Pensei em uma longa digressão para explicar o porquê deste capítulo que originalmente não estava previsto – foi um dos últimos a ser escrito – ter nascido e acabado por ganhar vida própria, sendo destacado do próximo, do qual deveria ser apenas uma introdução.

Entretanto, as circunstâncias forçam uma explicação mais curta: foi tudo culpa de Sadie, que me instigou a deixar-me seduzir pelos meus próprios personagens e deixar que simplesmente "sejam", vivam um período sem grandes acontecimentos que não a dinâmica de sua descoberta mútua.

Assim sendo, este capítulo – embora traga todos os avisos de PERIGO! TEMPERATURA ELEVADA ADIANTE, que ela evita explorar em sua obra (não por falta de talentoé óbvio) – é dedicado à mestra que encabeça nossa lista.

SadieSilAFETO ROUBADO, VERDADE DECIFRADA; MANCHAS VERMELHAS; VIDAS E ESPÍRITOS; O DESTINO DE MUITOS; ETC...

KwannomHALDIR E HALETH – VERSÃO REVISADA; SOZINHO; O COMEÇO DO FIM

Nimrodel Lorellin - Crônicas Aragornianas

L. Eowyn - Tributo à Saudade, A Melodia de Arwen e Cento e Dez Dias O fio da Esperança

Kiannah - Estrela Silenciosa

Soi - Idril Númenessë

Nanda's Menelin - UMA HISTÓRIA MUITO ESPERADA

reginabernardo - Eldar e Edain

GYBIA MEDALHA

Cabe esclarecer ainda que, ainda que a forma do texto ainda precise de muita revisão, toda história já está com seus rumos traçados há muito tempo, não sendo influenciada por acontecimentos recentes.

Isso posto, espero que, ainda que sabendo que ele não é fundamental e dá para saltar diretamente para o próximo sem maiores percalços, vocês gostem de ler este capítulo tanto quanto eu gostei de escrever:

DAROR E MÍRIEL

Capítulo XV – O Bárbaro e a Dama

Daror, Daror, Daror, arrulhava Míriel no R cantante do idioma de Harad.

Míriel não cabia em si de contentamento.

Como fora tola, tola, tola ... como desperdiçara sua felicidade em tontices.

Era uma completa idiota. Era a mais completa das idiotas.

Mas ainda assim tinha o seu favor, ah sim, tinha!


Como fora boba ... ao retornar à tenda aquele primeiro dia, encontrou-a toda fresca e iluminada. Daror liberara a entrada do ar e da luz suspendendo as laterais superiores que uniam o teto às paredes da moradia nômade. Míriel quase virara uma estátua ao entrar. Na total claridade Daror estava novamente nu. Nu, descoberto, recostado à cama e enormemente entusiasmado do retorno dela. Enormemente.

- O quê foi, florzinha?

O sorriso ensolarado que adornava Daror desfez-se ante o olhar inábil que Míriel lhe lançou, nublando o coração da dama da cidade alta. Que iria dizer ou fazer agora para consertar mais aquele mal-entendido que parecia estar sempre fazendo instalar-se entre eles?

" ... Desde que lhe sorria, aquilo que proferir terá pouca importância ..."

Míriel arremedou um sorriso no rosto todo vermelho, que as mãos de Daror, já ao seu lado, entretanto não permitiram que permanecesse baixo.

- Quê tem a minha flor?

As mãos dele eram quentes, tão quentes quanto a febre que alastravam do rosto para o corpo de Míriel.

- Conta para Daror.

Mas ela não queria lhe contar nada. Nada que pudesse sair de sua boca agora seria de algum proveito. Como fazer aquele gigante inclinado para ela parar de inquiri-la?

- Flor... – Míriel encostou seus lábios nos de Daror ... e todo o universo sumiu naquele beijo, na boca cheia de carne dele, na respiração que se confundia, nas línguas que se reconheciam.

Míriel nem percebera que já estava na cama, o sorriso que se esquecera de todas as perguntas sobre ela, os braços dele à sua volta, as mãos tateando em busca dos fechos do vestido.

