade. Uma flor que precisava de sombra, pois estava ficando toda vermelha ao vento e ao sol que subia.
Daror deixou ao olifante o caminho, e levou Míriel às torres, deitando-a entre as mulheres.
AS SEMANAS
Uma versão mais simples do acampamento, apenas para o pernoite, foi montada pouco antes do anoitecer, próximo a um dos belos lagos da terra de Ithilien. Míriel, contudo, não pode desfrutá-lo junto com as outras mulheres. Não comera nada durante o dia, mareada o suficiente pelo balanço do olifante, e agora ao anoitecer seu estômago não conseguia reter nada do que ingeria. Depois de mergulhar com os homens, Daror molhara-lhe a fronte e fizera providenciar um chá, após o que ela conseguira provar do caldo, para depois praticamente desfalecer de cansaço, embora até em sonho permanecesse enjoada, sentindo ainda o movimento do grande animal.
Daror estava cansado também, exausto, preocupado. Seus roncos logo preencheram a tenda.
E assim seguiram os dias. Suas náuseas aumentavam sempre que ele se aproximava, e a experiência o mantinha um pouco mais distante quando ela estava vomitando. Parecia que tinha pena de acordá-la quando a via adormecer em meio à agonia daquele enjôo...e Míriel podia finalmente relaxar quando ouvia o trovão do ronco ao seu lado.
Embora não pudesse dormir, é claro.
Suas costas doíam, sua cabeça doía, Míriel estava exausta e profundamente enjoada. Mas pelo menos estava conseguindo manter o gigante longe de si.
