Eram dois capítulos, virou um, e agora virou dois de novo, pois não consegui aprontar o resto para publicar tudo de uma vez. Achei, contudo, que, apesar de curto, junto com o outro pedaço teria informação demais, e assim como está cada um deles pode ser melhor apreciado.
Tudo desculpas esfarrapadas, é claro ...
Vocês fariam um melhor negócio lendo:
SadieSil – AFETO ROUBADO, VERDADE DECIFRADA; MANCHAS VERMELHAS; VIDAS E ESPÍRITOS; O DESTINO DE MUITOS; ETC...
Kwannom – HALDIR E HALETH – VERSÃO REVISADA; SOZINHO; O COMEÇO DO FIM
Nimrodel Lorellin - Crônicas Aragornianas
L. Eowyn - Tributo à Saudade, A Melodia de Arwen e Cento e Dez Dias O fio da Esperança
Kiannah - Estrela Silenciosa
Soi - Idril Númenessë
Nanda's Menelin - UMA HISTÓRIA MUITO ESPERADA
reginabernardo - Eldar e Edain
GYBI – A MEDALHA
DAROR E MÍRIEL
Capítulo XVII - O aborto
VENENO DO CORPO
Daror olhava para a mulher que se debatia de febre. Porque a trouxera para o Harad, aquela criatura frágil? Agora ia morrer, e seria mais um erro dentre os muitos que cometera, a ter trazido. Harad só aceita filhos fortes, não sabia disso?
Puxou o ar e soltou-o de maneira longa e profunda.
"Eu sinto muito, Daror" – disse Thanaë, tocando-lhe o braço cruzado em frente ao peito – "pela criança ... por tudo".
Daror fez um cumprimento com a cabeça à mulher de Mahor.
Mariän limpou o rosto de Míriel com uma compressa, antes de mais uma vez forçá-la a beber da infusão fumegante. Estava muito quente ali, a cama cercada de braseiros, vapor de ervas impregnando a tenda.
"Está quente aqui" – disse Daror.
"A mulher de Tunir está certa, se há alguma chance de expulsar o veneno, é no calor e no suor" – respondeu Terair.
"Então traz mais lenha" – falou Daror.
Sensações às vezes são difíceis de ser descritas. Míriel não conseguiria descrever a sua nesse momento. Sua sensação vaga de dor e desconforto, de corpo torcido em cada músculo e osso, de olhos ardendo, de língua grossa e pegajosa, de suor fétido, de cabelos grudados a cabeça, de falta de asseio.
Até porque sua cabeça não estava funcionando de forma muito diferente de um sonho ruim, a sensação indo e voltando, a percepção de algo errado, a realidade tão distante.
Até que a mão calejada percorreu sua cabeça, afastando os cabelos da face, soerguendo-a para que bebesse água fresca desta vez.
Míriel abriu os olhos.
Era Daror.
"Ol�, florzinha".
Daror estava com Míriel nos braços à entrada da tenda, enquanto as mulheres tratavam de arejar o abrigo e trocar os lençóis da cama.
Que sorte que não morrera.
O Harad dera-lhe uma segunda chance, uma segunda chance de cuidar direito de sua flor.
Não desprezaria o favor que recebera.
Quando as mulheres se retiraram, Daror entrou de novo e pôs Míriel à cama.
O ambiente agora estava fresco, bem melhor.
Uma mulher discreta trouxe a ânfora e a bacia, e as depositou sobre a mesa.
"Mariän de Tunir."
"Sim, Daror?"
"Você é uma mulher de valor e sabedoria, fique sabendo que ganhou o meu favor."
"O pouco que fiz foi pelo ditame do meu coração. O favor do Pai de Harad é uma honra, mas não há que comprometê-lo por isso" - respondeu a mulher saindo.
Que fala altiva, pensou Daror, quase uma sentença. Falaria a Tunir do favor que lhe devia então, se a orgulhosa filha do Norte não o apreciava.
VENENO DA ALMA
"Que quer, Míriel? Não precisa chorar, Daror lhe concederá."
"Que espera conseguir com essas lágrimas ... é um desperdício, toda água que entra por sua boca sai pelos teus olhos."
"Chega de ficar fechada nessa tenda, deitada nessa cama!" – Daror tomou-a nos braços e levou-a para o sol que brilhava caloroso lá fora, no céu azul sem nuvens de Harad, e para o lago.
"Não!" – tentou reagir Míriel, quando ele lhes tirou as roupas e mergulhou com ela presa em seu abraço.
"A água é uma benção Míriel, sacia a sede, limpa, refresca ... aproveitas tão pouco as bênçãos do Harad. Vem, vamos nadar até o outro lado do Sûr."
"Eu ... não ..."
"Não o quê? É sempre não, não, não! Quando vais me dizer sim, Míriel? "Sim Daror! Sim Daror!", Nunca? A vida do homem é feita para viver, não para esperar."
"Eu, me sinto fraca, e ... não sei nadar assim tão bem ... foi só uma vez, uma tarde."
E Míriel lembrou-se da tarde na fazenda com seus irmãos, todos mortos agora, mas naquela época alegres e destemidos senhorinhos de uma das famílias mais nobres, sonhando com as glórias do comando em batalha, desconhecedores de que ela era ínfima frente ao pó, ao sangue e à morte, à cova que seria para seus sonhos de juventude ...
Lembrou-se de que cavalgara com eles, pelos campos onde os camponeses lavravam a terra, num verão excepcionalmente quente, até pararem todos afogueados na beira do rio, e que eles ficaram só de ceroulas e mergulharam, e como ela os invejou divertindo-se dentro d'água, de como desejou mergulhar também, do olhar sedento com que olhou para a água fresca:
"Vem irmãzinha, não tem medo, dá a mão, vamos ensinar Míriel a nadar."
Míriel tomou coragem e ficou só de roupa de baixo, e pegando a mão que seu irmão mais velho lhe estendia, sentiu que guiada por aquela mão poderia caminhar até dentro d'água ... onde os irmãos sustentaram seu corpo até que aprendesse que o único segredo para não se afogar era perder o medo de se afogar, e deixar o corpo boiar sozinho ... depois puxar com os braços na direção que quisesse ir, e empurrar com as pernas.
De repente aquela capacidade que um dia lhe parecera absolutamente mágica e inalcançável de mover-se dentro d'água estava em seu poder...
"Os cabelos molhados! A roupa de baixo encharcada! Puseste-te quase nua em meio a teus irmãos! É este o comportamento de uma dama?"
A mãe admoestava-a com palavras frias e iradas ao mesmo tempo, sussurradas e gritadas, enquanto as amas lhe enxugavam o cabelo e dispunham trajes secos para que se trocasse.
"Responde, Míriel, é esse o comportamento que lhe ensinei?"
"Não senhora."
"Ah! Então sabes que este não é o comportamento de uma dama?"
"Sim Senhora."
"E ainda assim o praticas. Porque Míriel? Porque? Onde foi que sua mãe errou?"
"Não errou mãe, a culpa foi minha" – disse Míriel já chorando.
A mãe aproximou-se e tomou-lhe o rosto entre as mãos.
"Pelo menos admites o teu erro."
"Sim senhora ... me desculpe"
"Está desculpada."
"É esta fazenda ... esse calor incivilizado. Falarei com teu pai, nós duas voltamos para Minas Tirith amanhã."