Foi algo divertido de entender, Daror não conhecia botões. O vestido era muito justo para ser simplesmente puxado pela cabeça ou empurrado para baixo. A nova pergunta veio num tom meio agoniado:

- Como é que se tira isso?

Míriel não pôde deixar de rir, ainda que parecesse a si mesma uma boba.

- Ah, estais rindo de Daror?

Míriel estremeceu. Daror era um guerreiro temível, um rei muito importante, respeitado por todo um povo de cuja vida dispunha ... A dama se desabotoou e, pondo-se de pé, deixou o vestido escorregar de seu corpo, ficando só de roupa de baixo.

- Mais roupa?

Ele a queria nua? Totalmente nua ao lado dele?

Ele a quisera assim ontem ... mas, agora? À luz clara do dia?

Bem ... ele mesmo estava nu, não estava? E ainda mais naquela situação! Parecia natural para ele, mas ela ... Míriel não fora criada assim.

Daror sentara-se na cama, como que esperando que o que começara terminasse.

Muito lentamente, Míriel despiu as três anáguas, uma a uma.

Seu corpo tremia quando retirou a combinação pela cabeça, mas, trazendo-a frente aos seios, não teve coragem de a baixar e permaneceu fervente de vergonha e uma leve sensação de ridículo tentando cobrir-se só com aquele pedacinho de pano na frente de Daror, até criar coragem de olhar para ele.

Um rio de leite corria pela barriga morena, descendo para a floresta negra que Daror ostentava no baixo ventre, em oposição ao resto do corpo quase sem pelosà exceção das pernas e das axilas.

- Daror se entusiasmou, florzinha – sorriu ele, parecendo meio sem jeito – parecias uma flor cujas pétalas brancas se iam soltando.

Ficando de pé dentro da grande bacia, Daror verteu água sobre o próprio corpo. Ao vê-lo coberto ao menos com a toalha, Míriel se sentiu um pouco mais confortável.

- Ei! Não te vistas de novo, Daror logo estará pronto para ti novamente – e ele a arrastou em seu abraço de volta para a cama, apenas a combinação reposta – Sabes que não te posso resistir não é, mulher?

Não, ela não sabia do que ele estava falando.

- Artificiosa, feiticeira – sussurrava ele em seu ouvido – Daror está perdido.

" Deixa-me perder em ti. Faça-me perder em ti"

Sedutora, quereria ele dizer? Desejável? Era assustador ... mas ... de alguma forma era exatamente o que Míriel queria: ser desejável para ele. Teria de o suportar, mas disso agora se sentia capaz; apesar de tudo, suportara-o bem à noite passada. Maravilhosamente bem. Míriel tomou o rosto grande entre as mãos.

Foi outra coisa que descobriu logo, tocar-lhe o rosto ... Daror se imobilizava quando ela fazia isso, como que alheio ao universo à volta. Míriel tinha a impressão de que ele voltava realmente a ser um menino naqueles momentos ... Um menino que lhe pertencia.

E também entendeu brevemente que pudor era uma idéia desconhecida para ele, em minutos descera-lhe a combinação pelo corpo, interessado em examinar cada pedacinho que as mãos reticentes de Míriel ainda tentavam esconder.


O corpo dela era propriedade dele,claro, deduzia Míriel; mas é que Daror ... não havia como guardar qualquer recato junto a ele, suas mãos fortes a reviravam. A boca molhada não se intimidava frente a nenhuma barreira ... seus seios, ele os sugara tanto que Míriel teve de dizer, ainda que com receio de o desapontar:

- Não ... não tenho mais leite ... já secou.

- Para mim suas tetinhas escorrem mel, florzinha doce.

Tetinhas? – Míriel ardeu humilhada com a vulgaridade da comparação. Mas os seios que Daror continuava percorrendo como se quisesse abocanhar ao mesmo tempo, não podiam mesmo lhe passar outra impressão que os de uma cabra ou cadela sem cria ... É, eram pequenos, como ele mesmo já lhe apontara ...tinham estado grandes enquanto aleitara, mas agora ... não pareciam suficientes para a boca daquele homem imenso.

