Um dos primeiros capítulos desta história a serem escritos, este nunca me pareceu bom o suficiente. Entretanto desisti de fazer melhor, confesso, e o entrego a vocês logo após citar as autoras fantásticas que não se permitem essa autocomplacência:
SadieSil – AFETO ROUBADO, VERDADE DECIFRADA; MANCHAS VERMELHAS; VIDAS E ESPÍRITOS; O DESTINO DE MUITOS; ETC...
Kwannom – HALDIR E HALETH – VERSÃO REVISADA; SOZINHO; O COMEÇO DO FIM
Nimrodel Lorellin - Crônicas Aragornianas
L. Eowyn - Tributo à Saudade, A Melodia de Arwen e Cento e Dez Dias O fio da Esperança
Kiannah - Estrela Silenciosa
Soi - Idril Númenessë
Nanda's Menelin - UMA HISTÓRIA MUITO ESPERADA
reginabernardo - Eldar e Edain
GYBI – A MEDALHA
DAROR E MÍRIEL
Capítulo XVI – A gravidez de Míriel
"Ahhhhhhhh!" – O grito de Thänae trouxe-lhe a imediata atenção de Mahor
"O que foi?"
"Um bicho! Um bicho!"
Mahor viu o escorpião, e imediatamente acercou-se com suas botas, mas, no último momento, mudou de idéia e simplesmente estendeu a mão, que foi picada ao capturar o inseto negro.
"Arranja-me uma caixa, mulher, vou guardar para meu filho."
"Quê? Esse bicho nojento?" – Irou-se Thänae, embora ainda assustada.
"Cahor deve começar a ter contato com o veneno quando fizer dois anos. Terá dor e febre, mas após 3 ou 4 vezes estará imunizado para toda vida: isso é sábio, há muito escorpião nas minas."
"Não estais querendo guardar essa criatura perto de mim, certamente. Nem expor meu filho a ela, que loucura é essa de que estais falando?"
"É sabedoria de Harad, mulher. A picada do escorpião pode matar, mas não a quem teve contato com o veneno aos poucos, ainda menino. É o costume. Traz-me uma caixa e não mexe nela, pois parece que já estais prenha de novo, e deves de todo modo evitar abri-la, o bicho viverá longamente fechado ... Minha mãe teve um escorpião guardado por anos para inocular os filhos."
A GRAVIDEZ DE MÍRIEL
Daror quisera uma festa para celebrar a gravidez de Míriel.
Era uma ocasião para vê-la em seus mais lindos vestidos.
Sentado na beirada da cama, Daror apalpava aquele agora: era de veludo verde escuro, e o Pai do Harad admirava-se dos ofícios do Norte.
"É quente, e não é tão frágil quanto aquele outro" – percebera a ruína do vestido de seda de Míriel – "é muito bonito, é brilhante e macio."
Daror olhou para Míriel. Bela. Muito bela. O fino cordão de ouro no pescoço, as orelhas enfeitadas pelos brincos diminutos.
Ai! Que despossuída!
Sabia que Míriel trouxera outras jóias consigo, mas estava no direito dela lembrar que nunca ganhara dele, Daror, uma jóia.
Havia dado as últimas jóias de Ravai à irmã, no dia em que dançara ... nem pensara em guardar algo para uma esposa.
Mas também, cabia a ele cobri-la de ouro, não à herança de sua mãe.
Um dia cobriria Míriel de jóias.
Mais do que seu pai cobrira à sua mãe.
Míriel merecia, e fazia bem em lembrar a ele disso.
Sua doce flor do norte.
Daror beijou-lhe o ventre.
Míriel percorria a volta do tablado com uma bandeja. O neto mais velho de Terair fora ao sul entregar a Dillin o dote e trazer sua noiva de sangue puro para o Sûr, e ela agora dançaria para sua nova Casa na festa de Daror.
