Agradecimentos e desculpas, os primeiros pelas mensagens de estímulo de tantos leitores que vêm se transformando em amigos, as segundas pelas falhas em responder-lhes e ... bem ... pela decepção que esse texto possa representar daqui em diante.
Após este terceiro capítulo, vai se encerrando o período introdutório da história: personagens e cenário – embora a história continue ainda um bom tempo "on the road" - terão se tornado suficientemente familiares aos leitores, espero, para que alguma ação – interior e exterior - vá passando a ocupar seu devido lugar.
Mas já daqui se começa a notar algo que lamento, que esse texto não mantém a qualidade dos capítulos iniciais, ou mesmo a clareza e coesão da fic antecedente; já tentei reescrevê-lo, mas meu momento pessoal não está ajudando. Qualquer correção, sugestão ou crítica será muito bem vinda.
De qualquer forma, farei o possível para manter um mínimo de dignidade que me permita continuar jogando no time de:
Kwannom – HALDIR E HALETH VERSÃO REVISADA, cuja versão em inglês ganhou o 2º LUGAR do concurso MY PRECIOUS AWARD, do site ELVENLORDS, na categoria INGLÊS COMO SEGUNDA LÍNGUA... Precisa dizer mais alguma coisa? Procurem! Leiam! Comentem! APAIXONEM-SE!
Sadie Sil – E de Sadie, precisa dizer alguma coisa? VIDAS E ESPÍRITOS terá seu último capítulo postado a qualquer momento, terão sido 41 semanas de desenvolvimento de uma nova religião, de adoração a LEGOLAS, ELLADAN, ELROHIR, ESTEL E ELROND ... Prostem-se!
Nimrodell Lorelin – CRÔNICAS ARAGORNIANAS ... cresceu tanto, mas tanto, que já não cabia mais em seu sumary anterior ... se por acaso – embora eu não acredite na possibilidade – você começou a ler e não se interessou, avance logo para o capítulo 5, onde a história começa a apontar sua guinada, e saboreie. Não deixe de ler!
Kika-Sama – Está fazendo um super-esforço para manter APRENDENDO constantemente atualizado, as fãs de Estel precisam dar um apoio!
Kiannah – ESTRELA SILENCIOSA vem ganhando corações sorrateiramente. Triângulos amorosos tocantes e muita ação aguardam os que a acompanharem. Vale a pena enfrentar mesmo os capítulos que pareçam longos!
Regina Bernardo – ELDAR E EDAIN. Ups! Romance com o elfo favorito de nove entre dez leitoras no pedaço. A eleita é uma edain que poderia ser você!
Soi – IDRIL NUMENESS. História singela que em momento algum nega a inspiração em Sadie. Ternura da qual todas nós precisamos!
DAROR E MÍRIEL
Capítulo III – A Dama da Cidade Alta
A DESONRA DE MÍRIELO que pensara? O que pensara afinal? Que poderia fugir? Que ele não iria atrás dela? E se não fosse? O que faria? Voltaria para sua mãe? Nem como guardadora de porcos ela a acolheria de novo, sabia disso. Ao contrário, faria com que todas as portas de Minas Tirith e de Gondor fossem-lhe fechadas, até que não lhe sobrasse alternativa senão mendigar nas ruas, ela mesma lhe dissera. E nas ruas da parte baixa da cidade, onde não tivesse de vê-la nunca mais.
Não fora coragem que a impulsionara para os haradrim naquela noite, fora falta de opção...a criança já passara do tempo em que poderia ser retirada, dissera a entendida à sua mãe.
Não era mais a mais nobre das filhas da cidade branca, a última pérola pura da raça de Númenor, tinha arruinado sua vida em uma noite, jogado o nome de sua família na lama, sua mãe tinha razão.
Que direito tinha de querer negar-se ao bárbaro, se ela mesma viera a ele? Em que era melhor que ele, que lhe dissera "seu filho será meu filho"? E o dissera com tal majestade. Como um Rei. Ele era um Rei afinal, Rei de um povo bárbaro, mas um Rei. Era o Grande Daror de Harad, e Míriel não devia ofendê-lo assim. E de qualquer forma, não conseguiria mantê-lo afastado eternamente. Como fora tola, achando que seus ardis o punham longe. Era a própria vontade que o conservava distante, e tal vontade não aceitaria ser contrariada quando realmente se voltasse para ela, finalmente entendera.