Mas o cúmulo do qual tirara suas lições foi numa das outras vezes em que ficou olhando para ela depois de abrir-lhe as pernas.

Não para ela propriamente, mas, bem, para sua intimidade.

E o pior é que, sob o olhar de Daror, cobrindo o rosto com as mãos impedidas de cobrir qualquer outra coisa, Míriel teve a horrível sensação de que se mexia por dentro, abrindo-se e fechando-se em espasmos.

Daror a farejava. Ele tinha o hábito de a farejar, como um grande cão, mas precisava examinar tão detidamente aquele lugar ... sujo?

- Ahi! – arrancou-se Míriel das mãos dele, Daror a beijara ali.

A mulher lhe chutara o rosto e dessa vez Daror puxou-a de forma violenta. Estava sempre se esquivando do seu carinho, e ele se sentia furioso com isso.

Sua expressão de zanga desfez-se rapidamente, pois Míriel o olhava muito assustada. O corpo dela estava preso à cama, e Daror ouvira e sentira o choque dos quadris contra os seus quadris.

- Eu não ... pretendia ... fazer algo que o desagradasse ... – começou a choramingar Míriel.

- Está machucada? – perguntou Daror, liberando o corpo frágil do seu peso, deitando-se ao lado dela, friccionando-lhe os ossos do quadril. Não queria que tivesse medo deleé que às vezes o enervava com tantas manhas. Tudo tem uma medida.

- Não...estou bem – a desconcertava, era tão feroz num momento, e no seguinte...

- Tu és minha escolhida, não precisas de artifícios para me agradar, Míriel – disse-lhe puxando o rosto que de outra forma já conhecia que ela manteria baixo.

Míriel sorriu com os olhos rasos d'água àquelas palavras ... sem artifícios ... apenas Míriel ... tendo o que mais queria ... agradar a Daror.

"E tu és tão feio, monstro disforme, que a tortura de olhar para ti me traz água aos olhos – é isso que queres dizer, bela do norte, filha da lua?"

Míriel riu um riso cristalino em resposta, eco dos antepassados élficos de Númenor, e enxugou suas lágrimas bobas com as mãos que estendeu a Daror.

Mãos de flor, suaves pétalas perfumadas de esperança que Daror beijou com fé: "Preciso amar-te, brilho de estrelas. Deixe-me amar a ti, cuidar-te-ei tão bem, serei tão bom para ti, se simplesmente me permitires. Somos tão diferentes, eu sei, tu és como a Lua e eu sou como o Sol, mas zelarei para que tenhas sombra no meu jardim de Harad, serei teu jardineiro atento e nenhuma flor florescerá como tu, te prometo".

- Eu ... sou uma boba ... quero tanto agradar-te, Daror.

Foi a vez de Daror sorrir de olhos baixos, como que para si mesmo: era uma das primeiras vezes que o chamava pelo nome, e não mais "senhor" ou "Grande Daror". Grande Daror era um título de guerra, nunca um chamado que quisesse ouvir da boca de sua mulher.

- Então porque choras e foges de mim?

- Ah ... unh ... Daror faz ... coisas que não espero.

- Por isso fugiste de mim ainda agora?

Míriel apenas acedeu com a cabeça, mais uma vez Daror riu.

- Flor, és toda rósea por dentro, e dourada. Daror nunca havia visto uma mulher dourada.

Quantas mulheres será que Daror já havia visto ... isto é, daquela forma?

Será que Míriel nunca? Não, não podia ser.


A nudez era realmente uma questão muito diferente em Harad. Apesar do clima quente, os haradrim eram muito limpos: serviam-se de seus imensos oásis para isso, e amavam tanto a água e estar dentro dela que não pensavam em mais nada antes de atirar-se nos grandes lagos. Míriel devia levar toalha para Daror no final da tarde se não quisesse sabê-lo nu pelo Sûr de volta à tenda.

