Queridos passageiros e passageiras,

O Olifante tem sacudido um pouco, mas espero que a viagem não esteja desconfortável para vocês ... Aqui na torre de comando, contudo, a situação tem estado meio turbulenta, razão pela qual peço especiais desculpas por todas as reviews não respondidas e pelo atraso em comentar:

O DESTINO DE MUITOSSadie Sil postou o 4º capítulo esta semana. Ai, amiga! Dessa vez o olifante da vida desembestou sem controle, e o tempo parece que escorregou do corpanzil enorme ... ainda estou procurando-o, louca de curiosidade para ver o choque de Legolas frente à modernidade, a tão aguardada e (bem) comentada participação de Celebrian, as explicações sobre os gêmeos, mas você sabe que não farei isso enquanto não puder fazê-lo devidamente, não é mesmo?

ELDAR E EDAINRegina. Ai! Que vontade de me esconder embaixo da mesa ... Perdão pelo atraso na review, acredite: estou sofrendo, sem saber como esse triângulo se estabeleceu (pois já li o fim do capítulo ... um péssimo hábito que tenho, conforme Sadie pode testemunhar)

ESTRELA SILENCIOSAKiannah ... Não vou nem tentar me justificar: perfume de romance na brisa de Rivendell e eu marcando touca, tentando apreender toda a sua poesia em fragmentos esparsos, entre os textos que tenho de estudar para as provas.

Recomendações permanentes, com as quais, graças às bençãos do Harad, consegui me atualizar, até as próximas atualizações dessas autoras fantásticas me colocarem na berlinda novamente, é claro:

HALDIR E HALETH VERSÃO REVISADA – Kwannom. Minha premiada autora de alcova é também fonte de consulta quando o assunto é fanfic ou Tolkien ... Mas continuo achando que falta mostrar o que vem depois da classificação R ...

CRÔNICAS ARAGORNIANAS - Nimrodell Lorelin ... Tremo de prazer e antecipação ao imaginar o quanto às imagens do Tolkien Group a estão inspirando ... para os capítulos finais das CRÔNICAS .... para os capítulos iniciais das histórias futuras ....

APRENDENDO - Kika-Sama –Deve estar envolvida com as provas do final do semestre, assim como eu, ou pelo menos assim espero.

IDRIL NUMENESSË – Soi, cujas provas parecem ter ido bem, na mesma medida que o computador foi mal – nossos PCs estão unidos em algum tipo de complô – com certeza vai nos brindar com uma atualização até o Natal, sua história já tem um quê da atmosfera mágica dos contos dessa época do ano..

UMA HISTÓRIA MUITO ESPERADANanda's Menelin, que quase me mata de tanto rir com sua fic-comédia perfeita, é outra que pode nos brindar com um Natal élfico ... Quem me segue nesta campanha?

No mais, Nanda inspirou uma pequena explicação que segue nesse capítulo, sob um personagem que para mim estava muito claro, mas me fez perceber que para os leitores poderia estar meio obscuro ... O capítulo, entretanto, é dedicado a Soi, que atentou para o que seria inevitável que viesse com ele.

DAROR E MÍRIEL

Capítulo IX - O Filho de Míriel

Contra o conselho de Terair, mais uma vez, Daror decidiu-se pelo Oásis de Sûr.

- O maior e mais fértil dos que restaram.

- Muito a Leste, muito próximo de Umbar.

- Medo do inimigo, Terair?

- Como está seu joelho?

Próximo de Umbar sim! A defesa do território de Sua Casa concentrada de forma a não dar espaço ao inimigo.

AS DORES

Suas costas a estavam matando, pelos Valar! Sabia que se Daror lhe desse uma surra não sentiria mais dor do que sentia agora.

Gostaria de sentir o peso das mãos dele neste momento, comprimindo aquela dor. Eram ao mesmo tempo firmes e suaves, e a ela até hoje só tinham trazido alívio.

