Todos os agradecimentos do mundo às fantásticas escritoras SADIE, NIMRODELL, KIKA-SAMA, KIANNAH, REGINA e SOI, que deixaram suas histórias de lado por alguns momentos para se dar ao trabalho de ler e comentar essa fic atípica e pretensiosa, que entretanto espero que gostem.

DAROR E MÍRIEL

Capítulo II – Ithilien

O CALMO DESPERTAR

Míriel levantou-se conformada para mais um dia de viagem. Daror a instruíra de que se levantasse cedo e comesse cedo todos esses dias, antes do desmonte do acampamento, para não vomitar em cima do olifante e empestear a viagem. Muito gentil a preocupação do Grande Daror, pensava Míriel com ironia. Como ela, da mais pura e autêntica linhagem de Númenor, fora parar nas mãos daquele ogro? Como?

O acampamento ainda estava adormecido quando Míriel saiu da tenda para a alvorada, e a dama se permitiu esticar o corpo. Sacudiu a cabeça também, tentando se livrar do zumbido provocado pelo estrondo com que dormia todas as noites desde que saíra de Gondor. O Grande Daror roncava como um porco, e ela dormiria melhor num chiqueiro do que em sua companhia.

O acampamento continuava tranqüilo em seu despertar preguiçoso, alguns vigias próximos às brasas da fogueira que se extinguia.

O caldeirão ainda estava quente e Míriel encontrou uma gamela, que lavou com um pouco d'água, para se servir do cozido. Não havia cerimônias, a refeição era obra de todos, que jogavam o que lhes apetecia na panela, na condição de higiene que lhes apetecia, e o preparo fervia o tempo que o acampamento permanecesse no lugar. Quem quisesse que mergulhasse sua tigela na panela e se servisse. Fora difícil até conseguir uma colher – Míriel agora portava consigo a sua – a maioria simplesmente bebia da sopa, empurrando um eventual bocado sólido para a goela com os dedos.

Se Míriel soubesse disso quando deixou sua casa! Havia tantos faqueiros de prata, poderia ter trazido ao menos um consigo. Poderia ter trazido tanta coisa! Mas quando imaginaria a barbárie absoluta daquela gente?

Mas, se houvesse imaginado, de fato não teria trazido nada, não teria nem vindo.

Fervido à noite inteira, contudo, o cozido estaria ao menos higienizado. Com a fome que acordara, na verdade, estava até bom. Parecia que pela primeira vez tinha tranqüilidade para sentir o sabor do tempero...havia sal, mas não demais, havia alguma erva que lhe dava um sabor fresco, e ao mesmo tempo havia algo levemente amargo, estava sempre lá, toda comida dos haradrim o tinha, mas estranhamente não era ruim.

Sim, pela primeira vez conseguia prestar atenção no que comia, pela primeira vez não estava apressada pela visão do desmonte do acampamento, mareada por antecipação ao ver o carregamento do olifante.

E por quê?

Porque o acampamento não estava sendo desmontado nem o olifante carregado.

O que acontecera? Havia chegado em Harad? Não, Harad era uma planície desértica...e muito, muito mais distante. Não, haviam avançado pouco, lentamente, todos aqueles dias, poucos homens a cavalo, a maioria a pé, só as mulheres sobre o grande animal e as carroças, os rebanhos seguindo-os.

A não ser pelos batedores que perscrutavam os caminhos, o grande grupo não se separava, um mar de olhos negros em meio aos turbantes e véus também negros, um exército ainda impressionante, armado de ouro e bronze, coeso, a têmpera guerreira latente, desconfiada, impondo o poderio de sua nação à possibilidade de qualquer inimigo.

Haviam avançado pouco. Ainda não haviam saído de Ithilien. Por que o acampamento não estava sendo desmontado? O sol já nascera, o céu já estava claro, por que Daror ainda estava dormindo?

Bem...Daror não mais dormia, estava se espreguiçando em frente à tenda. Já ia comandar a partida.

Daror se aproximou da fogueira sem pressa.

- Está melhor hoje? – perguntou na língua comum, tomando-lhe a tigela vazia das mãos e servindo-se de sopa sem lavá-la.

- Eh...Sim senhor – respondeu Míriel, enojada de vê-lo beber a sopa, recolhendo com os dedos os restos sólidos do fundo, e enfiando-os na boca.

Daror repetiu a operação mais duas vezes, limpou a boca com as costas da mão e arrotou.

- Está descansada?

- Estou pronta para mais um dia de viagem, senhor.

- Não vamos viajar hoje. Venha – disse Daror tomando a mão dela em sua mão enorme e imunda.

NA CACHOEIRA

Não! Não, não, não! Míriel queria gritar. Por que se fizera de forte dando aquelas respostas? Porque não dissera que estava passando mal? Estava passando muito mal, sua mão envolvida por aquela mão pegajosa, suja de comida, estava enjoada, estava com ânsia de vômito...porque não iriam seguir viagem? Enquanto continuassem viajando tudo daria certo.

