Olá!
Mais uma semana, mais um capítulo – esse aqui curto e desimportante, dependendo da velocidade de repercussão pode até vir a ser seguido pelo próximo – bem mais significativo - num intervalo menor.
Chama-se "caminhos trilhados", numa alusão a que a parte introdutória da jornada já foi percorrida, e esses personagens tão novos já não são mais desconhecidos para vocês – espero – embora possam continuar a ser estranhos um para o outro (ou talvez, mesmo sob esse aspecto, o tempo tenha começado a exercer o seu poder transformador – ou não).
Muito tenho a agradecer reviewers como Nanda, Vick e Regina, que rebatendo a autocrítica à presente narrativa, alimentaram meu estímulo a continuar chateando vocês por muitos e muitos capítulos, mais que na PAIXÃO DOS EDAIN.
Ora, esse é o problema, ou pelo menos um dos problemas de DAROR E MÍRIEL. Enquanto PAIXÃO era uma obra concisa, correta e de progressão direta, D&M está me saindo o seu oposto.
Quanto às questões de linguagem a que fiz menção anteriormente, a confusão em que me meti é a seguinte: no SdA, o mais simplório ou inculto dos companheiros era Sam. Frodo era um erudito, Merry um intelectual, e mesmo Pipppin um membro da elite; Aragorn, Boromir e Legolas, príncipes – Gimli também, embora de um povo de expressão não tão graciosa – Gandalf um sábio ... Em D&M, o personagem mais culto é a própria Míriel, preciso marcar uma diferença sutil entre o discurso desta e das demais gondolim, de origem proletária, assim como preciso deixar claro que no Harad se fala uma língua diferente, oriunda de uma cultura diferente, embora a convivência vá fazer com que todos influenciem a expressão própria de cada um. – Levando em conta que não sou Tolkien, em alguns momentos me enrolo bastante, mas sinto que esse é um aspecto que não pode ser relegado numa obra inspirada por ele.
Gondolim: como bem observou a talentosa e atenta Nimrodel, talvez o melhor fosse chamá-las de "gondorianas" ... acontece que queria usar a desinência preferencial do Mestre para indicação de origem (rohirim, haradrim, sindarim, ...). Acabei entre "gondorim" e "gondolim"; embora a primeira fosse a mais correta, a segunda me encantou mais, parecendo-me mais feminina e suave – em contraposição a um idioma áspero carregado de "erres", como suponho que seja o de Harad – e dou como desculpa para adotá-la a intenção de homenagear o Mestre, referindo-me a um dos lugares que criou.
Façam uma forcinha para engolir, está bem? Depois deleitem-se com:
Kwannom – HALDIR E HALETH VERSÃO REVISADA, cuja versão em inglês ganhou o 2º LUGAR do concurso MY PRECIOUS AWARD, do site ELVENLORDS, na categoria INGLÊS COMO SEGUNDA LÍNGUA... Texto de cunho adulto, que entretanto não atenta contra a dignidade inerente à personalidade élfica, conservando-lhes intacta a magia peculiar. Imprescindível como estudo do desenvolvimento de personagens plausíveis, carismáticos e não-maniqueístas (além de heroínas belas, dignas, fortes e ainda assim sexualizadas). Só pode ser visualizado ajustando a página do ffnet para o ratting R ou All.
Nimrodell Lorelin – CRÔNICAS ARAGORNIANAS ... As modificações gritantes e corajosas expandiram tanto o horizonte original do texto, que já estava em tempo de modificar seu sumário. Foi o que a Nim fez; sem deixar de lado a aventura, o texto assumiu integralmente seu mergulho no romance adulto. Detalhe: a beta-reader é SADIE SIL.
Kika-Sama – APRENDENDO e ensinando a todos os fãs de Estel uma lição de persistência, esforço e aprimoramento.
Kiannah – ESTRELA SILENCIOSA vem ganhando corações sorrateiramente. Triângulos amorosos tocantes e muita ação aguardam os que a acompanharem. Vale a pena enfrentar mesmo os capítulos que pareçam longos, MESMO QUE ESTES DEMOREM.
Regina – ELDAR E EDAIN. Romance envolvendo o filho do meu rei élfico favorito e uma moça parecida com qualquer uma de nós ... capítulos curtos e constantes garantem o ritmo e o suspense de uma relação fadada ao imponderável.
Soi – IDRIL NUMENESS. História singela de inspiração familiar. Uma atmosfera fluida de conto de fadas, daquelas que prometem a redenção de nosso próprio sofrimento ao final.
