Senhores Passageiros,
Desculpem o atraso ... muitas atribulações têm percorrido este caminho.
Antes que recomecem, daremos rapidamente prosseguimento à nossa viagem, logo após nossas recomendações de fé:
SadieSil – AFETO ROUBADO, VERDADE DECIFRADA; MANCHAS VERMELHAS; VIDAS E ESPÍRITOS; O DESTINO DE MUITOS; ETC...
Kwannom – HALDIR E HALETH – VERSÃO REVISADA; SOZINHO; O COMEÇO DO FIM
Nimrodel Lorellin - Crônicas Aragornianas
L. Eowyn - Tributo à Saudade, A Melodia de Arwen e Cento e Dez Dias O fio da Esperança
Kiannah - Estrela Silenciosa
Soi - Idril Númenessë
Nanda's Menelin - UMA HISTÓRIA MUITO ESPERADA
reginabernardo - Eldar e Edain
GYBI – A MEDALHA
DAROR E MÍRIEL
Capítulo XVIII – A Depressão de Míriel
A DESPEDIDA PARA AS MINAS
Daror consolou Míriel, e gritou com ela, ameaçou castigá-la, fez-lhe ver que nem do filho cuidava, propôs bater-se com outro campeão para distraí-la ... mas nada do que Daror fizesse secava a inesgotável fonte de lágrimas de Míriel, e por fim até o gigante de Harad viu-se afogado nelas.
Míriel não dormira, e não era por causa do ronco de Daror, pois ele nem mais se recolhia à tenda de noite, na esperança de que assim ela conseguisse dormir, e recostava-se mesmo ao relento cálido.
Sacrifício vão, pois claramente ela não pregara o olho, como parecia não tê-lo feito desde que acordara com o ventre vazio.
Daror suspirou, ao encontrá-la prostrada na cama com os olhos vermelhos e perdidos, as olheiras fundas no rosto doentiamente pálido. Ele também não dormira aquela noite.
"Míriel –" ele chamou.
Até mesmo mover o rosto em direção a Daror parecia um esforço sobre-humano para ela. E quanto mais sabia quanto ele detestava suas lágrimas, parece que mais prontamente elas se ofereciam aos seus olhos, e mais Míriel se desprezou.
Mas dessa vez Daror não brigou com Míriel. Aquele sofrimento eternizado parecia finalmente tê-lo vencido.
"S-Sim, Daror?" – Conseguiu dizer afinal. Ele tinha razão, ela sabia; viera mais uma vez dizer-lhe que se levantasse, que saísse à entrada, que cuidasse do filho, que lavasse as roupas, que não ficasse deitada na cama chorando enquanto Hellë cuidava da tenda e das obrigações que eram dela. Viera dizer-lhe que não teria o seu favor largada e sem asseio, sempre enclausurada, passando os dias sem pentear o cabelo ou trocar de roupa, e que assim sim, era certo que não teriam outro filho. Era isso, certamente, que ele viera lhe dizer; e ela sabia que ele estaria certo, como sabia também que lhe pediria desculpas, voltaria a chorar e continuaria prostrada, e ele a odiaria por isso, como ela se odiava agora.
Mas Daror respirou fundo mais uma vez, aquele ar viciado da tenda sempre fechada, e tomando uma fruta da bandeja sentou-se na cama e fez Míriel comer como a uma criança pequena, que precisa ser cuidada.
E se Míriel tivesse olhado para além de si mesma, teria visto que, se isso fosse possível, os olhos de Daror naquela manhã traziam mais tristeza do que os dela.
"Tomei uma decisão, Míriel."
Ela apenas lhe voltou seus olhos aguados.
"Vou lhe dizer desculpe, essa palavra de que você tanto gosta."
Era uma palavra da língua comum, que na língua de Harad se aproximaria de "meu erro, minha obrigação".
"Eu errei trazendo-a para o Harad."
Ele errara. Ele se arrependia. Ela sabia disso, era um estorvo para ele, uma fonte de desgosto. Era o que ela era, e as lágrimas rolavam pelo seu rosto.
"Sabia que era uma flor tão frágil quanto bela, criada numa estufa, e mesmo assim quis transplantá-la para um jardim ao ar livre, um jardim cheio de sol do deserto, quando não ignorava que Míriel era uma flor de tempo ameno."