Encontrava-o sempre já na água, cabriolando. Mas ainda que estivesse entre outros, estes se afastariam à sua chegada, rindo, e ela teria de estender-lhe a toalha de longe, senão ele a puxaria pelas saias, como se esperasse que ela fosse se juntar a ele.

- Vem, vem, Míriel! – Chamava-a ele para a água, por vezes capturando a ponta do vestido relutante e puxando-a.

- Vem, vem Míriel! – mas ela não queria, podia haver gente por ali ... e não se mostrava disposta, debatendo-se às vezes até a barra da vestimenta rasgar ...

Uma vez, entretanto, perdera o equilíbrio e seu corpo precipitou-se para a água com um grito. No último momento, contudo, as mãos de Daror a ampararam sobre sua cabeça, e quando Míriel abriu os olhos que cerrara junto com as narinas, ele a estava deitando na margem, cuidadoso de que sequer um pedaço da longa saia se molhasse

- Minha florzinha tem medo da água. Daror sabe, estava apenas brincando com Míriel.

Desconcertava-a.

Nunca saberia o que esperar dele.


À noite junto à fogueira volta e meia uma discussão altercava entre os homens:

- Não é justo que só cuidemos dos teus rebanhos, Daror.

- Não é justo! E que rebanhos tem Aker para cuidar? A rês de quem está comendo agora? Só quem trouxe rebanhos do Norte foi DarorÉ deles que Aker se alimenta e das sementes que Daror trouxe que vai colher! Aker é filho de Minha Casa, e deveria saudar o Pai previdente que tem a cada sol que nasce!

- Um pai previdente que permitiu a ruína da terra de Harad?

Daror voou em cima de Aker e aplicou-lhe tal surra que os outros homens tiveram que jogar-se em cima dele para contê-lo.

- Parece que não conheces Aker, Daror, é o vinho!

- Sentencia-o, Meu Pai.

- Não sobrou muita coisa para ser sentenciada aqui.

- Um falastrão preguiçoso que foi uma pena não ter ficado lá nos campos de batalha do Norte.

- Alguém mais duvida de seu Pai aqui? – Daror já de pé, olhava à volta como uma fera pronta a atacar o próximo que lhe desacatasse.

- Alguém manda aquela mulher inútil levar Daror daqui – grunhiu Terair.

Tunir dirigiu-se rapidamente a Mariän, e esta a Míriel.

- Míriel, leva Daror para se recolher, o sangue dele está a procura de batalha, e isso não é bom.

"Já fez isso antes, vamos Míriel, vamos", afastou-se a dama das demais mulheres, após entregar a Hellë o prato de sopa que ficara abandonado em suas mãos durante toda a cena de selvageria.

- Porque, se houver é bom que diga logo ... – como iria movê-lo dali era um mistério, mas assim que a mão de Míriel tocou na mão de Daror, esta se fechou sobre aquela, e ele a seguiu bufando em direção à tenda, vendo seus filhos se lhe curvarem em respeito e deferência ... Não, ninguém realmente partilhava da opinião de Aker, que aliás só ficava tão ultrajado pela "ruína da Terra de Harad" quando estava embriagado.

Mas fora muito atrevimento. Raor não o teria poupado de sua espada, Daror era mesmo um incapaz ... Darai, pequena ainda, não ditaria uma sentença menor que 100 chibatadas para uma tal insubordinação.

Daror lavara o rosto e as mãos, mas a temperatura de sua ira não parecia arrefecer, quando Míriel começou a abrir-lhe os fechos das calças.

- Não precisa fazer isso – a mão dele segurava o seu rosto sem qualquer gentileza agora – Não me pareceu que tenha apreciado muito da última vez.


- Não é à toa que Daror ficou aborrecido, Raanat disse que Aker merecia morrer pelo que disse.

- Os filhos da Casa de Daror o amam, mas se filhos de outra Casas estão entre nós para ouvir essa besteirada, logo uma dissensão se espalha.