"Arre! Fica aqui, mulher" – disse Daror quando Míriel passou servindo, agarrando-a pelo pulso e tirando-lhe a bandeja, passando-a para quem estava próximo e deixando que seguisse de mão em mão.
Daror, assim como os demais homens de sua Casa, estava sentado nos tapetes dispostos ao redor do tablado, e puxou Míriel para sentar-se junto de si, acomodando-a entre suas pernas, recostada em seu peito.
"Vamos ver se a mulher do neto de Terair sabe guardar a tradição" – disse ele, fazendo Míriel beber de sua grande taça de ouro.
Os instrumentos de percussão e cordas soaram, e as saias vermelhas da cor da nova Casa da dançarina rodopiaram pelo tablado.
Ouviu-se a platéia bradar.
Míriel sentiu que se arrepiava e ruborescia aquele som selvagem. Mesmo Daror estava gritando também.
E não era para menos, a moça morena era linda.
Percorria o palco mexendo os quadris.
Trajava uma saia com um cinturão de pedrarias soltas, que chacoalhavam no seu rebolado.
Um sutiã de ouro e pedras.
Muitos colares e pulseiras
O cabelo entrançado de ouro
E só.
Estava praticamente nua.
Pelo menos aos olhos de Míriel.
E não era só isso ... a forma como movimentava o corpo ... os quadris ... o tronco ... os seios, os braços.
Elbereth! Nienna! Se Daror soubesse que ainda havia mulheres como essa em sua terra, certamente não a teria esposado no Pelennor ... como mexia os quadris ... estava ajoelhada no chão, as costas reclinadas para trás, e era como se ... era como se ... era como se estivesse sob um homem.
Ou como se os sonhos mais absolutos de como uma mulher poderia se mexer tendo sobre si um homem poderiam parecer.
Porque Míriel tinha certeza de que ninguém, nenhuma mulher poderia se mexer assim, jamais.
E no entanto, aquela mulher o estava fazendo.
Estava se mexendo de uma forma que sem dúvida alguma, deixaria qualquer homem louco.
Inclusive o seu Daror.
Ou principalmente o seu Daror, ou um homem como ele.
Todas as atenções estavam voltadas para o palco, e muito, muito discretamente, Míriel procurou certificar-se de sua suspeita.
E sim, ela se confirmou.
E de repente o olhar de Daror estava nela, para seu constrangimento mais absoluto.
Então Daror lhe sorriu. Sorriu de uma forma diferente, mas qualquer sorriso de Daror era algo que a desarmava e desconcertava de encantamento.
"Está gostando?" – Daror sussurrou em seu ouvido – "Ela não é má."
"O quê?" – sussurrou Míriel de volta, sem compreender direito.
"Ela não é má. É melhor que esperava. O neto de Terair soube escolher."
Ela não era má como assim? Haveria mulheres melhores? Mais belas? Mais deslumbrantes? Mais ... despudoradamente ... dispostas?
E Míriel o comprovara. .. ele .. ele estava tocado pelos dotes da...moça.
Merda.
Merda!
Míriel queria entender o que sentia, uma agonia, uma inveja ... uma indignação daquela barbárie, daqueles homens bárbaros gritando, daquela mulher bárbara dançando ... se exibindo ... provocando ... que marido era o neto de Terair afinal, para permitir que a esposa se exibisse dessa forma? E onde estava Terair, aquele falastrão, permitindo que sua nora ...
E Daror ali, a sorrir para ela, como se não estivesse ... como se não estivesse ... admirando aquela mulher!
E ... e ... não o escondia ... ao contrário, de alguma forma a puxara mais para si, e agora comprimia-se às suas costas.
"Daror!" – O sussurro soava como um grito.