Estava na hora de pôr a camisola, a longa e rebuscada camisola branca de seu enxoval, aquela que sua própria mãe bordara, em tempos felizes, quando não aspirava para a filha menos que o casamento com um dos herdeiros do Senhor Denethor, o Regente de Gondor.
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- Que roupa é essa? – Indagou Daror ao entrar na tenda que Míriel limpara.
- É...minha camisola de núp...
- Parece muito fina, é melhor botar uma roupa de trabalho: vai ajudar a defumar a caça que traremos.
- Defumar caça?
- Está pejada, não está inválida. Há trabalho demais para que continue sem fazer nada – disse Daror recolhendo as armas que levaria na expedição.
TRABALHO
Defumar a carne seria o de menos, pensava Míriel, cavando fundo no chão, junto com as outras mulheres. Era praticamente uma trincheira: embaixo ficaria a fogueira, em cima uma armação em que os pedaços de carne seriam pendurados. Os homens que não foram à caça estavam cortando madeira, que deveria ser encharcada para produzir fumaça, ou ceifando os campos, recolhendo comida para alimentar os animais na travessia do deserto. A verde Ithilien logo seria deixada para trás, e os oásis e campos aráveis do Sul não receberiam seus filhos com fartura naquele momento, era a notícia que os batedores tinham trazido após a descoberta da traição.
Como aquelas mulheres sabiam de tudo isso, se não mais que meia dúzia de outros senhores além de Daror falavam a língua comum, era um mistério para Míriel. Simplesmente todas pareciam estar melhor a par do que acontecia do que ela. Conheciam a história das Casas de Harad, os costumes e tradições do povo, a geografia do grande deserto...
- Não é só deserto, na sua maior parte é uma planície, semi-árida, mas arável na estação da chuva. A chuva forma pequenos rios, que vão desembocar nos oásis. Os clãs estão sempre se movendo entre os campos de um para outro. Somente as Casas mais antigas e ricas chegam a ter cidades, palácios construídos junto a grandes oásis. Sem esses reservatórios naturais de água o Harad não existiria, mas é no deserto profundo que estão suas minas, sua riqueza.
Os olhos de Faidenel brilhavam alegres ao falar da terra do marido. Ele lhe dissera que sua família tinha belos oásis, e lhe prometera muitos mergulhos sob as estrelas, na água sempre tépida.
- Mas nenhuma Casa tem tantos oásis quanto a Casa de Daror, nenhuma é tão grande.
- Não é só a Casa que Daror tem grande.
- Eu o vi chegando nu atrás de Míriel, quase fiquei sem ar
- Ele é enorme Míriel, como você consegue?
Míriel? Míriel? Quem lhes dera a intimidade de tratá-la pelo primeiro nome, àquelas ... mulheres do primeiro círculo da cidade? Criadas, trabalhadoras, filhas de comerciantes... umas pouquíssimas que poderiam alegar alguma nobreza, mas nenhuma tão pura e numenoriana quanto a dela.
O bárbaro a queria humilhar, era isso, mostrar-lhe que não valia mais que nenhuma delas, a ela, cujas mãos delicadas jamais haviam conhecido outro labor que não o trabalho com as agulhas.
BONEQUINHA DE LUXOAs agulhas de bordar os bordados intermináveis na sala fria onde o sol era um triste fio de gelo que percorria o chão pela fresta da janela, onde suas roupas nunca se sujavam, jamais ficavam amassadas, e mesmo seus sapatos pareciam não tocar o chão, o solado imaculadamente branco daquela existência trancada em casa...treinando mesuras e reverências para quando as visitas chegavam sim, mas nunca visitando a outros: sua mãe era a dama mais nobre da cidade, os outros é que deviam vir a ela, nunca o contrário.
Apenas a família do regente lhes estava acima e apenas para eventos no palácio saíam de casa...ocasião em que as criadas passavam horas enfeitando-a, sob a supervisão de sua mãe: o resultado, entretanto, era tão delicado, que se diria que Míriel acordava assim todos os dias, naturalmente a pérola mais nobre e bela e imaculada de Númenor, uma luz para a qual os olhos dos filhos de Denethor, assim como de todos os presentes se voltariam inevitavelmente, sem que ela desse a notar que o percebia.
Se houvesse algo a dar a perceber naquelas ocasiões, seria o tanto que tais atenções a embaraçavam. Para não fazê-lo, e mais uma vez incorrer no desagrado da mãe, Míriel transmutava-se na estátua fria e altiva que lhe ensinara a ser...e nisso se saía muito bem, pois nem mesmo sua mãe conseguiu disfarçar o próprio contentamento na noite em que o olhar de Boromir se prendeu em Míriel. Boromir, o filho favorito e herdeiro do regente, Capitão dentre os Capitães de Gondor, a mãe apertou a mão da filha.