Daror não a levou de volta para a tenda, contudo, e Míriel achou que conseguiria retomar a respiração, mesmo em meio ao esforço de acompanhar as grandes passadas.

- Onde está me levando?

- Não toma banho há dias, vai começar a cheirar mal – respondeu Daror, passando por um varal e pegando uma grande toalha de linho.

- C-como?

- Todos já aproveitaram a cachoeira ontem, reservei-a para mim hoje de manhã.

- Mas, mas...está frio.

- Frio? A noite inteira houve casais aqui, justamente por causa do calor, e a água não é fria.

A água realmente não era tão fria, descobriu Míriel quando Daror resolveu seus protestos atirando-a de roupa e tudo dentro do lago sob a nascente que cascateava. Seu vestido, sua roupa de baixo, tudo estava encharcado agora, somente os sapatos ele lhe tirara antes de arremessá-la.

E agora ele estava ao seu lado na água, depois de haver tirado a própria roupa; estava ao seu lado, estava em volta dela, estava abraçando-a nu dentro da água.

- Esqueci de perguntar se sabia nadar.

- Eu sei nadar, eu sei nadar, não se preocupe.

- Não me preocupo, já percebi que sabe nadar, não precisa se debater, florzinha, por que está agitada assim?

- Minha roupa está toda molhada.

- Você deve ter outras roupas, trouxe uma carroça inteira atulhada de baús, já estava em tempo de lavar essas. Lave as minhas também, há sabão ali, está vendo? – Daror apontou.

Ah sim! Lavaria as roupas dele, seriam as roupas mais bem lavadas de todos os tempos, ia começar agora. Míriel dirigiu-se para a roupa de Daror e depois para o local em que estava o sabão, junto às pedras lisas. Era um ponto que dava pé, mas Míriel não viu como subir para as pedras, e começou o trabalho assim mesmo, ensaboando ensandecidamente a roupa de Daror.

A mão enorme tomou-lhe o sabão das suas...e começou a passá-lo em seu cabelo.

Míriel pensou que deveria...deveria avisá-lo para não fazer, que precisava pentear o cabelo antes de lavar ... ia ficar todo embaraçado ... Mas, por outro lado, enquanto ele estivesse ocupado disso, talvez...

Os dedos longos massagearam-lhe a cabeça e a nuca, deslizando pela espuma, e depois pressionaram seus ombros tensos. Míriel ficou ainda mais tensa com aquele toque, mas as mãos dele insistiram atrás dela, concentrada em sua faina, ainda esperançosa de evitá-lo, se ele percebesse o quanto estava ocupada agora...

Um passarinho assustado, pensava Daror. Um passarinho assustado. Era alta, mas era magra, será que realmente não seria frágil demais para ele? Os dedos continuaram trabalhando, pacientes. De todos os problemas que tinha para resolver esse era o menor...e o mais prazeroso, precisava dar-se o direito de dedicar-lhe uma manhã ao menos, ele estava precisando disso tanto quanto ela.

A rigidez dos músculos haveria de acabar vencida pela pressão contínua dos dedos, alternando movimentos longos e circulares, e logo abaixo do ombro começavam os cordões do vestido. Daror desatou o laço e começou a expandir os polegares em direção à carne branca revelada na medida em que os ilhoses se separavam.

"Oh! Varda, Senhora das Estrelas! Tende piedade dessa filha dos homens, protegei-me nessa hora."

O sabão deslizava em suas costas. A mão de Daror estendeu-se por sobre ela, depositando o cadarço do vestido sobre as pedras, estava todo aberto agora, e o gigante de Harad começou a descê-lo por seus ombros.

- Não precisa chorar, florzinha, Daror sabe que é delicada e não vai machucá-la.

Míriel soluçava.

- Não é uma rosa selvagem de Harad, eu sei, eu sei.

O corpo dela tremia.

- Nem é virgem, por que chorar assim?

- Desculpe, me desculpe... – vergonha! Vergonha! Vergonha! O que tinha ela para julgar-se acima dele? Não passava de uma vadia, como sua mãe dissera, à qual ele acolhera com um filho no ventre. Ele lhe jogava a verdade na cara, e ela sabia que isso era merecido.

- Pare de chorar.

Míriel estava engasgada de choro, não conseguia parar.

- Já disse para parar com isso.

O tapa de Daror em suas costas destravou o caminho para a saída do ar dos pulmões de Míriel. A garganta doía, arranhada, mas talvez pelo susto agora a mulher conseguia controlá-la.

- Não tente ganhar o meu favor com choros.

- Eu...sei...que não devia ... tem sido ... bom para mim ... não pense que estou ... sendo ingrata.

Daror tapou-lhe o nariz e a empurrou para dentro d´água, quase afogando-a enquanto lhe enxaguava os cabelos. Míriel estava totalmente sem fôlego quando ele a puxou à tona, mas o espanto finalmente afastara o choro.