"Vê, florzinha" – a boca dele respirava em seus ouvidos, arrepiando Míriel – "seus quadris fazem o oito nos temas calmos, e fremem quando a música se agita, mas só têm esses dois movimentos. Uma guardiã de tradição, como minha mãe e minha irmã, mescla os dois numa infinidade de variações, e são capazes de o fazer em qualquer ritmo. Quem assiste uma guardiã de tradição dançando, percebe qualquer mudança na vibração da música antes vendo a dançarina que ouvindo os tambores ... as costas dela se reclinam duras, não acompanham os movimentos do ventre ... os braços: minha irmã sabe movê-los tanto acompanhando o quadril, quando é preciso, quanto em movimentos totalmente dissociados deste."
"Ôh Daror, cala a boca, deixa a menina dançar para nós."
"Eh, e estou a falar algo que não está bom?"
"Se não queres apreciar, avia-te daqui com tua mulher, mestre de tradições."
Daror riu e continuou sentado, queria que Míriel conhecesse as tradições de seu povo, e gostava de festa.
Míriel queria continuar em seu colo, sentindo o volume com que ele a pressionava, e gostava de Daror.
Esforçava-se para prestar atenção ... queria ... queria ser capaz de mover-se assim para ele.
A movimentação infatigável e libidinosa de Aniá – o nome da noiva – perdurou durante horas, numa demonstração de poder e força da filha do Sol. Até que a freqüência do solo começou a indicar que mesmo aquelas pernas aparentemente incansáveis pareciam estar prestes a encontrar seu limite.
Mas foram os braços fortes do Pai de sua nova Casa o que encontraram, prontos a sustentar os passos de um bailado mais calmo, mas não menos provocante.
Míriel teria gritado se não tivesse sido pega tão de surpresa. Daror a deixara para dançar com a noiva, levantara-se e atravessara o tablado sobre os joelhos num único impulso ... As mãos dele colaram o corpo de Aniá ao seu quando os dois corpos se ergueram, e agora a percorriam: o que significava aquilo?
Como ... que ousadia ... nenhuma mulher a não ser Míriel deveria jamais ser tocada por Daror daquela forma, achegar-se tão próximo.
A filha do Norte só não estava mais possessa que surpresa. Aquele homem rude e grosseiro dançava com graça e desenvoltura, e a grande diferença de altura entre os dançarinos, que de outra forma poderia parecer grotesca, era utilizada para prover um suporte sem esforço aos passos da dançarina. As habilidades de filho de Ravai, afinal, lhe tinham valido boa parte dos favores que conquistara quando adolescente.
Míriel queria arrancar os olhos dela com as unhas. Estava quase chorando. Chamava mentalmente a filha de Harad de desgraçada.
Mas a única desgraçada ali era ela mesma.
Seu marido estava oferecendo os favores a outra.
Subitamente como dirigira-se à noiva, Daror parou ajoelhado à frente de onde Míriel sentava-se ainda, estendendo-lhe a mão enquanto Aniá rodopiava para os braços do marido.
"Vem, Míriel."
O quê? Ela? Dançar? Naquele palco? Aquela dança?
Míriel se encolheu toda.
Inútil.
Se havia uma ação inútil em sua vida, era tentar fugir de Daror. As mãos dele a levantaram pela cintura, como haviam levantado Aniá e começaram a conduzi-la sobre o tablado.
Míriel queria sumir, deixar de existir.
"Daror ... eu ... não."
"Essa festa é tua, mulher, sorria."
Ai ... porque ... que vergonha!
"Não acredito que nunca tenha dançado na vida."
"Assim não..."- choramingou. Míriel conhecia os passos do delicado minueto de Númenor, não sabia conduzir-se ao som daquela música sincopada, de passos sensuais.
"Não és a única, tuas amigas também não parecem muito acostumadas."
Míriel olhou à volta; vários casais se achegavam, Hellë e Raanat, Thanaë e Mahor ... Para seu espanto quem dançava com Aniá agora era o próprio Terair, Míriel riu do par mais que inusitado.
"Gosto quando minha florzinha ri."
"Nunca imaginei o velho Terair dançando."
"Terair é guardião de muitas tradições, vá dançar com ele."
"Não."
Mas Daror já a impulsionara em direção ao comandante que devolvera a nora aos braços do noivo, e conduziu com elegância fria a mulher estrangeira do Senhor do Harad.
