NÓS E ELAS

Quando escrevia A PAIXÃO DOS EDAIN, fiquei muito orgulhosa da repercussão obtida pela personagem principal – embora desconcertada, pois não se tratava de alguém sem defeitos, ao contrário. – "Puxa, finalmente uma heroína destemida e carismática o suficiente para estar no meio dos heróis da Terra Média", era mais ou menos o comentário que eu ouvia.

Em que pese que ninguém amou Cabelos Negros mais do que eu, o receio de ver-me presa a esse tipo de heroína guerreira e sensual fez-me dar a luz então seu oposto, a frágil e tímida Míriel.

Ao contrário de Darai, entretanto, a própria Míriel encontrou inspiração em outros personagens que circulavam pelo ffnet na ocasião, fruto da vocação poética de uma das autoras mais talentosas com que travei conhecimento nestas plagas: VICK WEASLEY.

Desafortunadamente, VICK parece ter sido tragada pelo mundo lá fora, deixando seus personagens e leitores no mesmo abandononada adocicado de BITTERSWEET.

Mais do que uma maldade conosco, esse castigo trata-se de uma maldade com seus protagonistas tão grandiosos quanto delicados, sensíveis e temperamentais.

Além de reclamar da WEASLEY, porém, essa longa introdução tem também o objetivo de declarar que a forte impressão causada pelo pouco contato que nos permitiu com sua obra me desafiou a construir uma terceira personagem. Uma mulher que, sem ser Darai, também não fosse Míriel. Que não fosse nem guerreira nem princesa, nem atrevida nem tímida, mas uma mulher comum, sem glamour, que aprendeu a encarar a vida de forma antes de tudo prática ... e então ver se poderia fazê-la simpática e aceita entre os leitores, porque, sem ser Mary Sue, ela é aquilo de mais próximo de uma mulher como nós que eu poderia conceber.

Pode ser que Mariän seja rejeitada, por não se enquadrar num universo onde esperamos encontrar fantasia que nos transporte para longe desse mundo que já nos força a ser pragmáticas demais.

Ou pode ser que reconheçamos nela o charme discreto dos lutadores de outros tipos de batalha que somos todos nós.

Dizem presente aos desafios dessa vida:

SadieSil - O DESTINO DE MUITOS

Nimrodel Lorellin - Crônicas Aragornianas

L. Eowyn - Tributo à Saudade, A Melodia de Arwen e Cento e Dez Dias O fio da Esperança

Kwannom - Sozinho e Haldir e Haleth Versão revisada

Kiannah - Estrela Silenciosa

Soi - Idril Númenessë

Nanda's Menelin - UMA HISTÓRIA MUITO ESPERADA

reginabernardo - Eldar e Edain

Giby a hobbitA MEDALHA

DAROR E MÍRIEL

Capítulo XIV – Mariän

O dia ainda não estava propriamente claro quando Mariän chegou ao armazém que fora de seu pai. Não se deteve, porém, a pensar nos tempos idos em que sua família residia no vasto apartamento acima e nada lhe faltava à mesa.

Não adiantaria: seu pai estava morto e seu irmão perdera o negócio, acabando por entregá-lo ao velho Ëllis em pagamento de uma infinidade de dívidas; Mariän sabia ler e reconhecera as assinaturas do irmão nas promissórias.

Seu irmão agora estava morto também, como seu marido, engajado na carreira militar na pior hora, e era Mariän quem sustentava a mãe, a cunhada e os dois filhos de cada uma, graças à "caridade" do velho Ëllis, que a empregara.

Mariän nunca se afastara do armazém, na verdade, e talvez o velho a houvesse considerado parte do fundo de comércio, como o estoque e os balcões ... aqueles que freqüentavam o entreposto sempre a viram ali, desde que era uma menina auxiliando o pai - mesmo quando este, tomado de uma estranha ambição, arranjara-lhe o casamento com um oficial do exército.

Embora ao longo de seu casamento Mariän não tenha sido indiferente ao garbo e à farda do marido, nunca se quedara em casa por mais que o tempo de amamentar os filhos, sabendo da desordem que os livros acumulariam em sua ausência.

Era uma das razões porque chegava cedo: organizar os documentos, emitir os pedidos, pôr em ordem as contas a pagar e a receber ... antes que o velho Ëllis descesse.