Míriel, entretanto, mal retribui-lhe o olhar, tomada sem saber porque de antipatia pelo primogênito de Denethor. Era até estranho que assim fosse, pois do balcão de sua casa não deixara de admirar várias vezes a força e o porte do bravo guerreiro que vezes sem conta vira retornar vitorioso pelas ruas da Cidade Branca...discretamente a um canto, contudo, estava Faramir, o caçula do regente, e lhe pareceu mais belo e adorável, sorrindo-lhe tão timidamente quanto ela lhe sorriu de volta.
- Por que sorrir para Faramir quando era o futuro governante de Gondor que lhe estava dirigindo sua atenção? – A mãe perguntara-lhe friamente no dia seguinte, após o pai e os irmãos se retirarem da sala onde o desjejum fora servido.
- A senhora diz que os dois são dignos.
- Mas Boromir é o primogênito e o herdeiro, não há porque voltar-se para o mais novo se pode ter esperanças com o mais velho.
- Boromir me parece um tanto rude – Míriel tentava parecer adulta, emitir tais comentários de forma displicente – Faramir é mais gentil.
- E menos valoroso, da próxima vez que Boromir fitá-la, faça o favor de sorrir-lhe.
- Nunca o vi sorrindo, ao contrário de Faramir.
- Carrega o fardo de uma grande responsabilidade, não tem porque portar-se levianamente...
- Nenhum de meus irmãos jamais pôs em questão a bravura ou o valor do Capitão Faramir.
- Míriel, você me interrompeu – a suave voz da senhora sua mãe era um açoite de gelo.
- Eu sinto...desculpe-me, senhora...mãe.
A grande dama da cidade alta pegou o rosto da filha entre as mãos, uma expressão difícil de decifrar nos olhos, um misto de crueldade e ternura.
- Minha filha, se isto é possível, torna-se ainda mais bela quando está para prorromper em prantos; é impossível negar-lhe o que quer que seja nessa hora, mesmo a desculpa do seu mau comportamento.
- Não tive a intenção, minha mãe – os olhos de Míriel batiam como asas de borboleta, tentando conter as lágrimas...era verdade, sua mãe acalmava-se ao vê-las, mas de alguma forma aquilo ia mais e mais incomodando Míriel; não tinha direito a uma opinião? Nem a justificar nenhum de seus atos?
- Minha bonequinha – disse a mãe puxando-a para o colo em que Míriel depositou sua tristeza...bonequinha...Bonequinha que deveria ficar guardada na estante, aguardando o chamado para a próxima brincadeira...tomar chá, ser penteada e enfeitada, fazer reverências para as visitas, enfeitar o ambiente sem proferir um som quando o pai e os irmãos estivessem em casa, de volta de suas campanhas ou das fazendas, e nessas noites receber seu beijo terno antes de recolher-se ...
E o que restava para uma dama afinal, além de ser o mais belo enfeite?
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- Essa noite o primogênito do Senhor Denethor virá falar consigo, tenho certeza, está deslumbrante.
- E quê lhe responderei? – Perguntara Míriel de repente, assombrada.
- O que ele lhe perguntar, minha querida.
- Mas...e se eu não souber?
- Minha preciosa, desde que lhe sorria, aquilo que proferir terá pouca importância.
Não se importaria com o que ela dissesse...de nada valeria? Para que falar com alguém que não a escutaria? Os olhos de Míriel encheram-se d'água.
- Não, Míriel, não agora, vai borrar a pintura – disse a mãe tomando seu rosto nas mãos e assoprando seus olhos – o que foi criança? Diga para sua mãe.
- Eu...não sei...Boromir me assusta.
- Isso é normal filha, perfeitamente natural, ele é um bravo guerreiro, e você uma pérola delicada, mas acredite, você terá a capacidade necessária para suportá-lo, como toda mulher surpreendentemente tem. E terá uma compensação que as outras hão de invejar: será a esposa do regente, a mais alta dentre as mulheres de Gondor...mais elevada até que sua mãe, e eu me curvarei para você – disse-lhe a mãe, fazendo a mais graciosa das reverências para uma Míriel atônita..sua mãe, curvando-se a ela? Desde quando quisera isso?