Era uma decepção para ele, um desapontamento ... e ainda assim ele lhe tinha palavras gentis. Ela queria tanto, queria tanto retribuir a ele, à sua dedicação, mas nunca conseguia, nunca sabia como, e há meses chorava sem conseguir parar, sem saber como parar, era uma desgraçada.
"Vou levá-la de volta para sua terra, Míriel."
Como? O que foi que ele dissera?
"Le-levar-me de volta? Para Gondor?"
"Para sua Casa na Cidade Branca."
Não!
Havia muitas coisas que Míriel não queria: não queria comer, não queria beber água, não queria levantar da cama, não queria ficar na cama, não queria pentear o cabelo, não queria ficar despenteada, não queria tomar banho, não queria ficar sem tomar banho, não queria ver ninguém e não queria ficar sozinha.
Mas de todas as coisas que ela não queria, certamente a que menos queria era voltar para Minas Tirith.
Tinha a certeza absoluta de que não queria aquilo, não queria voltar para a casa fria da cidade alta. Era uma certeza anterior àquele tormento em que se vira enfiada agora: não queria voltar, não podia voltar. Não queria encarar sua mãe nunca mais.
"Para sua família".
"N-não tenho família, Daror, minha mãe me repudiou, não há nada para mim lá."
"Dar-lhe-ei seu peso em ouro pela segunda vez, Míriel, conforme prometeu minha sentença. É muita riqueza em qualquer terra, na sua ou na minha, comprará tudo que você possa precisar e muito mais pelo fim de seus dias."
"Não, Daror, não entende ... não quero o sacrifício do pouco ouro que lhe restou ..."
"É isso que vim lhe dizer, estou partindo para as Minas. Já estava em tempo, já trabalhei o que podia nos campos e no desassoreamento dos caminhos d'água, agora é contar com a chuva nas nascentes, mas passarei essa estação no deserto profundo, e quando voltar levo você para o Norte."
"Mas ... Daror."
"Mariän e Hellë continuarão cuidando de você, como têm feito, e do menino" – disse Daror ao se levantar e dirigir-se para fora daquele ambiente claustrofóbico.
– "Naraor ainda é da idade em que pertence à disposição da mãe" – voltou-se Daror antes de sair – "mas acho que deveria deixá-lo ficar, ele está bem aqui, entre os filhos de Mariän". – concluiu retirando-se.
E antes que Míriel conseguisse organizar seus pensamentos e vencer sua letargia, Daror partiu.
CONTRA-VENENO
"Não quero ir, será que ele não vê? Não compreende?"
"A única coisa que ele vê é você chorando o tempo todo, sem vontade de comer, de levantar-se ... é como se quisesse morrer, Míriel. Ele pensa que você está morrendo, disse que é como uma flor murchando, fenecendo ... parece que não quer carregar mais essa culpa, essa responsabilidade, já carrega muitas. Tunir diz que Daror considera todas as desditas do Harad como dívida dele."
"Oh, Mariän!" – e Míriel prorrompeu em prantos mais uma vez – "não é nada disso. Eu só ... não sei ... não quero voltar ... e não queria ser um peso para Daror."
"Diga a ele que não quer voltar, Míriel. Daror é um Pai bom para todo o seu povo, se você lhe declarar a sua vontade, não a forçará a fazer algo que não quer, certamente deixará que outro a acolha como esposa."
Míriel olhou para Mariän, os olhos secos pela primeira vez em muito tempo; de espanto, de acinte, de repulsa. Ser acolhida como esposa por outro? Ser tomada por outro que não Daror?
"O que a faz pensar em eu me casando com outro?"
"Nessa terra necessitada de mulheres, Míriel, sozinha é que não teria cabimento que Daror a deixasse ficar, dessa condição você não escaparia depois que Daror lhe entregasse o ouro que deve a você."
Ele a repudiaria? É isso? Ia livrar-se dela para tomar outra esposa? Oh, que estúpida era! Havia esgotado o favor de Daror para consigo, junto com sua paciência, e agora ele ia repudiá-la para tomar uma beldade de Harad como esposa, uma dançarina do Sul do Harad, que lhe satisfizesse a voracidade de homem do deserto ... Não era do conhecimento geral que Ruir oferecera as filhas ao Pai de Harad, com o único dote de sua aliança?