O velho Ëllis. O velhaco.

O Velhaco que convencera seu irmão a ignorar as censuras sobre a maneira com que dirigia o negócio após a morte do pai, como se fossem intromissão indevida de uma mulher que o marido deveria manter em casa, enquanto fazia ao irmão e ao marido de Mariän empréstimo sobre empréstimo.

O velhaco que esbravejara quando, após a conferência do estoque, na ocasião da entrega da loja, Mariän lhe estendera a chave do negócio que agora era dele para ir cuidar da mudança de sua família para os dois cômodos no primeiro círculo da cidade.

- Mas como?! Isso não foi o combinado! É você que abre o entreposto todo dia e vai continuar a fazê-lo, está entre os serviçais do armazém!

- Os serviçais dos quais este armazém dispõe são trabalhadores livres, que recebem paga pelo seu serviço.

- Oras! E ainda quer que eu lhe pague?!

E Mariän não queria: precisava. Ainda mais com o marido já morto e o irmão pronto a seguí-lo; e o velho Ëllis, por fim, concordara em "ajudá-la".

Entretanto, nunca conseguira fazê-lo assinar um contrato que especificasse detalhadamente em que consistiam seus serviços.

E em que não consistiam.

E às vezes o velho lhe retinha o salário, reclamando que ela não cumpria o combinado.

E às vezes Mariän pensava em sair correndo do labor que sempre fora para ela uma lar ... mas era só uma mulher, uma mulher responsável por seis bocas, e não havia trabalho remunerado para uma mulher naquela cidade destruída.

Havia trabalho para homens. Trabalho de construção, de lidar com ferro e madeira, ocupações de força, e muitos dos rapazes do armazém abandonavam o velho sovina em busca dessa melhor sorte, deixando o negócio quase sem ninguém, mesmo para as tarefas pesadas.

Mas não era por isso que no meio da manhã era ela estava carregando a carroça

Não era exatamente pela falta de braços no armazém que era Mariän quem estava vergando sob os pesados fardos de trigo que o velho Ëllis vendera aos homens de Harad.

Era por causa do safanão que lhe dera ao sentir o hálito fétido acercando-se dela, porque o empurrara para livrar-se daquelas mãos que cismavam em encostar-se nela a todo instante, todo o instante em que a esposa e as filhas do velho Ëllis não estivessem por perto olhando.

A esposa e as filhas, porque dos filhos ele não escondia nada, e esses também já começavam a seguir o exemplo do pai.

Ou a rir de vê-la toda suja de farinha como agora.

Até que uma mão morena pegasse o fardo.

Uma mão morena saída de uma manga vermelha, que jogou a saca sobre o ombro, indiferente aos protestos da mulher.

Mariän logo retornou ao estoque para dar continuidade ao carregamento, mas Tunir já chamara os filhos:

- Sunir! Sendir! – e eles a seguiram, tomando de dois sacos em sua cabeça cada um e voltando ligeiros para o comando de seu pai.

- Isso não é necessário – seguira-os Mariän – Olhe ... e suas roupas vão ficar imundas assim.

- Meus filhos não falam a língua comum, mulher do Norte, mesmo eu a conheço pouco, mas entendo o que você diz – e a uma nova ordem, rapidamente Sunir e Sendir tiraram os coletes pretos e as blusas vermelhas, deixando-os a um canto, assim como o pai, e continuaram o trabalho, já conhecedores do caminho do depósito.

- Oh não, meu Senhor! Não precisam fazer isso. Minha serva se encarrega!

- Em Harad, mulher não carrega peso se há homem por perto.

A resposta foi proferida com o tom ofensivo característico dos haradrim, e Ëllis não conseguiu encarar Tunir após ouvi-la, retirando-se depois de dizer a Mariän que não tirasse os olhos daqueles bárbaros ladrões em seu estoque.

Mariän não deixou de pensar em quem era realmente o ladrão ali: aquela mercadoria estava saindo da loja por quatro vezes o preço normal, e fora paga em ouro...

Ainda assim ela não tirou os olhos dos 3 torsos nus.

