EU, TU E VOCÊS.

Intrépidos passageiros,

Antes de mais nada, um Feliz Natal e um melhor 2005 para todos

Aos trancos e barrancos nossa aventura agora vai avançando ... pelo idioma de Harad.

A única palavra da qual tenho conhecimento que Tolkien nos legou deste povo é "INCANNUS", nome pelo qual Gandalf disse ser conhecido no Sul, entretanto, acredito que Harad, mûmak e mûmakil, assim como Umbar (que originalmente era sua capital), também são palavras de origem haradrim (sim, Soi, todas as analogias levam a crer que o Harad de Tolkien correspondia à África do Norte dos povos árabes, fronteira sul da Terra Média temperada que em contrapartida representaria a Europa Ocidental - sendo os Hobbits do Condado, ao seu Norte, como o próprio mestre admitiu, o espírito da Inglaterra rural ... Cabe acrescentar que, à época do professor, a imagem de tal lugar ensolarado, misterioso e distante devia estar mais próxima das Mil e Uma Noites e da tradição histórica de sua ciência e poesia, que da imagem sempre crítica e pejorativa que a mídia veicula hoje em dia).

Onde eu estava mesmo? Ah sim! Idioma! Pois é, outro espaço vasto para a nossa criatividade ... ou incompetência, no meu caso. O fato é que não quis diferenciar a língua comum da de Harad através de aspas ou itálico, primeiro porque acredito que as famílias em seu cotidiano vão misturar muito as duas, segundo porque precisava sentir, vivenciar essa língua, pensar nas características que deveria ter para refletir o caráter do povo que se vale dela. E me esbodegar nessa pretensiosa tentativa, óbvio.

Assim sendo, enquanto na língua comum o tratamento informal é "você" (enquanto o formal seria "Senhor" ou "Vossa Senhoria, Alteza ou Majestade"), na língua direta de Harad o informal é o "tu", e o formal, que os Senhores usam entre si, é o "Você" (derivado do "Vosmecê", derivado de "Vossa Mercê", ...). Qualquer conversa entre os haradrin nos capítulos anteriores que pareça fora desse esquema é falha minha ... a não ser que se trate de uma conversa entre personagens que têm intimidade, como Daror e Terair, pupilo e Mestre, ou como a que vocês verão daqui a pouco entre Daror e um seu simples soldado, Raanat: representam momentos em que Daror não está na posição de Pai da Casa ou Patriarca de Harad, mas de jovem ou amigo.

É nessas horas que a gente se arrepende de nunca ter estudado Português direito, e eu devo ter cometido vários atentados à segunda pessoa do imperativo (e como esses belicosos usam o imperativo!).

Outro detalhe é que o pronome reto da 1ª pessoa quase não é usado, revestindo-se de grande ênfase ou solenidade nessas ocasiões (embora existam frases flexionadas na 1ª pessoa), a preferência é que as pessoas se refiram a si mesmas usando o próprio nome – rústico, não? – De qualquer forma é algo que as crianças fazem constantemente, e esse capítulo é marcado por recordações de Daror e Darai entre a meninice e a adolescência (há três anos de diferença entre eles, se Daror está entre os treze e os quatorze, Darai têm dez para onze anos), a maioria dos erros então pode ser atribuída à pouca idade dos dois, certo?

É um capítulo sem muita ação(Aliás, Dona Nimrodel, não vamos tocar tão fundo em questões geopolíticas nesta fic, esta bem? Deixe esse assunto para suas improváveis continuações, ok?), mas com uma certa pimentinha , espero que todos gostem como eu gosto de:

Estrela Silenciosa by Kiannah – Novo capítulo, cheio de ação, foi lançado no Dia de Natal

Tributo à Saudade, A Melodia de Arwen e Cento e Dez Dias O fio da Esperança by L. Eowyn – Um presente para sempre, garanto a vocês.