- Talvez não tão facilmente - ponderou Mariän. - Daror dividiu seus rebanhos com os Senhores das outras Casa, praticamente todos os recursos que teve a previdência de trazer.

- Mas exatamente, Mariän; todos têm pouco, logo nenhum está satisfeito.

- Acontece que os Senhores que tiverem algum bom senso saberão que dividir-se a desafiar Daror não resolverá o problema, precisam é chegar unidos ao Pelennor daqui a cinco anos e aliar suas riquezas para recomeçar as criações que tiveram.

- Mas Mariän, por que não o fazem cada um por si?

- Porque é Daror quem os guia no trato com Gondor, foi ele que conseguiu abrir-lhes essas portas, e os haradrim, vocês devem ter reparado, não são bons negociantes.

As mulheres riram da graça um tanto o quanto involuntária da sempre séria Mariän.

Realmente, ela enxergava longe, admirava-se Míriel. Nunca havia parado para pensar nas complexidades enfrentadas pelo povo de Harad. Chegara ao Sûr praticamente parindo, e o universo que passou a girar em torno de seu filho resumira-se àquele pedaço de terra, quase se esquecera que havia outros Senhores de outros oásis e outra Casas, só se lembrava disso quando Daror falava em sua necessidade de ir até elas, ou quando um de seus príncipes vinha ter com ele. Talvez devesse ter prestado mais atenção a tantos problemas que tinha Daror, buscar uma forma de ajudar ... mas como?

- Acho que não nos devíamos sentar apartadas dos homens junto à fogueira na hora da refeição, mas junto a eles – disse Mariän.

- Mas...sempre foi assim, Mariän – redarguiu Hellë.

- Não ... nós é que começamos a nos reunir entre nós durante a viagem, ainda tímidas de estar entre os homens, mas não é o hábito de Harad, perguntei a Tunir.

- Acha que nossa presença ao seu lado vai acalmar os ânimos?

- Acho que podemos tentar.


Ora, ora ... quão inteligente era Mariän. Os homens realmente tornaram-se mais serenos ao lado das mulheres, ocupando-se a partir de então menos de embrenhar-se nas mesmas velhas discussões de sempre e mais de achegarem-se a elas. Ou de vê-las alimentarem-se, como no caso de Daror.

- Toma – disse estendendo-lhe o pedaço de carne ainda sangrento com a mão.

- Obrigada ... não – Míriel jamais comera com as mãos.

- Quase não comes, preferes a carne mais passada?

Será que nunca tinham ouvido falar em pratos? Talheres? Porque trouxera tantas inutilidades – bibelôs, enfeites, um baú inteiro de lenços de seda, bandejas, jogos de louça, quadros – quadros! No Sûr não havia nem paredes! – e nem um, unzinho faqueiro?

Míriel agarrava-se ao seu caldo enquanto Daror insistia.

- Abre a boca – ordenou ele, depositando-lhe um pedaço razoavelmente grande dentro dela e observando-a severo mastigar e engolir tudo, enquanto ele mesmo devorava a carne de um grande osso.

Ele praguejava ao alimentar a ela assim, mas pouco a pouco passou a ser uma estranha diversão dos dois, dar-lhe de comer das próprias mãos.

- Míriel manhosa – às vezes sussurrava em seu ouvido, para logo depois voltar-se para as porções sangrentas que apreciava.

O mais esquisito de tudo é que Míriel passou a perceber com o canto dos olhos outros casais fazendo o mesmo, entre risos. Era como se supusessem que aquilo fosse uma mera brincadeira. Não era tão ridícula, afinal.


Se não era ridícula, também não era sábia como Mariän, cuja capacidade logo foi percebida e louvada até por Daror.

- Tunir é mesmo tinhoso, escolheu uma mulher versada em negócios, parece que será de grande valia quando voltarmos à sua cidade, florzinha. Isso é bom, alguém com quem partilhar a carga.

