Como tudo na minha vida, esta atualização está atrasada. Posto então dois capítulos de uma vez. Na verdade, junto com o capítulo antecedente, formavam todos um só, mas cada parte trazia enfoques diferentes dos acontecimentos ligados ao retorno de Daror para o Sûr, e eu queria que pequeninos detalhes não se perdessem, mesmo sabendo que a paciência de todos para com os desencontros entre Daror e Míriel tem limites.
O que não tem limites é o talento demonstrado em:
Estrela Silenciosa by Kiannah – Ação e emoção dominam a história de nossa sofrida estrela neste momento, e atormentam o coração de um certo gêmeo...
Tributo à Saudade, A Melodia de Arwen e Cento e Dez Dias O fio da Esperança by L. Eowyn – Um presente para sempre, garanto a vocês.
Sozinho e Haldir e Haleth Versão revisada by Kwannom - Esta última vencedora do segundo lugar na categoria melhor história de autor de língua não inglesa (English Second Language), no MPA 2004.
O DESTINO DE MUITOS by SadieSil – Proibida para quem sofre de problemas cardíacos.
Crônicas Aragornianas by Nimrodel Lorellin – Quando é má, é pior que Sadie ... Nunca vi ninguém fazer o que ela fez com seu próprio personagem ... só nos resta preparar os corações e os lenços para os derradeiros capítulos.
Eldar e Edain by reginabernardo – Regina pôs a fic " EM PROCESSO DE REVISÃO", e na verdade recomeçou tudo de novo, sob a orientação de Kwannom. Ótima oportunidade para acompanhar desde o começo.
UMA HISTÓRIA MUITO ESPERADA by Nanda's Menelin – Cura qualquer ressaca ... a gargalhadas.
A MEDALHA by Gybi - Está conseguindo fundir magá com SdA de forma insuspeitamente verossímil.
Aprendendo by kika-sama – Kika, última chamada.
DAROR E MÍRIEL
Capítulo XII – O Retorno dos Homens - Parte 1
HELLË
- Os homens estão chegando! Míriel, os homens estão voltando! – cantava Hellë, entrando na tenda para avisar a amiga.
- E eu já não sei? – Míriel terminava de pentear os cabelos ainda molhados ao olhar para Hellë.
- Nossa! Que vestido lindo, tão claro e verde quanto seus olhos. Daror vai ficar embevecido.
As duas se olharam. Subitamente Hellë começou a rir: embevecido não era o tipo de palavra que combinasse com o Grande Daror ... Nem com os homens que estavam voltando com ele agora, depois de tantos meses no deserto.
- Seu vestido também é lindo, Hellë. Mas do quê está rindo?
- Ai, nada! – Hellë imaginava que o fino vestido de Míriel resistiria muito pouco à chegada de Daror ... era uma pena, um lindo vestido de seda. Então pensou no seu pobre vestido de algodão azul, tão estufado em seus seios. – Acho que esse vestido me engordou ainda mais.
- Oh não, Hellë, você emagreceu muito, está mais magra que antes da gravidez, seus seios só é que ainda estão cheios de leite.
- Ai, e se Raanat não gostar?
- Mas é bonito, Hellë, a mãe que tem leite faz rico em filhos o pai, justifica seu dote.
- Assim espero. Eu sou pesada, Raanat pagou um alto dote por essa lavadeira.
- Dizem que ele não tirava os olhos de você naquela noite.
- E eu nem podia acreditar, fiquei com um sorriso parvo a noite inteira ... as outras eram tão lindas, estavam tão arrumadas, ricamente vestidas, começaram a ser escolhidas e eu ficava lá na carroça, rindo de nervoso imaginando o ridículo de voltar sozinha para Minas Tirith, como um refugo, uma mercadoria que ninguém quer ... quando havia rapazes tão lindos como Raanat sorrindo para as outras moças ... olhos negros, dentes brancos, cabelos cacheados ... e de repente ele estava na minha frente, rindo para mim ... a minha boca doía de paralisada naquele riso idiota...e ele não parava de sorrir para mim também ... eu comecei a rir histérica, não sabia onde enfiar a cara, queria que um buraco se abrisse no chão e me tragasse de tão estúpida que me sentia ... e aí, Míriel, ele tomou meu rosto nas mãos e me beijou, de língua e tudo ... e eu nunca me senti assim ... tão feliz e tão envergonhada em minha vida ... Quando o beijo terminou, ele simplesmente olhou nos meus olhos, bateu em seu peito e disse "Raanat" e apontou para mim olhando nos meus olhos ... e eu respondi "Hellë", e ele repetiu "Hellë", e sorriu e me beijou de novo, pegou minha mão e me trouxe para ser sua esposa.