Sozinho e Haldir e Haleth Versão revisada by Kwannom - Esta última vencedora do segundo lugar na categoria melhor história de autor de língua não inglesa (English Second Language), no MPA 2004.

O DESTINO DE MUITOS by SadieSil – Dispensa comentários

Idril Númenessë by Soi – Vale conferir.

Crônicas Aragornianas by Nimrodel Lorellin – Estou desconfiada de que o último capítulo seguiu em demasia a influência angst de Sadie ... mas a história continua absolutamente imperdível

Eldar e Edain by reginabernardo – Regina pôs a fic " EM PROCESSO DE REVISÃO", e na verdade recomeçou tudo de novo, sob a orientação de Kwannom. Ótima oportunidade para acompanhar desde o começo.

UMA HISTÓRIA MUITO ESPERADA by Nanda's Menelin – Cura qualquer ressaca ... a gargalhadas.

Aprendendo by kika-sama – Kika, onde está você?

DAROR E MÍRIEL

Capítulo XI – O Caminho do Retorno

- Êh Daror, vai para as torres e dorme, deixa que levo Murdug – chegou Raanat, sentando-se na cabeça do mûmak, ao lado de Daror.

- Quê? Ah Raanat, não estou cansado.

- Parece que não quer dormir! Poupa forças para tua flor do Norte, são só mais três dias.

- E tu? Não precisas de poupar forças também? Também não tens uma flor branquinha esperando por ti no Sûr?

- Ah sim! – Os olhos de Raanat brilharam - e um filho a esta altura. Embora nossas primas do Sul quase me tenham tirado do sério.

- Ruhir também tas ofereceu? – sorria Daror.

- Não. Um homem que tem de repudiar a mulher para casar só é bom genro se é o Pai de Harad – sorria mais ainda Raanat – E eu não repudiaria Hellë. Não repudiaria minha flor risonha, acabei agradado da doçura dela... nossas primas são belas e tem a cintura fina, mas não são doces, não da forma dessas mulheres do Norte. Tua Míriel também não é doce, Daror?

Daror pensou antes de responder. Podia ser que sim. Podia ser que ela fosse doce e suave como a palma da mão dela em seu rosto, como seus lábios ... Se ela fosse doce para ele, Daror lhe voltaria o seu favor ardente ... mas com todo o cuidado ... todo o cuidado que aquela florzinha delicada precisava para não ser machucada, para que suas pétalas não fossem maculadas ... não era como as mulheres de Harad, mais rijas... como Darai ...

- Êh Daror, não disse que estais dormindo? Toca para as torres, vamos.

Raanat tinha razão, já mal conseguia manter os olhos abertos ... e estava com tanto sono que nem sonharia mais nada ... ia dirigir o pensamento para a flor do Norte, e, se tivesse de sonhar, sonharia com aquela pele alva como uma pétala de flor.

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Uma pétala de flor branca e perfumada, uma pétala de jasmim, a flor de jasmim que estava percorrendo o corpo deitado na grama, à beira do pequeno oásis, o corpo tão jovem, ainda ganhando as primeiras formas.

- Teus biquinhos ficaram duros e vermelhos, Darai.

- E tu também não estás duro?

- Passa a mão que tu vais ver.

- Não vou passar a mão em ti, Ramur.

- Ora vamos Darai, só um pouquinho.

- Não foi o que combinamos

- Ai prima, daqui a pouco vou-me embora de sua Casa com meu pai...pode-se passar muito tempo até que Ramur volte, me conceda o seu favor.

- Não tem favor nenhum – Darai afastava o menino, mas seus olhos riam enquanto ele tentava segurá-la. – E assim não brinco mais contigo.

- Vou-me embora amanhã ... vou para as minas buscar ouro para teu dote, prima, quero casar contigo.

- Tu és um fedelho, Ramur, teu Pai vai é te deixar em casa antes de seguir para as minas, me larga.