Mas, por outro lado, se assim não estivesse mais sob o jugo de suas conveniências, de suas ordens, de seus desejos...se por um momento Míriel tivesse a liberdade de desejar algo para si mesma e por si mesma...Elbereth! Nem tinha idéia do que desejaria.
E um sorriso para o capitão Boromir não haveria de ser nenhum sacrifício, como não o era o sorriso que enchia o seu rosto nessa hora, ante o olhar orgulhoso de sua mãe.
Mas Boromir não olhou para ela ou para nenhuma outra moça aquela noite, o tempo todo ao lado de Faramir, dividindo com o irmão algum tipo de preocupação, mas deixando claro para quem quisesse perceber que o valor que atribuía ao caçula era bem maior do que aquele que pessoas como sua mãe atribuiam.
E bailes e festas se tornaram mais e mais raros numa Minas Tirith assolada pelo pesadelo de Mordor, e longe dos olhos dos filhos do Senhor Denethor, Míriel não era muito estimulada pela mãe a sorrir.
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Na defesa de Osgiliath retomada, seu pai pegara uma febre, e seus filhos e ordenanças o trouxeram de volta, sem outra esperança que a de vê-lo morrer em casa, apesar dos cuidados dos sábios das casas de cura. Os momentos em que chorara agarrada à sua mão ajoelhada junto a cama, em que cansada da vigília achegara-se ao corpo fraco e cansado foram, entretanto, os momentos de maior intimidade que Míriel jamais desfrutara em muitos e muitos anos com aquele estranho, que freqüentemente hesitava em tocar a filha chegando sujo e suado das campanhas, como hesitava em fazê-lo com a esposa tão bela e distante.
As campanhas em que se engajavam os comandantes, entretanto, eram cada vez mais próximas, e uma movimentação incomum instalava-se na casa em que alguns dos irmãos sempre estavam, primeiro na devoção e no luto pelo pai, depois na idéia de consolar a mãe; ou de aproximar-se da senhora fria que não derramara uma lágrima no enterro do marido, mas que em respeito a ele tingira todas as roupas de preto, e agora mesmo é que não saía da casa, que se não fosse o entra e sai de soldados pareceria mais um mausoléu.
A qualquer hora do dia ou da noite podia acontecer uma reunião, e secretamente Míriel animava-se, portando seu luto sóbrio mas correndo para providenciar comida quente para as barrigas sempre famintas dos homens, água e vinho para suas gargantas sedentas – enquanto a sua mãe recolhida ao leito não queria ver ninguém e indignava-se do desrespeito que se estabelecera em sua casa.
- Exibir tua figura menos de um mês após a morte de teu pai, para plebeus desconhecidos que tem seus quartéis para se reunir? É assim que se porta uma dama?
- Estamos à beira de uma guerra, senhora minha mãe, se não apoiarmos os soldados, seremos damas mortas muito em breve.
Pela primeira vez Míriel retirou-se antes de ouvir a resposta da sua mãe ante uma malcriação sua. Apesar do luto havia agora vida pulsando na casa, na agitação dos homens, na adrenalina dos combates que tratavam, na urgência de viver que transmitiam para ela.
Viver, e não apenas existir. Querer, fazer, participar, tomar parte. Míriel pouco acompanhava seus debates, dos quais entenderia menos ainda, mas corria a abrir-lhes as portas, mandar servi-los ou preparar-lhes um farnel, providenciar um quarto para um guerreiro exausto, refugiando-se das reprimendas da mãe na companhia dos irmãos, sem se aperceber ou importar que uma ou outra mecha de cabelo fugisse do lugar na correria dos preparativos de grandes batalhas.
Mas tristemente os irmãos que após tantos anos voltaram a abraçá-la naqueles meses em que a urgência da defesa de Gondor fizera renascer a intimidade entre as famílias foram caindo um a um, e sua casa foi voltando a ficar vazia, triste, escura e sufocante.
E quando o ordenança que os servira a todos veio trazer a notícia da queda do último, Míriel escorregara pela parede chorando, sem saber como suportaria transmitir aquela notícia terrível à mãe, sem saber em quem se apoiar, onde buscar forças.
A força e o apoio estavam ali, no jovem tenente que a amparou, disse-lhe de sua admiração pela bravura de cada um dos filhos daquela família, e num ímpeto declarou seu amor pela coragem da irmã deles.