Bem ... não tinha grandes capacidades ou sabedoria, mas tinha beleza, e Daror gostava de beleza.

Míriel escovou seus cabelos até os anéis transformarem-se em ondas, e usou pequenos prendedores de ouro em forma de flor apenas nas extremidades sobre a testa aquela noite. Escolheu uma blusa branca cinturada, simples mas decotada - na verdade um dos vestidos que ela, assim como outras das gondolim começavam a adaptar a vida ao ar livre do Harad, pouco propícia a caudas, saias muito longas e mangas exageradas - e uma saia escura que encurtara. O colarzinho de flores diminutas que combinava com os prendedores e os brincos que completavam o conjunto foram a ostentação que se permitiu...também Thanaë se enfeitava, e, se a questionassem, diria que era seu aniversário.

A reação de Daror superou suas expectativas.

A deusa da Lua não era mais branca, nem as estrelas mais brilhantes que o cabelo da sua Míriel. E trazia ouro sobre si para o agradar, desejosa do favor DELE. Ouro sobre prata, e Daror ficou ensandecido para cobrir aquela Lua com o Sol.

Daror alimentou-se pouco e rápido, demonstrando naquela noite mais atenção em que ela partilhasse de sua grande taça de ouro do que de sua comida, e quando Míriel deu cabo do conteúdo de seu prato de sopa, simplesmente arrebatou-a em seus braços em meio a todos os homens, virando em direção à tenda e tomando seu rumo com olhos que não disfarçavam sua intenção.

- Daror, o que vão pensar ... o que vão dizer de você me carregar para a tenda assim?

- Que eu sou o teu homem e tu és a minha mulher, oras – foi a resposta

- Não te agrada que seja Daror o teu homem? – perguntou-lhe o guerreiro ao depositar a mulher na cama, entre seus beijos.

Mas Mïriel não foi capaz de responder nada, totalmente constrangida. Era simplesmente selvagem, passava de todos os limites, podia esperar qualquer coisa dele, qualquer coisa ...


Daror voltou para a tenda mais cedo e ouviu o chapinhar por detrás do biombo. Grande parte da mobília que agora preenchia a tenda fora trazida por Míriel: a penteadeira, mesinhas, delicadas cadeiras – frágeis demais para que pudessem servir a Daror – um canapé incapaz de conter mais que o tronco do gigante, deixando-lhe as pernas para fora ... era tanta coisa que Daror determinara a utilização de uma partida de couro para a confecção de um anexo, onde Míriel instalara seus baús de roupas e outros petrechos íntimos, separando-a do restante do espaço com o biombo que Daror chamou de parede de papel.

A cabeça de Daror surgiu por cima da divisória, e Míriel afundou os seios na água em que se banhava com seus sais.

- O que é isso? Estais te banhando com leite, Míriel? – Uhn, era assim que ela se fazia tão macia, tão alva, que exótico!

- Não é leite ... são ... sais de banho ... na água. – O gaguejar era por causa do despir de Daror, que não refletiu nem um segundo sobre o que estava fazendo: aquele líquido parecia-lhe doce, e ele queria ter Míriel nele.

O corpo imenso fez o de Míriel ser cuspido para fora ao imergir na banheira ... e isso foi muito bom, porque só quando já se tratava de uma fato consumado é que Daror descobriu que ficara entalado.

Mais da metade da água transbordara para os tapetes misericordiosamente velhos que Míriel havia disposto em sua sala íntima. Ela rapidamente enrolou-se em seu roupão e serviu-se de uma toalha de seus baús para estender-lhe, se ele conseguisse sair dali.

Já que estava nessa situação, Daror ao menos iria provar daquela água.

Horrível, demonstrou uma careta. Um gosto de sabão bem diferente do gosto de Míriel.

Mas o cheiro, este sim, doce e perfumado.

- Hum! Esta água leitosa tem o teu cheiroés tu que perfumas a água ou a água que te perfuma, flor?

Míriel quase gargalhou ... era a galanteria mais deliciosa de tola que jamais imaginara ouvir na vida.