Os olhos de Hellë brilhavam. Como as coisas podiam ser ... simples, pensou Míriel. Raanat e Hellë nem sequer falavam a mesma língua, e isso não foi empecilho nenhum ao seu entendimento.
Mais que entendimento, felicidade ... era encantador vê-los juntos ... Mas também, Hellë era encantadora, sempre sorridente, mesmo nas horas de labuta pesada, que ela não temia, à qual se entregava com a mesma alegria com que se entregava a qualquer outra atividade ... mesmo na hora do parto.
Que diferença entre elas duas. Hellë tivera seu filho rindo, chorando de dor mas rindo, feliz, tranqüila, obediente aos comandos de Mariän, sem gritos, sem temores.
E dois dias depois estava de pé, ajudando Mariän no próprio parto.
As coisas eram tão fáceis para Hellë, ela parecia tão feliz. Míriel gostaria de ser assim, gostaria de ... bem ... se não pudesse ... se não tivesse aquela capacidade de ser feliz ... poderia ... deveria ... tentar que Daror ao menos fosse ... ele também era simples, os haradrim eram simples, ele seria fácil de fazer feliz ... pedia tão pouco na verdade
Gostaria de não ser tão complicada.
- Será que você podia ... oh, desculpe, Míriel. – Hellë sorria, vermelha não só do sol, mas genuinamente ruborizada.
- O quê? Por favor, fale – disse Míriel, vagamente recordando que já ouvira palavras semelhantes dirigidas a ela, numa entonação cheia de compreensão e calor.
- Ai, Míriel, desculpe, é que todas estão tão enfeitadas, e são tão belas, não quero que Raanat se decepcione de me ver tão ... despossuída. Pode me emprestar seus prendedores de prata, se não for usar?
- Oh, Hellë. – Sorriu Míriel, tocada pela humildade da outra ... sempre tivera tantos enfeites e vestidos ... nunca lhe ocorrera como seria não ter um prendedor de cabelo. – Sente-se aqui, deixe-me ajeitar seu cabelo.
- Ah não, Míriel, de jeito nenhum.
- Por favor!
- Não! Eu sei que é um abuso ... você é uma dama de família nobre, é esposa do Pai de Harad ... não deveria nunca ter tomado essa liberdade.
- É a única que toma liberdade comigo, é a única que me trata como amiga, por favor, deixe-me pentear seu cabelo, sente aqui à minha penteadeira, em frente ao espelho de mesa. – Empurrou-a delicadamente Míriel para que tomasse assento no banco, já correndo o pente nos lisos e grossos cabelos cor de mel de Hellë.
Míriel não só prendeu-lhe o cabelo com seus pregadores de prata trabalhada, como também fez Hellë aceitar que lhe emprestasse seus brincos e seu colar de prata e pérolas.
- É tudo um conjunto. Não pode usar uma coisa sem usar a outra.
- Você me fez tão bonita, Raanat há de se agradar, mas prometo que devolvo tudo intacto, farei com que ele tenha cuidado.
Os olhos de Hellë brilhavam à menção do nome do marido.
A Míriel pareceu que Hellë era a mais rica das duas.
O ABRAÇO DA MULTIDÃO
Hellë fez questão de também arrumar o cabelo de Míriel, prendendo-lhe as mechas refulgentes no alto da cabeça. Mal conseguia conter a própria ansiedade, mas insistiu em aguardar que Míriel se arrumasse:
- Mas tens de enfeitar-se também, e por tuas jóias, ora tem graça!
Quando Míriel e Hellë saíram da tenda, os homens já estavam acabando de desmontar. Muitas mulheres já se afastavam com seus maridos, para longe do aglomerado de familiares e amigos que cercavam os recém-chegados.
A figura de Daror sobressaía-se enquanto Míriel avançava, puxada pela mão de Hellë. A dama da cidade alta estremeceu. Como pudera esquecer quão alto e forte ele era? Quão enorme era Daror? Simplesmente tivera em mente um outro Daror todos esses meses ... o Daror agachado ao seu lado, para vê-la amamentando, o menino que lhe sorrira aquela tarde no oásis, não esse gigante ...
Daror ouvia as pendências dos homens, que já discutiam as providências que deveria tomar, enquanto seus olhos a procuravam ... nem viera saudá-lo?
De repente Míriel o viu, o sorriso, o sorriso de menino estava lá, olhando para o sonho pelo qual tanto ansiara, encarnado na mais linda das formas.
Nossa! Era bonita mesmo: uma verdadeira flor de caule verde delgado, longas mangas como folhas, os cabelos eram pétalas do mais puro ouro, o rosto um miolo branco e róseo, com duas gotas de esmeralda, e uma boca da cor da rosa cor-de-rosa, da qual Daror queria sugar todo o néctar doce.