Míriel teve de dançar com todos os capitães de seu marido, e levou algumas belas pisadas antes de conseguir entregar-se ao ritmo da música e ao guiar dos condutores. Não havia passos marcados, era uma questão de deixar-se levar, como as gondolim estavam aprendendo, forçadas a fazer par não só com os maridos, mas todos os homens do clã, naquela escassez de mulheres. Thanaë era quase tão disputada quanto Aniá; Mariän começou revezando-se entre o marido e os enteados, mas viu-se também reconhecida pelas atenções de Terair e do próprio Daror – o que provocou uma pontada de ciúmes em Míriel.
O riso e a diversão maiores, contudo, cabiam aos pares de Hellë, que dançava gargalhando e retribuindo todas as pisadas que recebia.
À medida em que o ritmo voltou a tornar-se mais forte, uma roda foi-se formando. Por vezes entremeava homens e mulheres, por vezes as encerrava em seu meio, onde a noiva recomeçou a solar.
Thanaë a seguiu, desenvolta, para grande orgulho de Mahor.
Hellë dançou logo depois, rindo muito, declarando-se abençoada pela quantidade de vinho que bebera aquela noite.
Mariän respirou fundo e permitiu-se o constrangimento de uns movimentos breves no meio da roda.
Uma após outra, mais rápidas ou mais espevitadas, algumas surpreendentemente desenvoltas, outras francamente desajeitadas, as mulheres dançavam.
Só faltava a futura mãe.
A mulher do Pai da Casa.
Míriel.
Nem em mil anos a filha de sua mãe seria capaz de sacudir-se ao som selvagem dos tambores de Harad, em meio a toda aquela gente.
Míriel sentiu que iria desmaiar sob o coro que chamava seu nome.
E de repente estava rodopiando no meio da roda, elevada pelas mãos de Daror acima de sua cabeça, escutando o selvagem brado de guerra do gigante que exibia o poder de sua fertilidade a todo o Harad.
Míriel realmente desfaleceu.
Absolutamente vexada do próprio contentamento.
A PICADA DO ESCORPIÃO
"Estamos grávidas, não deveríamos estar aqui trabalhando ao sol. Nunca trabalhei em minha vida."
Míriel sorriu para o mau humor de Thanaë, também se sentira indisposta na espera de Naraor, e entendia a amiga.
"Mas dispor a fruta para secar sob o sol é o trabalho mais leve, é trabalho das crianças. E ficar o dia inteiro cuidando da tenda pode ser bem mais enfadonho."
"Estou com calor" – reclamou Thanaë, arregaçando as mangas e enxugando o rosto.
"Senta na sombra que eu já termino o trabalho" – sorriu-lhe mais uma vez Míriel. Desde que se certificara de estar grávida, poucos foram os momentos em que conseguira tirar o sorriso do rosto. Uma noite dormiu quase por inteiro, e Daror lhe confessara de manhã que não roncara porque não dormira, admirando seu sono sorridente.
"Cada gravidez é diferente, é o que diz Mariän. Deves estar mais enjoada nessa, eu, foi na primeira que me senti horrível, lembra de como ficava prostrada? Pois contigo está acontecendo na segunda vez. Vai passar, você vai ver."
"É deve ser isso, espero que estejas certa, senta um pouco ao meu lado na sombra."
Míriel apoio-se na mão e agachou pouco a pouco. Ainda não estava de cinco meses, mas já encontrava alguma dificuldade para sentar. A sombra, entretanto, era convidativa, e Míriel deitou-se na relva de olhos fechados e braços estendidos, sorrindo para a benção daquela frescura após o calor abrasivo do sol junto às pedras negras.
E foi no pulso exposto que se cravou o ferrão.
"Raanat, cavalga para Hamur e avisa Daror."
"E que lhe digo? Ela vai viver, Terair?"
"Isso não sei, mas já perdeu a criança"
