Queridos Amigos,
Depois de duas semanas de desventuras e atribulações nada tolkenianas, só resta confessar-me total e vergonhosamente desatualizada .... mas como não estava mais agüentando as saudades de Arda, e confio plenamente no taco das minhas autoras de fé, sem mais delongas entrego-lhes o novo capítulo de Daror e Míriel, antes que o olifante perca o rumo de vez, mantendo as recomendações acima de qualquer suspeita de:
O DESTINO DE MUITOS – Sadie Sil
ELDAR E EDAIN – Regina Botori.
ESTRELA SILENCIOSA – Kiannah
HALDIR E HALETH VERSÃO REVISADA – Kwannom.
CRÔNICAS ARAGORNIANAS - Nimrodell Lorelin
APRENDENDO - Kika-Sama
IDRIL NUMENESSË – Soi
UMA HISTÓRIA MUITO ESPERADA – Nanda's Menellin
DAROR E MÍRIEL
Capítulo X – Harad Adentro
AS CASAS DO HARADWAITH
E Daror acompanhou a própria sentença, e esteve entre os que percorreram todas as 12 Casas de Harad até a necessidade da última.
Cassor e Nássar ao Norte, ou Harad Próximo, seguidos da Casa de Calépsir, na fronteira Leste com Khand.
Hamur e Daror no Oeste, próximas ao mar, e Adatar no Sudeste, fechando a fronteira com Khand, formavam o Médio Harad.
Adatar, Dafér e Tarick, as extensas Casas do Haradwaith, o cinturão de Harad, que guardavam o deserto profundo, seco e mortal, onde entretanto estavam as minas que faziam a riqueza daquele povo.
Damahar, Dillin e por fim Ruhir, fechando a fronteira com o Extremo Harad do povo negro.
No Haradwaith inóspito a invasão dos parcos oásis não deixou chance a sobreviventes. Mas Daror comandou Murdug com afinco no trabalho de recuperação dos açudes. Não haviam sido envenenados, apenas receptáculo de corpos carbonizados agora apodrecidos e poucos escombros – pois não possuíam muitas construções. - Naquelas paragens não havia um segundo ou terceiro oásis pelo qual optar, a única possibilidade era a recuperação dos que existiam e os haradrim mergulharam na água insalubre para retirar as centenas de corpos ... pedindo à clemência de Harad chuva nas cabeceiras que pudesse renovar os oásis de que todas as Casas necessitariam quando fossem buscar a reconstrução de sua riqueza.
Impossibilitados de atravessar o deserto, entretanto, os orcs de Sauron haviam destruído com veneno a linha de oásis de Damahar a Leste que possibilitava a ligação do Harad Sul com o Médio Harad. Não havia uma só fonte capaz de sustentar vida por semanas de marcha sob um sol que ali brilhava como no deserto profundo.
A outrora bela terra de Damahar quase serviu de túmulo à marcha de retorno dos haradrim, mais e mais desesperados a cada oásis alcançado, onde a água envenenada brilhava cristalina aos olhos dos homens, mesmo entre os cadáveres de animais às suas margens.
A LIGAÇÃO DESTRUÍDA
E Damahar se fizera Pai de sua Casa com a morte de seu irmão Damar no Pellenor, sendo também jovem, e gritou e praguejou ao ver a cada dia a devastação da herança de seu clã, cada vez mais impotente ante a ausência de futuro que se anunciava para sua Terra, até que por fim também quis bater-se, e Daror o abraçou:
- Poupe a água de sua vida, meu primo.
- Lute comigo, Daror – disseram-lhe os lábios gretados. - Mate-me e tome meus filhos, pois minha terra não tem mais como alimentá-los.
- É a terra de minha mãe, filho de meu tio, e será defendida nem que Harad precise atravessar o deserto para abastecê-la.
- O Harad é um Pai inclemente, Daror, não ampara os erros de seus filhos ... Minha Casa errou ao afastar seus filhos de nossa terra para lutar no estrangeiro, embora meu pai, minha mãe e minha tia tenham morrido na emboscada. Abandonamos nossa terra aos inimigos naquela ira, e Harad não perdoa.
- O erro não foi de sua Casa, Damahar. Quem conclamou Damar à luta foi Daror. Quem exigiu todos os homens para aquela aliança maldita foi Daror. Não fujo da minha dívida agora.
- Nosso Pai foi morto, Daror. Damar teria partido mesmo contra a sentença de Daror. E seguindo Damahar! Lembro agora da impaciência com que sempre estava na Casa de Daror, a cobrar a marcha contra o povo do Norte. Tudo parecia tão mais fácil quando eu era só um príncipe e capitão de meu irmão. Queria ter morrido no lugar dele.