- Ai, mas tu não ias gostar de casar comigo? Vamos nos passar as mãos, só isso.

- Não vou me casar com um fedelho, e nem vou passar as mãos em ti.

- Ah não?! – Ramur já tinha a mão dela sobre si – veja, não sou mais um fedelho.

- É sim, é sim – ria Darai – é pequenininho.

- Tu também és pequenininha hoje, Darai, mas nós dois vamos crescer e Ramur vai ao deserto buscar muito ouro para o teu dote.

- Vai ter de ser muito ouro mesmo, para me fazer casar com um fedelho como tu.

- Agora deixa eu passar a mão em ti, Darai.

- Não.

- Deixa, Darai – as mãos do menino lutaram com as dela, mas foi com facilidade que as prendeu, como se a prima não houvesse resistido de verdade.

- Não! Tira as mãos de mim!

- Larga minha irmã, Ramur!

- Daror! Que estás fazendo aqui? – Darai pôs-se de pé, colocando rapidamente a blusa, os cabelos ainda molhados encharcando o pano, enfiando de qualquer jeito a calça e as botas.

- Vamos para casa, ainda estás muito nova para esse tipo de brincadeira. E tu some daqui, Ramur.

- Ai Daror, larga meu braço! – bradou Darai em ira – Para de me perseguir. Não tenho culpa se estás tão feio que nossas primas não querem mais brincar contigo.

- Quem não quer mais brincar comigo? Semana passada mesmo...

- Semana passada Daror esteve aqui com Nitá, e ela disse que tu a machucaste.

- Não machuquei não! Nitá é que não quis brincar como combinamos.

- Claro! A prima disse que Daror ficou enorme e ...

- Nitá está se fazendo de mais boba do que é se diz que pensava que Daror ia continuar pequeno encostado na entrada dela...

- Daror grande, bobo e desajeitado! Ninguém quer brincar com ele!

- Mentirosa! – altercavam os irmãos tocando as cabras de Raor de volta para Or.

- Grande e bobo! Grande e bobo! Bruto!

- Daror é forte, não é bruto!

- Machucou Nitá! As primas não querem mais brincar com ele ... lálálálálá!

- Cala a boca! – gritou Daror agarrando a irmã pelos dois braços e sacudindo-a.

- Solta meu braço! Solta, ou conto para o Pai que tu queres de mim o que as primas não querem contigo.

- Sua cobra mentirosa! Não quero nada contigo, sou teu irmão – largou-a Daror rapidamente, mas em seus olhos desespero ... ele não a queria, não a queria ... era seu irmão, não podia ...

- Então pára de me vigiar e me seguir e me observar escondido, bobão.

- Boba és tu, és muito nova, o Pai que manda protegê-la.

- Darai sabe se proteger, Daror, cuida da tua vida, vê se é menos afoito com as primas, que estás muito bruto e pesado.

- Daror não quis machucar Nitá, quando viu que a prima realmente não queria soltou ela.- Darai tinha o dom de transtorná-lo de um jeito ou de outro, irritá-lo bem naquilo que mais o incomodasse. Pensara que Nitá estava só fingindo, até ver as manchas vermelhas que suas mãos haviam deixado nos braços morenos, dissera-lhe que não pretendia machucá-la e que a compensaria, a prima não precisava ter ido queixar-se às outras, queria muito bem a todas elas, mas estavam lhe fazendo cara feia agora ... à sua maneira, eram as meninas que comandavam aquela brincadeira, e o primo que não brincasse direito com uma decaía do favor de todas.

- Darai sabe – mas eles eram grandes camaradas afinal, e voltaram a tocar as cabras juntos – mas é que precisas saber que o embate com as primas é diferente, e às vezes tu não controlas tua força; quase arrancou meu braço agora.

- Darai mereceu, sou o mais velho, tem de me respeitar.

- Mas é um grande bobo, só tem tamanho – troçou a irmã, socando-lhe alegremente as costas, até que ele sorrisse. – Nunca vai muito longe sem mim.