Sadie Sil – VIDAS & ESPÍRITOS encerra essa lista com seu capítulo de encerramento. Exatamente o que esperávamos, e bastante diferente. Muitas lágrimas sim, de emoção, reconciliação, recordação ... mas também de um inconformismo desconforme com uma melodia divina que mesmo os elfos podem apenas sentir, mas não entender ou – como Melkor, paradoxalmente – aceitar. É o final, mas também o testemunho do eterno e forçoso recomeço ao qual os filhos do Único parecem igualmente condenados, cada um à sua maneira, como se fôssemos todos lagartas rastejantes, invejosos do destino das borboletas.
DAROR E MÍRIEL
Capítulo IV – Caminhos trilhados
O LEITE DE ANDIR
Uma lua inteira havia-se passado, mas o enjôo da viagem não arrefecia, por isso ela não conseguia cobrir o rosto com o véu, sentindo-se sufocar sob ele ao sol quente, vomitando em todas as tentativas. O resultado é que seu rosto ardia, inchado, após um dia inteiro de mormaço.
Daror examinou-a, fazendo uma careta:
- Isso está horrível, e vai descascar ainda pior.
O quê ela poderia fazer? Pensava Míriel com a compressa d'água sobre o rosto. E isso era apenas o começo. Aquilo não era sol, era como estar dentro de uma fogueira: suas mãos, suas orelhas, seu colo, cada parte de seu corpo que não estivera coberta aquele dia agora ardia como se fogo as houvesse tocado.
- Tome, passe isso. – Daror lhe estendia uma gamela com um líquido viscoso.
- O quê é isso?
- Leite de Andir.
- Como?
- É a seiva de uma árvore, mulher, pegue.
- Esse cheiro...
- Vai acabar em carne viva, esqueça o cheiro – Daror estendeu-lhe mais uma vez o óleo, mas Míriel virou a cara ao odor adocicado.
De repente as mãos de Daror estavam em seu rosto, espalhando aquela gosma, enquanto ele praguejava em sua língua incompreensível.
Agora as tentativas de Míriel de tomar-lhe o ungüento de nada valiam. A mão de Daror pesava em seu rosto, seu pescoço, suas orelhas, seu colo.
- Eu faço, eu faço, pode deixar.
A mão de Daror estava descendo para seus seios.
- Pode deixar. Não precisa...
Daror finalmente entregou-lhe a pequena tigela.
- De quantos meses está realmente?
- Perdi a conta de quantos dias viajamos
- Mais de 40
- Então...cinco meses.
- Hum – Daror recostara-se nas almofadas sobre o estrado que lhes servia de cama – use o andir também nos seios e no ventre. Deve usá-lo em todo corpo.
- Vou usar – disse Míriel sob o olhar impositivo de Daror, passando o óleo nos seios por dentro do vestido.
- Assim não, faça massagem nos seios, senão seu leite vai empedrar.
Míriel sentiu que seu rosto agora ardia também por debaixo da pele.
- Assim não, mulher estúpida, assim está empurrando seu bico para dentro.
Daror desceu-lhe o vestido dos ombros, sem que Míriel tivesse coragem de se mexer, e os dedos dele começaram a puxar dolorosamente o mamilo para fora.
- Ai.
- Seus seios estão inchados, é por isso que doem. Deve fazer todo dia como estou fazendo agora. O óleo de andir é miraculoso, para a pele, para a dor ... pode passar no cabelo também, está parecendo uma tempestade de areia.
Míriel abriu os olhos que fechara para não sentir as mãos dele em seus mamilos, os dedos ásperos retendo os bicos, puxando e apertando, comprimindo seus seios.
Se seu cabelo o desagradava tanto, porque ele não tirava aquelas mãos calejadas de cima dela?
- Cinco meses, hein? Então seus seios devem ser muito pequenos mesmo – disse Daror quando percebeu o olhar da mulher sobre si.
Rá! A "recatada" flor do Norte, se soubesse como sua aparência estava medonha certamente não lhe lançaria aquele olhar ofendido e superior. Como se ele tivesse razão para ter algum interesse especial por ela. Se o tivera, já esquecera.
ENTRE AS MULHERES
Fosse o hábito, fosse o tempo que não se detém, fosse a resignação ao destino...o enjôo finalmente cedeu e Míriel descobriu em si uma fome incontrolável. Pensava em comida o tempo todo e agora era das primeiras a se servir do caldo, no qual punha um pedaço de carne defumada, comendo em meio às outras mulheres, à volta da fogueira.
Muitas também já eram gestantes a esta altura, e as mulheres que haviam trazido filhos pequenos lhes dirigiam seus conselhos agora:
- A dor do leite empedrado é pior que a própria dor do parto...
- Passe manteiga nos bicos.
- Meu corpo está ficando todo marcado...
- Minha barriga parece que vai se rasgar.
