Último aviso: Capítulo na fronteira entre R e NC-17 por descrição de cunho sexual.

DAROR E MÏRIEL

Capítulo VIII – A Casa de Daror – Parte 2

A IRA DO CAMPEÃO

- Acode Terair, que Daror perdeu a medida e vai matar o filho de Adatar.

- Ô Merda! – Praguejou Terair correndo para evitar uma desgraça. Daror era filho de Raor, mas sabia ser sensato ... Quê lhe havia dado agora? Resmungava, sem se lembrar que tivera meses para cavalgar sobre a própria dor depois de testemunhar como batedor a profanação do santuário de Or, a sede da Casa das Casas, o oásis que se preciso fosse poderia acolher o Harad inteiro.

Em cada fonte que o alimentava foram empilhados seus rebanhos mortos. Não só sua água fora envenenada, mas também seus campos. Não só as imponentes e extensas construções, trabalho de muitas gerações, foram incendiadas, mas cada árvore, cada planta, cada ramo de flor dos jardins da bela Ravai havia sido causticado.

Doze homens agora seguravam Daror, mas nem assim o gigante ia ao solo, onde estavam vários corpos desacordados, inclusive os dos também enormes Rundrick e Baatar, homens da Casa do príncipe já se acercando com ameaças.

Terair acertou a rótula de Daror antes que este pudesse se libertar, e finalmente caiu ajoelhado o gigante, campeão invicto de seu pai desde os quinze anos, permitindo aos seus doze primos imobilizá-lo com mais eficiência.

Terair pegou de uma ânfora e derrubou água sobre Rundrick e Baatar, e ainda que feridos os dois pareceram despertar.

Terair voltou-se para Daror:

- Ficou louco?! Vai criar uma guerra entre as Casas agora?! – E desceu-lhe o cântaro na cara, despedaçando-o.

- Não! – Gritou Míriel

À visão da mulher que se aproximara da cena, foi como se a situação cedesse.

Os primos quase desabaram em cima de Daror, que destensionou o corpo, para logo depois afrouxarem seu aperto, uma vez que esse parara de tentar libertar-se, e por fim o soltaram, para que se erguesse nas vistas da mulher.

- Faça com que se acalme de qualquer maneira – grunhiu Terair, empurrando-a em direção a Daror ao passar retirando-se da cena – se não quiser ver uma tragédia.

Daror pusera-se de pé, embora seu joelho doesse como só, enquanto Míriel se aproximava tímida e assustada. A mão ferida de tanto bater pousou sobre os ombros dela e Míriel a segurou entre as suas pela primeira vez, antes de lentamente retornarem à tenda, depois de Daror ter visto seus oponentes serem postos de pé, e acenarem-lhe ainda com raiva, mas no cumprimento dos lutadores ... Quase pusera tudo a perder, abençoado Terair.

EM SUAS MÃOS

Destruíra toda a tenda assim, em frente àquela mulher coitada?

Não era mais o Pai de uma Casa rica, não podia se permitir aquilo, admoestava-se Daror mentalmente, tentando recolocar o colchão no estrado para pelo menos sentar. Nenhum banco resistira à sua fúria, e ficar de pé nunca lhe doera tanto na vida.

Míriel adentrou a tenda com o vaso d'água e a bacia, depositando-os no chão próximo à cama onde Daror sentara, e começou a limpar-lhe o rosto.

Agora era Daror que fitava o rosto de Míriel, cuidadoso examinando o seu. O golpe de Terair caíra de cima para baixo, da esquerda para direita, abrira-lhe o supercílio e o lábio – além de que sua face esquerda amanhã seria um hematoma só, é claro.

A água da bacia logo ficou turva, tinta de sangue, poeira e suor.

Míriel comprimiu delicadamente a sobrancelha de Daror com o pano molhado, era de onde mais escorria sangue, mas não era o que mais lhe chamava atenção ... Atentava mesmo era para a boca inchada e cortada, a linda boca de Daror, a única coisa que ele tinha de bonito. Será que aqueles bárbaros queriam se certificar de que não sobrasse nada de agradável nele?