Ia livrar-se daquela mulher que era um peso e um estorvo para ele, que só sabia chorar e se encolher e se negar. Que não o ajudava em nada, que não lhe aliviava a carga. Ia tomar para si uma mulher bela e disposta, e também forte, e companheira e sábia, como tantas vezes ouvira-o elogiando Mariän.
Mariän, a quem ouvia com atenção. Mariän a quem Daror buscava o conselho.
Por ser de fato mais vivida, e tão séria, por ter trazido de Gondor dois filhos já no meio da infância, Míriel sempre vira Mariän como uma mulher mais velha.
Contudo, olhando em seu rosto agora, Míriel percebeu que a juventude ainda não o abandonara, pelo contrário, ainda era viçoso ... Na verdade o Harad parecia ter tido um efeito muito benéfico sobre a sua beleza, sobre a pele que brilhava, radiante.
E mais radiante ainda porque Mariän estava grávida de Tunir de novo.
Grávida, fértil, saudável.
Forte, sábia.
Bela, jovem, talvez contando poucos anos mais que Míriel.
Admirada por Daror.
Abertamente elogiada por ele.
Possuidora do seu favor.
E segura de que Daror repudiaria Míriel.
E dizendo-lhe claramente que ou fosse embora ou casasse com outro.
E lembrando-lhe que a dívida de Daror para consigo estava para ser paga.
Que ele pagaria para livrar-se dela.
Ah! E quem sabe, então, simplesmente ordenasse a Tunir que seu casamento com Mariän estava acabado.
E a tomasse para si.
Ou pelo menos fosse isso que ela sonhasse, ou quisesse.
"Pode ir para sua casa Mariän, agradeço o trabalho que teve comigo, não será mais necessário."
Foi a vez de Mariän espantar-se, pois Míriel levantou da cama pela primeira vez desde que Daror partira.
"E separe as coisas do meu filho que vou buscá-lo de volta hoje."
E no dia seguinte os olhos claros de Míriel enfrentaram o sol, embora lágrimas rolassem deles sob a luz ainda durante muito tempo, mas ela banhou-se e banhou seu filho, lavou sua roupas e os lençóis da cama.
E cerziu muitas peças de roupa acumuladas, limpou e arrumou toda a tenda.
Limpou e arrumou os utensílios de uso comum também, os grandes caldeirões que ferviam nas viagens, as conchas e colheres que os mexiam, os grandes espetos e os depósitos de víveres.
É verdade que já os encontrou cuidados por Mariän, mas aquilo era disposição da mulher de Daror, e Míriel ainda era a mulher de Daror.
E dessa vez Raanat não viajara com Daror – nem nunca teria de pagar um segundo dote a Hellë, isso era tudo que havia de certo sob as estrelas do céu de Harad – e Míriel pediu sua ajuda para construir um galinheiro, para que as poedeiras não deitassem seus ovos nos cantos recônditos do Sûr, e metade destes se perdesse, e elas na boca dos predadores.
E ao ver que o algodão se desprendia das árvores ao vento, mandou aos meninos de Harad que o colhessem para fiá-lo em sua roca por tanto tempo esquecida. E quando os moleques se negaram fazendo-lhe pouco caso, surpreendentemente Terair os castigou: o Sûr produziu vários fardos de algodão, e outras rocas do Norte surgiram para juntar-se à de Míriel nas noites quentes à beira do lago.
Míriel então montou seu tear, e mesmo os homens vieram vê-lo, comparando-o com os teares de sua tradição, e a esposa do neto de Terair, que trouxera o seu do Sul, quis que o marido lhe acrescentasse aquilo de melhor que observou no de Míriel.
E Míriel era a primeira a levantar-se, embora só ela soubesse como era difícil encontrar em sua alma forças para encarar cada novo dia, e a última a se recolher, pois só no esgotamento do corpo e da mente conseguia conquistar o direito ao sono.
Mas fingia para todos que estava bem, e para o filho que era capaz de sorrir, e para si mesma que ainda tinha esperança.
E ocupava-se todo tempo de fugir das palavras com que a mãe a amaldiçoara: de que era uma mulher sem eira nem beira, destinada a passar de mão em mão.
Fugir do pensamento nauseante de outras mãos que não as de Daror em si.
Fugir da imagem torturante de outro corpo nas mãos dele.