- Bobona – empurrou-a afetuosamente Daror.

- Quando fores o Pai de Harad, serei tua conselheira – disse a menina levantando-se com os negros olhos risonhos.

Mas o par de olhos iguais não sorriu.

Darai queria era mandar nele, como achava que mandava em Raor.

Mas não mandava não

E não mandaria nele também

Aquela cobrinha cruel que lhe picava o coração.

Estava cheia de valentia agora.

Bem diferente de um ano atrás, quando Raor aparecera no quarto de Daror com a filha no colo.

O menino levantou sobressaltado, que havia ele feito agora?

- Pronto filha, dorme esta noite com teu maninho a zelar por ti, que amanhã já falei com tua mãe e o assunto está encerrado – dizia o rei passando a menina relutante para os braços do irmão.

- Não pai, quero dormir contigo – chorava ela.

- Já disse que não, oras que cheia de vontades. Daror aqui cuida muito bem de ti, certo filho?

- Sim, Pai – acedeu o menino com a cabeça, já com a pequena nos braços.

- Agora pára de chorar e dá um sorriso para teu pai, vamos.

Mas Darai virou a cara para Raor, enterrando o rosto no pescoço do irmão, a malcriada.

- Quê foi que houve afinal? – Perguntou Daror à irmã que depositara na cama à saída de Raor.

Fungando e chorando, Darai contou que, ao saber que fora ela que raspara a cabeça do irmão, a mãe dissera que lhe faria o mesmo.

Por um átimo de segundo Daror sorriu, pronto a empunhar a tesoura e aterrorizar a irmã; mas Daror era sobretudo um menino justo, e logo declarou:

- Mas a idéia foi minha.

- Eu falei para a mamãe – soluçou Darai, realmente desesperada, levando o irmão a finalmente acreditar em suas lágrimas desta vez.

- Êh boba, o pai já não disse que vai falar com a mãe? Isso é ira que Ravai já esqueceu amanhã.

- Tu achas? – fungou Darai.

- Aquieta tonta – riu Daror tirando a camisa. – Toma, assoa o nariz – disse esfregando-lhe o pano na cara – Nossa! Mais barulhenta que Murdug. Como irias dançar ao lado da mãe para os convidados do Pai sem teus cabelos?

- Darai disse que a mãe não ia gostar dessa história – falou a menina recostando-se no ombro do irmão para dormirem a pensar no argumento, ambos já bocejando.

- Mas nem ia querer raspar o teu cabelo também, nem o pai deixaria fazer isso, bobona.

- E tu? – perguntou Darai sabida, garantindo-se na natureza protetora do irmão que ela sabia utilizar muito bem quando era do seu interesse. – Deixarias?

- Pois o Pai não me incumbe de zelar por ti? Claro que não deixo.

- É bom mesmo, que essa história toda foi idéia tua – sentenciou a menina definitivamente sonolenta após tantas emoções dos últimos dias.

Desaforada, sorriu Daror afastando os cabelos da testinha suada de agonia da menina. Estava tão assustada que resolvera de chupar o dedo: ah! Quisera só que Raor visse sua Tempestade Indômita agora!

Mas a maninha era mesmo mimosa, reconheceu Daror, tirando-lhe o dedo da boca e beijando-lhe a testa, e ele não deixaria que nada nem ninguém lhe fizesse mal.

Os braços de Daror eram um leito de segurança, e a semi-adormecida Darai retribuiu-lhe com um beijinho ainda úmido de saliva.

Saliva que molhou o canto da boca de Daror, e umedeceu os sonhos do corpo dolorido mas vitorioso do menino-rapaz naquela noite, e em tantas outras, por mais desesperadamente que ele buscasse um novo sonho para sonhar.

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NOTA DA AUTORA: Essa última cena nasceu de uma troca de idéias com Soi, portanto é dedicada a ela.