- Ninguém foi mais impaciente e imponderado que Daror, que cavalgou sozinho com Sua Casa ao saber do assassinato de Raor ... só a febre de morte trazida por aquele frio maligno me fez retroceder já além do Harad e deixar as outras Casas compartilharem da vingança ... Nunca me dei à reflexão de duvidar daquela armadilha! Comprometi o Harad inteiro em uma aliança vil, com emissários torpes, levei nosso povo a marchar com algo que a todos repugnava, só pensava em sangue desde que assumi minha Casa, e sabe porque Damahar? Porque era mais fácil ser um príncipe que ser um Pai! Agi como um capitão, esquecido que agora carregava a responsabilidade do Senhor. Deixei que estrangeiros me dissessem o que fazer, convencido de que era minha decisão só porque era sentença que emanava da minha boca. Se alguém deixou a Casa de Minha mãe à mercê fui eu, e vou soerguê-la Damahar, vou soerguê-la, mas agora precisamos continuar, precisamos de água, não temos mais reserva para percorrer o caminho de volta.
Mas finalmente, quando os exércitos de Harad chegaram a Dillin e Ruir, encontraram água e alegria, pois nas duas últimas Casas do Sul, os oásis e as famílias estavam intocados.
AS CASAS INTACTAS
Dillin e Ruir então abraçaram Daror, por ter lhes dado garantia para sua necessidade, e abraçaram Damahar, concordando de abastecê-lo para sua própria defesa.
- Sua Casa se fará muito rica, Dillin. Suas belas filhas são sangue puro de Harad ... Muitos guardaram sua riqueza exatamente nessa esperança. Mesmo as viúvas dos filhos que você perdeu no Norte alcançarão um alto dote para sua Casa.
- Ah! E valem mais que aquelas mulheres do Norte que você nos quis empurrar Daror! Nem me venham com menos que seu peso em ouro! Não é assim agora?
- Valerão mais! Mas precisa garantir a linha de Damahar, para que os haradrim possam ir e vir para cá.
- Sempre esperto, Daror. Sempre comprometendo as Casas de Harad com a garantia umas das outras. – Gargalhou Ruir.
- Ai Ruir! E estou a falar algo que não está bom?
- Não Daror. É que o conheci como campeão de Raor, e depois como Pai de Guerra de Harad. Quem olha para o grande Daror, sempre enxerga o guerreiro, mas tenho observado algo mais.
- Será o filho de Raor um sábio? – caçoou Dillin.
- Quer um embate com Daror para verificar? – riu Daror.
- Não sem Terair por perto para controlá-lo, filho de Raor – gargalhou Ruir mais ainda – quase que o seu propósito de Harad unido tropeça em você mesmo.
- Não é um propósito para mim, é um propósito para Harad. Agora que Ruir encontrou sua Casa em ordem, quer desfazer da garantia das outras Casas?
- Ao contrário, quero honrar essa aliança. Desposarão as filhas de Minha Casa os homens que vieram pela necessidade dela, é essa a minha sentença.
- Ah! Agora vimos quem é sábio aqui, e também justo. Bela sentença.
- Ruir era primo terceiro de sua mãe, Daror. Ravai, a bela do Sul. Chamei minhas filhas para virem a Dillin e dançarem nossa tradição, já que aqui encontramos tempo de festa e não de labuta. Escolha uma noiva de Harad para você, Daror meu sobrinho. Não há necessidade de ficar com aquela mulher do Norte, dê-a a outro. Sua aliança é o dote do mais alto valor para mim.
E no vinho, as palavras de seu tio Ruir ficaram na cabeça que Daror finalmente podia desviar, vendo o Harad tomar rumo.
Mas à noite a dança das beldades do Sul confirmou sua escolha.
Estavam alegres e afogueadas. Eram dispostas e frenéticas – embora quem houvesse crescido vendo a dança de Ravai e depois de Darai soubesse que eram apenas dançarinas, e não guardiãs da tradição.
A essência da arte que podiam apresentar era tão somente seu entusiasmo. O que aquela altura estava bom para todos.
Menos para Daror.
Daror que fitava os cabelos negros sobraçados por todas.
Daror que esperava divisar o rosto de Darai em cada face morena que se lhe virava.
Daror que viu em vários corpos o corpo de sua irmã, seus braços, suas pernas, seus quadris.
E lembrou-se do seu cheiro, e ouviu sua voz na cabeça.
Daror que soube que não ousaria dormir aquela noite, porque teria medo de seus sonhos.