Ninguém, nunca, havia atribuído coragem a Míriel. Nem ela mesma. Mas, mesmo em meio à sua dor, Míriel apreciou imensamente aquele elogio que não era dirigido à sua beleza, à sua nobreza, aos seus modos, à pureza de sua linhagem, mas ao seu espírito. Aquele elogio que de alguma forma a equiparava aos seus bravos irmãos, que a fazia digna como jamais se julgara.
Míriel prometeu ao jovem e humilde oficial que o encontraria de novo, e serviu-se da coragem que ele mencionara para sair escondida de casa, para descer aos círculos baixos onde a cidade fervilhava, mas onde havia becos em que uma moça corajosa poderia beijar um soldado, abraça-lo, sentir-se viva e especial junto a um homem que a apreciava pelo que ela realmente era, sem que precisasse usar qualquer máscara ou comportamento ensaiado e artificial, prometer-lhe que se casariam, e por fim entregar-lhe o que tinha de mais precioso, às vésperas da partida para a retomada de Osgiliath, sob o comando do Capitão Faramir.
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Muita coisa mudou depois daquela batalha. A Cidade Branca, Gondor, o mundo que conheceram sob a regência do Senhor Denethor cedeu lugar ao reino que passou a ser governado pelo Rei Elessar.
Foi como se o mundo de Míriel e da mãe houvesse caído. Por razões diferentes.
O Rei trouxera uma esposa de outra raça para reinar ao seu lado, e amigos estrangeiros, e a hierarquia da corte de repente estava sendo restabelecida em outros parâmetros. Subitamente, Faramir passou a parecer um excelente partido à mãe de Míriel – parece que ele também, se enamorara de uma mulher estrangeira, mas não se haviam casado ainda, e mais de uma vez o filho de Lorde Denethor, a quem dizia-se agora que seria concedida uma terra para reinar, olhara para Míriel.
Para Míriel, entretanto, não era uma questão de reencaixar peças que haviam se soltado em sua vida: ela não sabia mais de quais peças sua vida era composta.
O respeito à mãe fora a vida restrita que conhecera até bem pouco tempo, e que depois de ter conhecido alguma liberdade sob a guarida de seus irmãos, parecia-lhe uma clausura insuportável, mas Míriel não sabia como ir até aquela outra vida sozinha, sem mãos que a guiassem...e de repente parecia-lhe que qualquer uma dessas opções lhe fugia, pois alguma coisa inesperada e terrível ocorrera.
Para onde iria? O que faria? O que lhe aconteceria agora? Quem a guiaria? Míriel suspeitava que a mãe não mais se prestaria a esse papel quando soubesse o que estava acontecendo.
E foi exatamente como previra.
Não. Foi pior.
Tornara-se tão indigna os olhos de sua mãe, que fez questão de apontar-lhe uma a uma as saídas fechadas à sua questão, até que a única forma parecia ser atirar-se da Cidade Alta. Com ou sem um filho no ventre, pois mesmo que o retirasse, deveria retirar-se da vida que conhecia, e existir apenas para os tormentos que aguardavam as mulheres decaídas, e que seriam sua expiação pelo resto de tempo que os Valar lhe reservassem.
Em que a vida com os estrangeiros seria pior que isso? Míriel reencontrou pela última vez em muito tempo a coragem despertada pelo jovem mártir de Minas Tirith para jogar a pergunta à mãe, enquanto arrumava os baús que levaria consigo, fazendo questão de mostrar que continham apenas o que era seu, e nada que pudesse ser considerado parte da herança à qual sua mãe fizera questão de declarar que ela não tinha direito.
Sua mãe se comprazera em apontar durante horas tudo aquilo que seria pior para ela dentre os haradrim, finalizando com:
- E não me venha dentro de cinco anos bater-me à porta arrependida, trazendo atrás de si uma corja de bastardos, filhos de seus violadores.
- Não virei!
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Seu enjôo atingiu o paroxismo com a chegada dos animais abatidos. O cheiro de sebo, a retirada das vísceras, o trabalho sobre o couro...até tripas Míriel teve de limpar, para fazer lingüiça.
Naqueles dias não foi qualquer ardil que a manteve afastada de Daror, mas a faina incessante com que todos preparavam a despensa que teria de sustentá-los por um tempo indeterminado no deserto.
Pensando bem nem ele lhe dirigira qualquer atenção, ainda mais ocupado que ela. Mas independente do cansaço, ao fim do dia era sempre limpo que ele se deitava, então não importava que horas fosse, ela só se recostava quando se julgasse limpa também, adormecendo exausta, incapaz de ser incomodada por qualquer ronco.