Não que, trabalhando desde mocinha no entreposto, já não houvesse visto muitos homens sem camisa ... Mas aqueles não tinham a pele pálida e cheia de pelos, mas sim morena e quase lisa, exceto pelo mais velho, que trazia uma penugem rala no peito.

Fácil concluir que era o pai dos dois rapazes, embora seu corpo não ostentasse menos firmeza ou músculos que os dos jovens, ao contrário, era o mais forte dos três, e logo terminaram o serviço.

- Há um lugar para nos lavarmos aqui?

- Por favor – disse Mariän, fazendo sinal para que a seguissem até a fonte do Pátio.

Os rapazes muito se admiraram da obra esculpida pelos homens do Norte, mas Tunir estava-se admirando era da mulher de cabelos claros e anelados que também limpava o rosto e os braços da farinha naquele momento.

- Qual é seu nome? – perguntou retirando o turbante imundo e revelando seu cabelo de noite revolta salpicada de estrelas.

- Mariän, meu senhor.

- É casada, Mariän?

- Sou viúva.

- Como eu, sou Tunir da Casa de Daror, e esses são meus filhos, Sunir e Sendir.

- Também tenho dois filhos, mas ainda não belos rapazes como os seus, ainda pequenos, Maxel e Danael.

- Ótimo! Virão conosco se te quiseres casar comigo.

Mariän piscou. Depois pensou numa resposta bem fria ... Mas não queria saber de jogos que espicaçassem, nem tampouco de mal-criações que espantassem os fregueses, que os levassem a queixar-se ao velho Ëllis, já tinha problemas demais ...

- Já estou muito velha – respondeu com o melhor argumento que pôde encontrar, atribuindo-lhe em seu tom todos os anos amargos com que realmente se sentia.

- Também não sou mais tão jovem, e você certamente é mais nova do que eu.

Claro que era! Pelo tamanho de seus filhos, Tunir não devia estar longe dos 40, e ela mal completara 30.

- Estou velha demais para esse tipo de conversa, sou uma mãe de família.

- Traga-a com você: braços fortes e espírito trabalhador como o seu nunca ficam sem amparo em Harad.

Aquela resposta a surpreendeu um pouco; esperara que a insistência do estrangeiro descambasse para uma galanteria falsa ou grosseira, ou até para alguma proposta delirante – Mariän não desconhecia o que estava sendo comentado por toda cidade, mas tinha para si que a oferta do seu peso em ouro por cada mulher que se juntasse aos haradrim não podia passar de invencionice de fofoqueiros desocupados.

Entretanto aquele homem lhe falava de labuta, e ela riu, era quase uma proposta de emprego, um contrato em que finalmente TODOS os seus serviços estariam embutidos.

Tunir aproximou-se, terminando de prender o colete com o cinto. Seu hálito era fresco e seus dentes eram bons.

Mariän fez uma cara muito feia.

- Eu sou uma mulher séria.

- Eu sei, não quero uma menina doidivanas, nem uma jovem sonhadora, ninguém vai lhes dizer que a vida no deserto é fácil, mas muitas das mocinhas cujos olhares se voltam para os que aqui vêm negociar, ou que volta e meia agora tem assuntos a tratar no Pelennor não compreenderão antes de chegar à minha terra, e eu não sou um homem de paciência com tolices. Mas também não sou difícil de conviver, fui casado por muitos anos, e sei dar valor a uma mulher que seja uma companheira e não uma carga.

- O senhor se engana, trago comigo uma grande carga: uma mãe doente e uma cunhada com filhos, além de meus dois meninos.

- Já disse que os acolho a todos.

- Minha mãe não seguiria, mesmo que quisesse não tem condições, e nem minha cunhada, cujo marido, meu irmão, morreu lutando exatamente contra o seu povo.

- Também eu tinha um irmão, e também ele morreu nesse combate, estamos cada vez mais iguais, Mariän – e dizendo isso, Tunir tirou do pescoço um colar de ouro e marfim com uma pedra vermelha, que lhe entregou.

- Os haradrim partem do Pelennor em menos de uma semana, se te decidires a me dizer sim, vai até lá usando este colar: traz a pedra de minha Casa e saberão que já estais reservada.