- Não venha com suas lágrimas de mulher para mim – disse Daror, afastando-se para baixo da cachoeira.

Droga! Era só o que lhe faltava: uma mulher cheia de artifícios! Ele era a única exceção, justo ele, TODOS os homens que se haviam casado naquela noite já haviam honrado suas esposas...várias vezes, várias vezes a cada noite.

Mesmo em meio à viagem, mesmo sem tendas para todos. Não havia arbusto próximo aos acampamentos que não se mexesse de noite. Muitos inclusive se haviam arriscado a afastar-se para clareiras mais distantes, aquele povo indomável e imprudente pelo qual ele, Daror, tinha que zelar.

Parece que desde que se lembrava não havia feito outra coisa. Desde que tinha 18 anos. Desde que seu pai morrera tocaiado, unindo seu povo sob a bandeira do ódio, bandeira que era o seu governo há anos.

Que ironia maldita! A traição que sofreram proporcionou às Casas de Harad seu primeiro momento de união verdadeira que se lembravam. Sempre se uniam contra os inimigos externos, é verdade, mas sempre estavam brigando entre si quando a ameaça exterior era afastada; por um oásis, uma partida de cavalos, uma noiva, um pedaço de terra arável...

Raor, seu pai, lhe legara um Harad unido pela espada. Daror, entretanto, governara um reino unido pelo sentimento.

Pelo sentimento de ódio e vingança, que agora jamais poderia ser satisfeito. Harad iria esfrangalhar-se novamente, e muito enfraquecido, se Daror não conseguisse forjar uma liga de igual poder, se não conseguisse transmutar aquele sentimento em outro, num sentimento de nação, de estado, de povo...se não conseguisse fazer os demais chefes virem acima do próprio orgulho, que nenhum deles se bastaria sozinho naquele momento, que apenas unidos teriam uma chance de sobreviver.

Já começara: nas Casas em que o primogênito não era forte, a morte do Pai era confrontação certa, e as mortes eram incontáveis.

Irmãos nem sempre eram uma benção, não nas Casas dos Senhores. O próprio Raor tivera de livrar-se de um. Afortunadamente Daror não tinha irmãos, só Darai, e afortunadamente Darai tinha nascido mulher, porque era sedenta de poder e sem a menor dúvida o teria disputado até a morte com ele.

Afortunadamente ela era mulher. Afortunadamente.

Não, as mulheres que o cercavam não lhe eram fortuna alguma. Nem sua traiçoeira irmã. Nem aquele canário molhado que tomara para si, onde estava ela?

Onde estava aquela mulher?

O BÁRBARO PORCO

Míriel correra de volta para a tenda como se um balrog estivesse em seu encalço, mesmo com o vestido encharcado, pesado de água, mesmo embrulhada na toalha. Que iria fazer? Que iria fazer? Aquele monstro logo viria atrás dela, precisava se acalmar, precisava pensar...bem, o deixara sem roupa e sem toalha na cachoeira, ele dissera que só os dois estariam lá pela manhã...tinha tempo de fugir. Isso! Trocaria de roupa e dessa vez encontraria o seu cavalo.

O vestido ficou empoçando os tapetes da tenda, enquanto Míriel terminava de enxugar o corpo. Alguns de seus baús de roupas estavam ao pé da cama, um vestido de montaria e um casaco para as noites lhe bastariam.

Daror surgiu nu e ainda pingando à sua frente.

- Ficou louca? Veio embora com a toalha!

Míriel não estava acreditando.

Daror era enorme, e dessa vez estava irado, realmente irado, e isso o fazia parecer ainda maior.

- O que é isso, uma provocação?! Quer sentir a ira de um guerreiro de Harad?! - as mãos dele estavam fechadas com força sobre os braços dela, que ainda tentavam segurar a toalha junto ao corpo enquanto ele a sacudia. - Quer que eu a tome à força, é isso?

- Não!

- Quer que eu a jogue no chão e transpasse o seu corpo com a minha lança?! É isso que quer sentir?!

- Não! Não! Não! – mas os gestos de Daror já acompanhavam suas palavras, e Míriel já estava no chão, a toalha arrancada de suas mãos.

- Não! Socorro! Monstro!

Daror estava em cima dela.

- Não! Não! Socorro!

- Ninguém vai entrar na tenda de Daror porque sua mulher está gritando.

Mas Míriel continuava se esgoelando

- Bárbaro! Selvagem! Porco!

- Quem passou a viagem inteira sem tomar banho foi você.

Míriel sentiu que Daror se levantava. Saíra de cima dela.

- Aliás, não foi um comportamento muito atraente. Nenhum comportamento que teve até agora foi. Se o seu objetivo era, como é que seu povo diz? Ah! "preservar o seu recato", não se preocupe, nunca estive tão interessado assim; guarde-o em paz, não lhe voltarei o meu favor tão cedo.