O sangramento da testa pareceu ceder, e Míriel lavou o pano com água da ânfora antes de encostá-lo no lábio ferido.

- Está doendo muito?

Daror quase lhe disse que o que doía mesmo era seu joelho ... Que praga! Terair também não precisava aleijá-lo só porque se excedera um pouco, Baatar não fora lutar contra ele obrigado.

Mas a mão esquerda de Míriel segurava seu rosto enquanto a direita aplicava a compressa, e Daror não falou nada.

As mãos dela nunca tinham estado em seu rosto.

O rosto dela nunca havia estado tão perto do seu.

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Ele nem falava de tão possesso.

Terair a havia ameaçado com uma tragédia se não o acalmasse.

De alguma forma era responsabilidade dela.

O rosto de Daror estava limpo e não sangrava mais.

- Eu ... gostaria de ajudá-lo a se acalmar ... se houver algo ...

Os olhos de Daror afastaram-se do rosto para o corpo dela, vestida com uma camisa dele, uma saia larga improvisada.

- Está muito adiantada na gravidez ... não quero precipitar o parto ... quanto mais demorar melhor. Não faz seis meses que a desposei.

Míriel mordeu os lábios finos, por isso se afastara nas últimas semanas...

A barriga estava enorme. Suas costas eram um tormento. Os atos mais cotidianos ... até caminhar tornara-se difícil.

Havia uma coisa que tinha ouvido das mulheres.

Uma coisa vil.

Nojenta.

Repugnante.

Mas Terair a havia ameaçado com uma tragédia se não o acalmasse.

De alguma forma era responsabilidade dela.

Míriel ajoelhou-se em frente a Daror, os olhos baixos, o rosto vermelho.

Daror viu-a umedecer os lábios, fechar os olhos e abaixar a cabeça, tateando com as mãos para abrir os cordões de sua calça.

Míriel o ouviu gemer. Tudo que teve de fazer foi manter a boca aberta, pois a mão dele guiou sua cabeça.

Era salgado, pegajoso ... mas a maciez molhada de seus lábios trouxe a seiva dele à sua garganta em segundos.

O pior de tudo que havia imaginado, o mais nojento ... mas ela engoliria (e que mais podia fazer?)

Era esquisito mesmo. Salgado, melado, grudento, altamente concentrado ... entretanto, sendo honesta, quando a fome da gravidez a devorara por dentro, improvisara para si mesma um mingau ainda pior e o comera.

Fizera o que estava ao seu alcance e tentou se levantar, sentindo-se sobretudo constrangida.

A mão de Daror segurou seu rosto, áspera, fazendo-a encontrar os olhos dele.

- É a primeira vez que faz isso?

Míriel quis se ofender, mas não havia malícia ou ofensa no rosto de Daror.

Era só uma pergunta.

Ela acedeu com a cabeça.

Daror tentou sorrir, mas o inchaço de sua boca transformou a tentativa num esgar.

Seus braços puxaram o corpo de Míriel para si, enquanto ele estendia o próprio corpo na cama. O rosto dela repousou sobre o ombro dele, a barriga encaixando-se contra a lateral de Daror.

Seu braço direito a envolvia, e o esquerdo estava dobrado embaixo da própria cabeça, voltada para o teto.

Daror mirava suas encruzilhadas mais uma vez.

Seu caminho estava cheio delas.

E Míriel o ouviu falar de seu Pai, do quanto lhe custaria testemunhar aquela destruição.

Do amor de sua mãe pelos jardins.

Da riqueza agora perdida dos palácios.

Alguma coisa sobre Daror lamentar não ter neste momento mais que uma tenda para lhe oferecer, a ela que fora criada em uma cidade.

Que ao longe Daror divisara a Cidade Branca de Gondor, e que gostaria que Míriel houvesse testemunhado a riqueza e a glória de sua própria cidade.

Que um dia ainda haveria de proporcionar-lhe isso.

E Míriel escutava a voz de Daror com o máximo de atenção, mas as palavras da língua comum foram-se mesclando cada vez mais às palavras do idioma de Harad, e ela só entendia que ele estava triste.

Mas se acalmara.