E antes que Mariän pudesse abrir a mão que Tunir fechara sobre o seu presente, ele se fora, seguido dos filhos, que se curvaram para a mulher de Gondor em grande deferência ao ver o que o pai tinha feito. Tunir havia de ser um pai austero, mas o respeito que inspirava nos filhos que agora se acercavam da figura que se distanciava com a carroça, curiosos, certamente perguntando-lhe sobre o que se passara, era claramente mesclado com o carinho das mãos do pai em seus ombros.

Em dez minutos de conversa com aquele homem, mal falando a mesma língua, experimentara um entendimento melhor que em dez anos de vida em comum com seu marido.

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- Vim devolver-lhe o seu colar – disse Mariän, fazendo menção de tirá-lo do pescoço.

- Não veio aqui para isso – sorriu-lhe Tunir com os dentes brancos; se sabia ser austero, sabia também ser alegre – Cadê seus filhos?

- Não os trouxe, vim só devolver a sua jóia.

- É ciosa da minha riqueza, e certamente ela crescerá sob seu cuidado – disse Tunir pegando-lhe a mão – Agora vem conhecer o meu povo.

E Tunir lhe contara do Harad, fazendo-a provar do vinho e da comida, e assim como Sunir e Sendir, todos os que a viam na companhia dele a cumprimentavam com deferência, pois Tunir era um homem de grande valor.

Quando teve de se afastar como testemunha do casamento de Darai, Tunir lhe explicou do que se tratava, e pediu que aguardasse por ele. E ao retornar para junto dela, por fim, ele a fez sentar numa espécie de gangorra ou balanço, em cujo lado oposto havia uma arca.

Mariän ficou pasma quando viu o ouro reluzente ser despejado nela, até se aperceber que seus pés não mais tocavam o chão. Tunir tomou aquela arca e aproximou-se dos escribas do Rei de Gondor:

- Tunir da Casa de Daror por Mariän.

Os escribas então perguntaram a Mariän de sua família e onde residia.

E Mariän viu à sua frente os anos que teria trabalhando como um burro de carga por um salário de fome, mesmo sendo de mais valia que qualquer homem na administração daquele comércio, tendo de fugir das mãos bobas do velho e de seus filhos, lutando para criar dois filhos na pobreza enquanto sua feminilidade se extingüiria no cuidado da mãe, até que esta morresse e anos depois ela tivesse o mesmo destino, de adoecer de pobreza ou desgosto.

E casou-se com Tunir.

Entretanto, aquela noite o capitão de Daror cedeu sua tenda para outros casais, pois aguardaria até o dia seguinte, quando iriam até a casa de Mariän, pegar seus filhos e deixar sua família amparada, antes de tomá-la.

Quando chegaram em frente à morada muito humilde, para buscar seus filhos e seus pertences , mais um saco de ouro Tunir lhe estendeu.

- Para que isso?

- Para tua mãe, não te prometi que a ampararia?

- Já entregaste muito ouro ontem.

- Vai para o Pai de teu povo, o rei.

- Não, acertei-me com o Tesouro Real, lá ficará depositado, mas reverterá para minha mãe de tempos em tempos, na forma de uma pensão.

- Tu és engenhosa e versada em negócios, Mariän. Isso já está certo?

- Sim, fiz ser colocado em palavras, e o rei as assinou.

- Ainda assim este ouro é teu: separei-o para ti.

- Pois poupa-o agora, que não quero te enganar, Tunir, e volto daqui a cinco anos, dependendo de como as coisas correrem entre nós.

- És firme e orgulhosa sem deixar de ser sábia, estou realmente enamorado de ti e penso que não terás razão para voltar daqui a cinco anos.

E sua mãe fez escândalo.

E sua cunhada fez escândalo (mas entendeu muito bem como funcionaria a renda que Mariän lhes proviera).

E seus filho de 6 e 8 anos fizeram escândalo também, ainda mas quando Tunir os fez saber que agora era seu pai, e vieram amuados e chorando na carroça que voltou para o acampamento cheia dos pertences das novas esposas dos haradrim depois de haver sido descarregada do ouro, junto a algumas dúzias de crianças na mesma situação.

E o choro aumentou ainda mais quando sua mãe sumiu pela abertura da tenda com aquele usurpador.

E perdurou até que seus novos irmãos os levassem para subir ao grande animal.

Não mais.