Ai! Pelo Único! Estavam doendo mesmo aquele dia!

Não que houvesse se esforçado tanto nos dias anteriores. Daror, e mesmo as mulheres estavam lhe recomendando que sossegasse um pouco. Ficar sem fazer nada, no entanto, também era irritante, e ela realizara algumas pequenas tarefas.

Realmente ia seguir o conselho e sossegar, a dor das costas estava se espalhando em ondas pelo seu corpo.

Era aquela barriga enorme.

E a vontade terrível de se aliviar a cada meia hora. Cada vez mais infundada.

Lá ia ela outra vez.

Pelo menos dava graças de que desta vez o urinol estaria vazio: cabia às crianças um pouco mais velhas recolher o conteúdo dos urinóis de cada moradia ao amanhecer, numa carroça puxada por um cavalo velho, e carregar a sujeira para longe do oásis. Se havia uma coisa que os haradrim não faziam era jogar dejetos em sua preciosa água.

Mas as duas dezenas de meninos de Harad, cujo encontro com vida nos oásis mais recônditos de sua Casa havia aliviado o peso do coração de Daror – e confirmado sua suspeita de que os servos de Sauron não devastaram Harad sozinhos, mas sob a orientação de quem conhecia seus domínios de próximo e espionava-os há longos anos, durante as falsas negociações em que a guerra entre Umbar e Harad encontrava trégua de tempos em tempos - mostraram-se bastante arredios àquela tarefa, e a empurraram para os filhos das mulheres do norte.

As crianças vindas de Gondor também não ficaram satisfeitas com a incumbência, nem suas mães, e por conseguinte seus maridos também não.

O resultado é que não havia hora nem pessoa certa para a tarefa.

Até que Daror enfileirara os meninos lado a lado, filhos de Harad e filhos do Norte indistintamente, e os chicoteara a todos, sob o choro e a ira das mulheres seguras pelos maridos. Vendo que os meninos de Harad não choravam, entretanto, os filhos dessas também não o fizeram.

E após alguns dias de reclamações e narizes torcidos, não é que o problema se resolvera?

Em Harad, todos tinham obrigações, e Daror as faria cumprirem-nas ainda que sob o seu rebenque, pensava Míriel, lembrando-se de que desde que participara do tratamento da caça em Ithilien não ousara quedar-se desocupada nos acampamentos, por medo dele, até o ponto em que tinha de admitir que era agradável sentir-se útil, e não uma incapaz sem criada ou ama por perto...

O PARTO

Entretanto, quando Míriel chegou à tenda e levantou as saias, um líquido viscoso e grumento escorria por suas pernas.

Seus gritos atraíram as mulheres.

- Calma agora – assumiu o controle a experiente Mariän – está tudo bem, não se preocupe, vai ser rápido.

- O quê?

- Seu parto, Míriel, o bebê já está chegando.

- Como?

- Como todos os bebês, deite-se. Thanaë, água. Hellë, me ajude com ela.

- Daror? Onde está Daror?

- Vou chamá-lo – disse Thanaë.

- Já mandei meus filhos a avisá-lo – redargüiu Mariän - vão correndo e não a arrastar uma barriga, pode tratar de ficar, Thanaë.

- Se é assim.

- Hellë! Thanaë! – chamou Míriel.

- O quê? – perguntou Thanaë tomando-lhe a mão.

- Se eu morrer ...

- Sem chances – Hellë cortou rapidamente.

- Se você morrer...?

- Empurre, Míriel! Empurre!

- Ai! Ai! Ai!

- Mais uma vez! – Mariän era como um capitão comandando seus soldados. – Vamos lá, força!

- Aaaaahhhhh!

- Pode fazer melhor, Míriel.