- Peça ao seu marido para lhe conseguir Leite de Andir – disse Míriel.
As vozes das mulheres se calaram subitamente. Ora, ora, a senhora da cidade alta se dignara a falar com elas, descera de seu pedestal de esposa do Grande Daror para lhes dirigir a palavra.
O silêncio pesou sobre Míriel. Estar no meio do tagarelar das mulheres lhe dava conforto, e lhe trazia muita informação também: sobre o Harad, sobre filhos... sobre homens; coisas que jamais ouvira nem de sua mãe nem de ninguém antes - embora muitas vezes torcesse o nariz para a vulgaridade dos comentários que faziam sobre ... coisas íntimas.
Pela primeira vez sentia-se à vontade para falar, tinha algo a dizer, uma informação para compartilhar. Não esperara que todas se voltassem para ela daquela forma, como se fosse uma intrusa, como se fosse uma estrangeira. Eram suas compatriotas afinal, todas exiladas em meio àquela. .. selvageria. Deveriam manter-se unidas.
- Meu marido ... me trouxe um pouco, é a seiva de uma árvore do Harad ... deve-se passar em todo o corpo.
- É você ou Daror que passa em seu corpo? – perguntou Hellë, gerando várias risadinhas.
- Lager também trouxe para mim, mas é para eu lhe massagear as costas.
As mulheres riam afogueadas, trocando olhares maliciosos. Os homens de Harad eram tão ... atrevidos; cada uma tinha uma história do marido para contar. Que as beijavam após haver mastigado fava de baunilha. Que as agarravam pela cintura mesmo em público. Que viviam encostando-se às esposas para lhes mostrar sua excitação.
- E Daror, Míriel? – Míriel sentiu congelar por fora novamente; e queimar por dentro. Para que se misturara com aquela gentinha? E o quê teria para lhes contar agora?
- Daror é tão grande quanto dizem, Míriel?
- Eu VI Daror no dia em que andou nu pelo acampamento e NOSSA!
A algaravia recomeçara. Pela graça dos Valar não precisara abrir a boca.
- Faz muito bem em não dar trela para essas fofoqueiras, mocinha. Se começa a tecer muitas loas ao seu carneiro, logo outra fica de olho em sua lã.
- Olá! Agora isso é uma bobagem, todas aqui estamos bem servidas de marido.
- Mas foi assim que perdi o meu em Minas Tirith. Teci-lhe tantos elogios, fiz-lhe tantas vontades, que acabou fugindo com a vizinha e me deixando uma filha pequena para criar.
- Isso foi lá. Aqui há muito mais homens que mulheres, e nenhum vai se atrever a desprezar a sua. Ainda mais sabendo que daqui a cinco anos podem-na perder.
- Eu? Deixar de Raanat? Mas nem! Podem saber todas que o favor dele me faz MUITO feliz. E que a mosca varejeira que ficar de olho no meu carneiro, vai acabar tosquiada. – Hellë era a mais brincalhona de todas as mulheres de Gondor. Baixinha e de corpo arredondado, atraíra para marido Raanat, um rapaz tão risonho quanto ela, e fora a primeira a acostumar-se com os costumes de Harad, falando sem pudores de suas brincadeiras amorosas.
- De qualquer forma, Míriel faz bem em calar, Daror também não dá aos homens confiança de ficar falando sobre ela, muitos já disseram.
E que Daror teria para contar sobre ela? "Ah! Honrou sua mulher até debaixo do olifante uma noite? Sei". "Prometeu a ela que lhe faria o quê se ela fizesse o quê em você?". "Beijou-a em baixo d'água na cachoeira? Bem, a minha eu nunca beijei".
----
Ele realmente não estava tão interessado. Era verdade. Nem a olhava direito quando estava untando o corpo como ele lhe ensinara. Nas vezes em que a tocara fora para espalhar o óleo onde ela não alcançava:
- Não quero que sua pele fique marcada. É muito branca, fina. Se não tiver cuidado ficará arruinada...
Depois saía logo, a ver os demais Chefes de Harad, aconselhar e ser aconselhado pelos Clãs. Sempre o último a se recolher e o primeiro a despertar.
----
Ai! Suspirava. O Grande Daror, tantos o chamavam. O Grande Daror estava ficando louco. Ao invés de um alívio acabara arranjando mais uma aporrinhação. Mas ele ia vê-la pedindo, pedindo ao bárbaro porco, ah ia!
----
Todas as noites ela vestia a camisola bordada, já impregnada pelo doce perfume do andir. Míriel espalhava seu cabelo dourado sobre os travesseiros. Se ele a chamasse, ela estaria lá. Já aceitara. Já entendera. Não poderia mais fugir.