O som cristalino que escapou do sorriso dela encheu o coração de Daror de alegria e desejo de arrebatar Míriel em seu abraço. O difícil era se auto-extrair daquela armadilha; suas pernas estavam tão coladas ao seu peito, os pés tão sem apoio, que Daror quase virou a banheira no chão com o que ainda nela restava da água, escorregando nos tapetes encharcados enquanto tentava ao mesmo tempo evitar o alagamento definitivo da tenda e o cair com todo o seu peso em cima de Míriel, que não pôde deixar de soltar um gritinho ao recuar das toneladas de massa de Daror pendendo para cima dela.

- Hum ... bem ... petrecho só para o banhar das mulheres mesmo, não foi feito para guerreiros – sorriu Daror dando-lhe de ombros ao conseguir firmar-se no chão e tomar da toalha que pendia da mão de Míriel – Mas não te dá muito trabalho enchê-la e depois a esvaziar no meio da tenda?

- Nem tanto – respondeu Míriel mostrando-lhe as rodas com que a banheira podia ser conduzida para fora, e o furo fechado por uma torneirinha pelo qual a água escoaria.

Êh, que engenhoso ... teu povo é mesmo cheio de ofícios, flor do norte. Quero contratar teus mestres para instalarem oficinas no Harad e ensinar ao meu povo essas habilidades - disse Daror concentrando sua curiosidade no artefacto por um momento, antes de voltar-se para ela novamente ... Uma flor branca envolvida num robe branco de longas mangas brancas... Ai, que deliciosa! Daror tomou-a nos braços finalmente, após enrolar os quadris na toalha, mordendo-lhe o pescoço e a orelha a rosnar.

- Estais tão tenra e apetitosa, vou devorar-te hoje – disse pondo-a na cama.

Aquelas palavras realmente despertaram pavor em Míriel. Sua mãe lhe dissera que eram canibais ...

- O quê foi, Míriel? – num momento estava toda risonha, noutro encolhia-se chorando como se preferisse ... como se preferisse um demônio a ele.

Daror estava ajoelhado na cama, sentado sobre os calcanhares, olhando para ela com a incompreensão estampada nos olhos, tão imenso e tão pequeno, tão poderoso e ao mesmo tempo tão vulnerável ... Por quê? Que absurda! Era patética, patética! Estava fazendo alguma confusão terrível! Daror era só cuidado com ela ... nunca se sentira mais protegida na vida do que quando os braços dele envolviam seu corpo por inteiro e ela repousava em seu peito, ouvindo o pulsar tranqüilo e vital do corpo poderoso que era a sua segurança.

- Eu...oh...des...sinto...não...

- Pensei que o tempo de tuas lágrimas havia passado, Míriel ... Daror não a machucou, nunca, podes ir embora se algum dia o fizer. Não sou um bruto. – O olhar dele se desviara dela e Daror se levantara, encaminhando-se para fora.

Míriel correu antes que mergulhasse no lago, interpondo-se entre o homem e a água, querendo puxar o rosto dele para si com as mãos.

Daror deteve os braços estendidos.

Ai! Estava mesmo magoado, e não era para menos: que estupidez a dela! Pensar que Daror a iria assar e comer...Viviam como marido e mulher, e ela insistia em desconhecê-lo.

- Não te entendo, Míriel. – Mas ele entendia muito bem, ela não o queria. Daror era um sacrifício para aquela flor tão refinada ... Porque a escolhera afinal, uma flor arriscada a desmanchar-se ao toque? Que desatino o acometera no Pelennor! Devia tê-la mandado dar meia volta e retornar à Cidade Branca ... não era para o homem de Harad.

Pelo menos não para Daror, bárbaro e porco e monstro...

E como iria explicar-lhe o desatino que a acometera? Não! Ofender-se-ia mortalmente se lhe dissesse o que pensara ... ela se ofenderia da mesma forma se alguém tivesse uma idéia tão imbecil a seu respeito.

Êh Daror, não se pode nem brincar com você? – Míriel vestiu um sorriso amuado.