Mas aos poucos o sorriso se desvaneceu ... Daror era um leão, e não um passarinho para recolher o néctar daquela flor delicada ... Ele era um bárbaro porco, um bruto e um monstro, que nem saberia se acercar de uma fada tão frágil como aquela ... que parecia plantada no chão esperando ser colhida suavemente ... inerte ante a ele ... pacientemente aguardando que todos os problemas de sua Casa fossem depositados nos ombros de Daror de novo.
Pensara tanto naquele momento, quase ... quase ansiara por ele, imaginando o que diria ao seu esposo. Que lhe era grata, que desejava ser uma boa esposa para Daror, que reconhecia suas qualidades e sua paciência.
Tudo que conseguia era ficar ali parada, paralisada de timidez entre todos aqueles homens, temerosa ainda e mais uma vez do tamanho daquele gigante que, entretanto, até agora, à sua maneira, fora sempre tão gentil a ela, tão atento ...
Simplesmente ficara pregada ao solo quando Hellë soltara sua mão para ir resgatar Raanat do meio daquela multidão.
Hellë que agora lhe acenava dentre os braços e a boca sequiosa de Raanat, afastando-o da aglomeração que enfrentara agarrada ao troféu de sua iniciativa.
Enquanto o sorriso triste dos olhos de Daror se voltava para os homens de sua Casa.
Míriel não sabia como se aproximar, encolhendo-se, esgueirando-se entre os homens da Casa de Daror, sentindo a barra do seu vestido ser pisada, as mangas prendendo-se ...
- Êh corja, abram caminho para minha mulher –dizia Daror empurrando seus primos até liberar o caminho: seu sonho não só tinha forma, como também vida, e vontade de vir até ele, de fazerem-se juntos – ou vocês também estão interessados no meu favor, sua matilha de cães sarnentos – riu o Pai de Harad puxando-a pela cintura para bem junto de si.
- Deixem-me passar! Larguem-me! Não quero ver suas caras feias me cercando. Quem gosta disso é Terair, vão se esfregar nele. – Gargalhava Daror, abrindo caminho com seu porte, praticamente carregando Míriel ao se afastar para a tenda. Era hora das obrigações de marido, e não de chefe.
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Míriel nem respirava. Daror cheirava como um cavalo. Não, pior ... era ... era ... simplesmente indescritível. Sem mulheres e já bem reduzido em tamanho após ter deixado os filhos da maioria das Casas em seus clãs, a massa de homens restantes simplesmente se amontoara sobre Murdug e tomara uma reta de uma semana para Sûr. Era o tempo que o grande animal agüentava ficar sem água ... era o tempo que ficaram ao sol sem banho.
Adentrando a tenda, Daror enlaçou-a com os dois braços, sorridente, aproximando o rosto, enquanto ela se afastava num reflexo.
Daror reparou nas narinas contraídas de Míriel.
- Ai, esqueci como deveria estar cheirando mal – riu, soltando-a – já volto, florzinha, já volto.
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Após tirar as botas ainda correndo, Daror deu um salto mortal e caiu na água entre seus homens.
- Êh, sua coisa pequena, vai transformar lago em mar se jogando assim.
- Cale a boca e me passe o sabão – disse Daror tirando a camisa e a calça, atirando-as de qualquer jeito para a margem.
- Com a disposição que arrastou tua mulher para a tenda, pensei que nem fosse lembrar de te lavar.
- Foi ela que me lembrou
Os haradrim caíram na gargalhada.
- Pensei que estivesse sem fôlego dos meus beijos, mas não conseguia era respirar esse fedor...
- Nem me fale, o grupo mais fedorento em que já viajei, nunca mais quero estar com vocês na minha vida...
- Falou o senhor perfumado.
- Urgh! Espero que recolham a água de beber do outro lado do lago, vamos deixar essa parte imprestável até para nadar.
- Uma coisa é certa, essa noite quero uma cama ... o tempo das noites frias chegou no meio do deserto, e agora finalmente tenho uma tenda só para mim e ...
- Isso é porque agora você tem um filhinho, que vai chorar a noite inteira, para atrapalhar a sua diversão.
- O meu começou a chorar no colo da mãe quando sentiu meu cheiro.
- Mas essa noite vai para outra tenda...amanhã celebraremos nossa volta na fogueira e vou nomeá-lo, mas essa noite...
- Ei Daror, essa é a minha toalha!
- Pega outra.
- Ai que pressa! Cuidado para não matares a mulher.
- Ai Daror!
- Não corre Daror!
- Ei essa é a minha toalha
- Ninguém trouxe toalha aqui? Onde vocês estavam com a cabeça?
Calma Daror, calma, muita calma nessa hora.