Thanaë segurava-lhe a mão enquanto Míriel empurrava, ou melhor, o corpo de Míriel empurrava a si mesmo. Ela estava aparvalhada em terror com as horas de agonia que divisava a sua frente, mas a barriga se contraía a cada cólica, por instinto, buscando a forma de acabar com aquela dor.

- Mais uma vez! Está quase.

Míriel tomou ar para falar, explicar às mulheres que, caso morresse...

A nova onda de dor concentrou toda sua atenção em empurrar.

- Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!! – Ela não seria capaz de suportar aquilo.

- Ôooh! Eu não disse que era barriga de menino?

- Você tem um filho, Míriel

Míriel olhou para Mariän e Hellë, sem acreditar que já acabara.

- Um filho?

- Um menino grande e forte ... como Daror – disse Mariän, não conseguindo evitar uma troca de olhares com Hellë.

- Mas ... mas ... ele não está chorando?

- Não, mas está bem vivo, se é o que quer saber – Na verdade o menino soltava uns gorgulhos nos braços de Hellë, que o limpava, um meio chorinho. O que contava é que respirava bem, agitando-se como se se espreguiçasse.

- É lindo e perfeito – disse Hellë entregando-o a Míriel, que mirou o rosto enrugadinho, os dedinhos perfeitos, as unhinhas grandes.

- Eu ... não entendo.

- O quê? Ele está bem, Míriel.

- É que ... foi tão rápido.

- Abençoada seja, Míriel – riu Mariän – você é boa parideira, muito boa mesmo, só isso – a mulher mais velha aproximou-se, sentando na beirada da cama. - Poderá dar muitos filhos a Daror – disse com expressão bondosa – é melhor não se preocupar agora.

Preocupar-se? Agora? Agora que sobrevivera às dores excruciantes cuja expectativa a assombrara tanto tempo?

Excruciantes? Dores excruciantes? Dores excruciantes sentira quando seu leite empedrara e Daror quase lhe tivera de arrancar o seio fora, não agora.

Agora sentira medo. Incômodo sem dúvida. Dor? Sim, sentira dor, é claro, mas não fora insuportável.

E passara tão rápido.

Na verdade, agora sentia o seu corpo estranhamente relaxado, sonolento, quase anestesiado pelo esforço.

Olhou para a criança em seus braços e sorriu. Afinal havia sobrevivido ao parto. Haviam ambos sobrevivido. Suas preocupações, com todas as bênçãos de Elbereth e Nienna, revelaram-se infundadas.

Nunca se preocupara com o que quer que pudesse ocorrer depois do parto.

Jamais pensara nesse depois.

O FILHO EM SUA HERANÇA

O filho de Míriel, pensava Daror.

Logo lhe seria trazido.

Poderia abençoá-lo: seria tão filho de sua Casa quanto qualquer outro.

Ou poderia tomá-lo em sua herança.

Não que nesse exato momento dispusesse de nenhuma herança invejável para legar.

O parto correra bem, logo poderia tê-la prenhe de um filho seu.

Dissera-lhe no dia que a desposara "seu filho será meu filho", mas não dissera que o faria filho em Sua Herança.

Sua sentença só declarara a ela que o acolheria.

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Hellë dirigiu-se aos homens reunidos em torno da fogueira de outono. Daror aproximou-se e observou a criança.

Suas mãos ergueram o menino acima de sua cabeça.

- Eis o filho de Daror da Casa de Daror, Naraor seu Pai o chama!

Estava feito.

O SORRISO DE DESPEDIDA

Os dias ainda eram quentes, e Míriel sentara-se a uma sombra quase à beira d'água para aleitar o filho, porém longe o suficiente para julgar-se sozinha.

Quando percebeu Daror, tudo que pode fazer foi jogar seu xale sobre a cena; Naraor abriria o berreiro se lhe tirasse o peito agora.

Ele agachou-se junto dela, puxando o pano.

- É bonito, Míriel. A mãe que tem leite faz rico em filhos o pai, justifica seu dote.