- Estavas brincando? – Perguntou Daror com os olhos desconfiados.

- Pois estava – e Míriel quis sair de fininho daqueles olhos negros inquiridores, mas a mão dela estava presa entre a face e o ombro do homem que a abraçava.

- Que brincadeira boba, florzinha, não gosto de te ver chorar.


- Hellë, Raanat já lhe disse alguma vez que queria...devorar-te?

O riso de Hellë em meio à água dentre as pedras fez-se resposta ... e pelo jeito como aumentava cada vez mais, Míriel não pode deixar de rir também, de si e de sua parvoice.

- Anh... – supirou Hellë tentando retomar a respiração – nossos homens são bem vorazes, não é mesmo? – perguntou tomando de mais uma peça do cesto de Míriel para lavar.

- Hellë, pare com isso, só lavei uma blusa, você já deu cabo do seu cesto e de metade do meu. É roupa de Daror, acho que é minha obrigação...

- Foi Daror que pagou por meu dote, e não Raanat.

- Hein?

- Só Senhores e capitães viajam com grande quantidade de ouro ... e Raanat e os outros nunca teriam ouro suficiente para pagar o peso de uma mulher, a não ser que gramassem anos nas minas, pois metade do que aufere um homem nas minas de seu Pai pertence à Casa, como as crias dos rebanhos que tem ...

- Sim?

- De qualquer forma, ao fim da guerra, poucos dispunham do que quer que fosse consigo, foi o ouro das cúpulas dos palácios de Or, que os saqueadores não puderam levar e Daror então mandou Terair trazer, que serviu para pagar o dote de quase todas as noivas do Pelennor.

- ...

É divida que jamais poderei pagar, Míriel, comprou-me a felicidade de ser mulher de Raanat, lavo-lhe todas as roupas com prazer, nem você sabe fazer isso direito...

Míriel estava muda. Como um rio que atravessa o deserto, Daror, o bárbaro selvagem, era literalmente o pai generoso que trazia a vida para o seu povo ... era ele que os alimentava ... que garantira a proteção das nascentes que vinham da fronteira Norte ... que abençoava suas famílias ... que, em última instância, assegurava sua sobrevivência,

Era isso que era um bárbaro? E o que era ela, que nem sabia lavar roupas ?

- Mas...assim... suas mãos vão ficar ásperas, Hellë.

- Raanat já me conheceu com as mãos ásperas, conserva as tuas macias para Daror. Para Thanaë, só as lavo para juntar o dinheiro da pequena criação que Raanat e eu queremos começar quando estivermos em Gondor, mas para você, Míriel, mulher de Meu Pai, as lavarei com prazer sempre.

Recebia as deferências devidas a Daror, merecidas pelos méritos dele, e no entanto não o enxergava como era, mas apenas pela lente embaçada do preconceito ... Não faziam planos juntos, nem ela o apoiava em nada, como Hellë a Raanat ... Até hesitava em entregar-lhe o coração que não conseguia mais negar a si mesma que há muito já lhe pertencia ... quando na verdade ele é que estava em posição de hesitar e desprezar uma criatura tão minúscula e burra e tapada como ela.

Ele era Daror, e isso era muito.

Ela era Míriel, e se fora alguma coisa um dia, agora não era nada.

O quê poderia oferecer-lhe em troca?


Daror, Daror, Daror.

Míriel não cabia em si de contentamento.

Um filho de Daror.

Um filho varão para o viril Daror.

Tinha o seu favor, ah sim, tinha! E teria ainda mais depois de lhe dar um filho.

Demonstrava o seu favor também e o honrava, o fazia rico e pagava sua dívida para com tantos erros tolos e desatinos.

A última pérola de Númenor ficara definitivamente para trás, agora seria a mãe dos filhos do Pai de Harad. Sem saber explicar o porquê, este título a fazia muito mais feliz que o anterior.

Daror, Daror, Daror, arrulhava Míriel no R cantante do idioma de Harad.