Míriel enrubesceu, mas não deixou de sorrir, ainda que as palavras lhe parecessem grosseiras.

De repente ela viu, Daror também sorria para ela.

Um sorriso belo, alegre.

Não era só a boca que sorria, os olhos também, todo o rosto, era um sorriso que vinha de dentro, um encantamento.

Daror tinha um sorriso irresistível ... um sorriso de menino.

- O que foi? – ele sorriu ainda mais.

- Você está sorrindo

- E o que é que tem?

- Nunca o tinha visto sorrir.

Daror sentara-se em frente a ela, os pés no solo, os joelhos no ar, apoiando os braços.

Daror olhou para o chão.

Quando levantou os olhos não sorria mais.

Míriel mordeu o lábio.

- Acabamos o plantio e a instalação das defesas – falou ele.

- Ah sim? – não se sentia muito interessada na verdade, meio que se alienara no último mês, voltada apenas para aquela criaturinha ávida que simplesmente tomara conta de sua vida.

- É, vamos seguir depois de amanhã.

- Seguir? Pensei que iríamos ficar aqui, não é a terra de Sua Casa?

- Vocês vão ficar, é claro, mas eu parto com nossos filhos para prosseguir até a necessidade da última Casa, foi a sentença que pronunciei.

- Mas ... mas os outros Senhores permaneceram em suas terras quando a marcha para o sul prosseguiu.

- Sou o Pai de Harad, Míriel, não posso me preocupar só com a minha Casa como os outros.

- Mas, Daror, Terair diz que estamos muito perto da terra dos corsários. Se você for embora com os homens, quem nos protegerá?

- Ao menos de filhos minha Casa ainda é a mais rica, mulher, por mais que eu leve comigo, muitos ainda ficarão, mais que suficientes.

- Mas, se você se vai, quem os comandará?

- Terair, que já fez mais sacrifício que todos de lá para cá, fica a comandar.

- Terair? – Se havia alguém de quem Míriel sentia mais medo do que já sentira de Daror, esse alguém era Terair. Velho, severo, rijo como o aço que bailava em suas mãos. Terair, cruel e sanguinário, que não temia nem a Daror.

- Mas ... discutem o tempo todo, nunca parecem estar de acordo.

Daror acedeu com a cabeça, uma expressão que mesclava várias emoções em seu rosto: riso, tristeza, preocupação, melancolia ... carinho.

- Meu Mestre é o homem mais velho do Harad, mais velho até que Hamur ou Calépsir, mais velho do que era meu pai ... sobreviveu aos seus filhos, sobreviveu às suas mulheres, à Raor, Ravai ... ao Harad que conheceu e a praticamente tudo que amou ... Não lhe resta muito apego pelo futuro, está sempre na linha de frente da batalha, e gostaria de conduzir todo o Harad à morte do guerreiro, arremetendo contra a vingança que Gondor nos espoliou, florzinha, ao invés de rumar em direção a um futuro que será diferente de tudo que foi ... de todas as tradições que defendeu ... Mas a maior de todas as tradições é a obediência ao Pai, e Terair zelará como nenhum outro pelo cumprimento de minhas sentenças.

Ante as palavras de Daror, de sede de vingança de Terair contra Gondor, de sua fome de batalha, entretanto, os olhos verdes de Míriel se arregalaram de medo, ao mesmo tempo em que se enchiam de pena. Pena da nostalgia que transparecera nas palavras de Daror. Medo de ver-se sob o jugo vingativo de Terair.

Os dedos grossos de Daror recolheram as lágrimas de Míriel e ele as olhou absorto durante algum tempo, avaliando-as.

- Não precisa chorar. Recomendei o seu bem estar a Terair especialmente, e nada a atingirá sobre a proteção dele, que é a minha proteção: Daror falou. – sentenciou o Pai da Casa levantando-se e erguendo a mulher que terminara de amamentar seu primogênito.